Fragilidade
Quando estava tomando café com a Jenny lá na universidade semana passada, começamos a conversar sobre a fragilidade que todos os imigrantes sentem no país onde se encontram. Ela, que já morou três anos na França e namora um marroquino que enfrenta as mesmas dificuldades que eu aqui na Suécia (talvez até mais), se identificou com essa minha sensação de exposição máxima à opinião alheia.
Qualquer coisa, qualquer reação, um sorriso ou uma cara fechada, uma palavra de significado dúbio (o que não é incomum no idioma sueco) tem o poder de fazer seu dia muito melhor ou muito pior. Se não nos sentimos pessoalmente atacados, pelo menos reconhecemos uma sensação geral de desconforto, mágoa até. É horrível dar tanto poder assim pra gente que nem conhecemos, que não sabemos nada a respeito, mas é a pura verdade. Nós, imigrantes, definimos nosso bem-estar muitas vezes através da reação do povo com relação a nós.
E isso fica ainda pior quando você, pessoalmente, já está mais pra lá do que pra cá. Frágil, cansada, de saco cheio. Foi o que aconteceu no sábado passado, quando fui à cidade encontrar com a tia do Stefan para tomar um café. Quando cheguei ao stand dela - ela trabalha em um dos muitos sindicatos suecos e estava fazendo propaganda na praça principal daqui - perguntei a uma moça que estava lá no stand sobre a tia. Ela disse que era pra eu esperar lá que ela já já viria.
Enquanto esperava a tia que nunca chegava, conversei amenidades com a moça do stand, falamos sobre o tempo (estava um dia lindo, mas frio) e tal. Quando ela me ofereceu uma bala, recusei dizendo que estava começando a fazer a dieta da Vigilantes do Peso e queria manter a linha. Ela ficou interessada e perguntou o que eu achava. Eu disse que o método havia mudado muito desde a primeira vez que eu fiz, há 15 anos, lá no Rio. Nesse ponto, ela arregalou os olhos e perguntou: “Mas existe Vigilantes do Peso no Brasil?”
Senti imediatamente uma pontada de raiva e irritação. Para felicidade geral da nação, consegui manter a calma e dizer com um sorriso irônico: “Claro! O Brasil é um país muito grande, sabe?” Ela notou rapidamente sua gafe e emendou: “Ahn.. Nós, que moramos aqui no norte (da Suécia) não temos muita informação…”
Deixei pra lá porque por um lado não queria discutir com ninguém sobre isso num dia de irritação e fragilidade exageradas e, por outro lado, podia até entender a argumentação dela. Os suecos, por mais desenvolvidos e primeiro-mundistas que sejam, não têm essa visão universalista que eles gostam de dizer/pensar que têm. Eles viajam bastante, mas apenas pra lugares pré-determinados por vôos charter (Natal, RN, é um desses pólos turísticos) e não se esforçam muito pra saber da cultura local.
É claro que isso é uma generalização. Pode haver um caso ou outro (meu Urso, felizmente, é um deles) que se interessa verdadeiramente pelos países que visita. Mas a maioria é mesmo ignorante e não se encomoda em permanecer assim. Relendo esse post, acho que pareço amarga. Não é isso. Os suecos são gente boníssima, inteligentes etc. Mas, como qualquer outro povo europeu, têm uma capacidade ilimitada de se orgulhar de sua própria pátria (muito justamente, aliás). O problema é que eles esquecem que existe vida inteligente fora daqui. Só isso.
