November 21, 2006

Suécia, provinciana e (quase) justa

O Marcus comentou no post abaixo que a Suécia não parece ser muito cosmopolita como Iguaterra e EUA e pergunta se a impressão é correta. A resposta simplificada e generalizada é: não, a Suécia não é cosmopolita como Londres e Nova York. Porém, o assunto é tão interessante, que merece um post. Isso porque quando se fala sobre a Suécia no Brasil — assim como em muitos outros lugares do mundo — há sempre uma aura de sofisticação, uma camada de elegante frescor e modernidade. Gente loira e bonita, inteligentes, civilizados, educados. E, de forma geral, essa é uma imagem acurada.

Por outro lado, é aquela coisa: bem de perto, ninguém é perfeito. Até porque somos todos humanos. Os mesmos nativos que são loiros e bonitos (na sua marioria) podem ser extremamente provincianos e preconceituosos. Por mais que não sejam tão alienados como outros povos do planeta, como alguns americanos ou a classe alta brasileira, sua visão de mundo se reduz ao que conhecem e às suas tradições. Já o que desconhecem lhes dê medo, não curiosidade.

É claro, isso é uma generalização. Há muita gente boa e aberta aqui, obviamente. Até porque se o cenário fosse tão impossivelmente negativo assim eu não agüentaria morar aqui por tanto tempo. Escrevo essa ressalva porque não quero receber emails/comentários furiosos de gente que ficou chateada porque critiquei o país onde mora ou a nacionalidade do marido.

Bem, de volta à vaca fria. Podemos nos perguntar como é que essas duas imagens do povo sueco coexistem. Primeiro: há uma diferença enorme entre as grandes cidades e as pequenas cidades do interior. Ao mesmo tempo, não se deve idealizar as cidades maiores como Estocolmo e Gotemburgo. Afinal, é lá que a maioria dos imigrantes mora e onde parte deles é alvo de discriminação.

Segundo: uma outra explicação para o provincialismo sueco é que o país até bem pouco tempo atrás era uma sociedade rural, pobre e pouco desenvolvida. Não é a toa que milhões de suecos emigraram para os EUA desde o final do século XIX e início do século XX. Os emigrantes queriam ganhar dinheiro, mandar dinheiro pra casa, enfim, o sonho médio de quem busca uma vida melhor.

Depois da Segunda Guerra Mundial, lá pro final da década de 40, a Suécia, preservada pela sua “neutralidade”, começou a dar passos larguíssimos em direção ao desenvolvimento pleno, à nação de primeiríssimo mundo que é. Até aí, as condições de moradia nas grandes cidades, por exemplo, eram muito precárias. Sem muita base histórica, imagino a Estocolmo de então como uma versão nórdica dos cortiços de Aluízio Azevedo.

Nessa época é que uma série de políticos importantes — todos eles vindos de ideais social-democratas — dominaram o poder e colocaram a Suécia nos trilhos do desenvolvimento. Um dos mais importantes foi Per-Albin Hansson, que abriu caminho nas décadas de 30 e 40 para o moderno welfare state sueco e reforçou a idéia da folkhemmet, ou a “casa do povo”. Suas idéias foram levadas adiante por outros primeiro-ministros social-democratas, como Tage Erlander (década de 50-60) e Olof Palme (década de 60-70).

Foi nesse momento histórico, nessa janela que vai dos anos pós-guerra até a década de 70, que a Suécia se tranformou numa nação exemplar. Isso aconteceu, notem bem, em pouco mais de duas gerações. A cabeça de alguns dos nativos simplesmente não acompanhou o ritmo da sofisticação do estado. O boom sueco foi tamanho que muitos imigrantes, principalmente finlandeses, gregos e italianos, vieram pra cá na década de 60 para trabalhar. O mercado de trabalho os absorveu prontamente e sem qualquer trauma.

Isso não aconteceria caso esses imigrantes tivessem vindo pra cá na última década. Sou uma social-democrata, agora até mesmo de carteirinha. Mas devo dizer que a política de emprego criada pelos socialistas lá nas décadas de 40, 50 e 60, que garante a segurança do trabalhador a qualquer custo, precisa ser revista. Não sou daquelas liberais disfarçadas que defendem uma centralização do socialismo. O que eu acho é que o modelo sueco está ultrapassado — o que é uma pena — mas é a pura e dura realidade.

O clima no mercado de trabalho daqui é duríssimo e muito diferente dos vizinhos dinamarqueses, por exemplo, cujo modelo, batizado de Flexicurity, em linhas gerais facilita tanto a contratação quanto a demissão. Hoje grande parte dos jovens suecos não tem emprego fixo. Eles se sustentam com a ajuda dos pais, com dinheiro do social e com trabalhos temporários. A mesma coisa acontece com parte dos imigrantes de primeira e segunda gerações.

Converso com nativos que conheço, algumas amigas da faculdade, e a imagem que tenho é homogênea: conseguir um trabalho fixo, até mesmo para os suecos, é dificílimo, uma verdadeira façanha. A idade média de quem consegue seu primeiro emprego fixo, com direito a férias e todas as seguranças, é 30 anos. No final das contas, a segurança total criada nas décadas passadas acaba prejudicando a entrada de jovens e de alguns imigrantes no mercado de trabalho.

As empresas daqui são obrigadas a pagar salários decentes aos trabalhadores, quase todos organizados em sindicatos cuja linha de trabalho é baseada no chamado kollektivavtal, ou “acordo coletivo”, que garante o mínimo de segurança aos trabalhadores. Isso é fantástico. O problema é que esses salários altos são acompanhados por impostos igualmente altos, os quais financiam o tal do welfare state. A outra face da moeda desse círculo virtuoso de segurança que tanto causa inveja aos brasileiros em geral é que as regras do jogo dificultam muito a contratação de gente nova, seja ele/ela sueco étnico ou imigrante.

Exemplo: segundo dados do Statistiska centralbyrån, o salário de um trabalhador do setor privado, cujo status é equivalente mais ou menos a um servidor público brasileiro, é de 43.360 coroas (cerca de US$ 6.200 ou R$ 12.400), sendo que desse montante, 29.028 coroas (US$ 4.200 ou R$ 8.400) correspondem ao salário bruto, antes dos impostos de pessoa física (30%, 50% ou mais, dependendo da sua renda). O resto, 14.332 coroas (US$ 2.000 ou R$ 4.000), correspondem a impostos sindicais, seguros e taxas variadas pagas pelos empregadores.

Isto é, quando se contrata alguém deve-se estar preparado para pagar dois salários: um para o empregado e outro para o governo na forma de impostos. Junte-se a isso a dificuldade que os empregadores têm em demitir trabalhadores, e a fórmula para o desemprego está criada. É aí que o provincialismo ataca com mais forças: só se emprega quem já tem experiência e/ou contatos. Por isso, milhares de jovens sem experiência de trabalho e imigrantes sem contatos na sociedade sueca ficam às margens do mercado de trabalho e não vêm uma luz no fim do túnel (yours truly included).

A segurança no mercado de trabalho existe e é possível. Só resta saber se ela pode ser extendida a todos os cidadãos ou a apenas um happy few.

A palavra em sueco do dia é perspektiv, perspectiva.

Filed under: Europa & Escandinávia,Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 13:45

15 Responses to “Suécia, provinciana e (quase) justa”

  1. Isabella Says:

    Ol, Maria,
    Gostei do post. realmente fantstico o que a web possibilita. Refiro-me possibilidade de termos acesso a informaes que no seria possvel sem a rede. Obrigada por compartilhar conosco o seu conhecimento e impresses. Tenha uma boa semana!!

  2. Marcus Says:

    Seu post foi extremamente esclarecedor. Agradeo muito.

    Imagino que esse problema do desemprego foi o principal responsvel pela vitria do Partido Moderado nas ltimas eleies, no ?

    Pelo que eu vi, o Partido Moderado no quer acabar com o que os sociais democratas construram, mas apenas fazer ajustes no sistema, no? Porque, eu acho, tentativas de diminuir radicalmente a segurana trabalhista no seria aceitas pelo eleitorado.

  3. Maria Says:

    Oi Isabella, seja muito bem-vinda ao Montanha-Russa. :c)

    Exatamente, Marcus. Os moderados ganharam porque defenderam a plataforma da mudana, da flexibilizao do mercado de trabalho, que foi a grande questo das eleies daqui. E sim, eles querem apenas fazer ajustes - ainda que fundamentais - mas no mudar completamente a poltica sueca. suas concluses esto perfeitas.

  4. Maria Alice Says:

    Oi Maria!
    Adoro ler seus relatos, a descrio de como uma brasileira se sente no pas sempre citado como exemplo de civilidade.
    So civilizaes diferentes, e o choque de culturas inevitvel.
    J contei antes que minha bisav materna veio da Sucia, e por esse motivo tenho muita curiosidade de saber coisas da.
    Lendo o que vc escreve aprendo muita coisa e sou agradecida a vc.
    Curioso saber que algumas pessoas mandam comentrios enfurecidos quando discordam de algum comentrio seu!
    Ento que faam suas pginas na web e divulguem suas prprias opinies, porque aqui o seu espao!
    Se quiserem discordar aqui, pelo menos sejam polidas e delicadas, pq vc nunca, nunca, nunca, foi indelicada com quem quer que seja nos seus comentrios.
    Sou sua f!
    Abraos

  5. cilene Says:

    Sabe um belo artigo…contextualizado…bem feito..parabens…tudo que vc disse se aplica a sociedade norueguesa…com um porem…a Noruega e muito mais rica do que a Suecia e pode financiar mais….espero que vc nao receba nenhum e-mail idiota por esse artigo porque esse artigo e perfeito,de alguem inteligente e que entende a sociedade em que vive..bom nao vou ficar aqui fazendo e fazendo elogios a vcs..parabens

  6. Maria Says:

    Obrigada, Maria Alice e Cilene. Fico feliz que vocs gostem do Montanha-Russa. Sobre os emails enfurecidos, vocs no sabem da missa a metade. J recebi um comentrio horroroso pra esse post mesmo, me desancando. No publiquei, bvio, que como a Maria Alice mesmo escreveu, esse espao aqui meu e sou eu quem decide o que vai ser publicado aqui. Ningum me ataca na minha prpria pgina.

  7. Pururuca do Brejo Says:

    Oi Maria!
    Muito bom o texto, como sempre.
    Aqui em Portugal as pessoas vivem do seguro desemprego ou em empregos temporrios. Fico pensando como ser a vida de uma pessoa de uns 50 anos que precisa arrumar um emprego. Difcil, no?
    Sobre as provncias suecas, no muito diferente da Alemanha ou Portugal.
    Um beijo.

  8. Maria Says:

    Dificlimo, Pururuquinha, dificlimo. E eu tenho pavor at de pensar nisso, j que j estou h menos de 15 anos desse dia. :c/ Um beijo!

  9. anna v. Says:

    Muito interessante esse seu post, Maria. Eu tinha uma impresso completamente diferente do processo social da Sucia.
    (E, guardadas as devidas propores, depois a gente acha que os europeus e americanos que so ignorantes porque no sabem que a capital do Brasil Braslia e que aqui se fala portugus.)

  10. Maria Says:

    Bom, anna v., eu acho que voc est sendo um pouco injusta com voc mesma. No d pra saber dessas nuances todas “de fora”. Mas que bom que c gostou do post. Fico feliz. :c)

  11. David Says:

    Adorei o post e acho que voce tem toda razao. Porm, em uma reportagem que vi hoje sobre o sistema de emprego de aposentadoria da sucia comparado ao da franca, a sucia est muito bem.

    de fazer inveja a qualquer pas.
    e que o novo governo ajuste mais ainda uma pais tao bonito socialmente para com seu povo.

    mas eu preferia socialdemokraterna no poder :)
    hej d, puss puss

  12. Maria Says:

    Bacana, David. Sempre bom ter uma perspectiva mais ampla do que anda rolando fora das fronteiras suecas. Uma pena que na Frana as coisas estejam to ruins. Obrigada pelo comentrio e pela visita. :c)

  13. lucas Says:

    oi tudo bom gostei o que disse
    s que meu sonho ir estudar ai na sucia tenho 14 anos fao 15 anos no final do ano vou esperar ter 15 anos tenho amigas que moram ai
    agora tudo o que vc disse que ai fico meio indeciso que to dificil encontrar emprego
    no sei meio certo se devo ir
    me responde
    tchauu

  14. Eryka S: Says:

    Oi Maria, entrei por acaso no seu site e fico contente de ver que alguem tem as mesmas impressoes que eu a respeito do sistema economico europeu.Estas foram e ainda sao as minhas grandes preocupacoes, assim que vim morar na Frana com meu esposo.E finalmente, vejo que seja pra onde quer que partirmosna cee, seremos confrontados aos problemas de desemprego, discriminaao, e precariedade do sistema neo liberal.
    Ja faz tres anos que estou na Frana, nunca deixei de pensar no Brasil, porem nao arrecado o suficiente pra investir no nosso pais.
    POr outro lado , nao posso negar que apesar da falta de empregos fixos na europa e a possibilidade de cairmos no desemprego ser iminente, as vantagens sao de longe incomparaveis s do Brasil.
    Nao sei se acnteceu com vc mas , eu tive uma perda de identidade profissional imediata e luto dia e noite pra voltar a ter uma condiao minima de vida compativel com minhas competencias, a parte o problema que aqui na Frana, existe uma seria diferena entre homens e mulheres, pois o pais da liberte, egalite e fraternite, deixa muito a desejar.
    Me parece que quem nao comunga das mesmas impressoes de um sistma bastante complexo pra um imigrante, nao tem senso de analise apurado.Digo isto sem fazer criticas injustas , pois tenho colegas brasileiros que vivem aqui e se sentem no paraiso, embora nao possam desfrutar que do dever de trabalhar na chuva e na neve; e nunca em quatro anos ter podido se pagar um restaurante grastronomico na vida, a nao ser o Mac donalds, metodo barato de fazer comer uma familia de 5 e deixar as crianas felizes.
    Tenho tambem colegas brasileros que , “descem o pau” e denigrem o Brasil, pois estao aqui com bolsa do doutorado e alojado s despesas do governo frances, que nao conhecem a realidade de ter que pagar impostos altissimos e ter uma vida limitada.
    Escapam_lhe o senso critico e de analise ou entao o que posso pensar que eles sao da filosofia: ja que nao comigo …
    Mas bem, seu site extremamente util queles que nao realizam a montanha russa que partir pra uma outra naao, nao desencorajador, mas serve de analise concreta de que europa, nao so uma visao surrealista criada e impegnada em nossas mentes de que eles sao o modelo do mundo!

  15. patrick Says:

    ola! bom gostaria de saber como é pra um carioca seadptar as condições climatícas da suécia? visto que pretendo ir no meiodo ano pra la. e como o mercado de trabalho aceita,condiçoés e etc…

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