August 8, 2007

Calor, insetos, inspiração e estilo

E esse calor? Menina, uma coisa louca. Don’t get me wrong, eu me delicio com os 30 graus no sol que vem fazendo aqui no norte, apesar das caras feias da maioria dos nativos, que já voltaram a trabalhar depois das férias de verão (a maioria tira férias em julho; são as chamadas “férias industriais”, estabelecidas há decênios junto com o surgimento dos direitos trabalhistas). Sofro um pouco, por causa do final da gravidez, mas relevo o relativo desconforto (afinal, 30 graus, pruma carioca, é um refresco, concorda?) e tento armazenar cada minutinho de sol na alma, na pele, nos meus olhos. Isso porque daqui a alguns meses vou precisar me lembrar do que é bom no meio da escuridão do inverno.

E com o calor vem as moscas. E as moscas daqui são maiores do que as que estou acostumada a ver no Rio. Maiores e mais burras. Isso porque as moscas daqui se contentam em entrar na sua casa e ficar circulando bobamente os lustres da sala, do quarto e até da cozinha, sem nunca se dignar a descer e pousar numa comida, numa pessoa, num objeto. As únicas que o fazem são as chatíssimas drosófilas, ou as mosquinhas das frutas. Esse perrengue me força a colocar minhas bananas na geladeira, o que detesto. Quem pode ingerir banana gelada? Eu certamente não posso. É contra a natureza e, tenho certeza, deve fazer mal à saúde.

Mas quando não estou a observar as moscas bobas nativas ou a me irritar com as inquisitivas drosófilas (ou pensando em Max, ou limpando o apartamento, ou procurando emprego e me desesperando), leio mais um livro de Jenny Diski e me inspiro. Não sei o que acontece quando me encontro com a prosa dela; é como se eu tivesse vendo uma imagem da minha escrita futura (ou do que eu gostaria de poder escrever, caso tivesse tamanho talento) e me reconhecesse (muito pretenciosamente) no estilo que gostaria de ter, um dia, quem sabe, se tiver sorte e me esforçar muito.

Aliás, essa coisa de estilo é mesmo um mistério. Tenho meus autores favoritos (em livros, em revistas, em jornais e em blogs) que sigo sempre, mas que não necessariamente são pessoas com quem gostaria de manter contato regular (ou mesmo fortuito). Tem um jornalista e escritor sueco chamado Fredrik Strage que escreve quase que exclusivamente sobre música. E não é world music ou algo melodioso acessível a meus ouvidos de meia-idade. Não, o cidadão escreve sobre underground rock e hip-hop sueco. E eu, pra minha surpresa, leio tudo assinado por ele, cada palavra, mesmo sem saber, por exemplo, da importância de Nine Inch Nails no cenário da música mundial. Não me imagino amiga de Strage e provavelmente não teríamos sobre o que conversar.

Nos blogs é a mesma coisa. Tenho os meus preferidos por razões pessoais e aqueles que gosto por questões puramente estilísticas, mas cujos autores não me agradam em particular. Mas, ainda assim, há algo de interessante naquela pessoa, algo que ele/ela consegue ver no dia-a-dia que considero inusitado, franco, extravagante ou mesmo apaixonante. No final das contas, raciocino, essa pessoa não pode ser tããão ruim assim, já que mostra nitidamente um lado criativo ou observador, algum talento pra enxergar o mundo de forma pessoal - e saber expressar isso de forma intelegível (aliás, existe essa palavra?).

É a mesma coisa com Jenny Diski. Esse livro que devoro aos poucos (me forço a economizar e tenho vontade de voltar ao início pra “passar a limpo” minha leitura, pra ter certeza de que não perdi nada) é sobre uma viagem que ela fez ao redor dos EUA de trem. Até a página 50, no entanto, nem sinal de terra. É que até lá ela descreve sua viagem de navio cargueiro pelo Atlântico, os marinheiros croatas, os companheiros de viagem (um adorável casal americano e um odioso casal alemão), o mar e o nada, que ela, compulsivamente, enxerga dia após dia quando olha pela janela. Mágico.

A palavra em sueco do dia é trollbindande, enfeitiçante (Obrigada, Roger!).

Filed under: De bem com a vida,Gravidez,Jornal,Livros,Vidinha — Maria Fabriani @ 10:12

9 Responses to “Calor, insetos, inspiração e estilo”

  1. Mercia Says:

    Maria, legal!!! não sabia a razão das férias serem em julho… interessante!!!!
    quanto ao calor e as moscas… elas são burrinhas aqui na Noruega também… hahahah… então não tenho tanto problema com elas assim.

    Beijos e boa leitura pra vc!

  2. Ana Lucia Says:

    Mary uma sorte que você nao tem gatos em casa. O passatempo do meu é correr atras das moscas e inclusive meu marido tem uma técnica pra ajuda-lo a pegar as malditas, o engraçado é que ele solta um ganido especifico e franze o nariz quando elas dao as caras.

    Aqui o calor já tá indo embora, mas pra você deve ser bom sim botar o Max dentro da barriga pra tomar um bronze :-)

    Beijão

  3. Pururuca do Brejo Says:

    Querida Maria,
    ah como eu queria ser intelectual como você, escrever bem, textos com início meio e fim… Oh Mary, no meu eu só falo abobrinhas…
    As moscas começaram aqui em casa e é um saco porque meus gatos ficam histéricos atrás delas, correm a casa toda, dão saltos olímpicos para a janela atrás das chatas.
    Se eu fosse você, iria para algum lugar avistar a tundra sueca, bebendo um suco de maçã e contando pro Max da Silva seus planos para o futuro.
    Um beijo.
    Pro Max e pro Stefan Urso também!

  4. Roger Says:

    enfeitiçante?

  5. Maria Says:

    Mercia, são as mesmas moscas! Ou primas de primeiro grau! :)

    Ana Lucia, eu tava era querendo botar esse menino pra fora pra ele curtir o calor em primeira mão… :)

    Querida Pururuquéti, se eu me meter no sol que está fazendo lá fora acho que morro de insolação! Juro! Beijocas procê e pro pururucão!

    É isso mesmo, Roger!!!! Tinha que ser um “estrangeiro” pra me ensinar como fala minha própria língua! hahaha :)

  6. Renata Says:

    Oi Mary
    Lá em Melbourne no verão as moscas são uma praga, un inferno. Quando eu e Marcos estávamos lá em Janeiro, inicialmente achávamos que erámos nós que atraíamos as moscas… Sei lá, de repente o nosso protetor solar tinha alguma coisa diferente né? Mas depois vimos que não só a gente, como todo mundo na rua, ficava o tempo todo espantando as moscas. Um horror…
    Beijo

  7. Maria Says:

    Ai, , que horror! Então os tipos de moscas são mesmo diferentes porque essas daqui são civilizadíssimas. Não atacam nunca e nem perturbam demais. Uma coisa. :)

  8. anlene Says:

    querida maria, ando sem tempo de deixar comentários, mas te acompanho atentamente! que seja leve, que seja leve, que seja leve… beijos

  9. Maria Says:

    Obrigada por me ler, anlene, mesmo sem tempo. :)

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