November 8, 2010

O pulso ainda pulsa

Pois é. Aquela neve da semana passada derreteu. Mas já nevou novamente, e agora é pra valer. Essa não derrete mais. A foto acima é da varanda. Hoje é um daqueles dias que os nativos chamam de perfeito dia de inverno. Sol, sem vento, temperatura mais ou menos cinco abaixo de zero.

Estou lendo Kafka, O processo. Paralelamente iniciei os trabalhos para justificar minha ausência em ambos os turnos das eleições presidenciais. Estava preparadíssima para escrever um post amarguinho, ironizando a burocracia brasileira. Tinha até o título: “A vida imita a arte”, clichê necessário quando se lê o livro de Kafka e se tenta resolver um lance burocrático quando se mora a 1 000 quilômetros da capital nativa.

Mas, eis que entro em contato com a embaixada do Brasil em Estocolmo, e recebo emails ótimos, educadíssimos e diretos, sem problemas. Estou agradecida e contente. Vou agora preencher o formulário, copiar os muitos comprovantes de residência, tirar cópias da minha identidade e título de eleitor e enviar tudo em carta registrada pra embaixada.

Dedos cruzados.

E aqui na Suécia a história se repete. Na cidade de Malmö, no extremo sul sueco (perto da Dinamarca), um doido andou atirando em pessoas com aparência estrangeira. Uma moça morreu, ironicamente, a única que não era imigrante ou filha de imigrantes. Mas ela se encontrava num carro com um rapaz de aparência estrangeira. Ele ficou ferido gravemente mas se salvou. Ela não resistiu.

Ontem veio a notícia que a polícia local prendeu um suspeito, um rapaz nativo, solitário como todos os doidos parecem ser, fixado em armas e com medo que os imigrantes “tomem conta do país”. O pai dá entrevista prum jornal e diz que o rapaz é um atirador muito competente, com mira perfeita. Leio isso e me lembro do que li sobre o início da década de 90, quando John Ausonius, também conhecido como “lasermannen” fez a mesmíssima coisa em Estocolmo.

A história se repete porque naquela época, assim como agora, o clima político tinha endurecido depois de anos de recessão econômica. Foi nos anos 90 que o partido Ny demokrati, de extrema direita xenofóbica, ganhou assentos no parlamento sueco. Ausonius, como qualquer doido que se preze, sentiu o clima e partiu pro ataque. Escrevi sobre isso aqui, depois de ter lido o fascinante livro “Lasermannen” escrito pelo jornalista Gellert Tamas.

Vamos ver se a polícia pegou o homem certo, até porque só porque a polícia é sueca não há garantias de que a ação seja correta. Minha dúvida tem bases sólidas: na semana passada os moradores da segunda maior cidade nativa, Gotemburgo, acordaram sabendo que estavam sobre ameaça de bomba. A polícia deu coletiva de imprensa e disse ter certeza de que se tratava de uma ameaça concreta. Derrubaram a porta de uma família de origem árabe, e aos gritos no meio da noite, prenderam o pai por ameaça de terrorismo na frente dos filhos apavorados.

No final, parece que o pai de família tinha conversado com um outro no telefone e dito que estava com uma dor de cabeça tão violenta que a sensação era que a cabeça ia explodir. Bastou isso.

Dos dois incidentes tiro as seguintes conclusões: não viajarei a Malmö tão cedo e nunca mais comentarei minhas muito frequentes dores de cabeça com meus pais ou amigos quando no telefone.

A palavra em sueco dia é orättvisa, injustiça.

Filed under: Notícias do primeiro mundo,Vidinha — Maria Fabriani @ 11:23

6 Responses to “O pulso ainda pulsa”

  1. Camila Says:

    Tô sem palavras, que horror!!!!!!!!!
    Fique em casa quentinha e protegida!

  2. Luciana Bordallo Misura Says:

    Que tristeza o que esse cara fez :-( E não sabia que a polícia Sueca era tão ineficiente. E Max, como está? Beijos!

  3. Mª Alice Says:

    Oi! A minha tese da pós-graduação era sobre obstáculos processuais ao acesso à justiça, e o ponto de partida era ‘O Processo’, de Kafka. Angustiante, mas muito real.
    Também fiquei chocada com as notícias de xenofobia. Quando os homens aprenderão que somos todos da raça humana? E mais, que a raça humana deve respeitar as outras raças de animais… Já dizia John Lennon: You may say I’m a dreamer…
    beijo

  4. Maria Fabriani Says:

    Hehehe, aqui onde moro não tem problema não, Camila :)

    Pois é, Lu, ineficiente é apelido… Mas, pra ser justa, volta e meia os caras dão uma dentro. Te respondo por email já já.

    Ahhh, Maria Alice, acho que nunca aprenderemos… Um pena. É um trabalho contínuo essa coisa de acabar com nossos próprios preconceitos. Agora veja que interessante a sua tese! Eu emperrei no livro, estou achando difícil de continuar. Mas vou até o final, nem que seja na marra! :)

  5. Maria Lídia Says:

    Maria:

    Essa coisa de polícia atrapalhada sempre ocorre aqui na Tupiniquinsland…mas, no primeiro mundo é de se admirar.
    Realmente, nem vou comentar se minha cabeça estiver para explodir devido às minhas enxaquecas. :-(

  6. ALBERTINA GOMES Says:

    Que foto linda!!! Quero morar naquela casinha…heheheeee

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