Tentei. Não apenas uma vez, mas duas vezes. Tentei ler “Pilgrim at Tinker Creek”, de Annie Dillard, mas não consegui. O livro, escrito em 1972, é uma série de, uhm…, observações que a autora faz sobre a região onde mora, perto do tal do Tinker Creek, com as montanhas etc. A idéia do livro é bacana: páginas e mais páginas de observações sobre a fauna e a flora locais, uma narradora indiscutivelmente interessante, que, de quando em vez, mistura no texto considerações filosóficas.
Parece feito sob medida pra mim, mas não é. E o pior é que eu não sei explicar exatamente o porque de eu não gostar. O livro ganhou prêmios, a escritora é competentérrima, a premissa bacana, mas eu simplesmente me vejo pensando na morte da bezerra no meio da maioria das frases. Perco o fio da meada, volto atrás pra ver o que perdi. Quase como quando você conversa com uma pessoa que fala sem parar, você não aguenta, desliga a atenção e, de repente, ele/ela diz uma coisa interessante. Aí, você: “Peraí, oquêquecêdisse?”
Aí, quando já tinha alcançado a página 70, depois de dias de esforços, fiz o que nunca faço: li o final do livro. Não adiantou muito. Aí fui mais à frente e li o posfácio e uma parte chamada “Many Years Afterward”. Nessas seis páginas entendi o porque de eu não gostar do livro. A própria Annie Dillard, agora na casa dos 60 anos, escreve que tem meio que vergonha de como ela era autoritária e de como isso se projetou no livro, que é também pretencioso. Quer dizer, ela não escreveu isso in so many words, mas é mais ou menos isso que ela quis dizer. (Juro.)
Aí desisti. Sinceramente, desisti. Fui procurar alguma coisa decente pra reler. Acabei, como sempre, com minha querida Jenny Diski. Mas até essa paixão tem certos limites. Precisava de algo novo. A biblioteca pública de Boden está fechada para obras de maneira que a única coisa a fazer era encomendar livros bacanas. Mandei brasa uma manhã insone e acabei com “When you are engulfed in flames”, David Sedaris; “My life in France”, Julia Child e Alex Prud’homme; “Journal Of Joyce Carol Oates: 1973-1982”, Joyce Carol Oates; e “The Secret Diary of Adrian Mole, Aged 13 3/4”, Sue Townsend (que descobri depois de uma matéria que li no BoingBoing).
Os livros chegaram na sexta passada. Devorei o funny guy Sedaris primeiro. Gostei muito. Tem uma história conhecida, que ele usou num outro livro, mas o resto do material é novo. E legal. Não é um livro pra pensar, só pra curtir. Ele é engraçado e faz observações interessantes sobre si próprio e o seu mundinho. Gosto dele, gosto da atitude debochada dele, até porque não sei ser debochada e gostaria muito de ser (de quando em vez). Mas esse livro é menos “alegre” do que os outros. Sedaris vive desde há muitos anos em Paris e eu acho que ele mudou nesse tempo. Ficou menos doido, mais… uhm, europeu.
O da Julia Child eu não entendi direito porque comprei. Acho que pode ter sido apenas o resultado do impulso. Pode ser também porque estou numa trip de descorbrir meus dotes culinários (a última descoberta é que eu realmente sei cozinhar uma comidinha básica e aprendi a ver como massa de pão funciona). Vou ler e descobrir se foi um achado ou uma besteira. Os diários da Oates eu já queria ler há tempos, mas sei lá porque estava adiando. Perguntei pro meu pai se já tinha sido lancado em português, mas não. Aí comprei. Vai ser o último a ser lido, acho.
Aí pensei bem e vi que o que me interessa (nesse momento) são histórias pessoais, escritores escrevem sobre seus pensamentos, sobre pessoas, acontecimentos mas principalmente sobre si próprios. (O livro do Adrian Mole, o único ficção da lista, pode ser visto como a exceção que confirma a regra.) E acho que foi isso que não gostei no Annie Dillard. A mulher é certamente ótima, ganhou o Pulitzer e tals, mas ela não é pra mim. Ela tá lá na casinha dela, no meio do nada, escrevendo sobre sapos que são chupados vivos por insetos, sobre esperanças (não o sentimento, mas o inseto), e eu, aqui no meu canto, com a cabeca a mil e a última coisa que eu quero saber é como a água do Tinker Creek congela durante o inverno.
(Aliás: o livro é cultíssimo entre a elite pensante norte-americana. Iinfelizmente, tenho que dizer que I didn’t got it. Acho que um componente que não pode ser esquecido é o fato que tentei ler o livro em inglês. Talvez meu inglês não seja bom o suficiente para lê-lo? É possível, é possível. Será que tem esse livro em português?)
A palavra em sueco do dia é bok, livro.