January 22, 2008

Efeito estufa

Sete e meia da manhã. Cruzo a cidade adormecida e escura. Já no centro, perto do trabalho, ouço passarinhos cantando. Passarinhos cantando. Em pleno janeiro. No extremo norte da Suécia. Perto do pólo norte. Sei que janeiro, na mente de qualquer brasileiro que se preze, é tempo de calor. Mas aqui é o auge do inverno. Janeiro e fevereiro são os meses mais frios do ano, com temperaturas que podem chegar fácil a menos 20. Agora estamos a dias com zero grau, um, dois abaixo. Estão prometendo menos 15 pra amanhã. Estou torcendo. Quero parar de suar.

Leio um romance feminista. A protagonista, Sara, vai trabalhar e deixa o filho Sigge, dois anos, na creche. Quando ela volta pra casa e encontra o filho, beija e abraça, numa tentativa aflita de recuperar o tempo perdido. Ele a ignora, vira o rosto, faz beiço. O pai, Johan, viaja por dias e quando volta, o filho faz uma FESTA. Aí, Sara pensa: “Mas que diabos! Como é que você consegue?” pergunta ela ao marido. E ele: “Eu não sinto culpa por ter viajado. Era simplesmente uma coisa que eu queria fazer e fiz. Sigge sente essa honestidade.” Faz sentido, mas ainda assim é extremamente injusto. Eu acho.

Olho pro meu Max e quero ter vinte, trinta filhos. Vou trabalhar, chego em casa, olho pro meu Max e acho que um é a conta certa.

A palavra em sueco do dia é pendel, pêndulo.

January 20, 2008

200 anos da quinta de Beethoven

Observe o Karajan, nessa filmagem de 1966, de olhos fechados o tempo todo. Não consigo evitar: me dá uma inveja danada estar assim, dentro da música. O processo é tão impressionante que vai além da competência. O que ele faz com a sinfonia de Beethoven é mais do que “saber como se faz”, é um “poder fazer”. É aquela coisa, quem pode, pode. Mesmo.

A palavra em sueco do dia é vigör, vigor.

Filed under: Aniversários,De bem com a vida,Música — Maria Fabriani @ 08:05

January 19, 2008

Blame it on the boogie

Tinha uma coisa sobre a qual queria escrever mas sempre esquecia. Aí ficava no fundo da minha cabeça, como uma pedrinha inlocalizável no meu sapato. Era uma coisa legal, tentei lembrar, algo diferente… Aí, ontem lembrei pela milhonésima vez e anotei num pedaço de papel. A novidade é que uma vez por semana estou aprendendo a dançar boogie. Hehehe, pois é.

O lance é que o pessoal do meu trabalho tem direito a tirar uma hora por semana para fazer exercícios, o chamado friskvård, que é, em suma, “cuidado para que os empregados permaneçam saudáveis”. Fiquei sabendo então que a maioria das pessoas do meu departamento ia começar nesse curso de boogie e aí pensei, por que não?

Somos 20 pessoas (apenas quatro homens, infelizmente). Tantos são os alunos quanto os anos de vida do professor, Samuel, que, no entanto, dança desde os seis. O modo como ele se mexe é mágico. Sempre admirei quem sabe dançar, ainda mais homens. Samuel compete em boogie e já dançou em muitos festivais pela Suécia inteira.

Agora, sério: adivinhem quem é a melhor aluna? Pois é. Yours truly (sem falsa modéstia, oh please, que já passamos desse estágio). Quinta foi nossa segunda aula. Infelizmente ainda estamos estacionados no passo básico, 1-2-3-4, aquela coisa. Mas eu rebolo my way through the steps e saio de lá suada e com dor nas cadeiras.

Quinta Samuel perguntou se eu havia feito curso de salsa (muito comum entre os nativos que se gabam de seu multiculturalismo):
Eu, levando um susto com a pergunta: “Errr, não… Mas eu vim do Brasil” (Dããã)
Samuel: “Ah, então você tem ritmo no sangue!”

Ahhhh, a sempre comovente ingenuidade européia. Sim e não, Samuel. Sempre tive muito ritmo e gosto de imaginar que não dou vexame no salão. Mas precisei ir pra aula de dança pra aprender a sambar. E só consegui aprender a sambar pra trás. Quando o professor ia ensinar como sambar pra frente fui obrigada a deixar as aulas.

Mas a verdade é que mesmo sendo uma sambista de araque, sou melhor sim do que meus companheiros. Não quero falar mal de quem quer que seja, mas enquanto olho pros meus colegas de trabalho on the dance floor, imagens de postes animados passam pela minha cabeça. Ginga que é bom, nada. Aliás, mentira, uma das meninas, E., a mais nova da turma, tem ritmo.

Como são poucos os homens, somos obrigadas a mudar de posição de quando em vez e encarnar o macho do par. A razão, pra quem nunca provou dança de salão, é que o homem é que é o líder (hãhãn). Fui a mulher do par que fiz com E. e ela fez tantas caras e bocas que achei que ela estava me paquerando.

Mas antes que eu pudesse apurar mais a fundo a situação, trocamos de par e fui ser o homem do par com uma colega mais velha, M. Ela, que é feministérrrrrrima, estava ofendidíssima com essa coisa do homem ser o líder e não me deixava controlar os passos de jeito nenhum. Imagina que salada que foi nossa tentativa de dança.

E ainda tem a coisa do contato visual. Sim, porque, quem dança não pode olhar pros pés, mas deve se concentrar nos olhos do parceiro/a. Isso é um pouco difícil em se tratando de um bando de suecos, cuja timidez vem como original de fábrica. E aí, como é que se faz, cara pálida? Eu encaro, mas fico sem graça com a timidez deles. Uma coisa.

Quem diria que dançar o boogie na Suécia seria uma aventura sociológica?

A palavra em sueco do dia é takt, ritmo.

Filed under: De bem com a vida,Eu ♥ a Suécia,Trabalho — Maria Fabriani @ 07:16

January 14, 2008

Cinco meses

A coisa mais fofa, se preparando pra sair

Ok, mais uma foto? Ok...

Se preparando para abafar

Lendo

Estou sentado na pia! Haha

As palavras em sueco do dia são fem månader, cinco meses.

Filed under: Aniversários,Conquistas,De bem com a vida,Max e a maternidade — Maria Fabriani @ 06:07

January 10, 2008

Reflexões de uma mãe culpada no centenário de Simone de Beauvoir

Se fosse viva, Simone de Beauvoir teria completado 100 anos ontem, dia nove de janeiro. A intelectual de mais peso pro movimento feminista do pós-guerra era uma mulher – claro – inovadora e controversa. Além de Sartre e de diversos(as) amantes, de Beauvoir se apaixonou loucamente por um americano. Li há algum tempo sobre as cartas de amor que ela escreveu e que eram bem “mulherzinha”. E a intelligentsia cultural gozou da matriarca feminista. Quem diria, a autora de “Le Deuxième Sexe” se acabando de paixão? Hahaha.

O intressante, acho eu, é que ninguém jamais discutiu a beleza dessa aparente idiossincrasia. Eu imagino Simone sentada numa cadeira de um café parisiense, ou em casa, com mais privacidade, fumando um cigarro e tomando um café, escrevendo essas cartas confessionais, totalmente diferentes dos discuros filosóficos pelos quais era conhecida mundialmente. Deve ter sido uma delícia pra ela! Poder colocar pra fora todo o romantismo muitas vezes condenado pelas xiitas feministas.

Aí penso em mim e na minha vida atual. Os fatos: saio de casa todos os dias dividida em exatos dois pedaços. Um está incrivelmente feliz, o outro incrivelmente culpado. Trabalho o dia todo, me sinto bem, volto pra casa no final da tarde a tempo de ver meu filho por meras duas horas antes dele dormir. Me pergunto se o estou prejudicando psicologicamente, se estou fazendo um favor a mim em detrimento do bem estar do meu pimpolho. Todas as vezes que me pergunto isso, a resposta é: não. A razão é que Max tem o pai, que está 100% presente. E é aí que Simone entra.

A igualdade entre os sexos, defendida por de Beauvoir, pelo menos na Suécia, não leva em consideração teorias psicológicas de desenvolvimento infantil. Aqui pais e mães têm direito a um ano de licença, que pode ser tirada por um dos responsáveis ou pode ser divida por ambos (porém não simultaneamente). No entanto, ao mesmo tempo em que se incentiva a divisão equânime da licença “para que a criança desenvolva laços fortes com ambos os responsáveis”, há uma linha de pensamento psicológico que coloca mais peso na relação mãe-filho do que na pai-filho, pelo menos no começo da vida da criança.

E aí, onde é que ficamos nós, women that want it all?

Particularmente, me encontro no meio do fogo-cruzado de duas linhas de pensamento e de duas gerações. Tomo bala da teoria psicológica extremamente anti-feminista porém essencialmente pertinente e me defendo afimando minha crença na visão moderna de divisão igualitária dos afazeres domésticos entre o casal. A única coisa que posso fazer pra tentar relativizar essa culpa não é racionalizar a angústia de “deixar” meu filho, mas olhar (mais uma vez) pro meu umbigo e perguntar: É melhor uma mãe sempre presente e frustrada ou uma mãe nem sempre presente porém satisfeita? E aí, Simone, como é que eu faço?

A palavra em sueco do dia é jämställdighet, igualdade (entre os sexos).

January 6, 2008

Plano

Tivemos visitas na quinta à noite. Minha amiga da faculdade Jenny com o marido Magnus e a filhota Saga, três anos. Aluguei um quarto na casa deles em Umeå, quando fiquei homeless em 2006, e foi tão bom que morei lá até o fim da universidade. Max ficou enlouquecido por Saga, que pulava, falava, corria e deve ter deixado os vizinhos do apartamento de baixo de cabelos brancos. Ele a seguia com os olhos, se jogava pra frente como se quizesse fazer o mesmo.

Quando eles chegaram, Jenny perguntou a Saga se ela se lembrava de mim, já que morei lá durante o ano em que ela tinha apenas dois anos. Lembramos que ela costumava se sentar no meu quarto pra assistir a um programa infantil comigo, que costumávamos brincar de quebra-cabeça juntas etc. Ela disse que se lembrava e, de fato deve ter se lembrado, porque no fínal da visita ganhei um abraço apertado que me deixou muito feliz.

Depois que eles foram embora, fiquei pensando que a maioria das coisas que Saga (e Max!) estão vivendo nesse momento serão apagadas das memórias deles logo logo. Todos os beijos, todos os carinhos, todas as conversas e os risinhos, todo o amor, enfim, desaparecerá nos cafundós da memória infantil. Apesar de ainda estar muito vívido pra mim. Uma vozinha dentro da minha cabeça disse: “Seria melhor que tivessemos sempre um registro dessas coisas.”

De fato. No mínimo, a ser usado como hálibi, pra quando Max se tranformar num adolescente rebelde, se imaginar infeliz e colocar a culpa em mim! Hohoho.

A palavra em sueco do dia é filmkamera, câmera de filmar.

Filed under: Elucubrações,Max e a maternidade,Vidinha — Maria Fabriani @ 05:47

January 3, 2008

Andança

Sete e quinze de manhã. Vou alegremente para o trabalho. Como moro perto, aproveito e ando rápido, numa tentativa tímida porém bem intencionada de praticar algum tipo de exercício físico. Estou feliz com minha caminhada que considero acelerada. Aí, quase chegando ao trabalho, escuto alguém se aproximando rapidamente. Olho pro lado e vejo uma senhorinha que me passa facilmente. Fico pra trás, como se tivesse me arrastando.

E, desde que me mudei pra cá, esse ritual se repete. Ando na rua, depressa, e sou sempre ultrapassada pelas nativas, que quase que literalmente voam. Gordas e magras, velhas e moças, com botas de salto alto ou com tênis, todas elas andam extremamente rápido. Eu simplesmente não consigo acompanhar. Nem no inverno, quando de fato precisamos andar mais depressa pra fazer o sangue circular (e não congelar no meio da rua).

Definitivamente as nativas têm um andar diferente. Em comparação a elas me sinto a mais anti-aerodinâmica criatura na face da terra.

A palavra em sueco do dia é steg, passo.

Filed under: De bem com a vida,Europa & Escandinávia,Vidinha — Maria Fabriani @ 17:47
 

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