Estávamos no Rio, mais precisamente no shopping Leblon, minha segunda casa carioca. Dia 22 de julho. Meu urso conferia as novas pelo celular graças à free wifi zone do shopping. A notícia da explosão em Oslo e depois do massacre na ilha de Utöya. Eu pensei, cheia de preconceito: vai ficar ainda mais difícil ser árabe na escandinávia. Logo depois, a divulgação da foto do suspeito, ABB, cujo nome não escrevo aqui pra não chamar a atenção de quem googla sobre isso na internet. Um rapaz lindo, tipicamente norueguês. Ficamos meio que em estado de choque.
Já na Suécia, três dias depois, não se falava em outra coisa. Todos chocados. Ninguém podia prever que a extrema direita, conservadora até o último fio de cabelo, pudesse fazer uma loucura dessas. O serviço secreto norueguês (assim como o sueco) dizia-se estar sem condições de prever ataques de extremistas solitários. Malucos completos, como esse ABB parece ser, que agem completamente desconectados de tudo e todos. Entrevistaram o pai do rapaz, que mora na Espanha, se não me engano. A vergonha dele enorme (a mãe não entrevistaram, interessantemente).
Mas o que realmente me tocou nessa história toda foi como a Noruega como país tomou conta dos que sobreviveram e da memória dos que não tiveram a mesma sorte. Vi na TV que todas as velas acesas pelas vítimas da tragédia seriam recolhidas e reaproveitadas para fazer novas velas em memória dos mortos. Que todos os ursinhos de pelúcia deixados na ilha onde dezenas de jovens morreram assassinados, seriam recolhidos e depois mostrados num memorial ainda a ser construído. O mar de flores deixado por quem queria homenagear os mortos seria de alguma forma preservado.
Aí, pensei: está aí a diferença entre primeiro mundo e o resto. Não sei ao certo o que me fez pensar nisso, nem sei se é verdade ou se tem algum tipo de conexão com a realidade política e cultural de Noruega e, por exemplo, do Brasil. Mas quando vi como os noruegueses pretendiam tomar conta das manifestações de carinho e saudade de um povo, achei instintivamente que uma diferença básica existe. Se bem que, pra falar a verdade, não saberia dizer qual essa diferença seria.
Dias depois, fizeram um concerto em Oslo, com artistas famosos daqui, poesia e música. Leram também todos os nomes das 77 vítimas da pior tragédia que a Noruega sofreu desde a invasão alemã durante a segunda guerra mundial. No meio dessa incrivelmente delicada cerimônia que assisti pela TV (assim como milhares de suecos), um grito desesperado. Uma pessoa - ficamos sabendo depois quando uma repórter visivelmente abalada contou - não aguentou o tranco e se desesperou quando viu a foto de um parente (filho/filha) no telão do teatro. E aí pensei: somos diferentes, porém muito iguais. No fundo, no fundo, muito iguais.