June 8, 2007

A dois centímetros do chão

Essa coisa de gravidez é estranha. Quer dizer, estranha na melhor acepção da palavra. No meio dessa loucura de mudança, tive provas concretas de que a mulher de fato vive num pequeno mundo privado durante esses nove meses. Uma pequena bolha independente, flutuando no meio do mundo e do dia-a-dia. No meu caso esse pequeno mundinho se manifesta pela minha atenção cada vez mais parecida com a de um peixe dourado. (Repare, inclusive, na quantidade de vezes em que repeti as palavras “pequeno” e “mundo” nas poucas linhas acima.)

Empacotei roupas mas esqueci dos cabides; comprei pão mas passei direto pela geladeira dos queijos; abri a porta da garagem e perdi a chave (e nem fiquei preocupada); peguei o carro pra ir a um determinado local e dei voltas e mais voltas até conseguir encontrar o caminho (se bem que isso eu sempre fiz); acordo todos os dias e preciso consultar minha agenda pra saber o que foi que esqueci de fazer no dia anterior para poder tentar consertar o estrago. (Meu urso diz que a lista é muito maior, tipo pedir troco inexistente à caixa do supermercado, não escutar o que ele diz, ficar olhando pro nada com um sorriso besta nos lábios etc.)

E o pior (e melhor) é que não estou nem aí. Incrível.

Estou em processo de procurar emprego de verão. Processo esse que começou láááá em março, quando os planejadíssimos nativos começam a pensar em suas férias de verão. Já tentei ligar pro chef de um camping aqui em Boden, mas o cara estava estressadíssimo e não podia falar comigo. Vou tentar novamente hoje, se me lembrar de fazê-lo mais tarde. Liguei ontem então para uma empresa que precisava de trabalhadores de verão para atender telefone num centro empresarial local (se bem que “centro empresarial”, em Boden, é um pouco far fetched).

A mulher que me atendeu me perguntou há quanto tempo eu morava na Suécia, elogiou meu sueco, perguntou se eu podia falar inglês e me perguntou se eu sabia “lidar com papéis”. “Como assim?”, perguntei, “Você quer dizer escrever em sueco?”, indaguei, surpresa. Isso porque tinha acabado de informá-la que havia me formado na semana passada na universidade de Umeå. Mas essa informação não foi registrada da forma por mim esperada.

Minhas esperanças de conseguir trabalho? Slim, very slim.

Não que não me falte trabalho aqui em casa. Lembrem-se que apesar de não poder carregar, posso arrumar. Se bem que, em meu atual estado mental, “arrumar” é uma palavra que ganhou novos significados. Vou levar os panos de prato pra cozinha, vejo as ameixas frescas espanholas que comprei, como uma, bebo água e esqueço dos panos de prato, que ficam descansando em cima da mesa até que outra coisa que precise ser armazenada na cozinha me leve a descobrí-los novamente. No final do dia, há uma dezena de pequenos trabalhos de arrumação inacabados pelo apartamento e eu, literalmente, não estou nem aí.

A palavra do dia em sueco é gröt hjärna, literalmente cérebro de mingau.

Filed under: Gravidez,Vidinha — Maria Fabriani @ 11:38

20 Responses to “A dois centímetros do chão”

  1. paulo galo Says:

    vc tá é muito lindinha nesse estado de barrigudinha, maria. evoca lembranças muito ternas pra mim, que fui pai três vezes e lembro que foram períodos em que a´única vontade era a de proteger a mãe dos meus meninos. é o contraponto masculino ao mundo especial em que vive uma mulher grávida, dobrar a atenção, os cuidados, a tolerância. dias inesquecíveis pra vc e pro seu urso, delícia.

  2. Mercia Says:

    Maria, engraçado você estar esquecendo tudo… deve ser uma sensação muito estranha mesmo.
    e boa sorte com a busca por emprego!
    beijos!
    ta quente ai? porque aqui está um forno!!!
    beijos

  3. Dona Minhoca Says:

    Parabéns pela formatura e muita sorte na procura de trabalho! :)

  4. Renata Says:

    Dava tudo para ver a Maria esquecida e despreocupada Hahaha!!!
    Beijo amiga!

  5. Maria Says:

    paulo, eu também acho uma coisa bacana esse período, parece que tomei um calmante que dura por dias… Meu urso também já expressou essa coisa de querer proteger. Eu acho que é romântico. :)

    Mercia, aqui está quente, tipo 25 graus na sombra. Como te respondi no seu blog, eu adoro e não reclamo de nada. O verão sueco é pra mim, perfeito. :)

    Obrigada, Dona Minhoca. :)

    , sem nem sabe… :) hohoho

  6. Marcus Says:

    Gostei muito do relato. Seria algo apenas físico, ou psicológico?

    Os possíveis motivos psicológicos eu entendo perfeitamente, apesar de não ter filhos. Tem uma coisa importante, o resto não é importante.

    PS: queria que você lesse com atenção os argumentos da campanha pelo feed completo.

  7. Marcos Vieira Says:

    Uai,sem trabalho e estudo,só na sombra e água fresca…férias…Curtindo a gravidez…Se sente realizada?

  8. Marcele Fernandes Says:

    Meu Deus! Eu já sou quase isso tudo que você descreveu normalmente. Será que vai piorar muito quando eu engravidar? Agora fiquei até com medo! :)

    Beijos,

  9. Maria Says:

    Vou olhar o link, Marcus!

    Marcos Vieira, te respondo sua pergunta com outra pergunta: Diz aí, Marcos, você se sente realizado ao usar o privilégio de comentar no blog de uma pessoa totalmente desconhecida para ironizar com a vida dela?

    Vai sim, Marcele, pode ir se preparando!

  10. Marcos Vieira Says:

    Nossa…! Calma lá, o ”realizada” é sobre o Max, e sobre a ”bolha”,quiz dizer que você esta feliz,que problemas ”mundanos” nâo te afetam ”realizada”,ok? Me desculpe, meus modos; é que a internet não dá pra se espressar direito (emotivamente e emocionalmente) e é um pouco difícil.Só um comentário de brincadeira pra levantar os ânimos.Desculpe-me não sou disso.Gomenasai.

  11. Mic Says:

    ahahaha
    Mary, depois que o bebê nasce a gente fica mais lesadinha ainda… Se prepara! Temos que amarrar uma fitinha no dedo pra não esquecer o moleque em algum lugar! :c))

    bjs,
    Mic

  12. Ana Says:

    ola Maria! Fiquei um tempo sem aparecer mas adorei suas novidades, formatura, festas, mudancas, o quarto novo do Max… delicia, hein?!? A partir de agora falo um pouco mais de perto, ja que tbm me “mudei” na semana passada… Felicidades para voce, viu? Se ainda sobrar espaco para mais, hehehe, e boa sorte na empreitada do novo emprego! bjo/Ana

  13. Maria Claudia Says:

    Maria,

    O fato de ficarmos mais pacientes e tolerantes é uma reação instintiva de proteção ao feto. Tipo, é melhor para o bebê que eu não fique “alterada” pelas coisas que acontecem…

    Entretanto, se a mudança de temperamento está te agradando, a boa notícia é que ela pode continuar depois que o bebê nascer.

    Claro que eu tive uma ajuda da terapia, mas aproveitei a “amostra” de como poderia ser minha vida nas duas gestações, e permaneci uma pessoa mmuuiitto mais tolerante até hoje.

    Aproveite e curta o astral, você vai precisar quando Max chegar.

    Beijinho,

    Maria Cláudia

  14. maria ines Says:

    Ola Maria bem vinda ao mundo das gravidas esquecidas, as vezes achava que era um problema somente meu, so que todas as gravidas sofrem do mesmo mal.

    Se levanto disposta limpo a casa toda, se ja levanto cansada carrego/enrolo o trabalho de casa o dia todo. Neste momento meu pior momento esta sendo na cozinha, nao consigo cozinhar nada descente, mas enfim mais alguns meses e tudo passa.

    Boa sorte.

  15. Maria Alice Says:

    Maria, a respeito de suas qualificações para um emprego, quero dizer que vc representa muito bem o Brasil, é um orgulho para o nosso país ter uma pessoa como vc numa terra estrangeira, mostrando a garra, a capacidade e a mágica que significa ser brasileiro. Parabéns! Td de bom pra vcs, a esta altura o Max já deve saber que tem uma mãe muito especial. Bjo

  16. helo Says:

    maria, quanta coisa boa !!! bjos

  17. Maria Says:

    Poxa, Mic, e eu achando que ia melhorar… :/

    Boa sorte pra vocë também, Ana! :)

    Tomara que consiga ser mais tolerante sim, Maria Claudia. Isso iria me ajudar muito! :)

    Boa sorte pra vocë também, maria ines. :)

    Obrigada, Maria Alice! :)

    Beijo, helo. :)

  18. Cora Says:

    Eu fiquei exatamente assim quando fiquei grávida pela primeira vez… e nunca mais passou. Beijim procê!

  19. Maria Says:

    Pois é, Cora, tô achando que a coisa é permanente, viu? :)

  20. :: Montanha-Russa 5.4 :: » Dois lados da moeda Says:

    […] Se lembram daquele trabalho de verão que tentei conseguir, o que precisava de gente para atender telefone num centro empresarial local? Pois é. Eu […]

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