November 20, 2006

Democracia racial? Fala sério.

Post importantíssimo. Eu leio e releio, para aprender e colocar as coisas em perspectiva. O autor é o Marcus Pessoa, dono do ótimo blog Velho do Farol.

A Pesquisa Mensal de Emprego sobre Cor ou Raça, divulgada hoje pelo IBGE, é um tapa na cara dos néscios que insistem em dizer que no Brasil não existe preconceito de cor.

O discurso é bem conhecido: “o problema dos negros é que são pobres e têm pouca escolaridade, e não o preconceito”. O diretor de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, afirma peremptoriamente, no título de seu livro, que não somos racistas.

Matéria sobre o assunto levada ao ar hoje pelo Jornal Nacional (que é editado por um subordinado de Kamel, William Bonner) reverberou o discurso, dizendo que o problema dos negros é a falta de escolaridade e/ou qualificação. Um rapaz negro aparece na fila do sistema de empregos, lamentando-se de que tenta um emprego de serralheiro, mas não consegue porque não é qualificado. Em seguida, uma moça negra com nível superior é mostrada dirigindo equipes numa empresa privada, dizendo que nunca sofreu preconceito.

O problema é que isso é exatamente o contrário do que a pesquisa do IBGE mostra.

É verdade que os negros e pardos têm uma escolaridade mais baixa que os brancos. Estes têm em média 8,7 anos de estudos, enquanto entre negros e pardos a média é de 7,1 anos. A questão parece simples: aumente-se a escolaridade dos negros e resolveremos a problema, certo?

Errado. É claro que negros e pardos com escolaridade maior têm melhor renda que aqueles com poucos anos de estudo. Mas, em relação aos brancos, a diferença salarial aumenta à medida em que sobe o nível de escolaridade.

Os brancos ganham melhor que os negros em todas as faixas, mas entre os trabalhadores menos qualificados (menos de um ano de estudo) a diferença é relativamente pequena: brancos recebem em média 469 reais, negros e pardos 409 — apenas 12,7% a menos.

Já na faixa mais alta (11 anos ou mais de estudos), a média salarial dos negros é de 899 reais, e a dos brancos de 1.728 — diferença de assombrosos 47,94%.

Um negro que tenha uma escolaridade média (8 a 10 anos) ganha em torno de 556 reais, e se resolve fazer um curso superior, recebe um acréscimo de apenas 61% em sua renda. Um branco na mesma situação, partindo de um salário de 691 reais, tem um ganho de 149%.

Ou seja, os negros e pardos que chegam ao nível mais alto de qualificação têm ainda mais dificuldade de se afirmarem profissionalmente perante os brancos.

O IBGE declara que não tem como afirmar que essa diferença se deva ao racismo, mas dá pra fazer o tico e o teco conversarem e chegar a uma conclusão, não?

Lembro de ter lido há cerca de dois anos uma carta numa seção da revista Você S/A, voltada para executivos e aspirantes às carreiras corporativas, onde um empregado negro se queixava de que era muito difícil conseguir promoções e benefícios, mesmo quando demonstrava mais competência que seus colegas. O colunista, que com certeza conhece a fundo o mercado, não só não duvidou nadinha da história como disse que o racismo no mundo profissional é um problema de difícil solução. A Você S/A não passa nem perto de ser esquerdista ou coisa que o valha.

O que eu me pergunto é: até quando vamos cultivar essas histórias da carochinha, de que o problema dos negros é apenas serem pobres ou ignorantes? Até quando vamos alimentar esse mito da democracia racial?

A partir da perspectiva brasileira e com o auxílio de minha experiência européia, ouso dizer que esse é um problema mundial. Aqui na Suécia a discriminação com base na raça se transforma num problema mais amplo, numa discriminação generalizada contra os imigrantes. Segundo o Statistiska centrabyrån, o IBGE sueco, os imigrantes têm em média uma renda que é 20% inferior à uma pessoa nascida aqui de pais suecos, o chamado “sueco étnico”.

Para analisar o sucesso — ou a falta de — da integração daqui, no entanto, precisa-se olhar para duas variáveis além da cor da pele: de onde o imigrante vem e há quanto tempo ele mora na Suécia. Imigrantes advindos dos outros países nórdicos (noruegueses, dinamarqueses e finlandeses), além de outros países europeus, apresentam geralmente um nível de renda bem próximo, ainda que um pouco inferior, ao nível de renda do sueco étnico.

Já os imigrantes de países como as repúblicas da antiga-Iugoslávia, Irã, Iraque e Turquia detêm apenas 75% da renda relativa a um sueco étnico. Além disso, imigrantes que moravam na Suécia por pouco tempo durante os anos de 1996-2000 recebiam apenas o equivalente a 65% do salário do sueco étnico. Por outro lado, uma família de imigrantes que more na Suécia há mais de 20 anos apresenta renda semelhante, ainda que menor, à do sueco étnico. (Fonte: SCB, texto em sueco.)

Leia mais sobre esse assunto nos meus posts antigos: A Europa da exclusão, Que coragem!, Sem drama, Mais 20 anos pela frente, Você não é bem-vindo, Notícias do Primeiro Mundo V e finalmente Racismo na Escandinávia.

Leia a matéria da Carta Capital sobre o assunto (Obrigada, Marcus Gusmão!)

A palavra em sueco do dia é orättvisa, injustiça.

8 Responses to “Democracia racial? Fala sério.”

  1. Marcus Gusmo Says:

    Muito bom. A cartacapital(www.cartacapital.com.br) desta semana traz tambm uma matria interessante sobre o tema.

  2. Marcus Says:

    Agradeo a citao e o link. Eu fiquei um pouco espantado dessa questo da diferena salarial em relao escolaridade ter passado quase despercebido na grande imprensa. No sei se uma questo ideolgica ou o qu.

    Eu acho que foi a Denise Arcoverde, quando ainda estava morando em Estocolmo, que fez um relato de um amigo dela que ficou seis meses tentando encontrar emprego na Sucia e no conseguiu. Mudou-se para a Inglaterra e conseguiu um rapidinho, acho que no primeiro dia at.

    A Sucia, imagino, no uma sociedade verdadeiramente cosmopolita, ou ? Como so a Inglaterra e os Estados Unidos. Que, apesar de todos os problemas, esto acostumados a receber imigrantes…

  3. Marcus Says:

    Obs: o amigo da Denise era brasileiro tambm.

  4. Maria Says:

    Valeu, Marcus Gusmo! Beijoca.

    Marcus Pessoa, adorei seus comentrios. A coisa da Sucia ser cosmopolita ou no um assunto interessantssimo e que merece um novo post. J o estou escrevendo e assim que der um tempo, o publico, ok? Obrigada!

  5. Ju Says:

    Muito boa a matria da Carta Capital. E muito interesante os argumentos e a percepao do Marcus ao escrever o texto.

    Hj ao ler a Folha de Sao Paulo, vejo um texto q tem muito a ver com o q foi escrito aqui, embora o autor trabalhe com a visao da discriminaao na literatura infantil.
    O texto do Marcelo Coelho.

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2211200623.htm

    Caso vcs nao consigam ler o artigo posso enviar por email ou postar aqui :p

    xero

  6. Maria Says:

    oi Ju, obrigada pela dica!

  7. Ju Says:

    Depois de ler duas notas (27/11) na coluna de Monica Bergamo, fiquei com uma pulga atras da orelha: at quando vai existir gente no Brasil q pensa q o racismo nao existe?
    Explico: linkei ( feio escrito!!!) teu texto e o de Marcus num forum no qual participo e depois disso recebi algumas respostas tipo…”isto opiniao de esquerda…”, “leia aqui um texto mais perto da realidade” e tal… Me sinto realmente mal quando vejo esse tipo de atitude, pessoas q negam veemente uma realidade q esta bem ao lado dela e preferem fingir q nada disso existe.

    Voil as notinhas:
    “QUEBRA-CABEA 1
    O assassinato de um jovem negro, Ricardo dos Santos, 20, na Casa Verde, virou assunto da Comisso do Negro da OAB de SP. O rapaz era testemunha de uma denncia de racismo feita pela auxiliar judiciria Edvanilde de Moura contra dois policiais h dois meses. Na ocasio, ela declarou ter sido agredida fisicamente e ouvido frases como “preto tem que apanhar” ao defender o prprio Ricardo, que estava sendo revistado. Dois dias aps a denncia, Ricardo foi buscado por policiais em sua casa e levado delegacia. Vizinhos declararam aos jornais que ele foi ameaado.

    QUEBRA-CABEA 2
    O delegado Italo Miranda Jr., do 13 DP, diz que a hiptese de represlia dos policiais no foi nem cogitada e que o crime “j foi resolvido”. Ele no divulga o nome do assassino de Ricardo, mas diz que um “traficante foragido”. Segundo o delegado, Ricardo foi levado DP dois dias aps a denncia de racismo “apenas para averiguao”“

    xero Mary

  8. Maria Says:

    Junte s notinhas da Monica Bergamo, Ju, a repercuco que a morte de uma socialite teve no Rio - o mesmo Rio onde morre gente favelada quase todos os dias e ningum reclama - e a at d pra entender essas opinies estpidas do forum no qual voc participa. Infelizmente, diga-se de passagem.

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