Um dia, em casa. Silêncio. Ouco apenas a neve deslizando do teto da casa (um bom sinal); meus passos no chão; a madeira reclamando; o banho; a secadoura de roupas; o relógio da cozinha; o som do micro. Um pouco de rádio.
Que acordei às cinco da manhã com uma dor de cabeca lancinante ninguém diria. Estou ótima. O silêncio me faz bem. Fico espantada como senti falta da solitude de um dia passado em silêncio, sozinha, em casa.
Depois de decidir o que fazer de almoco, desligo o rádio, com o qual tenho uma relacão de amor e ódio. Gosto de música mas não gosto de barulho contínuo. Só quando me encontro em situacões onde não se pode pensar em nada mais elaborado, no carro por exemplo, é que o rádio é indispensável.
Tudo é absoluto prazer. Arrumo pequenas coisas; esquento um pedaco de omelete com brócolis, bebo água com uma rodela de limão espanhol, amarelo. A refeicão tem que levar pelo menos 15 minutos - tempo suficiente pro corpo dizer pro cérebro de que comida foi ingerida e já já é hora de se mandar sinais de satisfacão.
Hoje é sexta-feira. Estive resfriada a semana inteira. Fui trabalhar na terca e na quinta. Fiquei exausta porque estava difícil de respirar. Hoje resolvi ficar em casa para me recuperar de verdade. Liguei pro trabalho; falei com a chefe, que entendeu. E disse pra eu dar uma andada, “porque o dia está lindo”.
De fato, está. Sol, apenas três graus abaixo de zero. Eu pretendo sair, claro, quero andar. Mas… Nada no mundo é melhor do que a felicidade e o luxo de fazer o que você mais quer na hora em que você deseja.
E hoje, nesse momento, o que quero é deixar o silêncio me abracar, me deitar com o livro da Janet Frame e não me sentir tão estranha; aceitar que há quem goste - prefira! - a solitude à outros estados de socializacão. E que isso é OK.
Tomo café na minha xícara azul-cobalto, finlandesa, com uma coruja e um pavão e várias árvores coloridas. Linda. Estou tão feliz que fico assustada… e com vergonha.
A palavra em sueco do dia é tystnad, silêncio.