Very superstitious
O mundo inteiro já deve saber, mas eu acabei de descobrir: o gosto estético de uma pessoa depende muito do seu background cultural. Outro dia fomos visitar uma parte da família sueca. A casa, lindíssima, é bem decoradérrima, com sofás pretos, quadros e esculturas cuidadosamente escolhidas (uns legais outros menos) e, bem ao estilo escandinavo, linhas retas e sem firulas.
A decoração fica completa com pequenos detalhes coloridos, o que contribui para acentuar as linhas elegantes da sala, da cozinha (aqui, cozinha é coisa séria. Me lembrem de escrever sobre as cozinhas suecas, por favor), da casa toda. Mas aí tem a questão das velas, objetos comuns na decoração das casas daqui. As velas escolhidas eram pretas. E daquelas grandes, o que qualquer brasileiro de meia-tigela identifica como aquelas “de despacho”.
Eu não sou uma pessoa ligada a religião, vocês sabem, mas respeito quem é, etc e tal. Mas a coisa cultural é um buraco que está mais embaixo do que eu esperava. Nunca, em minhas 37 primaveras, sequer considerei a compra de uma vela preta com a intenção de decoração (nem como nenhuma outra intenção, mind you). Ver a velona lá, no meio da mesa, toda decorada com pequenas pedrinhas rolicinhas, imitando um ar marinho, me deu um susto.
Também não compro velas vermelhas (a não ser que seja natal). Me considero uma compradora de velas conservadora: gosto das beges, amarelas e das verdes, eventualmente das azuis. Mas isso depende muito se a vela é cheirosa ou não. Volta e meia invisto numa vela carérrima sueca, da marca Sia, que é ótima. O cheiro da de baunilha é levíssimo, quase imperceptível, mas ainda assim deixa um perfume delicioso no ambiente.
Aquelas velas cor-de-rosa com perfume de flores me deixam enjoada. Pra mim tem que ser delicado, senão não dá. A vela preta da casa dos familiares suecos não era cheirosa (imagino qual o cheiro que se colocaria numa vela preta?) e nem foi acesa, porque até de noite tínhamos luz do sol. Explicamos o por quê de nossa reticência com as velas pretas para os gentis porém atônitos anfitriões. Seria interessante saber o que eles pensaram disso.
A palavra em sueco do dia é vidskeplig, supersticioso(a).


