July 30, 2008

Very superstitious

O mundo inteiro já deve saber, mas eu acabei de descobrir: o gosto estético de uma pessoa depende muito do seu background cultural. Outro dia fomos visitar uma parte da família sueca. A casa, lindíssima, é bem decoradérrima, com sofás pretos, quadros e esculturas cuidadosamente escolhidas (uns legais outros menos) e, bem ao estilo escandinavo, linhas retas e sem firulas.

A decoração fica completa com pequenos detalhes coloridos, o que contribui para acentuar as linhas elegantes da sala, da cozinha (aqui, cozinha é coisa séria. Me lembrem de escrever sobre as cozinhas suecas, por favor), da casa toda. Mas aí tem a questão das velas, objetos comuns na decoração das casas daqui. As velas escolhidas eram pretas. E daquelas grandes, o que qualquer brasileiro de meia-tigela identifica como aquelas “de despacho”.

Eu não sou uma pessoa ligada a religião, vocês sabem, mas respeito quem é, etc e tal. Mas a coisa cultural é um buraco que está mais embaixo do que eu esperava. Nunca, em minhas 37 primaveras, sequer considerei a compra de uma vela preta com a intenção de decoração (nem como nenhuma outra intenção, mind you). Ver a velona lá, no meio da mesa, toda decorada com pequenas pedrinhas rolicinhas, imitando um ar marinho, me deu um susto.

Também não compro velas vermelhas (a não ser que seja natal). Me considero uma compradora de velas conservadora: gosto das beges, amarelas e das verdes, eventualmente das azuis. Mas isso depende muito se a vela é cheirosa ou não. Volta e meia invisto numa vela carérrima sueca, da marca Sia, que é ótima. O cheiro da de baunilha é levíssimo, quase imperceptível, mas ainda assim deixa um perfume delicioso no ambiente.

Aquelas velas cor-de-rosa com perfume de flores me deixam enjoada. Pra mim tem que ser delicado, senão não dá. A vela preta da casa dos familiares suecos não era cheirosa (imagino qual o cheiro que se colocaria numa vela preta?) e nem foi acesa, porque até de noite tínhamos luz do sol. Explicamos o por quê de nossa reticência com as velas pretas para os gentis porém atônitos anfitriões. Seria interessante saber o que eles pensaram disso.

A palavra em sueco do dia é vidskeplig, supersticioso(a).

Filed under: Elucubrações,Europa & Escandinávia,Vidinha — Maria Fabriani @ 06:43

July 29, 2008

O boicote

É muito engraçado: quando recomeço a escrever aqui, parece que abrem-se as porteiras da minha cachola e várias idéias pululam, tentando chamar minha atenção, tipo assim, “me escreva! me escreva!”. O problema é que na sua maioria essas idéias são apenas pequenas pedrinhas de pensamento, coisas que ando matutando há tempos mas não sei como desenvolver. Mas, como estou atualmente me jogando de cabeça nisso aqui, lá vai.

Gosto de esporte - principalmente daquele praticado pelos outros e ao qual possa assistir aconchegada no meu sofá - mas essa coisa da olimpíada chinesa me tira do sério. Há semanas meu jornal escreve uma série de reportagens sobre as mudanças que os chineses estão tendo que enfrentar pelo “bem maior”, a coisa do desenvolvimento etc e tal. E é um tal de famílias sendo forçadas a deixar suas casas habitadas a decênios, gente sofrendo, criança chorando, famílias separadas pela mão inclemente do partido.

Sem falar nos jornalistas aprisionados por criticarem o regime, aquela coisa feita de homens para homens. Isso, aliás, me provoca deveras: repare bem nas imagens das reuniões dos parlamentos de China, Rússia, Irã etc. Só tem homem. Isso é um dos maiores absurdos da face da terra. Aí você vai ver quem são os agraciados dos prêmios humanitários europeus, só dá mulher iraniana, paquistani, vietnamesa. Não há então como negar que vontade de mudar existe, só que as mulheres desses países têm uma dificuldade imensa de penetrar o establishment político e econômico local.

Mas, voltando à vaca fria: vou boicotar as olimpíadas. Não, vocês não me veríam mesmo desfilando sob a bandeira brasileira no estádio estranhão de Pequim, mas meu sofá vai ter uma chance de recuperação durante as duas semanas dos jogos. Meu boicote será facilitado pelo fato de eu trabalhar muito e de passar o resto do meus momentos livres com Max, além do horário ingrato dedicado às competições por conta do fuso horário. Porém: boicote ou não, torcerei intensivamente e à distância pelo vôlei brasileiro.

A palavra em sueco do dia é bojkott, boicote.

Filed under: Cinema e televisão,De bem com a vida,Vidinha — Maria Fabriani @ 06:39

July 28, 2008

Exigente

Tô passando por uma dificuldade enorme de encontrar livros que goste de ler. Não pode ter qualquer referência a crianças (principalmente meninos) que sofrem, são mortos, têm fome (emocional ou física), são seqüestrados ou coisas que o valha. Não quero ler sobre sofrimento desemfreado, aquela coisa tão crua que me dá angústia. Também não estou interessada em ler ficção metida a besta ou romances que investigam novas formas em detrimento do conteúdo.

O que quero tem que ser leve sem ser leviano, simples sem ser simplório, concentrado sem ser curto e grosso. Quero que o livro que escolher me resgate da minha realidade rame-rame mas, ao mesmo tempo, me faça pensar. Que me surpreenda, me deixe de queixo caído, me inspire, me dê algo em troca das horas investidas lendo as páginas do livro. Se um livro me garantir apenas uma dessas coisas listadas aí em cima já estou feliz.

Tava pensando em investigar Jenny Diski mais uma vez. Mas como já li tudo não-ficção dela, achei melhor não prosseguir (medo de uma possível decepção). Um dos últimos livros que li e que me deixou feliz da vida foi um do Dennis Lehane, “Shutter Island”. Fui tentá-lo novamente e me deparei com “Gone, baby, gone”. Li, lá em 2006, antes da minha vida mudar. Agora voltei aos clássicos, como Truman Capote (ótimo) e Tolstoi, por segurança.

Dois livros da Doris Lessing (ambos da série Martha Quest), um da Toni Morrison, e um da Virginia Woolf esperam para serem lidos. Ganhei de Cristina, mulher do meu pai e mãe do meu irmão, um em português, escrito por um argentino, que também está à espera. Nesse momento leio “O perfume”, e já estou meio de saco cheio. Sabe-se lá o por quê. Talvez pela esquisitisse geral do livro, talvez pela gouchisse geral da leitora.

Na verdade, tô achando é que estou de saco cheio de ler em sueco. Acho que vou começar a requisitar livros em português na minha biblioteca local. Alguma dica?

A palavra em sueco do dia é krävande, exigente.

Filed under: Livros,Variedades,Vidinha — Maria Fabriani @ 12:35

July 27, 2008

Sem saber o que dizer, mas dizendo assim mesmo

Meu irmão e a mãe dele vieram me visitar e passaram duas semanas aqui. Foi um barato poder mostrar pra eles o meu pedaço de mundo, a minha vida construída nos últimos sete anos. E aí eles foram embora pro Rio.

Definitivamente, é sempre pior pra quem fica.

Sinto uma falta enorme disso aqui. Meu cérebro está meio desacostumado a pensar em forma de posts, o que é uma pena. Às vezes sento-me na frente do computador e tento escrever. Aí parece que só vem coisa repetida, considerações sobre o tempo, ou a falta dele, o meu filho, as delícias de ser mãe, o trabalho que é interessantíssimo porém algo sobre o que não posso escrever por razões legais. Aí páro, apago e desisto. Invariavelmente me sinto frustrada.

Mas comigo é sempre assim. Quando as coisas estão meio tumultuadas, enboladas, encalacradas, o melhor é fechar os olhos e se jogar de cabeça (minha especialidade) no meio da dificuldade. Então, vejamos: outro dia li no jornal uma série de pequenos artigos sobre que personagens de livros os jornalistas gostariam de conhecer caso pudessem. O nome da série é o amigo oculto. A única autora citada que eu conheco é Virginia Woolf, que escreveu “To The Lighthouse”, onde Mrs Ramsay é a protagonista.

A jornalista que escreveu o artigo disse que gostaria de conhecer Mrs Ramsay porque ela (a jornalista) gosta de mulheres que sabem como e apreciam a arte de dar uma festa, de perceber todos os convidados, os interesses e gostos de cada um, de fazer com que a experiência da festa seja algo agradável. Eu, na minha simplicidade, não sabia, mas existe uma série de regras para se dar uma reunião bem-sucedida. Evidentemente, o sucesso da sua party não depende apenas da sorte. Imagina só.

Eu não sei qual o personagem que eu gostaria de conhecer. Quer dizer, saber eu sei, mas não tenho idéia se seria uma boa ou não. Meu escolhido seria o Holden Caufield, do “Apanhador no Campo de Centeio”. Se bem que sei lá se ia dar pra conversar com ele. Acho que eu teria gostado de conhecê-lo lá por 1984, 85, quando eu li o livro diversas vezes e fiquei meio que apaixonada por ele (pelo livro e pelo Holden). Mas isso foi há mais de 20 anos. Hoje as coisas estão um pouco diferentes.

Diferentes como, você pergunta? Não faço idéia. Só sei que de fato as coisas estão diferentes, meu modo de perceber o mundo mudou muito. Não posso colocar a culpa (ou dar o crédito) dessa mudança apenas ao fato de eu ter mudado de vida tão radicalmente nos últimos sete anos. Acho que é uma combinação de fatores, inclusive pelo fato de eu estar ficando mais velha (dia 15 completei mais uma primavera, 37 até agora. Obrigada, obrigada.)

Outro dia vi um programa na TV sobre genética ou alguma coisa semelhante. O apresentador contava que as pessoas podem modificar seus cérebros com muito treinamento e mudanças radicais de vida. Aprender uma língua fluentemente, por exemplo, é um modo de se modificar a massa ccinzenta. Já devo ter dado início a várias novas interconexões de neurônios, ainda mais tendo aprendido sueco, que é um idioma todo ao contrário (pra quem vem do português).

Mas, mais do que isso, a coisa de tentar enxergar o impossível (se sentir em casa na tundra, aceitar a saudade constante, lidar com o medo de perder quem se ama, descobrir um amor impossivelmente enorme saído da depressão, aceitar a alegria simples de um dia de sol ao léu) como possível, isso sim faz com que o cérebro mude. E, convenhamos, um aninho ou dois aqui ou ali também doesn’t hurt.

Agora, chega.

A palavra em sueco do dia é bror, irmão.

Filed under: Elucubrações,Pra frente é que se anda,Saudade,Vidinha — Maria Fabriani @ 10:10

July 14, 2008

Onze meses!



Coisa mais fofa, originally uploaded by Montanha-Russa.

A coisa mais linda do mundo. Onze meses, oito dentes e muita energia.

As palavras em sueco do dia são elva månader, onze meses.

Filed under: Aniversários,Conquistas,De bem com a vida,Max e a maternidade,Vidinha — Maria Fabriani @ 06:45
 

Bad Behavior has blocked 545 access attempts in the last 7 days.