January 28, 2010

J.D. Salinger


J.D. Salinger
1919 - 2010

O escritor americano J.D. Salinger morreu na quarta passada em sua casa em New Hampshire, Estados Unidos, informou a editora de Salinger, Phyllis Westberg. Foi Salinger que escreveu “O apanhador no campo de centeio”, um dos meus livros favoritos, senão o favorito.

Tudo começou com o “Feliz Ano Novo Velho” de Marcelo Rubens Paiva. Li quando tinha uns 12, 13 anos e de vi no meio do texto o nome do livro de Salinger. Me lembro ainda que achei o título um tanto quanto estranho e não muito atraente. Mas comprei mesmo assim porque meu ídolo naquele momento era Marcelo Rubens Paiva. Tudo o que ele leu eu tinha que ler.

Aliás, vi também a peça “Feliz Ano Velho” com o Marcos Frota (versão anos 80, olhos azuis enooormes, uma coisa de boniteza) no papel principal com uma amiga de colégio. Depois vimos o ator ir comer na padaria da esquina e o seguimos. Minha amiga pediu um autógrafo e ele deu, muito simpático apesar de cansado. Eu fiquei paralizada ao lado, muda (Maria in a nutshell).

Bem. O protagonista, Holden Caufield, fala o livro todo sobre solidão, estar perdido, não ser bom o suficiente, ser rebelde, amar, não ser amado em retorno, revoltar-se, querer morrer, sorrir, se enternecer com o amor de um irmão mais novo. Em resumo, a minha vida. Li o “Apanhador” aos 13 anos pela primeira vez e não vi nada ali. Depois, quando as coisas começaram a ficar mais difícieis, lá pela puberdade, li novamente e parece que as coisas entraram no eixo. Foi como se eu entendesse uma língua estrangeira, o “Salingerismo”.

Além do Apanhador o Salinger publicou alguns contos. Li também muito nova, me lembro de quase nada. A New Yorker fez uma página em que os contos do Salinger, publicados na revista, podem ser lidos de graça! Aqui. (Dica da Cora)

Recomendo muito pra quem ainda não teve o prazer.

A palavra em sueco do dia é författare, escritor (a).

Filed under: Livros — Maria Fabriani @ 14:30

January 16, 2010

O Haiti é aqui

Haiti-räddad-660
Foto de Gerald Herbert/AP

A imagem é de Redjeson Hausteen Claude, menino de dois anos de idade, que, depois de ter ficado soterrado por dois dias nas ruínas de sua casa em Port-au-Prince, é saldo e vê a mãe. Tudo está no olhar dele. Alívio, alívio, alívio.
O Haiti é aqui mesmo… dentro do meu peito.

A palavra em sueco do dia é räddad, salvo(a).

Filed under: Elucubrações,Jornal,Variedades — Maria Fabriani @ 09:26

January 6, 2010

Está frio…

Assim, muito frio… Hoje é feriado, o equivalente do dia de reis. Acabamos de voltar de uma pequena viagem e estávamos os três meio geladinhos no carro. Brrr.

PS.: Bacana saber que ainda tem gente que continua lendo o Montanha. O diálogo abaixo é mais uma autocrítica, na verdade. Obrigada a todos vocês que se manifestaram.

A palavra em sueco do dia é kalt, frio.

Filed under: Europa & Escandinávia,Vidinha — Maria Fabriani @ 19:58

January 3, 2010

Jim Hahn's "Stormy Night at Sea"
Esse quadro chama-se “Stormy Night at Sea” e foi pintado por Jim Hahn

— Cê continua lendo o Montanha-Russa?
— Não, parei.
— Por quê?
— Ah, ela ficou tão chata depois do filho. Só fala dele e de como ela é sensível, essas coisas chatas.
— É, é verdade.
— Ela costumava escrever sobre uns lances bacanas, polêmicos e tals. Agora, nada.
— Chato, né?
— É. Ela diz que tudo o que ela escreve soa falso. Ela até usa uma palavra em inglês pra definir.
— Qual a palavra?
— “Corny”… Ela acha que tudo o que ela escreve é “corny”…
— O que que isso quer dizer?
— Ah, tipo cafona, chato e cansativo, mas com pretensão de ser original, entende?
— Ahã. Pena, né?
— É.

A palavra em sueco do dia é avbrott, interrupção.

Filed under: Irritação e ironia,Vidinha — Maria Fabriani @ 06:53

January 1, 2010

Hipersensitiva

Eu não acredito em coincidências. Quer dizer, até acredito, mas gostaria muito de não acreditar. De ser assim, racional. Mas, enfim. Às vezes certas coisas acontecem e você não pode deixar de pensar se isso de coincidência realmente existe (o que te leva a pensar na razão da coincidência ter acontecido…). Bom, estava lendo uma revista num dos poucos momentos de paz e solitude que tenho – no banhairo aqui de casa. Aí li a crônica de uma escritora sueca muito jovem, chamada Martina Lowden, que contava que ela é hiepersensitiva, e explicava que sentia tudo ao máximo, que se emocionava ao ver poesia em anúncios de pasta de dente, em vitrines e em manchetes dos jornais. Sentada na farmácia, foi ler uma revista de emagrecimento e se emocionou com o título da reportagem “Ganhei um novo coração”.

Me identifiquei totalmente com o que ela escreveu. O impacto que as palavras têm às vezes é intenso, abre portas que você não sabia que estavam ali, e você começa a descobrir sentido no meio das palavras, ali no espaço em branco, no cimento da construção das frases e meio que enlouquece. Seria ótimo se essa sensação fosse apenas positiva e se limitasse à criação literária, aos momentos em que um insight dá meio que um sopro no seu ouvido e voçê suspira, “Ahh”. Mas a coisa é assim: quem é hipersensitivo é hipersensitivo até quando não quer, quando é uma inconveniência sentir demais, interpretar demais, pensar demais. Aí você se magoa com quem é direto e honesto, aquelas pessoas que se gabam de serem verdadeiras e corajosas por dizerem “apenas a verdade”. Sabe aquelas que insistem em continuar falando enquanto você se recolhe toda, tal e qual um caramujo, visivelmente chocada com a crueldade humana? Pois é.

Aí anteontem à noite fui começar um livro novo. Tinha três escolhas: o manual de Joyce Carol Oates para escritores jovens, os diários de Silvia Plath e A Descoberta do Mundo, de Clarice Lispector. Todos intensíssimos. Escolhi Clarice, que ganhei do meu pai de natal. Vi que era um volume com as crônicas dela, escritas no Jornal do Brasil de 1967 até 1973. Fiquei radiante. De alguma forma a possibilidade de ler Clarice em corpo reduzido, em crônicas curtas, me pareceu mais apropriada. Isso porque, na verdade, fico emocionadíssima ao ler Clarice em português, de forma que agüento apenas algumas páginas por dia. (E por falar em hypersensibilidade… Quando a leio em português, é como se ela estivesse do meu lado na cama, sussurando as palavras no meu ouvido. Fica meio sobrenatural, compreende? Essa coisa de língua materna é profunda, chega pelo cérebro mas vai mais fundo do que qualquer outra coisa.)

Abri o livro aleatoreamente e dei de cara com a crônica chamada “Lembrança de filho pequeno”. Clarice descreve seu filho tomando um sorvete, o rostinho concentrado, a boca e a língua trabalhando na bola do gelado, o menino que não liga que a mãe o observe num momento tão íntimo. O barato disso é que finalmente posso me identificar com a Clarice. Não com a escritora, mas com a mãe que ela foi. A única diferença é que não escrevi tão lindamente o sentimento que dividimos. Isso porque eu também sinto a mesma coisa quando às vezes olho pro meu filho e reparo, realmente reparo nele, como ele olha, como ele fala, como ele franze o cenho, como ele fala com as mãos, como ele explica as coisas mais complicadas com a chupeta na boca, como ele ri e como ele chora. A sensação é de estar se afogando deliciosamente num líquido grosso e saboroso, que me enche até a borda. Fico ali, toda hipersensitiva, com um amor completo no peito, respirando. Virei anfíbia e não sabia.

A palavra em sueco do dia é hyperkänslig, hipersensitiva.

Filed under: De bem com a vida,Elucubrações,Livros — Maria Fabriani @ 11:54
 

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