November 5, 2006

O dia em que me tornei uma social-democrata

Pois é, hoje foi um dia especial. Porém, começou como qualquer outro domingo. Meu urso está em Estocolmo a trabalho, eu estou em casa numa boa. Acordei tarde (pra mim), lá pelas 10 da manhã. Escutei rádio, “Godmorgon Världen” (= Bom dia Mundo) na estação P1, um dos meus programas de rádio favoritos. Enquanto tomava café e comia meu pequeno sanduíche com queijo e caviar fiquei sabendo que Saddam vai ser enforcado. Li o jornal. Depois vim pro escritório, liguei o computador e fui ver meus emails. Visitei outros blogs e li jornais online.

De repente já era de tarde. Tomei um banho e comi um iogurte como almoço. Falei com meu urso pelo telefone e depois me sentei na sala para ver TV. Zappeei um bocado, mas acabei me interessando por um programa sobre o Adão Científico, ou seja o homem primordial cujo DNA existe em todos os homens de todas as raças e credos da atualidade. Conceito interessante. Que todos nós viemos da África, eu já sabia, mas que todos os homens vêm de um único exemplar da raça, é novidade. Agora podemos dizer que todos os homens são iguais mesmo — está cientificamente comprovado.

Hohoho.

Às 15:30, já escuro, saí de casa e fui tentar fazer o coitado do carro funcionar. Ele tinha passado os últimos quatro dias parado na garagem. A bateria reclamou, mas funcionou. Dirigi até um supermercado que fica no centro da cidade, onde costumo estacionar quando preciso fazer várias coisas na cidade. Entrei no supermercado e comprei rolinhos primavera vegetarianos e chá. Às 15:55 saí de lá e atravessei a rua. Entrei no prédio da biblioteca pública de Boden e subi até o último andar, onde fica o escritório do partido Social-democrata da cidade.

Estava nervosa, claro. Afinal, nunca tinha me metido com política na vida. Cheguei a sentir uma ponta de aflição, quase como se estivesse me juntando a um culto underground. Mas tudo acabou indo bem, afinal, não existe nada mais mainstream do que os socialistas na Suécia. Tenho sorte também porque quando fico nervosa mostro muito pouco. Nessas raras situações começo a falar bem baixinho e sorrio muito, o que são reações socialmente aceitas. As pessoas foram muito simpáticas e meus sorrisos foram apreciados. Assim como meu silêncio. Na sala, umas 15 pessoas, nove homens e seis mulheres. Média etária: pra lá dos 60.

“Bom ter gente nova interessada no partido”, me disseram algumas pessoas que vieram se apresentar à moda nativa, com aperto de mão, olhos nos olhos, dizendo o nome. Foi interessante assistir à discussão que rolou entre alguns membros, uma verdadeira lição de sociologia. Eu estava ali porque me interesso em ser uma nämndeman ou uma representante do povo que atua junto ao juiz da chamada tingsrätten, cuja tradução pro inglês é “district (city) court” e em português é comarca (obrigada Ana e Latifa!) Bom, o fato é que esses representantes só podem ser apontados por partidos políticos. Daí meu interesse.

Na verdade, escrevi para os três partidos de esquerda daqui: social-democratas, os verdes (miljöpartiet), e o partido de esquerda (vänsterpartiet). Só os social-democratas responderam e mostraram interesse. Então eu fui. Gosto dos três por razões diferentes. Os social-democratas por representarem o ideal de igualdade no qual acredito; os verdes por seus ideais e principalmente por causa de Maria Wetterstrand, uma de suas líderes, de quem gosto muito; e os esquerdistas porque eu sou, no fundo no fundo, uma rebelde.

Agora sou mulher, jornalista, quase-assistente social, brasileira, sueca e social-democrata. Bacana. :c)

A palavra em sueco do dia é politik, política.

Filed under: Conquistas,De bem com a vida,Europa & Escandinávia — Maria Fabriani @ 20:12

14 Responses to “O dia em que me tornei uma social-democrata”

  1. Ana Says:

    Bacana mesmo Maria. Ser que district (city) court no o mesmo que “Comarca” ou “Foro”? Aqui no Brasil assim que designamos as cortes da Justia Estadual situadas nas cidades; algumas delas abrangem mais de um municpio, como o caso da “Comarca de Sorocaba”, que engloba as cidades de Sorocaba, Araoiaba da Serra e Salto de Pirapora. As Comarcas so catalogadas internamente como Comarca de Primeira Entrncia, Segunda Entrncia e Entrncia Especial; as de Entrncia Especial denominam-se Foro, como o caso da capital paulista: “Foro Central da Capital”. Essa classificao considera o nmero de habitantes atendidos por cada Comarca ou Foro. A de Sorocaba, por exemplo, est classificada como Comarca de Segunda Entrncia. Esses termos so estabelecidos pela Lei de Organizao Judiciria estadual e podem variar de acordo com o Estado. Talvez a Sucia tb tenha uma ;-)

  2. Ale Says:

    Mari,
    Parabens pela adesao ao partido! Boa sorte em sua vida politica!!
    Acho que nao existe traducao para essa palavra…
    PS> Tb sorrio quando estou nervosa, bom saber que isso eh bem aceito! :-)
    BJS

  3. Latifa Says:

    Ol Maria, leio o seu blog regularmente, e percebo perfeitamente o seu estado de esprito pois j vivi na Sucia durante uns anos, (1975 a 1978 ;anos em que a Sucia era de facto social democrata). De facto “tingsrtten” em portugus significa Comarca. Com a sua descrio sobre o comportamento dos suecos senti uma grande saudade, embora quando a vivi sentir que estava numa priso “dourada”.
    Bem haja Maria.

  4. Daniela Says:

    Aqui em Madrid vc seria o que? Uma consejala. Creio que isso… representante do povo? Nao sei se existe algo semelhante no Brasil. E nao sei se entendi bem o conceito.

    De todas formas, boa sorte nessa nova empreitada.

    Gostei disso, Maria. Muito legal. :)

  5. Marcus Says:

    Muito bonito o post. Poltica num pas civilizado outra coisa…

    Eu sou social-democrata em termos de ideais, e at por isso voto no PT, que o mais perto de social-democracia que temos aqui no Brasil.

    Mas respeito muito os socialistas no-autoritrios, e vejo mritos no discurso liberal no-fantico.

  6. Mercia Says:

    Maria, parabens por mais esse ttulo!! espero que voce consiga fazer o que deseja!! Acho que no importam muito os ttulos se estamos fazendo algo que faz bem aos outros e principalmente, nos faz bem!
    beijos!
    Mercia

  7. Maria Says:

    Nossa, Ana, que legal! Uma verdadeira aula! Agora compreendi tudo. A “tingsrtten” a comarca de primeira entrncia (sempre achei que se chamada instncia…)Valeu mesmo! :c)

    Ale, “vida poltica” um exagero. Mas obrigada mesmo assim. :c)

    Seja bem-vinda Latifa. Acho interessante sua impresso da Sucia, a da gaiola dourada. Acho que uma viso muito acurada. Interessante!

    Daniela, os “nmndeman” funcionam como um juri, s que so em nmero menor (algo como duas pessoas por julgamento) e esto l para ajudar o juiz a tomar a deciso. A estrutura legal sueca diz que pessoas comuns, sem qualquer formao jurdica, devem estar presente na crte e ajudar no veredicto. Eu at estudei muito as leis na universidade, mas isso no necessrio. O importante que os partidos polticos, que tm o poder de apontar os “nmndeman”, procuram atualmente gente mais jovem, mulheres e principalmente imigrantes para fazer parte das crtes. Tudo com o objetivo de tornar os julgamentos mais justos.

    Oi Marcus, eu defendo tambm todo o tipo de expresso no-exclusiva e no-radical.

    Obrigada, Mercia.

  8. Ana Says:

    Maria, eu esqueci de parabeniz-la pela deciso… se fosse no Brasil ento voc seria jurada? Aqui s o Tribunal do Jri (com competncia exclusiva para crimes dolosos contra a vida) comporta juzo misto, ou seja, composto por sete juzes leigos e um juiz togado (proferem decises subjetivamente complexas). Pelo que eu entendi voc se tornou uma “juza leiga” no “nmndeman” de sua cidade, :-) Parabns! Ah, o termo “instncia” tambm existe, mas com outro significado: est relacionado com grau de apelao da Sentena ou Acrdo… os termos so tcnicos e por isso um pouco chato de entender e explicar… Mas fico feliz por ter ajudado, de certa forma, hehe, BJO.

  9. Maria Says:

    Exatamente, Ana, em termos brasileiros, seria uma juza leiga. Mas o poder mesmo do juiz togado daqui, que resolve a parada, claro. Mas os nmndemn (plural de nmndeman) ajudam, do uma viso menos jurdica do todo, o que acho uma idia interessante.

  10. anlene Says:

    mary, que bom que voce est abrindo novas portas por a… uma decisao sabia, nao sei se coseguiria encarar um partido, mas acho fundamental agir, fazer alguma coisa, participar. ler seu relato me fez pensar, quem sabe devia voltar para a ong na qual fui voluntaria por algum tempo aqui em madrid? beijos

  11. paola Says:

    Oi Maria,

    muito legal o post. Deu pra visualizar a sensacao que vc teve! Muitas vezes penso que deveria me engajar por aqui, pois certamente na Alemanha h n ONGS e instituicoes interessantes para se engajar politicamente. Mas nunca sobra tempo no doutorado…

    Muito legal que vc tem estas oportunidades de exercer a sua cidadania de maneira tao importante e aparentemente “efetiva”. Assim por dizer, colocando mesmo a mao na massa!

    Beijos e sucesso na nova empreitada!
    paola

  12. Maria Says:

    anlene, descobri o trabalho social aqui e acho um grande barato. Minha opinio : se voc tiver tempo/energia, volte. Se no, espere um pouco. Beijocas.

    Obrigada paola. :c)

  13. :: Montanha-Russa 4.3 :: » Sucia, provinciana e quase justa Says:

    […] Sou uma social-democrata, agora at mesmo de carteirinha. Mas devo dizer que a poltica de emprego criada pelos socialistas l nas dcadas de 40, 50 e 60, que garante a segurana do trabalhador a qualquer custo, precisa ser revista. No sou daquelas liberais disfaradas que defendem uma centralizao do socialismo. O que eu acho que o modelo sueco est ultrapassado — o que uma pena — mas a pura e dura realidade. […]

  14. :: Montanha-Russa 4.3 :: » Pizza escandinava Says:

    […] A, um belo dia, voc acorda e vai ler o jornal. E v que a lder da faco jovem dos social-democratas (partido da grande maioria nativa e do qual voc faz parte) foi pruma discoteca em Estocolmo chamada Crazy Horse, bebeu mais do que devia, se envolveu numa briga e, ao que tudo indica, chamou o segurana da boite de “svartskalle”, literalmente “cabea negra”. […]

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