April 27, 2007

A metamorfose da língua

Tem dias que leio um treco que me inspira muito e que me dá gana de comentar, apreciar, desenvolver em texto. Ontem foi um desses dias. Estava esticadona, lendo meu jornal (já contei que fico deprê quando o jornal não vem? Pois é) quando me deparei com uma pequena matéria escrita por Gabriella Håkansson, jornalista e escritora, no caderno de cultura do DN.

O problema é que às vezes esses assuntos pelos quais me interesso são difíceis de se traduzir pro português. E não estou falando apenas da dificuldade de encontrar as palavras certas. A coisa é que alguns textos, na verdade, fazem parte de um contexto cultural, o que é complicado e trabalhoso de se explicar. Mas como hoje estou de bom humor, resolvi tentar.

Håkansson escreveu sobre uma campanha publicitária da chamada Folkuniversitet, literalmente “A universidade do povo”, uma espécie de entidade de ensino superior, ligada às maiores universidades da Suécia (Estocolmo, Gotemburgo, Lund e Umeå). A única diferença entre as Folkuniversitet e as universidades comuns é que pra estudar nas Folkuniversitet você não precisa de notas formais em matérias como sueco ou matemática. É nas Folkuniversitet, por exemplo, que muitos imigrantes aprendem sueco, assim como nativos se dedicam a artesanato ou balé.

A campanha mostrava a foto de um típico sueco-filho-de-imigrantes, em gíria local um “blatte”, traços de origem árabe, vestido como um gangsta rap e com um boné meio de lado, onde se podia ler “Kafka”. Infelizmente não consegui pescar a imagem em lugar algum. O texto do anúncio era: “Har du också en dold talang?”, mais ou menos “Você tem um talento escondido?” A jornalista escreveu, então, sobre Franz Kafka, que também era um outsider, filho de imigrantes em Praga.

Kafka, que Håkansson também chama de “blatte”, pertencia à terceira geração de imigrantes judeus de Praga, no então império Austro-húngaro. Seus pais conseguiram fazer a difícil viagem social de imigrantes pobres a classe média. Kafka pertencia à primeira geração de descendentes de imigrantes judeus a chegar à universidade, onde aprendeu grego, latim, todos os tipos de matérias filosóficas, se formou como advogado e se aprofundou no estudo do judaismo — para destacar ainda mais seu perfil de outsider.

Mas o mais interessante foi o penúltimo parágrafo da pequena matéria, em que Håkansson escreveu que Kafka escrevia no que ela chama de “Rinkebytyska”. Eu sei, essa palavra, que na verdade são duas, parece um código inquebrantável, uma verdadeira montanha-russa pras bocas não acostumadas a malabarismos idiomáticos. Mas não é não. O que acontece é que pra entender a palavra, vou ter que dar um pouco de background information.

Rinkeby é um subúrbio de Estocolmo onde a maioria dos imigrantes mora. Eu nunca fui lá, mas os jornais sempre retratam o local como um antro de violência e decadência social (eu duvido, acho preconceituoso, mas como não posso refutar, me calo. Veja, ao lado, a imagem da “decadência”, Swedish version). A discussão sobre a integração dos imigrantes à sociedade sueca sempre contou com uma polêmica especial: as gerações de crianças, nascidas e criadas em Estocolmo de pais estrangeiros, mas que ainda assim não falam sueco fluentemente ou falam com sotaque.

É esse o sueco que a imprensa chama de “Rinkebysvenska”, ou seja sueco de Rinkeby. Trata-se, pra quem ainda não pescou, de uma visão depreciativa da cultura jovem desses locais. O sueco de Rinkeby é, muitas vezes, uma escolha, uma marcação por parte dos jovens, cujos pais não conseguem empregos e [sobre]vivem frustração atrás de frustração. os jovens parecem dizer à sociedade: “Ok, vocês não me querem? Então eu também não quero vocês.” É um dialeto cheio de gírias árabes, turcas e africanas (principalmente da Somália).

Voltando, então, à matéria de Gabriella Håkansson. Ela escreve nesse penúltimo parágrafo que Kafka também escrevia numa linguagem controversa, que ela chama de “Rinkebytyska” (alemão de Rinkeby), ou um dialeto do alemão que apenas era falado pelos judeus de Praga. Ela diz que os pesquisadores ainda não chegaram a uma conclusão se a linguagem de Kafka enriqueceu ou empobreceu a língua (ha!). Mas o melhor: “talvez tenha sido a situação de ser um imigrante judeu de terceira geração em Praga que obrigou Kafka a agir na vanguarda, a criar simplesmente um novo tipo de literatura.”

Já pensou, que barato? Pena que não leio uma palavra em alemão.

A palavra em sueco do dia é skrivsugen, estar com vontade de escrever.

Filed under: Europa & Escandinávia,Jornal,Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 09:27

10 Responses to “A metamorfose da língua”

  1. Ju Says:

    Oi Mary…

    Eu estive em Rinkeby duas vezes. Antes de ir conversei um pouco com meu viking e ele me explicou q na década de 60 ou 70 (se nao me falhe a memória) o governo decidiu aumentar a oferta de apartamentos para superar a crise no setor. No entanto, com o passar do tempo, Rinkeby tornou-se um lugar quse q exclusivamente habitados por imigrantes (nao sei se por escolha ou por falta de onde ir).
    A primeira vista o lugar é limpo, organizado e nada se compara com a decadencia de alguns lugares no Brasil. Fui lá com uma amiga da Argélia que sempre faz compras de mês nas lojas árabes já que possuem carnes “haleh”. O marido dela disse q é um lugar barra pesada para se frequentar a noite e que existe um alto índice de estupro. Bom, tb como vc nao posso afirmar nada…
    Esta mesma situação ocorre tb na periferia de Paris, repleta de imigrantes e filhos de imigrantes, já franceses, chamados de “beur”, que têm dificuldade em se definir e que sofrem o preconceito (mascarado e as vezes revelado) da população.

    ih, acho q escrevi muito!! ;)

    xero duplo

  2. Patrick Says:

    Extremamente interessante essa perspectiva do trabalho de Kafka. De fato, ajuda a compreender melhor o seu trabalho.

  3. Gabriela Says:

    Oi Maria,
    Como sempre, gosto de ler o que (e como) voce escreve. Depois de ler o post chego ao seguinte pensamento (que também é o que tem me ajudado ultimamente a viver um momento muito dificil e de grande tristeza para mim): ha sempre a possibilidade de se achar um aspecto positivo, algo que nos impulsione, que nos faça seguir adiante.
    Ocorre-me uma imagem que, nao tem uma ligaçao direta com o que voce escreveu e com a idéia da matéria, mas que me veio mesmo assim: ja viu aquelas plantinhas que nascem no meio de pedras, onde parecia impossivel?
    Acho que, na dificuldade, - e na vida de modo geral - a gente busca saidas. Nem sempre sao boas. Nem todos conseguem se colocar de um modo positivo e criativo diante das barreiras. Mas ha os que conseguem e, esses, sao sempre uma inspiraçao.
    Desculpe se fiz um “sambadamulherdoida” e um abraço. Nao sei se voce chegou a ler o meu comentario, lhe dando os parabéns pelo bebe, pois acho que havia problemas no blog, Se nao viu, veja agora: parabéns e, do fundo do meu coraçao, saiba que fiquei muito feliz, quando soube.
    Até breve

  4. Roney Belhassof Says:

    Oi! Não tenho nada inteligente para dizer hoje, mas gostei tanto do artigo e sei como dá trabalho elaborar algo assim bem explicado e suscinto então tive que deixar este comentário elogiando!

    Gostei tanto assim pq, apesar de todo este papo de tolerância (que não passa de um tipo de intolerância educada) continuamos não sabendo apreciar as diferenças e perceber que transgressão produz a mutação e que a mutação (que possibilita a evolução) é essencial para estes tempos onde as coisas com certeza não caminham do jeito que deveriam.

    Para quem não tinha nada para dizer acho que falei demais! ;-)

  5. Marcus Says:

    Mais um ótimo post.

    Nem tenho muito o que comentar, a não ser que não há a menor dúvida de que Kafka enriqueceu, e não empobreceu a língua alemã.

    Isso eu posso afirmar por uma questão ontológica, sem nem saber a língua.

  6. Maria Says:

    Ju, Rinkeby faz parte do chamado “Miljonprogrammet”, que, como seu marido explicou, foi criado nas décadas de 60 e 70 para abrigar “um milhão” de suecos advindos das cidades do interior e de outras regiöes do país. Esse “miljonprogram” aconteceu nas maiores cidades suecas, Estocolmo, Gotemburgo e Malmö. Nessas duas décadas a Suécia floresceu, a indústria estava fortíssima e precisava-se de muita mão-de-obra. Daí a necessidade de mais apartamentos.
    Esses apartamentos foram erguidos rapidamente, numa floresta de concreto nada bonita, porém funcional. Após a leva de trabalhadores nativos, os próximos moradores desses prédios foram imigrantes, que comecaram a chegar em massa após os anos 70. Sobre os estupros, isso é preconceito. Há muitos estupros nas melhores áreas de Estocolmo, como Södermalm. Disso ninguém fala.

    Pois é, Patrick, dá vontade de ler, né? :)

    Gabriela, obrigada pelos seus votos pro meu filho. Olha, seja lá o que for, espero que se resolva da melhor maneira possível. Um abraco,

    Pra quem não tinha nada de inteligente a dizer, até que dissestes muito, Roney. Obrigada. :)

    Pois é, Marcus, eu concordo (mesmo sem ter lido Kafka. Ainda.)

  7. Eline Says:

    Hej Maria!
    Li seu post com atraso de poucos dias, mas quero comentar mesmo assim. Primeiro o post me chamou atencao por tratar de língua. Outra coisa é que tem a ver com a realidade da Alemanha também, por isso fico hiper feliz de entender (em termos culturais) o que você quer dizer quando conta essas “histórias suecas”, a semelhanca é grande.
    Aqui em Flensburg (fronteira com a Dinamarca) moro em um bairro chamado por alguns de Little Istanbul, pois há de fato vários turcos. As pessoas dos outros bairros ouvem falar que aqui nao é muito seguro, mas nunca vi nem vivi algo desagradável. Claro que nao tem comparacao com a capital daí, mas essa má fama nao me é estranha. É triste porque aqui parece mesmo um gueto, as ruas sao claramente piores, a condicao dos prédios também…Acho triste essa separacao.

    Quanto ao alemao, gostaria de dizer que há esse tipo de “escola” aqui também: sao as Volkshochschulen (a abreviacao é VHS - fau-há-és). Exatamente o mesmo termo e conceito, o qual acho igualmente difícil de explicar para outsiders. Adoro essas semelhancas entre as linguas porque assim fica mais fácil de aprender sueco ;-)
    Dica: tente, sim, ler algo em alemao; tenho certeza que por saber sueco você vai achar muita coisa familiar. Se quiser mais dicas, fale comigo.
    No mais, muita paz e saúde para você e seu pequeno. =)
    Liebe Grüße,
    Eline

  8. Maria Says:

    Que interessante, Eline! Essa coisa de construção de “guetos” para minorias é uma coisa bastante européia, acho. Muito interessante como é aí na Alemanha. Valeu.

  9. Destino: 63ºN 10ºE » Reflexões Says:

    […] Primeiro, meu xodozinho… um blog que acompanho desde sempre e até já comentei aqui que foi dos primeiros blogs que me “apaixonei”. Indico aqui a Maria com seu Montanha Russa. Um exemplo de como ela nos bota pra refletir segue nesse post. […]

  10. anajara Says:

    esse site realmente é ótimo

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