October 4, 2007

Dois lados da moeda

A Suécia, se é que você ainda não sabe, não é um país perfeito. Está perto, mas não é perfeito. Senão, vejamos:

Cara: Paguei pelo meu parto, uma cesariana, 240 coroas suecas, o equivalente a 63 reais. Por essa quantia, paguei a preparação da cirurgia, o chamado pré-operatório, a anestesia, a sala de operação, todo o tipo de material necessário, as horas de trabalho dos três médicos e da parteira que me acompanharam e ainda as três noites e quatro dias da suíte em que ficamos hospedados, com atendimento medicinal 24 horas por dia, incluindo café-da-manhã, almoço e jantar (pra mim; meu urso teve direito apenas a café-da-manhã). Meu urso pagou 450 coroas (118 reais) por ter dormido na cama extra no meu quarto. Durante esse tempo, Max foi examinado por dois médicos, como é rotina com os recém-nascidos, e mandado pra casa saudável. Além disso, todo o pré-natal é gratuito, assim como o controle do desenvolvimento do meu filho, feito quase que semanalmente.

Coroa: Se lembram daquele trabalho de verão que tentei conseguir, o que precisava de gente para atender telefone num centro empresarial local? Pois é. Eu não consegui. E, dia desses, fiquei sabendo o por quê. Encontrei com a agente de empregos que me ajuda aqui e ela me disse que havia entrado em contato com a tal da mulher com quem falei no telefone. A agente perguntou a razão de eu não ter conseguido o trabalho e a mulher disse, candidamente: “Ah, porque ela fala com sotaque. Tenho muitos clientes de Malmö (sul da Suécia, onde se fala um sueco complicado, chamado skånska [skônska]) e tive receio de ela não entender o que eles dizem.” Primeiro: não tenho cinco anos de idade. Se não entendo, pergunto e peço pra repetir. Segundo: a maioria dos suecos aqui do norte tem dificuldades de entender skånska. Terceiro: essa sirigaita só não ganhou uma ação na justiça por discriminação no meio das fuças porque eu simplesmente não tenho energia pra isso nesse momento.

E mais: descobrimos hoje de manhã que deu ladrão no nosso carro. Os imbecis quebraram a janela traseira lateral direita, tentaram tirar o rádio (não conseguiram), levaram algumas cópias de CDs que tinhamos lá (deixaram, no entanto, os CDs de Max, com cantigas de ninar brasileiras), roubaram algumas moedas e uma lanterna do porta-luvas.

A palavra em sueco do dia é nyans, nuance.

14 Responses to “Dois lados da moeda”

  1. Paola Says:

    Ai Maria, essas pessoas que acham que falar com sotaque = não saber falar ou ser uma retardada são um saco mesmo. Dá vontade de mandar tomar bem naquele lugar que eu não vou escrever. Eu fico muito irritada quando fico sabendo de casos assim.
    Uma pena mesmo que tu não vai levar o problema para a justiça, porque se essas pessoas conseguem “get away” com esse comportamento idiota elas continuam fazendo isso e achando que estão abafando.
    Beijo pra ti e boa sorte, logo tu encontra um emprego bem melhor que esse.

  2. Ana Says:

    Maria, tomei tanto suas dores… pois hoje nao tenho emprego na Suecia porque (ainda) nao falo sueco fluentemente, e depois nao terei emprego na Suecia porque, inequivocamente, falei com sotaque. Animador…
    Bjo.

  3. Ju Says:

    É lamentável que a empresa mantenha uma pessoa com uma visão de mundo tão pequeno no seu quadro de empregados.

    Mas o que dizer de um professor que afirma que a diferenca entre duas expressões não é possivel de ser explicada para você pois a sutileza (na verdade sofisticacao) é tão grande que só poderia ser compreendida por um sueco, diga-se nativo?!

    Nada estimulante…

    xero mary!

  4. Lidi Says:

    Nossa, Maria. Que chato. Uma pena que vc não está com energia pra uma ação na justiça. Um argumento sem sentido, o dela, porque até mesmo suecos têm dificuldade de entender o “skånska” e se o fato de se falar sueco com sotaque fosse mesmo impedimento para o seu entendimento vc só ia entender sueco falado por brasileiros. Infeliz esse argumento dela.

    Quanto ao assalto, cmg aconteceu o mesmo, mas no Brasil. A diferença é que no carro não tinha nada, nem rádio. Só uma moeda de uma coroa que meu namorado tinha deixado lá e que alguém deve estar usando como amuleto a essas horas…

  5. Marcia Aguiar Says:

    Como diz o Ancelmo Gois, deve ser difícil viver num país que quebram o vidro do seu carro pra roubar o rádio… :o)

  6. Margot Abirato Says:

    Maria, pois é, é o que eu digo, a Europa é muito civilizada, mas guarda dessas incongruências imcompreensìveis… é de fazer-nos sentir, apòs tantos anos de esforço de integração, como insucessos. Mas, pensando bem, o problema não è conosco, e sim com esse tipo de gente; de cabeça de alfinete, aprontando das suas. Bola pra frente, negòcio é tentar outras frentes; investir em novas oportunidades. E deixar essa, como vc bem disse, sirigaita, com a pròpria burrice. Em tempo, que dà raiva, ah, isso dà. E muita. Beijo;

  7. Elaine Says:

    Lamento Maria! Eu acredito que ainda que vc saiba que é superior a tudo isso (vai seguir com sua vida feliz apesar de…) vc deve sentir-se indignada, pq eu me sinto quando leio isso.
    Mas se isso serve de consolo, aqui na capital é mais light, o povo aqui não é tão estúpido eles têm a cabeça mais aberta. ;)

  8. Elaine Says:

    Obs. Eu moro em Estocolmo, mas tô de férias no Brasil, :D Só pra não ficar confuso hehe.

  9. Luciane Says:

    Oi, Maria! Há muito tempo não comentava aqui.
    Que bobagem dessa mulher. É por essas e por outras que o norte fica cada vez mais despovoado. Você aprendeu sueco e aprenderia skånska em dois toques. Os skånienses, smålandenses e afins (hehe) iriam adorar seu sotaque.
    Abraço

  10. Mauro Says:

    Que droga hein, gente que não presta tem em qualquer lugar do mundo mesmo…

  11. Per Says:

    Sei que estou indo na contra-mão de todos os comentários, mas… sou da idéia que para cada posto há que escolher quem tem mais aptidão e qualificação para desempenhar a atividade principal do trabalho. Não vejo discriminação em não ter te escolhido, Maria. Em havendo opções de escolha me parece lógico ter optado por uma nativa ou alguém sem sotaque.

  12. Marcus Gusmão Says:

    Pelo menos a xenofobia dos larápios poupou as músicas de ninar do Max…

  13. Elaine Says:

    Cá estou eu outra vez para contar um caso ocorrido aqui onde eu morava no Brasil antes de ter mudado para a Suécia.
    Concurso público para telefonista de um banco federal, uma das aprovadas era uma argentina com cidadania brasileira (casada com brasileiro) que sabe português mas fala com sotaque, claro! Ela passou e trabalha nesse banco. Talvez se estivesse escrito no edital que tem que falar português sem sotaque ela não teria se candidatado…

    Às vezes parece que falar com sotaque é o mesmo que falar errado, mas não é. Eu falo sueco com sotaque. Não falo como um nativo e nunca falarei, não porque eu não quero, mas porque eu sou brasileira e não sueca.
    Na verdade estou comentando depois de ler o comentário do Per (deixando claro que eu respeito o direito que cada um tem de expressar sua opinião de maneira civilizada). Para mim é discriminação sim!
    Seja quem for que eles tenham contratado, se é do norte também terá dificuldades de entender o skånska. Talvez eles devessem escrever no anúncio: “Tem de falar sueco sem sotaque” Ah! Quase esqueço, não pode escrever isso porque é contra a lei.;)
    Maria dê-me licença de deixar aqui a palavra do dia e em português H I P O C R I S I A.

  14. Marcos Vieira Says:

    NOssa parece mesmo barato as coisa aí (?).Pois achava que o preço para a sociodemocracia era um custo de vida alto.
    ACHO que o motivo que você não foi admitida….:
    que ela buscava um(a) candidato(a) “hiperqualificado(a)” como aqui no Brasil, TALVEZ ela buscava alguém com ligações, proximidades com essa região, tais como origem, parentes, morado, um contato….uma ligação, entende? Claro que não exclui o motivos citadotos por ti, mas……. god morgon, afton.

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