April 30, 2009

Hohoho

E hoje é aniversário do rei Carlos Gustavo da Suécia e também o feriado de valborg, que é quando os suecos dizem alô pra primavera. O costume é se juntar num campo qualquer, fazer uma fogueira enorme (grande mesmo), tacar fogo e ficar olhando queimar. Como todas as festas daqui, essa também envolve bebidas alcoólicas aos cântaros. Mas tirando isso, é um feriado bacana.

Acho legal essa coisa de fazer fogueira, de queimar tudo quanto é velho e abrir espaço pro novo. Imagina poder fazer uma faxininha mental de quando em vez? Seria ótimo. Se não me engano, esse feriado tem um lance de umas bruxas, que seriam mandadas embora, ou coisa que o valha, mas estou sem tempo/saco de procurar a história certa hoje. O legal é que está um tempo lindo, sol, calor (10 graus positivos, meus queridos, é a glória!)

A palavra em sueco do dia é majbrasa, fogueira de maio.

Filed under: De bem com a vida — Maria Fabriani @ 14:33

April 21, 2009

O medo e o medo do medo

Então, essa coisa de ser crítica comigo mesma é muito trabalhoso. Exige muita energia e trabalho pra melhorar uma coisa que, na realidade, já é boa, na sua maioria, ok, e, às vezes, até ótima. Quem me acompanha no meu blog de livros sabe que ando lendo menos ficção atualmente. Estou numa fase de estudos. Tenho a sensação de que preciso aprender a reconhecer que sou uma pessoa-mãe-amiga-mulher legal, por vezes até bem legal.

Li “I trygghetsnarkomanernas land: Sverige och det nationella paniksyndromet” ou “No país dos viciados em segurança: a Suécia e a síndrome nacional do pânico”, do psiquiatra David Eberhard, e aprendi que meu medo é um fato comum, aceito e encorajado socialmente. Li “I huvudet på en mamma” ou “Na cabeça de uma mãe”, da jornalista Hanne Kjöller, e aprendi que meu pânico pelo resultado da equação Max+perigos é um fato comum, aceito e encorajado socialmente.

Aí parei pra pensar (quando finalmente tive tempo, agora, durante meus dias de folga) e reparei como estava amedrontada, com tudo e todos. Cada situação era uma ameaça, um problema a ser resolvido, tragédias a serem evitadas. Minha vida, que é muito feliz, estava ficando limitadíssima, o que é um fato muito impressionante, se levarmos em conta que sempre fui muito pra frentex e pouco medrosa. Cadê a minha ousadia de que tanto me orgulhava?

Ela está aqui no meu peito, perto do meu coração, junto à tudo que descobri sobre mim nesses 37 anos e que guardo com muito amor e cuidado. Mas a Maria Ousada andava sumida, de férias, ausente. Pra resgatá-la, comecei então a me informar. Meu próximo passo depois dos livros acima é saber mais sobre duas teorias desenvolvidas por Donald Winnicott, pediatra e psicanalista britânico (1896-1971). O que me interessa particularmente são: Holding Environment e Good-Enough Mother.

O Holding Environment pode ser descrito como um ambiente tanto físico como psíquico em que o bebê é protegido sem saber que é protegido. Aqui é crucial que a mãe esteja presente quando necessário para poder interpretar as necessidades do filho. E aí entra o conceito da Good-Enough Mother. Além de estar presente e interpretar, essa mãe, que é boa o suficiente, precisa interpretar direito as necessidades do filho e adaptar, então, suas respostas às necessidades da criança.

Tenho uma série de questionamentos à essas teorias, mas principalmente à da mãe-boa-o-suficiente: Uma delas: ela foi criada por um homem burguês rico, branco e europeu, nascido no século 19. Outra: como mãe (quase) quero acreditar que as mães são especiais, quer dizer mais especiais do que os pais. Mas na verdade, não sei se acredito nisso. Aqui em casa foi assim: fiquei em casa até Max completar quatro meses. Quando consegui um emprego, meu urso tirou licença paternidade e ficou com Max até ele completar um ano, quer dizer, muito mais tempo do que eu.

Hoje Max é, acredito, saudavelmente apegado à mim e ao pai, de forma bem igual. Aqui me resguardo: essa sensação pode, claro, ser uma ilusão. Sabe-se lá o que meu filho vai achar disso tudo quando ele virar adolescente. Mas, sinceramente, até o presente momento, sinto um gut feeling que estamos, eu e meu urso, fazendo tudo certinho - ou, mais provavelmente, menos erradinho. Só o tempo dirá. Me pergunte novamente em 2021.

A palavra em sueco do dia é tillräcklig, suficiente.

Filed under: Elucubrações,Livros,Max e a maternidade — Maria Fabriani @ 08:19

April 20, 2009

*Puff*

Há muito tempo queria voltar a escrever, só não sabia sobre o quê. Até que a páscoa chegou, fiquei de folga uns diazinhos e a vontade tomou conta. Comecei e apaguei, recomecei e apaguei novamente. Deixei de lado. Tudo soava tão falso! Por outro lado, sei também que sou uma das pessoas mais críticas que conheco. Tenho dificuldades de liberar qualquer texto porque sempre acho que está horrível.

Mas, sem medo de soar esotérica (mentira, com medo!), acredito que quando nos decidimos por fazer alguma coisa, assim aquela Decisão, com d maiúsculo, então nos abrimos pro mundo e pescamos sinais e eventos que reforçam a decisão em si. Quer dizer, minha vontade de escrever era tanta que me decidi e, por isso, comecei a reparar em várias coisas que me ajudaram a chegar até aqui, sentar e mandar brasa.

Aí, ontem à tarde, Max dormindo sua soneca do meio dia, fui assistir TV. Tava ventando muito, me enrolei nos cobertores da sala (tenho dois; um pras costas e outros pros meus pés, também conhecidos como pedras de gelo) e vi uma entrevista com uma das minhas escritoras favoritas all times, Joyce Carol Oates (JCO). (Gosto tanto dela que queria até fazer uma coisa incrivelmente cafona e batizar a filha que nunca tive com o nome dela.)

Bom, na entrevista, feita à propósito do lançamento sueco da primeira parte dos diários dela entre os anos 1973-1982, JCO comenta sobre o ato de escrever: “Esses jovens que andam de um lado pro outro com música nos ouvidos provavelmente não se tornarão escritores, porque pra escrever é preciso pensar.” E mais: “Quem é feliz não escreve, simplesmente porque não se tem tempo de parar para escrever.”

Isso dito por uma das escritoras mais prolíferas da atualidade, repare bem. (Nota da redação: Logo depois de dizer isso ela olhou pra baixo e contou que o marido com quem ficou casada por mais de 40 anos morreu ano passado.) JCO diz que é muito importante escrever um diário, principalmente pra escritores, e que ela nunca é má com quem quer que seja nos seus diários. E eu acredito nela.

Mas JCO faz tudo parecer tão simples. E eu aprecio simplicidade, veja bem, porém sou incapaz de agir e pensar de forma simples. Sou um Salieri rococó que admira e inveja os Mozarts que conseguem passar pela vida vendo as coisas como elas são, sem desvios, distorsões ou interpretações negativas. E isso se estende a tudinho: do trabalho à maternidade, do amor à criação de textos.

Mas aí entra em cena uma camada de experiência aprendida com meus anos como repórter: tá em dúvida de como escrever um texto? Começa de qualquer jeito, você descobre a maneira certa no caminho. E aqui estamos nós, amigos. Perdi as contas de quantas vezes comecei a escrever esse post e, quando realmente relaxei, os sete parágrafos acima brotaram assim, *puff*.

Tudo bem com vocês? Quem bom. Glad to be back.

A palavra em sueco do dia é återkomst, retorno.

Filed under: De bem com a vida,Elucubrações,Vidinha — Maria Fabriani @ 08:11
 

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