February 3, 2008

Na carne

Como começar a escrever sobre uma decisão burocrática e protecionista de um clube multinacional de elite e que denigre a imagem de um país de terceiro mundo frente à comunidade internacional? Não sei. Pensei muito anteontem, quando li a notícia no jornal. Não encontrei resposta. Tentei desopilar, esquecer. Mas, por alguma razão que me escapa à consciência, não consegui. Então simplesmente me sentei aqui a cinco segundos atrás e comecei a digitar.

A coisa é essa: a comunidade européia decidiu essa semana banir a importação de carne brasileira para a Europa. Segundo um artigo no caderno de economia do meu jornal, o negócio de exportação de carne do Brasil pra Europa movimenta anualmente 27 bilhões de coroas suecas, o que equivale a mais ou menos 5 bilhões de dólares. A Suécia, que importa muita carne do Brasil, já conta com um aumento de 40% do preço da carne bovina de primeira.

O lance é que a comunidade européia começou essa semana a achar um problema sério o fato da carne brasileira não poder ser identificada. Isto é, não diz na etiqueta de onde a carne vem, de que fazenda exatamente. Os brasileiros respondem dizendo que há problemas logísticos para cumprir a exigência: as cabeças de gado do Brasil são mais de 180 milhões (mais ou menos uma pra cada habitante), o que torna impossível, ou pelo menos muito difícil, o cumprimento da exigência européia.

Os europeus, com um poder de compra espetacular, exigem que isso seja feito. E dizem que sem isso não se pode ter certeza da qualidade da carne ou se há problemas sanitários, como a doença da vaca louca, por exemplo. O argumento, é plausível porém oportunista, já que nunca tivemos casos da doença de Creutzfeldt-Jakob no Brasil. Tanto é que até um político da direita sueca ficou revoltado. Não com a difamação do Brasil – isso já seria pedir demais – mas com o fato de os suecos agora terão de comprar carne 40% mais cara.

Aí, no final do artigo, lê-se a verdade nua e crua: a decisão de banir a carne brasileira é o resultado de um lobby fortíssimo dos fazendeiros irlandeses, que querem o mercado da carne todinho pra eles.

Na verdade, eu pouco me importo com a queda de faturamento dos produtores de carne/criadores de gado brasileiros, que já têm, como sabemos, os bolsos repletos de doletas. Mas uma coisa me provocou quando li essa notícia. Alguma coisa sobre protecionismo, sobre ganância, sobre levar vantagem por meios anti-éticos. Fiquei chateada. Fiquei sim. Será complexo de terceiro mundo? É, pode ser.

Ou não.

A palavra em sueco do dia é undanflykt, desculpa esfarrapada.

Filed under: Europa & Escandinávia,Irritação e ironia,Jornal — Maria Fabriani @ 07:39

15 Responses to “Na carne”

  1. Paola Sartoretto Says:

    Oi Maria
    Eu li sobre isso semana passada. Por um lado eu concordo contigo que a ganancia de alguns e algo impressionante, acho que ha alguns anos aconteceu a mesma coisa com avioes brasileiros por causa do lobby de uma empresa canadense, se nao me engano. Eu nao concordo com os enormes subsidios aos fazendeiros europeus, acho que tem um pessimo efeito na economia de paises em desenvolvimento.
    Entretando, por um lado seria bom poder identificar de onde o gado vem, porque existem grandes produtores que utilizam mao-de-obra escrava e sao escondidos pelas voltas que a carne da dentro do Brasil. Talvez eu esteja sendo um pouco inocente, mas acho que a possibilidade de serem identificados faria com que os fazendeiros pensassem duas vezes antes de explorar trabalhadores rurais.

  2. paulo galo Says:

    Maria, querida
    Há tempos não dou um pitaco por aqui, ainda que não tenha perdido o Montanha de vista. Cara como tá bonito o Max, hein?! parabéns, Mãe, sua cria é uma gostosura para os olhos.
    Quanto ao embargo, confesso que não me senti atingido enquanto cidadão brasileiro. Talvez pelo vício da profissão, vi e continuo vendo nessa história apenas mais uma face da disputa comercial que hoje pauta as discussões na OMC (Rodada Doha) acerca do protecionismo dos países industrializados aos seus caros e ineficazes produtores de alimentos.
    Vejamos até quando esses países industrializados serão capazes de sustentar o ônus político e econômico de comprar comida 40%, 50% mais cara do que poderia. Pra não falar do etanol.
    Enquanto eles se resolvem, vamos aqui ouvindo a Mocidade e o Olodum e mandando beijos saudosos pra vc e para os seus ursos, viu?

  3. Marcela Says:

    Por aqui o preço da carne já dobrou, conferi ontem tristemente durante as compras. Acho sim desculpa esfarrapada essa de vigilância sanitária, claro que é protecionismo europeu! Vaca louca tem eles aqui e eu morro de medo de comprar “british meat”Tô ferrada agora! bjs

  4. Marcia de Souza Says:

    Sim, isso é protecionismo puro! A
    Irlanda tem um lobby fortíssimo sobre a agropecuária, é por isso que eu sempre desconfio dessas pesquisas que apontam a Irlanda como um dos países mais ricos do mundo, com melhor qualidade de vida (hahaha), olha Maria, se um dia eles perderem esses subsídios, esse país quebra feio. O problema é que sempre alguém perde com tudo isso, se os subsídios irlandeses caírem os muitos brasileiros que trabalham nos abatedouros de lá também perdem o emprego. Mas o Brasil também precisa se adequar às exigências, eu não acho isso tão difícil de se fazer, como eles dizem. Nossa vocação é de país exportador, e espero que resolvam essa pendenga logo. Aqui eu não vi grande aumento no preço de carne (a carne que vem de fora é geralmente irlandesa ou argentina) e não acho que isso vai mudar muito as coisas por aqui. Vou ver se ainda acho algum estoque no Makro. Bjs,

  5. Maria Lídia Says:

    Maria:

    Entendi mutito bem seu texto…e não há complexo de terceiro mundo, não se “avexe,viu?”…o produtor da nossa terra “brasilis” também não é bonzinho nem a pau! pergunte à sua mãe quanto está custando o feijão - sei que os cariocas têm o hábito do feijão preto - mas, ela deve saber que o kg de feijão carioquinha, roxinho e outros daqueles que ficam bons pra danar com alho, cominho e um monte de coentro…o kg está quase 10 contos…R$9,59 no SAM´S CLUB; sabe qual é a descupa?…a primeira, bem esfarrapada, foi que os chineses passaram a comer mais…não parece coisa de político safado? (tu conhece algum político que não seja?).
    Aqui, Maria, engenheiro químico “cria fórmula para conservar o leite - soda cáustica básica”, o SIF (o tal Serviço de Inspeção Federal)na realidade é uma mentira…tá certo que ainda não temos vacas loucas (só em Brasília e elas falam e não têm quatro patas, só duas).
    A ganância e falta de ética virou mundial, os valores sumiram e por aí vai.
    É um querendo derrubar, driblar, burlar, levar vantagem.
    O interessante é que depois tudo se arranja por meio de propina…ê mundinho mais ou menos!!!!!
    Estou virando vegetariana (aos poucos), não por essas situações, mas, para melhorar minha vida…já cresci e não preciso mais dos aminoácidos das carnes…thank God!
    Espero que as crianças desta geração e das futuras encontrem alternativas às carnes de todos os tipos…e aos leites…e aos ovos…e aos peixes contaminados pelos petroleiros…não se apavore pelo Max…existem vegetais (principalmente grãos integrais) que suprem as necessidades dele se você o amamenta…afinal, existem macrobióticos e vegetarianos que nunca comeram carne, leite, ovo, peixe…e são pessoas com neurônios funcionais.
    Aliás, vi como se produz foie gras e chorei por mais de uma semana. Não entendo como o patê de fíggado de ganso pode ser uma iguaria francesa. Vi o vídeo de uma fazenda e fiquei horrorizada com o processo. É aí que vejo que o francês é chique, não nego, esnobe…ele tem o charme…mas é um pouco seboso em comer patê de fígado de ganso…você sabe como se faz? é de embrulhar o estômago do anjo da guarda.

  6. Marcita Says:

    Maria, aqui em Portugal, quando passaram a matéria, mostraram um mercado, tipo uma feira, com carnes sobre balcões e os vendedores espantando as moscas. A imagem que passou, claro, foi da total falta de higiene.
    Nossos amigos portugueses já estão desesperados pensando em COMO substituir o sabor da nossa picanha por uma argentina.

  7. Inezoca Says:

    É Só ver o que fazem com o açucar brasileiro que é colocado na Europa a um preço intinitamente menor do que o produzido aqui… mas tem o protecionismo e a ditadura de se consumir esse açucar impraticável daqui!
    O mesmo querem fazer com a carne… mas tem uma coisa, já li num outro artigo que eles não vão aguentar, não há carne pra tanta vazão… os produtores brasileiros estão relativamente tranquilos…

  8. Marcos Vieira Says:

    Bem vindos ao mundo dos negócios…….
    Eu duvido que eles fiquem sem a carne brasileira….

  9. Maria Lídia Says:

    oooooppps!cpmi o “L” de desculpa…desculpa aí.

  10. Maria Lídia Says:

    Isso é o que dá usar micro alheio…é comi e não cpmi.
    Estou há quase 36 horas de plantão no HC, desculpa os erros.
    E hoje só saio daqui às 19:00 horas e tá um frio da gota!

  11. ioneml Says:

    Olá Maria..eu n sei bem se estou fazendo o correto, já que o título do dia é sobre business..rsrs. Mas, quero registrar no seu blog, minha alegre satisfação em ter lido seu blog..desde o comecinho..ri,chorei,me emocionei,aprendi,conversei sozinha lendo suas palavras, admirei seu intelecto, suas vitórias..enfim..n me sinto íntima de vc, mas saiba que vc em muito contribui para que pessoas como eu, novinhas e ainda descobrindo o mundo nórdico(Suécia)nos sintamos mais informadas sobre este mundo, as pessoas e sua cultura…Estou na Suécia desde Outubro/2007..grávida de 31 semanas e esperando para iniciar meu curso de sueco. Descobri com vc uma imensa possibilidade de optar por este curso q vc fez(Assitente Social). Ainda n é nada certo, mas desde q vc começou a descrever sobre o curso, livros, experiências no curso..chamou minha atenção. Vamos ver o q será n é? um passo de cada vez. Ah, parabéns pelo lindo filho que vc tem! e por todas as coisas q vc conquistou…um super abraco de uma leitora agora atualizada no blog e fiel daqui em diante.

  12. NaNNa Says:

    E quem é louco de comer carne vinda da Irlanda!!
    Por falar em carne brasileira, é CARNAVAL!!!!
    Ai que saudade do Carnaval da Bahia!!Dá vontande de sai lá fora (-20 graus) e gritar pra essa cambada, ai galera vamu sacadir o esqueleto!!!!
    E cantar I want comeback to Bahia….

  13. Margot Abirato Says:

    Não acho que seja complexo de terceiro mundo, não, Maria, acho também injusto. Mas, daqui a pouco, eles entram na org. mundial do comércio para negociar esse enrosco. Então a coisa vai entrar para o empurra pra lá, toma aqui e acolá e eventualmente a carne volta ao mercado sueco. Assim acho eu. Promete que fará update se a situação mudar?

  14. roger Says:

    Agora não tenho tempo, mas queria dizer que, quando no Primeiro Mundo se fala em livre mercado, é para se deitar no chão a rir ou chorar…

  15. Mauro Says:

    Bom… sendo vegetariano, será que essa notícia não me afeta? :-|

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