August 27, 2008

Pré-escola e feminismo

Primeiro dia em que deixei Max na escolinha e vim pra casa. Ele vai almoçar e tirar a soneca do meio-dia lá. Voltei pra casa e encontrei o apartamento vazio, silencioso. Fui botar roupa pra lavar, louça na máquina, fervi as mamadeiras e as (muitas) chupetas, fiz a cama, fui tomar banho (e usei o sabonete de Max) e aqui estou, meio sem saber o que fazer.

Não posso deixar de dizer que estou feliz da vida. Finalmente posso ler, olhar a chuva, fazer nada. Tenho certeza que Max está numa boa lá, com os amiguinhos dele, com as professoras e com os brinquedinhos da escola. As professoras, Inger, Siv e Margit, são ótimas. Elas têm, cada uma, 30 anos de experiência com o trabalho com crianças e já participaram da adaptação de centenas de pequenos.

Aí, como mãe, eu me sinto feliz por saber que meu filhinho está em boas mãos. E penso também em Alva Myrdal, uma diplomata nativa, socialdemocrata, que foi fundamental para o desenvolvimento das escolinhas públicas suecas, capazes de tomar conta de crianças pequenininhas até os cinco anos de idade, para que os pais - mas principalmente as mães - possam trabalhar.

Alva escreveu com o marido, Gunnar, o livro “Kris i befolkningsfrågan”, publicado em 1934, e que foi um dos mais polêmicos livros de sua época. O título traduzido é “Crise na questão da população”. O principal argumento do casal Myrdal é que a responsabilidade pela criação e educação das crianças suecas deveria ser dividida pelos pais e pelo estado, que empregaria pedagogos profissionais para a tarefa.

No ano seguinte Alva publicou um outro livro, “Stadsbarn” (“Criança da cidade”) onde apresentou idéias de que as escolinhas suecas deveriam funcionar segundo moderna psicologia infantil. Alva Myrdal teve três filhos, foi ministra no governo sueco de 1966 a 1973 e recebeu o prêmio Nobel da paz em 1982 (dividido com o mexicano Alfonso García Robles).

Uma mulher interessantérrima. Ainda mais porque um dos filhos dela, Jan, cortou relações com a família, culpou o pai de ser um déspota e a mãe de ser fraca. Vi há um tempo um documentário em que se mostrava a obcessão do marido, Gunnar, por Alva, que a teria impedido de dedicar mais tempo aos filhos. As imagens de Alma são conflitantes e, por isso mesmo, interessantes.

Para alguns Alva era uma engenheira social que defendia a higiene da raça (lembrem-se que estamos na Europa da décade de 30) e a esterilização em massa. Outros acham que ela era uma pedagoga que colocou as crianças no centro pela primeira vez. Alguns acreditam que ela era a mãe que deixou seus filhos com outros pra fazer sua carreira, enquanto alguns acreditam que ela era uma feminista que abriu caminho para as mulheres combinarem família e trabalho.

Não é a toa que depois da minha querida Doris Lessing o próximo livro a ser lido é “Det tänkande hjärtat : boken om Alva Myrdal” (“O coração pensante: o livro sobre Alva Myrdal”).

A palavra em sueco do dia é förskola, pré-escola.

August 14, 2008

Um ano!

Demorei pra publicar o post do primeiro ano porque as festividades me impediram. Teve festa na quinta (eu estava de folga), com a família, e ontem, sábado, com os amigos. Muitos presentes, muitos sorrisos, muitos beijos. Max está quase andando sozinho, como podem ver na foto acima. O carrinho ainda é uma ajuda indispensável, mas ele já está quase perdendo a paciência com a lentidão das rodinhas.

E agora é se preparar para o que vem amanhã, segunda. Pois é, amanhã eu e Max vamos pra escolinha, começar a fazer a adaptação dele. Tirei duas semanas de férias pra poder estar presente durante todo o tempo necessário. Não posso dizer que a adaptação é apenas pra Max. Eu é que preciso me adaptar a confiar o meu filho a outra pessoa que nunca vi na vida. Já disse à ela (chama-se Inger), que estou com angústia.

Ela riu. Não um riso de ironia, mas um riso de reconhecimento. E eu gostei dela.

As palavras em sueco do dia são ett år, um ano.

Filed under: Aniversários,Conquistas,De bem com a vida,Max e a maternidade — Maria Fabriani @ 07:19

August 12, 2008

Pra frentex

Teve uma moça que me escreveu perguntando se na Suécia existiam adoções. Desculpe, esqueci teu nome, mas aqui vai um textinho sobre o assunto. Em se tratando de crianças nascidas aqui, as adoções são raríssimas. As mais freqüentes no entanto são aquelas realizadas por um padrasto ou madrasta, que adota o(a) filho(a) de seu(sua) companheiro(a).

Na lei de serviço social, segundo a qual trabalho, não tem sequer um capítulo sobre adoção. Há sim, alguns parágrafos em que se trata apenas de adoções internacionais. Essas sim são muito comuns por aqui. Os países mais visitados por casais suecos para adoção são China, Índia e Coréia do Sul, mas há também contatos com orfanatos na América Latina e na África.

A lei do serviço social prevê a intervenção do estado quando uma criança é maltratada pelos pais biológicos de alguma forma, ou caso os pais tenham problemas de vícios de drogas ou álcool. A regra é essa: o serviço social identifica o problema e, durante o tempo de avaliação, coloca a criança temporariamente numa casa de família (fostercare, em inglês).

Em outros países do mundo desenvolvido, tipo EUA, essas crianças são mais facilmente adotadas pelos pais postiços. Aqui na Suécia, no entanto, isso é mais difícil já que a intenção é sempre a de reunir a criança com seus pais biológicos. Há uma crença forte na recuperação de quem tem problemas com vícios. Todo o trabalho social é voltado exatamente para recuperação de quem tem problemas.

O fato de quase não existirem adoções de bebês suecos deve-se também a outros fatores. Principalmente ao fato da Suécia ser um país tão desenvolvido no sentido da educação sexual e informação contraceptiva. As crianças têm aula de “samlevnad”, quer dizer, coexistência, desde pequenos no colégio. Lá eles aprendem o que é pílula anticonceptional, como se usa camisinha e coisas desse tipo.

O acesso a “pílula do dia seguinte”, por exemplo, é facilitado ao extremo. Quem quer que seja pode ir a uma farmácia e comprar um pacote direto na prateleira. Quer tomar pílula anticoncepcional? Ótimo, vai ao ambulatório perto da sua casa e pede pro médico que ele não faz perguntas e manda a receita eletronicamente pra farmácia.

Além disso, o direito ao aborto é garantido por lei desde 1974. Toda e qualquer mulher sueca pode ir a um ambulatório é pedir para fazer um aborto até a 18 semana de gestação. Ajuda médica e psicológica são oferecidas na hora. Uma estatística do órgão de saúde pública sueco (Socialstyrelsen) mostra que durante o ano de 2007 foram feitos 37 205 abortos na Suécia.

O que eu acho disso? Eu acho que deveria ser mais fácil a adoção interna de crianças em fostercare. Muitas vezes os pais das crianças têm problemas que dificilmente encontram solução e aí resta à criança ficar em perpétuo limbo, no meio de duas famílias, sem poder se apegar a nenhuma das duas. Sobre as facilidades médicas pra prevenção (incluindo aborto), eu acho tudo Ó-T-I-M-O.

A palavra em sueco do dia é rätt, certo.

Filed under: Eu ♥ a Suécia,Europa & Escandinávia — Maria Fabriani @ 14:52

August 5, 2008

Viking

No domingo fomos visitar a Hängan, um museu ao ar livre que estava tendo um fim-de-semana viking. Museu ao ar livre é sinônimo de conjunto de casas antiquérrimas, com valor histórico, trazidas de vários lugares da região para completar a exposição. Tinha tendas vikings, show com espadas e vestimentas de época, jóias liiiiindas, o maior barato. Além de ver as construções, experimentamos arco e flexa (sou ótima!), vimos bichos, cavalos, coelhos, galinhas e os nossos favoritos, os porcos. Bacanérrimo.

A palavra em sueco do dia é tidsmaskin, máquina do tempo.

Filed under: De bem com a vida,Eu ♥ a Suécia,Europa & Escandinávia,Vidinha — Maria Fabriani @ 05:59

August 4, 2008

Atividades

Sempre achei um fenômeno aquelas famílias que participam de mil e uma atividades nos finais de semana, mesmo depois dos pais terem trabalhado a semana toda, nine to five ou mais. Eu, a namorada=>juntada=>casada que nunca pensou em ter filhos (de verdade), me jogava no sofá e imaginava que coisa chata ter que fazer alguma coisa quando tudo o que se quer na vida é dormir. Mas aí a maré mudou e acabei mãe de um rebento acessícimo e, mais, achando o maior barato ir fazer coisas legais nos meus dias de folga. Quem diria.

Então, agitamos nesse final de semana. No sábado fomos ver o navio Ostindiefararen Götheborg, que é uma beleza sem tamanho. É uma réplica do navio original, que afundou perto da Suécia em 12 de setembro de 1745, depois de sua terceira viagem à China. Esqueci a câmera em casa e, depois de ficar danada da vida comigo mesma durante uns dois minutos, resolvi o problema tirando fotos com o celular do meu urso. Todas ficaram assim assim. Mas o navio é esse aí da foto oficial, ao lado. O navio fez uma viagem até a China, além de outras tantas, foi batizado pelo rei Carlos Gustavo e tals. Lindo, não?

Comprei um chaveirinho com um nó náutico bonitinho pra presentear meu urso. Ele ficou todo contente, só faltava fazer planos de comprar um barco e sair navegando pelos sete mares. (Sozinho, porque eu quero mais é terra firme e banheiro com bidê, obrigada.) O problema é que o diabo do chaveirinho é banhado em alcatrão (tar, en inglês), aquela coisa que os marinheiros usavam nas cordas dos navios. O treco empesteou o apartamento todo. Meu urso acha o máximo, coisa de sueco que associa alcatrão a verões passados al mare.

A palavra em sueco do dia é gammal, velho, antigo.

Filed under: De bem com a vida,Eu ♥ a Suécia,Europa & Escandinávia,Vidinha — Maria Fabriani @ 07:00

August 1, 2008

”Silêncio, old man!”

Contei que vi ”Juno” em DVD? Pois é, há muito tempo não ficava tão ligada num filme como fiquei nesse. Gostei principalmente dos diálogos. Vi que o roteiro foi escrito por Diablo Cody (ela tem um nome de batismo, mas que é convencional demais pra ela) me lembrei que já tinha ouvido falar dela. Achei que era ela que foi casada com o Marilyn Manson, mas estava errada.

Vi na pequena biografia escrita por uma fã no IMDB, que ela nasceu em Chicago em 1978 e que exerceu durante um tempo a profissão de stripper. Continuei lendo, pra saber se tinha alguma coisa na bio dela que explicasse tal fato e acabei achando: ela estudou num colégio (high school) católico (eu tenho uma tese de que as mentes mais brilhantes da comédia fazem parte das grandes religiões organizadas, catolicismo, judaismo, islamismo).

Aí li mais um pouco e achei que ela escreveu um livro! Chama-se Candy Girl: A Year in the Life of an Unlikely Stripper, lançado em 2005. E mais: ela tem um blog! E ainda mais: ela começou a carreira bem sucedidérrima como screenwriter escrevendo no blog! Bacanérrima a matéria da Wired sobre isso.

Veja só você. O que eu acho disso? Acho ótimo. Ainda não viu “Juno”? Vai lá ver, vai. Vale a pena.

(P.S.: Geralmente tenho horror de gente que escreve dando ordens a quem lê, tipo a frase que escrevi aí em cima. O que acontece comigo é que meu nervo rebelde recebe um golpe fortíssimo e eu faço questão de não fazer o que a pessoa que escreveu quer que eu faça. Por isso nunca dou ordens aqui, apesar disso aqui ser o meu pedaço no ciberespaço. Mas, dessa vez, vale a pena.)

A palavra em sueco do dia é knasig, maluquéti.

Filed under: Cinema e televisão,De bem com a vida,Vidinha — Maria Fabriani @ 07:06
 

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