Golfada
Se tem uma coisa que eu detesto é gente palpiteira, ainda mais em se tratando do meu filho. Ainda mais quando a palpiteira em questão sabe muito mais ler os sinais do meu filho do que eu. Isso porque eu sou, vocês sabem, uma criatura ciumenta e só eu é que posso decifrar Max. Mais ninguém. Há que haver desconfiômetro. O pior é que ela tem toneladas de experiência com crianças (como respiram quando estão com dor de barriga e essas sutilezas todas que eu nem sabia que existiam).
Mas eu sou uma mãe-que-não-gosta-de-gente-palpiteira muito da sem vergonha porque sinto falta de ir pra pracinha com meu filho pra encontrar palpiteiras de plantão de lá porque aqui onde eu moro só quem habita as praças são os alcóolatras, os drogados e os sem-teto, já que aqui ninguém tem tempo de ficar congelando o arse numa praça. Tudo faz-se indoors. Então as palpiteiras vêm aqui em casa, bebem do meu café, comem do meu bolo e acham a coisa mais natural do mundo meter o bedelho onde não foram chamadas nem nunca serão.
E hoje estava frio de verdade pela primeira vez e eu quero me mandar pro Rio amanhã que hoje já está tarde. Não é possível que a vida de mãe seja tão chata assim, mas todo mundo me diz que vai melhorar com o tempo. Mas quando estou a ponto de chorar (de cansaço, de solidão, de medo ou de tédio) olho pro meu filho e uma sensação boa me inunda. Entre uma golfada e outra, me preocupo se meu filho está respirando, se está comendo o suficiente. Nota: essa coisa de comida é meu carma. Pela primeira vez na minha vida é importantíssimo que se aumente de peso. Não eu, claro, ele.
E me preocupo de estar cansando todos com meu papo repetido. Mas a coisa é que eu só penso nisso mesmo, compulsivamente: Se meu filho está respirando e comendo o suficiente. Se meu filho está respirando e comendo o suficiente. Se meu filho está respirando e comendo o suficiente. Se meu filho está respirando e comendo o suficiente. Se meu filho está respirando e comendo o suficiente. Se meu filho está respirando e comendo o suficiente. Se meu filho está respirando e comendo o suficiente. Se meu filho está respirando e comendo o suficiente.
Li no jornal dia desses, em dois minutos que consegui roubar pra mim mesma dentro do banheiro (depois da golfada do café-da-manhã e antes da golfada do meio da manhã), uma notícia que me chamou atenção: astrônomos da universidade de Minnesota nos EUA encontraram um vazio gigantesco no universo. Um buraco no universo mostrou-se não ter matéria alguma, é um grande nada, um vazio total. Calcula-se que o vazio universal está distante dez milhares de anos luz da Terra, o que nos dá um certo alívio. Certo?
Certo? CERTO?
O verbo em sueco do dia é att kräkas, vomitar.


Então cá estou eu, sem saber o que fazer. Tive uma idéia, no entanto, que pode ser interessante. Acho que depois de Jenny Diski começarei a reler um dos meus livros favoritos: “A fada que tinha idéias”, de Fernanda Lopes de Almeida, que ganhei da minha mãe pouco antes de completar sete anos com a seguinte dedicatória: “Para você, Maria, gostar de ler e de ser livre. Um beijo da mamãe, 20 de maio de 1978. Regina Ignez”.

