August 27, 2009

Vidinha

Estou me segurando, controlando o possível - e constantemente eminente - pânico com essa coisa da gripe suína. Só se fala isso na TV e nos jornais. Quatro ou cinco nativos, todos jovens, respiram com a ajuda de aparelhos. No trabalho compraram uma bateria de álcool-gel, pra passar nas mãos de vez em quando. No final de setembro vai ter vacinação gratuita pra todo mundo.

Pra não ficar completamente pirada com meu esforço de não entrar em pânico, continuo lendo o diário de Joyce Carol Oates, que me inspira demais. Influencia meus sonhos, my way of life. É fantástico o fluxo de criatividade dela, de como as histórias simplesmente vêm e ela precisa sentar pra escrever. Já cheguei à 1979, mais da metade do livro, e não quero que acabe.

De resto, tudo ok.

Filed under: Eu ♥ a Suécia,Vidinha — Maria Fabriani @ 07:09

August 18, 2009

Afago

Segundo dia em que Max fica na escolinha o dia inteiro. O primeiro dia, ontem, foi ótimo, ele nem se deu conta do que estava acontecendo. Olhou pros pais (ambos tensos) e deu tchauzinho. Hoje foi uma coisa mais complicada. Veja bem, ele compreende tudo; sabe exatamente o que está pra acontecer e, claro, chora. Fica dizendo “mamãe, mamãe, mamãe, mamããããããããããeeeeeee!”

No local onde guardamos as roupinhas dele, tirei sapato, casaco e boné e ele desesperado, tentando tirar e guardar minha bolsa.

Saí de lá correndo. Não queria mais assistir à aflição dele, que ecoa direto dentro do meu peito e me faz me sentir a última das mulheres, a última das mães, uma vilã horripilante, sem coração. Disse rápido pra uma das três professoras, a única que já estava lá, que ia embora porque simplesmente não aguentava mais. Aflição, aflição, aflição.

Vim pro trabalho.

Aí o celular faz um barulhinho que indica que recebi uma mensagem de texto, aqui chamada SMS. Número desconhecido. A mensagem era: “Max começou a brincar antes de vocês terem saído do estacionamento e está agora super feliz. Disa.” Respondi, agradeci e disse que a mensagem dela era como um afago.

A palavra em sueco do dia é smekning, afago, carícia.

Filed under: Eu ♥ a Suécia,Max e a maternidade — Maria Fabriani @ 07:18

August 14, 2009

Dois anos de idade

IMG_1521 (Medium)

IMG_1527 (Medium)

IMG_1553 (Medium)

IMG_1584 (Medium)

A palavra em sueco do dia só poderia ser stolt, orgulhosa(o).

Filed under: Aniversários,Conquistas,De bem com a vida,Max e a maternidade — Maria Fabriani @ 05:05

August 10, 2009

Ser mãe é…

… identificar o cheirinho de cocô do seu filho no meio de um grupo de crianças pequenas, todas ainda usando fralda.

A palavra em sueco do dia é bajs, cocô.

Filed under: De bem com a vida,Max e a maternidade — Maria Fabriani @ 10:35

August 6, 2009

Aquelas coisas

Tentei. Não apenas uma vez, mas duas vezes. Tentei ler “Pilgrim at Tinker Creek”, de Annie Dillard, mas não consegui. O livro, escrito em 1972, é uma série de, uhm…, observações que a autora faz sobre a região onde mora, perto do tal do Tinker Creek, com as montanhas etc. A idéia do livro é bacana: páginas e mais páginas de observações sobre a fauna e a flora locais, uma narradora indiscutivelmente interessante, que, de quando em vez, mistura no texto considerações filosóficas.

Parece feito sob medida pra mim, mas não é. E o pior é que eu não sei explicar exatamente o porque de eu não gostar. O livro ganhou prêmios, a escritora é competentérrima, a premissa bacana, mas eu simplesmente me vejo pensando na morte da bezerra no meio da maioria das frases. Perco o fio da meada, volto atrás pra ver o que perdi. Quase como quando você conversa com uma pessoa que fala sem parar, você não aguenta, desliga a atenção e, de repente, ele/ela diz uma coisa interessante. Aí, você: “Peraí, oquêquecêdisse?”

Aí, quando já tinha alcançado a página 70, depois de dias de esforços, fiz o que nunca faço: li o final do livro. Não adiantou muito. Aí fui mais à frente e li o posfácio e uma parte chamada “Many Years Afterward”. Nessas seis páginas entendi o porque de eu não gostar do livro. A própria Annie Dillard, agora na casa dos 60 anos, escreve que tem meio que vergonha de como ela era autoritária e de como isso se projetou no livro, que é também pretencioso. Quer dizer, ela não escreveu isso in so many words, mas é mais ou menos isso que ela quis dizer. (Juro.)

Aí desisti. Sinceramente, desisti. Fui procurar alguma coisa decente pra reler. Acabei, como sempre, com minha querida Jenny Diski. Mas até essa paixão tem certos limites. Precisava de algo novo. A biblioteca pública de Boden está fechada para obras de maneira que a única coisa a fazer era encomendar livros bacanas. Mandei brasa uma manhã insone e acabei com “When you are engulfed in flames”, David Sedaris; “My life in France”, Julia Child e Alex Prud’homme; “Journal Of Joyce Carol Oates: 1973-1982”, Joyce Carol Oates; e “The Secret Diary of Adrian Mole, Aged 13 3/4”, Sue Townsend (que descobri depois de uma matéria que li no BoingBoing).

Os livros chegaram na sexta passada. Devorei o funny guy Sedaris primeiro. Gostei muito. Tem uma história conhecida, que ele usou num outro livro, mas o resto do material é novo. E legal. Não é um livro pra pensar, só pra curtir. Ele é engraçado e faz observações interessantes sobre si próprio e o seu mundinho. Gosto dele, gosto da atitude debochada dele, até porque não sei ser debochada e gostaria muito de ser (de quando em vez). Mas esse livro é menos “alegre” do que os outros. Sedaris vive desde há muitos anos em Paris e eu acho que ele mudou nesse tempo. Ficou menos doido, mais… uhm, europeu.

O da Julia Child eu não entendi direito porque comprei. Acho que pode ter sido apenas o resultado do impulso. Pode ser também porque estou numa trip de descorbrir meus dotes culinários (a última descoberta é que eu realmente sei cozinhar uma comidinha básica e aprendi a ver como massa de pão funciona). Vou ler e descobrir se foi um achado ou uma besteira. Os diários da Oates eu já queria ler há tempos, mas sei lá porque estava adiando. Perguntei pro meu pai se já tinha sido lancado em português, mas não. Aí comprei. Vai ser o último a ser lido, acho.

iwdayala0169cAí pensei bem e vi que o que me interessa (nesse momento) são histórias pessoais, escritores escrevem sobre seus pensamentos, sobre pessoas, acontecimentos mas principalmente sobre si próprios. (O livro do Adrian Mole, o único ficção da lista, pode ser visto como a exceção que confirma a regra.) E acho que foi isso que não gostei no Annie Dillard. A mulher é certamente ótima, ganhou o Pulitzer e tals, mas ela não é pra mim. Ela tá lá na casinha dela, no meio do nada, escrevendo sobre sapos que são chupados vivos por insetos, sobre esperanças (não o sentimento, mas o inseto), e eu, aqui no meu canto, com a cabeca a mil e a última coisa que eu quero saber é como a água do Tinker Creek congela durante o inverno.

(Aliás: o livro é cultíssimo entre a elite pensante norte-americana. Iinfelizmente, tenho que dizer que I didn’t got it. Acho que um componente que não pode ser esquecido é o fato que tentei ler o livro em inglês. Talvez meu inglês não seja bom o suficiente para lê-lo? É possível, é possível. Será que tem esse livro em português?)

A palavra em sueco do dia é bok, livro.

Filed under: Livros — Maria Fabriani @ 04:21

August 5, 2009

Navegar é preciso

odisseia

Então, em dezembro passado nos mudamos. Depois desse verão maravilhoso, começamos na segunda-feira na escolinha nova. Duas semanas de introdução. Primeiro dia, Max grita durante 15 minutos, se agarra em mim, chora, pede pra ir pra casa. Eu tento parecer forte, dou um sorrisinho amarelo pra todas as professoras da nova escolinha, sentadas no pátio. Olhando. O coração apertadinho no peito. Vontade de sair correndo, gritando, “foi tudo um engano, desculpe!!!”

Depois ele relaxa. Vê umas outras crianças andando de velocípede e vai lá investigar. Ele está quase descobrindo a mecânica do pedal, como interage com a perna dele e todo o resto. Mas o que ele gosta mesmo é de dirigir o velocípede na vala e depois carregá-lo de volta à pista. Tudo isso pra ganhar elogios da professora nova, que diz que ele é forte. E ele responde com um franzir de testa mais lindo do universo, fazendo cara de forte, compreende? Uma coisa.

Tem feito dias lindos aqui; melhor temperatura da Suécia inteira, dias lindos de sol maravilhoso, um atrás do outro. I am in awe. Estou até bronzeada! Não me lembro da última vez que fiquei dourada assim. O que aconteceu é que descobri um canto do jardim que serve como local de descanso/leitura/bronzeamento. E eu só quero ficar lá. Com meu filho em volta de mim, zoneando e gritando “mamãe, mamãe, mamããããããeeeeee” a cada 10 segundos.

Mas aí, a escolinha. Navegar é preciso. Segundo dia, ontem. Apesar do tempo espetacular, ficamos dentro da “sala de aula”, na verdade uma série de quartos, salas, amplos, cheios de brinquedos, almofadas etc. Max chorou/gritou apenas por cinco minutos. Foi brincar com os caminhões, investigou as bonecas, foi ver um espelho gozado pendurado na parede. Hoje meu urso está de folga e quer levar Max. É apenas uma hora por dia, pelo menos na primeira semana.

Sim, as professoras são ótimas, assim como na outra creche. Não tenho dúvidas que Max vai aprender muito lá, que vai fazer amigos, que vai se desenvolver, que vai crescer. Mas, ainda assim… Veja bem: não quero reclamar do irreclamável; do maravilhoso sistema sueco de creches (pago, mind you, mas ainda assim) que oferece às criancas dias ótimos e variados, comida saudável e muito carinho e às mães e pais a possibilidade de trabalho decente. Não. O que quero dizer aqui é uma coisa diferente. É o fato de eu morrer de paixão de deixar meu filho com quem quer que seja.

Penso nisso e me pergundo o inevitável: “Quem é essa pessoa?”

Bom, vocês que me lêem com olhos amigos sabem que sou dada a elucubracões (aqueles que me lêem com outros olhos pensam diferente, tipo “chata”, “problemática” ou “neurótica”, o que, pensando bem, é uma leitura muito acurada, hehe). Mas então. Não quero enlouquecer (novamente) o assunto creche. Sei que está tudo bem e que Max vai se adaptar eventualmente e que ele vai amar as professorinhas, todas, aliás, velhinhas, algumas até meio caquéticas – o que é ótimo, aliás. Eu acredito que quanto mais rugas mais paciência. Ele vai se adaptar. Com certeza.

O problema aí sou eu, cara pálida. Quando é que eu vou parar de sentir esse medo, de deixar meu filho com esse pessoal? Quando é que essa odisséia termina?

A palavra em sueco do dia é inskolning, adaptação na escola.

 

Bad Behavior has blocked 545 access attempts in the last 7 days.