October 31, 2007

Deliverance

Paul Potts teve uma infância difícil. Gordo, era presa fácil para os bullies do colégio. Paul cresceu solitário, inseguro, feio. Os dentes irregulares, o olhar hesitante, travalhava como vendedor de telefones. Até que um dia, contrário a tudo o que fez na vida, ele ousou. Se inscreveu num programa caça-talentos da TV britânica. Na frente do juri, abriu a boca, cantou “Nessun Dorma” do Turandot de Puccini e encantou o mundo. Agora, quatro meses depois do momento mágico, CD gravado e um dos mais vendidos na Grã-Bretanha (e também na Suécia), Paul vem a Estocolmo para cantar numa festa que vai juntar fundos para a campanha para a prevenção do câncer de mama. Numa entrevista ele disse que sua voz o salvou dos anos difíceis. Vi o filme em que ele encanta o juri (aí em cima) e fiquei com inveja.

Imagina se todas as crianças sacaneadas tivessem um talento desses?

Dia desses passou na TV “Der Untergang” e nós gravamos. Que filmaço! Não conhecia Bruno Ganz, que é espetacular. Deu pena* do coitado do Hitler, um homem torto, infeliz, sem qualquer contato com a realidade, que não podia acreditar que tudo o que fez deu errado. Filmaço. Vi um documentário uma vez, sei lá quando, que mostrava o grande desgosto de Hitler por nunca ter sido aceito numa academia de artes. Ele queria ser pintor e se achava muito refinado, mas nunca foi reconhecido. Com certeza não sou a primeira a pensar — ou a escrever — isso, mas imagina do que o mundo teria sido poupado caso ele tivesse tido uma vida mais fácil, menos tortuosa? Caso tivesse tido algum tipo de reconhecimento, de resposta emocional?

Sempre quis cantar. Quando era criança fazia shows incríveis pra parede do meu quarto. Meu repertório incluia Gal Costa, Rita Lee e Elis Regina. Mas principalmente Rita Lee. Cantei em festivais da música do meu colégio, fui do coral (primeira voz), mas tenho consciência que o som que sai da minha boca não é lá essas coisas; é normalzinho, sem nada demais. Mas isso não me impede de adorar cantores e cantoras com vozes maravilhosas. E, ainda hoje, todas as vezes que canto, qualquer que seja a música, aparecem lágrimas no meus olhos. E não são lágrimas de tristeza, mas sim de reconhecimento, de emoção do reencontro com a Maria essencial.

* Atenção! Não faço apologia ao nazismo em geral ou a Hitler em particular. O que escrevi diz respeito a um filme. E só. É melhor explicar antes de começar a receber emails furiosos de internautas doidos.

A palavra em sueco do dia é befrielse, libertação.

Filed under: Cinema e televisão,De bem com a vida,Vidinha — Maria Fabriani @ 08:37

October 28, 2007

There is no time, she writes

We have to bomb the rebel cities
from a great height, find shelter
for the refugees, carry a sick kitten
to the shade of a blighted elm,
fall in love, walk by the breakwater,
learn the words to separate,
marry, see a lawyer, grow old,

and always the wind seethes
in the bladelike leaves,
always the ant under its burden,
proud and indomitable, she writes,
always the faint music, the touch
of the other’s hand, and no way
to return, or even turn,
no way to face ourselves:

writing this, I pressed so hard
she says, the words are embedded
in the grain of the desk
and it is dark but I sense you
listening, trying to frame an answer
there where the dark turns inward
and a small bell chimes
in the stupefying heat. — D. Nurkse

(Retirado do blog da escritora sueca Bodil Malmsten.)

A segunda palavra em sueco do dia é dikt, poema.

Filed under: Elucubrações,Saudade,Vidinha — Maria Fabriani @ 16:55

Sem amenidades

E hoje saímos do horário de verão para o de inverno, ou seja a hora original. Isso significa que estou apenas três horas distante do Rio. Quer dizer, três horas e trocentos mil quilômetros, claro. Aliás, essa distância, pra mim, é difícil. A dos quilômetros, não a das horas. Pra outras pessoas que moram aqui (ou em outros países da Europa), no entanto, ir ao Brasil é algo normal, atividade anual.

Pra mim é diferente. Com certeza, claro, por conta da falta de la plata, a coisa da viagem seja mais difícil, mas também, acredito, que mais do que o investimento financeiro, há o investimento emocional, que também não pode ser desprezado. É dureza ir ao Rio, ver o tempo passando pros meus pais, meu irmão, meus amigos. O sentimento de perda é enorme.

É como se fosse mais difícil testemunhar isso de longe. Ou de perto.

Anyway. Agora está ficando frio de verdade aqui. Sete graus de dia. Já nevou, mas derreteu. Deve nevar de verdade algum dia em novembro (ou dezembro, se der sorte) e aí só derrete em abril. Coisa boa: dessa vez não tenho angústia com a falta de luz (o sol nasceu hoje às 7h11min e se porá às 15h21min) porque o tempo não me importa; olho menos pras janelas e mais pra Max, meu sol particular e portátil.

No entanto, não vou mentir: a perspectiva de passar o natal aqui pesa no meu peito. Quando era criança queria ter árvore de natal, mas sempre tive que me consolar com as decorações que vovó pendurava na árvore da felicidade dela. Já maiorzinha, não me lembro de ter achado natal a coisa mais maravilhosa do mundo. Quando comecei a trabalhar, preferia dar plantão no natal do que no ano novo.

Continuo assim. Gosto da passagem do ano, mas poderia deixar de festejar o dia 24 de dezembro num piscar de olhos. E aqui, devo dizer, gente como eu é coisa desprezada. Párias, incapazes de reconhecer as alegrias da família. Gente chata, simplesmente. E acho difícil me alegrar no natal, talvez porque seja um feriado tão ligado à família e eu estou longe da minha (pois é, sou prosaica mesmo…).

Nossa, acabei de ler o que escrevi e levei um susto. É que tinha vindo aqui pra falar de amenidades…

A propósito:

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim. — Carlos Drummond de Andrade

Da série “Eu-tento-me-convencer-quem-sabe-um-dia-eu-consigo”.

A palavra do dia em sueco é substans, substância.

Filed under: Elucubrações,Saudade,Vidinha — Maria Fabriani @ 08:42

October 14, 2007

Dois meses

Fazendo ginástica...

Seus olhinhos, sua boquinha, seu cheirinho, seus barulhinhos, seu grito, seu sorriso. Meu filho, Max.

As palavras em sueco do dia são två månader, dois meses.

Filed under: Aniversários,Conquistas,Max e a maternidade — Maria Fabriani @ 07:35

October 11, 2007

Nobel pra Doris Lessing

E a escritora inglesa Doris Lessing ganhou o prêmio Nobel de Literatura. Tentei ler, há muitos anos, “The Marriages Between Zones Three, Four, and Five”, e não consegui. Não me lembro mais a razão exata mas desconfio que não tenha entendido bulhufas, já que (acho) peguei o livro emprestado com o meu pai quando ainda estava com uns 15 anos mais ou menos. Agora vou ver se tento novamente. Estou feliz pelo prêmio ter ido pruma mulher (nos últimos dez anos apenas uma mulher ganhou, a austríaca Elfriede Jelinek, em 2004), mas seria bacana que tivesse sido uma mulher que escreve em outra língua que não o inglês.

A propósito: impressionante a rapidez da galera na Internet. Liguei a TV pra ver o anúncio, sempre mostrado ao vivo, no exato instante em que Max pedia comida. No meio da gritaria cheia de charme do meu filhinho, impaciente e com fome, ouvi o nome de Lessing e tentei me lembrar qual o livro dela que havia tentado ler sem sucesso. Botei Max pra arrotar e, depois de umas voltas pela casa e um arroto de macho, ele caiu no sono. Fui ver o nome do livro num site sobre a escritora que parece ser oficial e, claro, dei uma olhada na Wikipedia. Já está lá, atualizadinho da silva, o prêmio na biografia dela. Tanto em sueco como em português. Imagino que também esteja atualizado nas demais línguas. Bacana.

A palavra em sueco do dia é rap, arroto.

Filed under: Eu ♥ a Suécia,Livros,Vidinha — Maria Fabriani @ 13:58

October 4, 2007


Free Burma!

Filed under: Variedades — Maria Fabriani @ 14:31

Dois lados da moeda

A Suécia, se é que você ainda não sabe, não é um país perfeito. Está perto, mas não é perfeito. Senão, vejamos:

Cara: Paguei pelo meu parto, uma cesariana, 240 coroas suecas, o equivalente a 63 reais. Por essa quantia, paguei a preparação da cirurgia, o chamado pré-operatório, a anestesia, a sala de operação, todo o tipo de material necessário, as horas de trabalho dos três médicos e da parteira que me acompanharam e ainda as três noites e quatro dias da suíte em que ficamos hospedados, com atendimento medicinal 24 horas por dia, incluindo café-da-manhã, almoço e jantar (pra mim; meu urso teve direito apenas a café-da-manhã). Meu urso pagou 450 coroas (118 reais) por ter dormido na cama extra no meu quarto. Durante esse tempo, Max foi examinado por dois médicos, como é rotina com os recém-nascidos, e mandado pra casa saudável. Além disso, todo o pré-natal é gratuito, assim como o controle do desenvolvimento do meu filho, feito quase que semanalmente.

Coroa: Se lembram daquele trabalho de verão que tentei conseguir, o que precisava de gente para atender telefone num centro empresarial local? Pois é. Eu não consegui. E, dia desses, fiquei sabendo o por quê. Encontrei com a agente de empregos que me ajuda aqui e ela me disse que havia entrado em contato com a tal da mulher com quem falei no telefone. A agente perguntou a razão de eu não ter conseguido o trabalho e a mulher disse, candidamente: “Ah, porque ela fala com sotaque. Tenho muitos clientes de Malmö (sul da Suécia, onde se fala um sueco complicado, chamado skånska [skônska]) e tive receio de ela não entender o que eles dizem.” Primeiro: não tenho cinco anos de idade. Se não entendo, pergunto e peço pra repetir. Segundo: a maioria dos suecos aqui do norte tem dificuldades de entender skånska. Terceiro: essa sirigaita só não ganhou uma ação na justiça por discriminação no meio das fuças porque eu simplesmente não tenho energia pra isso nesse momento.

E mais: descobrimos hoje de manhã que deu ladrão no nosso carro. Os imbecis quebraram a janela traseira lateral direita, tentaram tirar o rádio (não conseguiram), levaram algumas cópias de CDs que tinhamos lá (deixaram, no entanto, os CDs de Max, com cantigas de ninar brasileiras), roubaram algumas moedas e uma lanterna do porta-luvas.

A palavra em sueco do dia é nyans, nuance.

October 2, 2007

Fascinação

Literature award winner

“As you know, the question we writers are asked most often, the favourite question, is; why do you write? I write because I have an innate need to write! I write because I can’t do normal work like other people. I write because I want to read books like the ones I write. I write because I am angry at all of you, angry at everyone. I write because I love sitting in a room all day writing. I write because I can only partake in real life by changing it. I write because I want others, all of us, the whole world, to know what sort of life we lived, and continue to live, in Istanbul, in Turkey. I write because I love the smell of paper, pen, and ink. I write because I believe in literature, in the art of the novel, more than I believe in anything else. I write because it is a habit, a passion.

I write because I am afraid of being forgotten. I write because I like the glory and interest that writing brings. I write to be alone. Perhaps I write because I hope to understand why I am so very, very angry at all of you, so very, very angry at everyone.

I write because I like to be read. I write because once I have begun a novel, an essay, a page, I want to finish it. I write because everyone expects me to write. I write because I have a childish belief in the immortality of libraries, and in the way my books sit on the shelf. I write because it is exciting to turn all of life’s beauties and riches into words.
I write not to tell a story, but to compose a story. I write because I wish to escape from the foreboding that there is a place I must go but - just as in a dream - I can’t quite get there. I write because I have never managed to be happy. I write to be happy.”

Orhan Pamuk, parte do discurso de recebimento do Nobel de literatura. Fonte: Academia Real Sueca. Link em inglês, mas também tem em francês.

Guardadas as devidas proporções: eu escrevo porque me faz bem, porque gosto de ver as letrinhas na tela, porque adoro andar pela casa pensando em textos, em aberturas, em finais, em linhas de raciocínio. Eu escrevo porque escrever me pede concentração e determinação, cuidado e uma certa dose de humor (quando consigo). Eu escrevo porque assim organizo minhas idéias, organizo meus sentimentos, organizo minha vida. Eu escrevo porque preciso digerir o mundo, as coisas que acontecem e principalmente as pessoas que encontro. Eu escrevo porque adoro tocar outras pessoas com minhas idéias e experiências, porque (normalmente) gosto de falar, de participar, de ter uma voz. Escrevo porque há um componente estético forte na escrita, uma busca de estilo, que eu sempre persigo. Eu escrevo - e publico - porque preciso acreditar que posso.

O verbo em sueco do dia é att skriva, escrever.

Filed under: Elucubrações,Livros,Vidinha — Maria Fabriani @ 12:11
 

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