E as descobertas continuam. Pra mim, ser mãe está sendo um exercício de sublimação. Tá com fome? Quer escrever no blog? Quer falar no telefone? Quer ler jornal? Ir ao banheiro? Tomar um banho? Tá com dor de cabeça e precisa de um analgésico? Quer fazer o tempo voltar atrás? Quer DORMIR? Sublima, minha filha, sublima, porque o filho precisa comer, arrotar, trocar a fralda, brincar e adormecer… até que o próximo ciclo se inicie.
E aí tem gente que acha que, pra variar, estou negativa. Já eu me acho mais pra realista, mas isso é uma questão de gosto - ou de compreensão da realidade. Tenho meus dias bons e meus dias ruins; volta e meia preciso de um recreio, outros momentos não consigo ficar longe do meu filho nem por um minuto. E a coisa mais estranha não é essa montanha-russa de emoções (clichê alarm!), mas a culpa que ela causa.
Sim porque você, querido(a) leitor(a) que está pra se tornar (ou já é) mãe/pai, não achou que é imune à culpa, certo? Pois é, eu, na minha infinita ingenuidade que já beira à idiotia, achei. Eu achei mesmo que era uma mulher madura e resolvida, que não ia cair na armadilha de me sentir culpada por querer um tempo pra mim, mas a verdade é que eu fico culpadíssima. E culpa, pra mim, é irmã gêmea da melancolia, da tristeza e da chatice.
Então, aí está, o coquetel cor-de-rosa da maternidade que é uma de-lí-ci-a mas que te dá uma enxaqueca tremenda depois. Aí fui ao médico porque essa “enxaqueca” estava mais forte do que eu imaginava. Queria ajuda. Só as perguntas dele, obrigatórias para o estabelecimento de um diagnóstico, já contribuiram pra que eu voltasse pra casa convencida de que não estava apenas com baby blues mas com um caso raro e severo de psicose pós-parto.
“Você sabe que temos amor e ódio dentro de nós”, disse-me o médico. “Sim, eu sei”, respondi. “O importante é saber distingüir o que pensamos do que fazemos”, disse-me ele, hesitou um pouco e perguntou: “Você pensa em machucar o seu filho de alguma forma?”. Levei um susto mas consegui responder algo como “Ehh… não, não”. Me lembrei então das noites mal dormidas em que a relação ódio-amor entrou em desequilíbrio dentro de mim, energizada pela montanha-russa hormonal em que o meu corpo se tranformou.
Aí fiquei com medo, medo, medo. Nessa linguagem freudiana meio marota do médico, a coisa “da presença do ódio e do amor dentro de nós”, deixa uma margem enorme para livre interpretação. Se você for uma pessoa dada à ansiedade, como eu, a impressão é que a porção ódio é invariavelmente superior à porção amor. E aí, como é que fica? Não ousei fazer essa pergunta ao médico porque fiquei com medo dele me mandar prum sanatório, o que representaria ficar longe do meu filho, então escolhi um caminho mais fácil e comecei a generalizar.
Disse que achava que estava muito frágil e insegura no meu papel de mãe, e ele disse que isso era normal. Aliás, todo mundo me diz que o que está acontecendo é normal, que vai passar logo (daqui a uns dois meses mais ou menos) e que, até lá, só me resta segurar a minha onda. Mas eu tenho que reclamar, você sabe. Então: essa coisa de ser normal me deixa um pouco de saco cheio. Sim, porque o fato de ser normal não diminui a intensidade da sensação, caramba. (Apesar de, confesso, me dar um consolo. Vai ver, não estou perdendo completamente a cabeça e logo logo tudo voltará ao… normal.)
Mas aí é que está. O normal que era antes já não é mais. Então cabe a mim encontrar a minha mais nova normalidade. O problema é que sou uma criatura intensa e tenho medo de assustar os pacíficos suecos com minhas sandices. Cresci fazendo análise e sou acostumada a ter espaço para lançar umas loucuras no ar, como balões meteorológicos, para logo depois relativizar, ratificar ou retificar minhas suspeitas. Imagina se eles acharem que estou lelé da cuca?
Bom, esse é um risco que eu tenho que correr. E é mais um medo a ser sublimado.
E o Pavarotti? Eu fechava os olhos e só o ouvia cantar, porque assim o impacto era ainda maior. Principalmente quando ele cantava Lucia de Lamermoor. Que pena.
A palavra em sueco do dia é galen, louco(a).