September 20, 2010

Eleições históricas

O dia de ontem foi histórico na Suécia. Pela primeira vez na história da democracia nativa um governo de direita ganha duas vezes seguidas e permanece no poder. O partido social-democrata continuará mais quatro anos na oposição, junto com o partido verde (Miljöpartiet) e o partido de esquerda (Vänsterpartiet).

Mas as eleições não foram históricas só por conta disso. Outro fato também contribuiu para que esse dia seja lembrado como um marco político nacional. É que ontem 5,8% dos suecos votaram em um partido de extrema direita, com raízes naz***as, o que garantiu ao partido 20 mandatos no parlamento sueco.

Isso é histórico porque a Suécia, ao contrário da absoluta maioria dos países europeus, tinha até ontem sido poupada da presença neo-naz***ta no parlamento. Um partido extremo conseguiu chegar ao parlamento em 1991, mas era um partido recém criado, extremamente populista e que desapareceu logo depois de chegar ao poder, simplesmente porque não tinha ideologia e só se apoiava no fato da Suécia estar enfrentando uma das piores crises econômicas de sua história.

Aqui, assim como na Europa em geral, discute-se sempre a situação dos imigrantes, de quanto eles/nós custam/custamos à sociedade etc. Mas essas discussões nunca ganharam a proporção política de, por exemplo, a França de Sarkozy, que é usada como um exemplo a ser evitado: um escândalo quando extremismo é de tal forma sancionado pelo governo nacional que permite a perseguição de um grupo de pessoas baseado apenas em sua etnicidade.

Quem é europeu se lembra ainda da década de 30…

Mas a Suécia tem uma tradição de abertura e solidariedade. Ou pelo menos tinha. Agora o parlamento sueco entrou em crise. Isso porque os partidos de direita, apesar de terem ganho, não conseguiram alcançar uma maioria. Isso garante aos extremistas o poder de negociação. Se o governo quer passar leis/reformas etc vai ter que negociar com alguém… O primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt já disse que vai buscar aliança com o partido verde (o terceiro maior partido sueco), tudo para evitar de trabalhar com os extremistas.

Ontem à noite os social-democratas, os verdes e os de esquerda disseram que não vão trabalhar no parlamento com os extremistas. Os verdes também disseram que não vão trabalhar com o governo. Isso quer dizer que o parlamento sueco estará, em breve, paralisado. Especialistas acreditam inclusive que novas eleições terão de ser anunciadas em breve porque não há possibilidade de se governar o país sem uma maioria parlamentar.

Muito interessante. E apavorante. Pessoalmente acho a chegada de um partido extremista ao parlamento sueco uma tragédia nacional. A retórica desses caras têm sido: “Não criticamos os imigrantes, mas sim a política de integração sueca”. O que eles querem é que todos os imigrantes assimilem a cultura sueca até um ponto em que essas pessoas não mais sejam estrangeiras. Isso é de uma brutalidade tão fora de propósito que me deixa pasma.

Mas esse fenômeno não é novo na Escandinávia. Isso já foi dito na Dinamarca, outro país que hoje vive debaixo do reino de um partido de extrema direita, e onde uma série de leis restritivas contra imigrantes/imigração passaram pelo parlamento dinamarquês nos últimos anos. Sei de dinamarqueses que vêm morar na Suécia porque não podem se casar com estrangeiras e morar na Dinamarca, por exemplo. Coisas desse tipo. Uma vergonha.

Agora é esperar pra ver. E torcer para que os políticos dos partidos legitimamente democráticos saibam lidar com essa situação da melhor maneira possível. Eu, como imigrante, estou torcendo.

A palavra em sueco do dia é extremhögern, extrema direita.

Filed under: Europa & Escandinávia,Notícias do primeiro mundo — Maria Fabriani @ 08:10
 

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