Pré-escola e feminismo
Primeiro dia em que deixei Max na escolinha e vim pra casa. Ele vai almoçar e tirar a soneca do meio-dia lá. Voltei pra casa e encontrei o apartamento vazio, silencioso. Fui botar roupa pra lavar, louça na máquina, fervi as mamadeiras e as (muitas) chupetas, fiz a cama, fui tomar banho (e usei o sabonete de Max) e aqui estou, meio sem saber o que fazer.
Não posso deixar de dizer que estou feliz da vida. Finalmente posso ler, olhar a chuva, fazer nada. Tenho certeza que Max está numa boa lá, com os amiguinhos dele, com as professoras e com os brinquedinhos da escola. As professoras, Inger, Siv e Margit, são ótimas. Elas têm, cada uma, 30 anos de experiência com o trabalho com crianças e já participaram da adaptação de centenas de pequenos.
Aí, como mãe, eu me sinto feliz por saber que meu filhinho está em boas mãos. E penso também em Alva Myrdal, uma diplomata nativa, socialdemocrata, que foi fundamental para o desenvolvimento das escolinhas públicas suecas, capazes de tomar conta de crianças pequenininhas até os cinco anos de idade, para que os pais - mas principalmente as mães - possam trabalhar.
Alva escreveu com o marido, Gunnar, o livro “Kris i befolkningsfrågan”, publicado em 1934, e que foi um dos mais polêmicos livros de sua época. O título traduzido é “Crise na questão da população”. O principal argumento do casal Myrdal é que a responsabilidade pela criação e educação das crianças suecas deveria ser dividida pelos pais e pelo estado, que empregaria pedagogos profissionais para a tarefa.
No ano seguinte Alva publicou um outro livro, “Stadsbarn” (“Criança da cidade”) onde apresentou idéias de que as escolinhas suecas deveriam funcionar segundo moderna psicologia infantil. Alva Myrdal teve três filhos, foi ministra no governo sueco de 1966 a 1973 e recebeu o prêmio Nobel da paz em 1982 (dividido com o mexicano Alfonso García Robles).
Uma mulher interessantérrima. Ainda mais porque um dos filhos dela, Jan, cortou relações com a família, culpou o pai de ser um déspota e a mãe de ser fraca. Vi há um tempo um documentário em que se mostrava a obcessão do marido, Gunnar, por Alva, que a teria impedido de dedicar mais tempo aos filhos. As imagens de Alma são conflitantes e, por isso mesmo, interessantes.
Para alguns Alva era uma engenheira social que defendia a higiene da raça (lembrem-se que estamos na Europa da décade de 30) e a esterilização em massa. Outros acham que ela era uma pedagoga que colocou as crianças no centro pela primeira vez. Alguns acreditam que ela era a mãe que deixou seus filhos com outros pra fazer sua carreira, enquanto alguns acreditam que ela era uma feminista que abriu caminho para as mulheres combinarem família e trabalho.
Não é a toa que depois da minha querida Doris Lessing o próximo livro a ser lido é “Det tänkande hjärtat : boken om Alva Myrdal” (“O coração pensante: o livro sobre Alva Myrdal”).
A palavra em sueco do dia é förskola, pré-escola.




Então, agitamos nesse final de semana. No sábado fomos ver o navio 