Tinha uma coisa sobre a qual queria escrever mas sempre esquecia. Aí ficava no fundo da minha cabeça, como uma pedrinha inlocalizável no meu sapato. Era uma coisa legal, tentei lembrar, algo diferente… Aí, ontem lembrei pela milhonésima vez e anotei num pedaço de papel. A novidade é que uma vez por semana estou aprendendo a dançar boogie. Hehehe, pois é.
O lance é que o pessoal do meu trabalho tem direito a tirar uma hora por semana para fazer exercícios, o chamado friskvård, que é, em suma, “cuidado para que os empregados permaneçam saudáveis”. Fiquei sabendo então que a maioria das pessoas do meu departamento ia começar nesse curso de boogie e aí pensei, por que não?
Somos 20 pessoas (apenas quatro homens, infelizmente). Tantos são os alunos quanto os anos de vida do professor, Samuel, que, no entanto, dança desde os seis. O modo como ele se mexe é mágico. Sempre admirei quem sabe dançar, ainda mais homens. Samuel compete em boogie e já dançou em muitos festivais pela Suécia inteira.
Agora, sério: adivinhem quem é a melhor aluna? Pois é. Yours truly (sem falsa modéstia, oh please, que já passamos desse estágio). Quinta foi nossa segunda aula. Infelizmente ainda estamos estacionados no passo básico, 1-2-3-4, aquela coisa. Mas eu rebolo my way through the steps e saio de lá suada e com dor nas cadeiras.
Quinta Samuel perguntou se eu havia feito curso de salsa (muito comum entre os nativos que se gabam de seu multiculturalismo):
Eu, levando um susto com a pergunta: “Errr, não… Mas eu vim do Brasil” (Dããã)
Samuel: “Ah, então você tem ritmo no sangue!”
Ahhhh, a sempre comovente ingenuidade européia. Sim e não, Samuel. Sempre tive muito ritmo e gosto de imaginar que não dou vexame no salão. Mas precisei ir pra aula de dança pra aprender a sambar. E só consegui aprender a sambar pra trás. Quando o professor ia ensinar como sambar pra frente fui obrigada a deixar as aulas.
Mas a verdade é que mesmo sendo uma sambista de araque, sou melhor sim do que meus companheiros. Não quero falar mal de quem quer que seja, mas enquanto olho pros meus colegas de trabalho on the dance floor, imagens de postes animados passam pela minha cabeça. Ginga que é bom, nada. Aliás, mentira, uma das meninas, E., a mais nova da turma, tem ritmo.
Como são poucos os homens, somos obrigadas a mudar de posição de quando em vez e encarnar o macho do par. A razão, pra quem nunca provou dança de salão, é que o homem é que é o líder (hãhãn). Fui a mulher do par que fiz com E. e ela fez tantas caras e bocas que achei que ela estava me paquerando.
Mas antes que eu pudesse apurar mais a fundo a situação, trocamos de par e fui ser o homem do par com uma colega mais velha, M. Ela, que é feministérrrrrrima, estava ofendidíssima com essa coisa do homem ser o líder e não me deixava controlar os passos de jeito nenhum. Imagina que salada que foi nossa tentativa de dança.
E ainda tem a coisa do contato visual. Sim, porque, quem dança não pode olhar pros pés, mas deve se concentrar nos olhos do parceiro/a. Isso é um pouco difícil em se tratando de um bando de suecos, cuja timidez vem como original de fábrica. E aí, como é que se faz, cara pálida? Eu encaro, mas fico sem graça com a timidez deles. Uma coisa.
Quem diria que dançar o boogie na Suécia seria uma aventura sociológica?
A palavra em sueco do dia é takt, ritmo.