August 12, 2007

Divisor de águas

E os dias vão passando, com uma lentidão que me faz pensar em meses, e eu me vejo observando tudo o que faço, como se quisesse registrar os últimos passos de uma Maria que não existirá mais de uma hora pra outra; ou melhor, para controlar (ou lembrar) como eu era momentos antes do meu filho vir ao mundo. Essa idéia de lembrar quem sou/era na iminência da mudança radical é boa, até porque dou adeus a essa versão de mim com uma melancolia apenas relativa - o que é, aliás, um alívio (existencialmente falando).

No banho, escolho o shampoo cuidadosamente entre duas possibilidades, uma brasileira, outra globalizada. O sabão líquido é globalizado-mel ou globalizado-amêndoa. Fui obrigada a comprar outro (globalizado-leite) pra levar pra maternidade e ainda acho que fiz besteira. Li que os cheiros da mãe são importantes e quero manter uma certa regularidade pro meu filho não ficar desorientado. Hehehe, sei lá, mas fico com receio dele me perder no meio das pessoas, dele perder meu cheiro.

O creme que uso tem que ser o mesmo e já foi providenciado em buckloads. As roupas: o que usar? Como estará meu corpo depois do parto? O sapato? Gosto de tênis mais prefiro sandálias. Se bem que meus escrúpulos contra sandálias com meias já foram devidamente mandados pro beleléu há muito tempo, então menos uma crise. Vai estar frio? Ou melhor, vou voltar a sentir frio depois de meses de maior volume de sangue e suores extremos?

Mas a decisão mais séria mesmo nesse momento divisor de águas é o que estarei lendo no dia do nascimento. Estou a poucas páginas do final do Terminei meu último Jenny Diski, o que é ao mesmo tempo bom e ruim. Isso porque volta e meia me pegava voando alto, sem prestar atenção ao que Jenny me conta; enquanto outras vezes ficava tão concentrada que lia tudo rápido demais - o que levou, inevitavelmente, claro, ao final do livro. E agora, José?

Não quero inflacionar o significado dessa escolha até certo ponto desimportante nesse momentoso instante, nem sei se terei tempo ou vontade de deitar meus olhos em outra coisa/pessoa que não meu filho quando ele finalmente nascer, mas caso queira ou precise dar uma fugidinha da realidade, um livro sempre é, foi e será meu melhor amigo (junto com uma barra de chocolate, já que I don’t do drugs - sejam elas ilegais ou legais).

Então cá estou eu, sem saber o que fazer. Tive uma idéia, no entanto, que pode ser interessante. Acho que depois de Jenny Diski começarei a reler um dos meus livros favoritos: “A fada que tinha idéias”, de Fernanda Lopes de Almeida, que ganhei da minha mãe pouco antes de completar sete anos com a seguinte dedicatória: “Para você, Maria, gostar de ler e de ser livre. Um beijo da mamãe, 20 de maio de 1978. Regina Ignez”.

Apesar de já saber ler, me cansava fácil com os textos (e, tenho a impressão, me assustava um pouco com a solidão de ler sozinha, a qual mais tarde foi redescoberta e devidamente apreciada) por isso pedia pra mamãe ler pra mim. Ela, quando tinha tempo, me atendia. Ainda me lembro da minha alegria. Ouvir minha mãe ler pra mim no sofá da sala era o momento mais feliz da minha vida.

E quem não quer ser feliz? Mesmo que seja uma felicidade revisitada; um pequeno nugget dourado que guardo na lembrança para ser apreciado em momentos especiais como este. (Te amo, mãe!)

A palavra em sueco do dia é mor, mãe.

Filed under: De bem com a vida,Elucubrações,Gravidez,Livros — Maria Fabriani @ 08:06

14 Responses to “Divisor de águas”

  1. Marcia de Souza Says:

    Ta chegando a hora! Eu adorava esses livrinhos escolares da Atica, li varios. Tenho certeza de que voce vai passar esse amor a leitura para Max.
    Um livro sempre foi meu companheiro constante, mas infelizmente nao tenho uma mae que compartilhou esse amor comigo - ela compartilhou muitas outras coisas, mas o gosto pela leitura veio sozinho, eu aprendi a ler praticamente sozinha. Bjs,

  2. Per Says:

    Olá Maria!

    Fiquei emocionado:

    “Ouvir minha mãe ler pra mim no sofá da sala era o momento mais feliz da minha vida.”

    Realmente são coisas simples que nos fazem feliz. Por que complicamos?

    Tenho certeza que o Max um dia vai escrever a mesma sua frase.

    Abraço.

  3. Barbara Says:

    Olá Maria
    Sou mais uma das inúmeras leitoras silenciosas do seu blog, acho que se já comentei aqui 2 vezes nesses últimos 3 ou 4 anos em que o acompanho, foi muito!
    Mas quando vi a imagem desse livro, meu coração até acelerou. Foi meu primeiro livro de “ler sozinha” quando criança. Acho que tinha também 6/7 anos e ele me acompanhava para todos os lugares, já que parecia não terminar nunca (50 páginas pra uma criança dura muito, não é mesmo?!). E acabei nunca o terminando, pois isso de o levar para todos os lugares me fez com que eu o esquecesse em algum canto e nunca mais achei. :( Um pequeno trauma de infância.
    Mas agora decidi que na minha próxima ida ao Brasil vou tentar comprar. Preciso acabar meu primeiro livro inacabado. :)
    Obrigada pelo lindo post.

    Agora volto a ser silenciosa :)

  4. Maria Says:

    O importante é isso, Marcia de Souza, que os pais nos tenham dado algo (e, caso sejamos afortunados, possamos dar algo a eles também). Não importa o quê. :)

    Se depender de mim e do meu urso, Per, Max terá que fazer uma agenda dos dias em que eu lerei pra ele e dos dias em que o pai lerá. Já estamos competindo… :)

    Que legal, Barbara! :) Obrigada por esse comentário tão bacana e espero que você consiga achar o livro no Brasil. Um abraço!

  5. Pururuca do Brejo Says:

    Maria, Maria… isso aqui ficou LINDO!
    Bom, sobre os cheiros, lá no trabalho eu já conversei isso com a mãe das crianças e realmente o bebê reconhece a mãe pela voz, batidas do coração e cheiro. Questionava se a criança não poderia baralhar já que eu passava o dia com ela. Mas não acontece não. Sabe lá o poder divino que faz com que a criança sinta a mãe entre muitas pessoas.

    E o livro? Poxa, é o livro da minha infância! Lembro que minha mãe me levou para ver a peça no SESC da Tijuca e eu fiquei maravilhada com as nuvens coloridas (ou a chuva que ela coloriu…ih, tô velha para lembrar), bolinhos de fada…

    Muito bom, muito bom!

  6. Roger Says:

    Lendo tudo o que você escreve dá vontade de ser mãe!

  7. Renata Says:

    Oi Mary…
    Se eu estou ansiosa para esse menino nascer logo, imagina você… Só com muito livro mesmo para desviar um pouquinho essa ansiedade né?
    Lendo o que você escreveu, me fez lembrar do primeiro livro que eu li, que foi O Menino Maluquinho. Acho que também comecei com o pé direito, é uma delícia de livro. Depois também não parei mais…
    Beijo

  8. Maria Says:

    Ahhh, Pururuquéti, vocë viu a peça da Fada que tinha idéias? Ai, que barato! Quem me dera! :)

    Hehehe, Roger, dê um crédito de alguns anos a ciência e, quem sabe isso não será possível? :)

    Pois é, , querida, o importante é começar com alguma coisa bacana, inusitada, criativa. Beijocas procê!

  9. Margot Abirato Says:

    Lindo texto, MAria. Que uma nova fase se inicia é certo, e talvez essa expectativa de que ela chegue não faça jus ao tamanho da mudança. A maternidade é um processo tão grande e tão revolutivo que acredito somente a individualidade de cada um nós para compreendê-la por completo. Depois que o Max chegar efetivamente, claro, porque o processo de mudança já vem se concretizando desde o início da gravidez, não acha? A mãe Maria começou ali e agora ficará pro resto da vida. E que sortudo é esse Max! Um beijo pra vcs dois e no aguardo junto com vocês,

  10. Mic Says:

    Menina, mas que inspiração! Dá pra sentir a sua ansiedade daqui… rs
    bjs e parabéns pela nova Maria ! bjs,
    Mic

  11. Marcela Says:

    Mais uma leitora silenciosa que resolveu sair do anonimato emocionada pela capa deste livro que também marcou minha infância. Minha mãe levou meu exemplar amarelado quando minha juju estava por chegar e espero tb que ela um dia tome gosto pela leitura como eu e o guarde pras proximas geracoes. Se quiser passar o tempo e conhecer meu passado alemão meu antigo blog é http://www.lustaufpause.blogger.com.br, mas agora estou em casa nova. Curta bastante a barriga neste finalzinho tão cheio de expectativas e muita saúde pro Max!

  12. anna v. Says:

    Post lindo! Eu ia recomendar o mesmo que a Rê: leia o Menino Maluquinho.
    Beijos.

  13. Ana Lucia Says:

    Mary passei pra saber se o dia grande dia jah aconteceu e pra dar boas vindas pro Max ! Beijocas.

  14. Roberta Marcicano Says:

    Olá Maria !

    Antes de tudo preciso me apresentar: sou Roberta, tenho 27 anos, carioca, aluna de mestrado aqui no Porto - Portugal e sua leitora fiel desde junho desse ano, qdo meu marido recebeu o convite para iniciar o doutorado em Kalmar, uma pequena cidade ao sul da Suécia.

    Não me lembro ao certo de como achei seu blog (mas de certo foi pelo google), mas sei que todos os dias eu aparecia por aqui em busca de novidades sobre a terra que será minha futura casa.

    Mas, hoje depois de ler sobre o Max, tive que deixar um comentário. Parece que a gente se envolve com suas histórias e com tudo aquilo que vc conta por aqui.

    Desejo, realmente, que tudo corra bem. Que o Max chegue com muita saúde, trazendo muita alegria a vc e ao “papai urso”.

    Obrigada por mostrar com tanto realismo e simplicidade a vida nesse país tão interessante.

    Um grande abraço,

    Roberta

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