June 28, 2005

Que coragem!

Quem me lê há algum tempo sabe que eu escrevo às vezes sobre a discriminação sofrida por imigrantes na Suécia. Num post escrito em setembro do ano passado, comentei sobre a iniciativa de quatro repórteres do meu jornal - dois com nomes suecos e dois com nomes estrangeiros - que fizeram uma experiência interessante. Um sueco e um “imigrante” (está entre aspas porque a pessoa em questão nasceu e cresceu na Suécia, mas tem nome árabe) se candidataram ao mesmo emprego. O “imigrante” vai primeiro e é negado o trabalho, com a desculpa de que a vaga já foi preenchida. Quando o sueco liga pra se informar sobre a mesma vaga, marca-se uma entrevista de emprego na hora.

Pois ontem li uma notícia que me chamou a atenção: Sandra Backlund (foto), uma moça sueca de 27 anos que estuda para se tornar cientista política (statsvetare) na Universidade de Estocolmo, resolveu radicalizar e mudar seu sobrenome - eminentemente sueco - para Baqirjazhid, que ela criou com a ajuda da Internet. “Trata-se de uma ação política”, diz ela. “Pra mim é importante que todos os que se candidatam a um emprego compitam nas mesmas condições. As pessoas não são chamadas para entrevistas de emprego apenas por ter um sobrenome estranho. Isso mostra o quão bizarra é a base de dicisão de quem é empregador. [O nome] não diz nada sobre qual a formação acadêmica ou a experiência que a pessoa tem.”

Sandra sabe que terá de soletrar seu nome todas as vezes que entrar em contato com pessoas desconhecidas e órgãos públicos, mas isso não é um problema. “[O nome] é mesmo estranho. Mas não tem nada demais perguntar como alguém se chama e como se soletra. Está na hora que aprendamos a falar nomes diferentes”, diz ela. Eu concordo. Os suecos mesmo têm a mania de mudar seus sobrenomes para ficar diferente dos eternos Svensson, Johansson, Andersson. Achei a atitude dessa moça admirável e fico até certo ponto comovida. Imagino que a Suécia será um país muito mais justo de se viver num futuro não muito distante, quando a geração de pessoas nascidas nos anos 80 e 90 atingir postos chaves na sociedade.

Até porque, segundo a Integrationsverket, um órgão estatal que estuda a integração de imigrantes no país, nada menos do que oito em cada dez suecos acham que imigrantes sofrem discriminação aqui. No artigo publicado na página de opinião do meu jornal ontem, Andreas Carlgren, diretor do órgão, afirma que a quantidade de pessoas conscientes desse fenômeno aumentou muito. Hoje 43% das pessoas perguntadas concordam totalmente com a existência de discriminação. Três anos atrás, essa cifra estava por volta dos 25%.

A palavra em sueco do dia é likaberättigad [likaberétigad], ter direitos iguais. (Tack, Peter!)

Filed under: Europa & Escandinávia,Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 09:29

19 Responses to “Que coragem!”

  1. cibele vieira Says:

    Ol Maria,
    Li algumas coisas no seu blog e fiquei muito contente, pois agora eu estou namorando um sueco.
    Mas, fiquei tambem preocupada com a questo de discriminao pois eu sou negra e acho que haveria alguma discrimino comigo.Por enquanto eu estou no Brasil mas ele j me convidou para conhecer a Sucia.
    Gostaria de obter mais informaes sobre como homem sueco, se possvel claro.
    Obrigada!!!
    Cibele…

  2. Mary Says:

    hehehehe, Isabel, aqui eles iam ter dificuldade apenas para o “verde”. Sabe que os suecos entendem e soletram o meu sobrenome corretamente todas as vezes? O mais engracado que meu urso precisa soletrar o nome dele! HOOHOHOH.

    Marcia de Souza, eu no posso mudar meu nome para Maria Andersson, porque Andersson nome de famlia. Se eu tivesse uma av com esse nome, talvez eu pudesse mudar, mas assim do nada difcil (pra no dizer impossvel).

    Ah, Angelique, conta a depois como foi, t? :c)))

  3. Anglica Says:

    Ah, no passa?? Bem, aqui s passa na tv a cabo… Ento eu assisto e depois te conto. Parece que vai ter 2 horas, ou seja, um filme do tarantino, n? Mal posso esperar… :)

    Agora deixa eu ir que vai comear brasil e argentina!!! ;)

    (o que seria de vc sem minhas informaes importantssimas do brasil, hein? hahahahah)

    beijos

  4. Marcia de Souza Says:

    Mudar o nome, Mary? Para o que, Maria Andersson? Sim, porque Pieksma tambem soa um pouco exotico, ate mesmo na Holanda, pois e sobrenome frisio…mas bem que voce poderia um dia testar, mandar um CV com nome de sueca, so de sacanagem, e ver o que acontece.

  5. Isabel Capaverde Says:

    Oiiiii, Maria!!!!!!
    Ser que “Capaverde” seria discriminado na Sucia?!? Se por aqui j virei “Copa Verde”, “Campo Verde”, “Campos Verdes” “Costa Verde” e por a vai, sabe l Deus que nome me dariam em sueco.
    Em terras tupiniquins,Maria, muita fofoca poltica e um certo desencanto com o PT.
    De resto, vale aquela musiquinha antiga: “a gente vai levando, a gente vai levando…”
    Essa foi s uma visitinha rpida pra saber como
    andas.
    Beijo grande,
    Isabel

  6. Mary Says:

    Querida Anglica, aqui a TV sueca no mostra nenhum dos CSI… TV no vero um porre! :c(

    Valeu, pequena correcao! :c)

  7. Pequena correcao. Says:

    Cara Maria,

    me perdoe pela indelicadeza, mas acho que voce quis dizer “discriminacao” (“descriminacao”; descriminar = absolver de crime, tirar a culpa de). Por favor, nao confunda meu comentario com patrulha!

  8. Anglica Says:

    Nada a ver com o post: hoje vai passar aqui o episdio do CSI dirigido pelo Tarantino. \o/
    Afinal, vc j viu?

    (um post srio desse e eu festejando CSI heheheeh)

    muitos beijos

  9. Mary Says:

    Ka, voc a essa hora j mame do Antonio e queria te dar um beijo enorme e muitos parabns. Muita sade, amor e alegria pra sua pequena famlia. Um beijo enorme! :c)

    Descriminaco um fenmeno mundial, Marcia de Souza, infelizmente. E obrigada pelo seu email contando da notcia da Ka! :c)))

    J eu penso sim em mudar meu nome, Peter, pra ver se me ajuda na minha vida profissional daqui.

    Mais ou menos, Ana Maria, existe um certo limite, mas sem dvida muito mais fcil aqui do que no Brasil. Existe at uma pgina com prefixos e sufixos onde voc pode MONTAR um sobrenome novo. A questo caprichar na explicaco de porque voc quer adotar esse nome novo. Existem uma srie de regrinhas - que eu desconheco.

    Pois , Tet, eu tambm acho que a simples mudana no muda muita coisa, mas fiquei emocionada quando li a histria. :c)

  10. Tereza (Bruxelas) Says:

    A atitude dela admiravel mesmo. Mas eu nao teria coragem de fazer isso nao. Com meu nome aportugesado j tenho que me bater pra ser respeitada, imagina com um nome desses! Alm do mais, isso nao vai mudar a mentalidade do povo, nao. Mas que um ato admirvel, .

  11. Marcia de Souza Says:

    Ate que enfim entrei aqui novamente! E para quem ainda nao sabe, Karenin se tornou hoje a mais nova mamae da blogosfera!

  12. Ana Maria Says:

    Mary, os suecos podem trocar de sobrenome quando der na telha ?!

  13. Karenin Says:

    …leia meu email, mulher, sabers porque quse pari! hohohoho beijocas,

  14. Peter Carlsson Says:

    De verdad, nunca tendra el coraje para hacer eso, adems me siento cmodo como mi apellido, es parte de mi alma.
    Me encanta que usaste aquella palabra Maria, es una palabra para el mundo!

    Bjsss

  15. Marcia de Souza Says:

    Aha, entao dona K ainda esta no aguardo…e uma atitude corajosa a da sueca, estou ainda lendo o livro sobre a historia da imigracao na Inglaterra, e posso assegurar que o fenomeno de discriminacao nao e nada novo. Desde que os romanos pisaram no solo ingles, o preconceito comecou. vou falar sobre o livro quando acabar de ler (tem mais de 500 paginas e eu nao tenho sua velocidade!)E sim, num mundo ideal as pessoas nao deveriam ser discriminadas apenas por terem um nome diferente. E quanto a soletrar o nome, eu faco isso todo santo dia, fazer o que…bjs

  16. Karenin Says:

    Eu lembro, MAricota, do artigo, e agora fiquei me perguntando, ela fez isso assim, no nada? Qual foi a motivao para que ela mudasse o prprio nome alm da conscientizao do problema? Chances iguais para todos, essa a base de um sistema social. E muita contradio que um pas que to social quanto a Sucia seja to discriminador, no? Beijocas, bom dia e alegria, alegria! E,sim, quase pari, mulher, quase!

  17. :: Montanha-Russa 4.3 :: » Democracia racial? Fala srio. Says:

    […] Leia mais sobre esse assunto nos meus posts antigos: A Europa da excluso, Que coragem!, Sem drama, Mais 20 anos pela frente, Voc no bem-vindo, Notcias do Primeiro Mundo V e finalmente Racismo na Escandinvia. […]

  18. Junior Vondrake Says:

    interessante. o problema é que o ser humano é naturalmente territorialista. em qualquer lugar onde vc vir uma “aglomeração” de pessoas de ‘mesmo tipo’ há uma chance muito grande de discriminação (pelo fato de desconhecerem o estranho). Porém muito da discriminação surgiu (obviamente) também por questões socio-culturais.
    Vc verá isso em muitos países africanos, na europa, nas americas e por ai vai. mas como estamos em épocas mais avançadas e com a conscientização de que somos seres supostamente racionais devemos mesmo acabar com um sentimento tão primitivo (se é que isso é possível, mas não custa nada tentar).

  19. Bruno Relado Says:

    Otimo conteúdo! Concordo pleanamente com o acima e não acho que isso irá mudar. Triste. Subscribed!

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