August 29, 2007

Golfada

Se tem uma coisa que eu detesto é gente palpiteira, ainda mais em se tratando do meu filho. Ainda mais quando a palpiteira em questão sabe muito mais ler os sinais do meu filho do que eu. Isso porque eu sou, vocês sabem, uma criatura ciumenta e só eu é que posso decifrar Max. Mais ninguém. Há que haver desconfiômetro. O pior é que ela tem toneladas de experiência com crianças (como respiram quando estão com dor de barriga e essas sutilezas todas que eu nem sabia que existiam).

Mas eu sou uma mãe-que-não-gosta-de-gente-palpiteira muito da sem vergonha porque sinto falta de ir pra pracinha com meu filho pra encontrar palpiteiras de plantão de lá porque aqui onde eu moro só quem habita as praças são os alcóolatras, os drogados e os sem-teto, já que aqui ninguém tem tempo de ficar congelando o arse numa praça. Tudo faz-se indoors. Então as palpiteiras vêm aqui em casa, bebem do meu café, comem do meu bolo e acham a coisa mais natural do mundo meter o bedelho onde não foram chamadas nem nunca serão.

E hoje estava frio de verdade pela primeira vez e eu quero me mandar pro Rio amanhã que hoje já está tarde. Não é possível que a vida de mãe seja tão chata assim, mas todo mundo me diz que vai melhorar com o tempo. Mas quando estou a ponto de chorar (de cansaço, de solidão, de medo ou de tédio) olho pro meu filho e uma sensação boa me inunda. Entre uma golfada e outra, me preocupo se meu filho está respirando, se está comendo o suficiente. Nota: essa coisa de comida é meu carma. Pela primeira vez na minha vida é importantíssimo que se aumente de peso. Não eu, claro, ele.

E me preocupo de estar cansando todos com meu papo repetido. Mas a coisa é que eu só penso nisso mesmo, compulsivamente: Se meu filho está respirando e comendo o suficiente. Se meu filho está respirando e comendo o suficiente. Se meu filho está respirando e comendo o suficiente. Se meu filho está respirando e comendo o suficiente. Se meu filho está respirando e comendo o suficiente. Se meu filho está respirando e comendo o suficiente. Se meu filho está respirando e comendo o suficiente. Se meu filho está respirando e comendo o suficiente.

Li no jornal dia desses, em dois minutos que consegui roubar pra mim mesma dentro do banheiro (depois da golfada do café-da-manhã e antes da golfada do meio da manhã), uma notícia que me chamou atenção: astrônomos da universidade de Minnesota nos EUA encontraram um vazio gigantesco no universo. Um buraco no universo mostrou-se não ter matéria alguma, é um grande nada, um vazio total. Calcula-se que o vazio universal está distante dez milhares de anos luz da Terra, o que nos dá um certo alívio. Certo?

Certo? CERTO?

O verbo em sueco do dia é att kräkas, vomitar.

Filed under: Elucubrações,Max e a maternidade,Vidinha — Maria Fabriani @ 14:26

August 22, 2007

A primeira semana do bonitão de Boden

E Max completou uma semana ontem. Foi uma semana extremamente movimentada, apesar de não termos feito muito mais do que sair de casa para caminhadas rápidas, compras mais rápidas ainda e sempre olhando pra carinha de Max, tentando descobrir se está na hora de: (1) comer; (2) trocar fralda; (3) dar carinho puro e simples; (4) ninar até dormir etc.

Outro dia, do nada, no intervalo entre uma mamada e outra, me levantei, olhei pro meu filho que “falava” sua própria língua num tom levemente alterado, e o levei pra trocar fralda. Assim, do nada, como se eu já tivesse experiência de cinco filhos crescidos. Quando o coloquei no trocador e comecei os procedimentos, ele se acalmou imediatamente, olhou pra mim como se pra dizer: “Ah, finalmente ela entendeu!”

Hahaha, olha, essa primeira semana está sendo de aprendizado absoluto. Sem intervalos. Descobri que ser mãe é uma improvisação contínua. Perdi a conta das horas em que deveria ter dormido e não consegui, porque Max estava ao meu lado na cama e fico aflita pra saber se ele ainda está respirando. Deitada, no escuro, penso: será que ele está quente demais? Frio demais? Será que ele arrotou satisfatoriamente?

E a coisa da disciplina? Queremos que Max aprenda a dormir sozinho, no berço ou nos diversos tipos de caminhas espalhados pelo apartamento. Mas aí, eu, a sucker número uno, ouço meu filho dar um gemidinho, uma coisinha inaudível a não ser pra cachorros e mães, e lá vou eu, babaca assumida, pegá-lo no colo. Porque eu simplesmente não consigo ser disciplinada. Não dá. Ainda mais quando pego meu pinguinho de gente no colo e ele me olha, agradecido, e dorme instantaneamente.

Mas a semana também teve seus momentos gloriosos que, graças, intercalaram-se às paranóias maternas e paternas. Estamos, eu e meu urso, encantados. Não, sinceramente, como é que pode uma criança tão linda ter saído de dentro de mim, cara pálida? Eu e meu urso ainda não nos acostumamos a nos reconhecer nos traços de Max. A genética é, de fato, uma surpresa. Pior é quando as pessoas dizem, surpresíssimas, “Mas ele é muito bonito!” (com o subtexto “como é que pode?”).

Não sei se pode ou não pode. Provavelmente sim, já que aconteceu conosco. Eu só sei que damos passos de tartaruga (daquelas bem pequenininhas) no sentido de ter uma vida normal. A casa, num certo estado de caos perpétuo, é prioridade zero da minha já curtíssima lista de prioridades. Contato com outras pessoas se reduz ao pessoal do ambulatório em que vamos pesar Max todas as semanas e à família sueca e brasileira.

Pisquei e aí já são dez da noite e eu estou mais pra lá do que pra cá. Daí a impossibilidade de sequer pensar em responder pessoalmente a todos os comentários gentilíssimos que vocês deixaram aqui. Agradeço em particular a todos os mudinhos e mudinhas que resolveram abrir mão de seu anonimato. Obrigada. Agradeço também a todos os outros, queridos visitantes, de forma coletiva, pra não esquecer ninguém. Obrigada, de coração.

Ah, sim. Essa primeira semana foi também um tempo de descobertas pra mim e pro meu urso. Exemplo: apesar de tentarmos evitar falar com Max com voz de débil mental, nos pegamos volta e meia fazendo exatamente isso. E mais: demos agora para nos dirigir um ao outro por intermédio de Max, tipo: “Ah, o papai trocou sua fralda, não foi papai?” ou “A mamãe já fez a cama? Nossa, que rápido!”, coisas desse tipo. Resumo da ópera: se tornar pai e mãe é um exercício do ridículo humano.

A palavra em sueco do dia é snygging, bonitão.

Filed under: Aniversários,Conquistas,De bem com a vida,Max e a maternidade — Maria Fabriani @ 10:01

August 14, 2007

Hi! I’m new here

Aqui está ele. Max nasceu dia 14 de agosto, às oito e dezoito da manhã, depois de uma cesariana planejada (ele estava sentado). Meu filho veio ao mundo com 3.960 gramas e 51 centímetros. Estamos todos MUITO BEM, porém cansados. Escrevo esse post hoje, sexta, dia 17, porque acabamos de chegar em casa. Antes de deixarmos o hospital os médicos fizeram uma série de exames em Max, que passou em todos com flying colors. Temos algumas centenas de fotos; algumas com certeza vão aparecer por aqui tão cedo eu possa arrumar um tempo pro resto da minha vida. Nesse exato momento, Max dorme com o pai no quarto verde-água, ambos exaustos. Obrigada pelos emails e os comentários carinhosos. Assim que der, eu volto com as fotos. Mas enquanto não posso, deixo uma foto ainda na maternidade e um aceno de mão from the new guy… (ele não é antipático não, só tá um pouco cansadinho). Autógrafos mais tarde, ok? hohoho.

A palavra em sueco do dia é välkommen, bem-vindo.

Filed under: Aniversários,Conquistas,De bem com a vida,Gravidez,Max e a maternidade — Maria Fabriani @ 08:18

August 12, 2007

Divisor de águas

E os dias vão passando, com uma lentidão que me faz pensar em meses, e eu me vejo observando tudo o que faço, como se quisesse registrar os últimos passos de uma Maria que não existirá mais de uma hora pra outra; ou melhor, para controlar (ou lembrar) como eu era momentos antes do meu filho vir ao mundo. Essa idéia de lembrar quem sou/era na iminência da mudança radical é boa, até porque dou adeus a essa versão de mim com uma melancolia apenas relativa - o que é, aliás, um alívio (existencialmente falando).

No banho, escolho o shampoo cuidadosamente entre duas possibilidades, uma brasileira, outra globalizada. O sabão líquido é globalizado-mel ou globalizado-amêndoa. Fui obrigada a comprar outro (globalizado-leite) pra levar pra maternidade e ainda acho que fiz besteira. Li que os cheiros da mãe são importantes e quero manter uma certa regularidade pro meu filho não ficar desorientado. Hehehe, sei lá, mas fico com receio dele me perder no meio das pessoas, dele perder meu cheiro.

O creme que uso tem que ser o mesmo e já foi providenciado em buckloads. As roupas: o que usar? Como estará meu corpo depois do parto? O sapato? Gosto de tênis mais prefiro sandálias. Se bem que meus escrúpulos contra sandálias com meias já foram devidamente mandados pro beleléu há muito tempo, então menos uma crise. Vai estar frio? Ou melhor, vou voltar a sentir frio depois de meses de maior volume de sangue e suores extremos?

Mas a decisão mais séria mesmo nesse momento divisor de águas é o que estarei lendo no dia do nascimento. Estou a poucas páginas do final do Terminei meu último Jenny Diski, o que é ao mesmo tempo bom e ruim. Isso porque volta e meia me pegava voando alto, sem prestar atenção ao que Jenny me conta; enquanto outras vezes ficava tão concentrada que lia tudo rápido demais - o que levou, inevitavelmente, claro, ao final do livro. E agora, José?

Não quero inflacionar o significado dessa escolha até certo ponto desimportante nesse momentoso instante, nem sei se terei tempo ou vontade de deitar meus olhos em outra coisa/pessoa que não meu filho quando ele finalmente nascer, mas caso queira ou precise dar uma fugidinha da realidade, um livro sempre é, foi e será meu melhor amigo (junto com uma barra de chocolate, já que I don’t do drugs - sejam elas ilegais ou legais).

Então cá estou eu, sem saber o que fazer. Tive uma idéia, no entanto, que pode ser interessante. Acho que depois de Jenny Diski começarei a reler um dos meus livros favoritos: “A fada que tinha idéias”, de Fernanda Lopes de Almeida, que ganhei da minha mãe pouco antes de completar sete anos com a seguinte dedicatória: “Para você, Maria, gostar de ler e de ser livre. Um beijo da mamãe, 20 de maio de 1978. Regina Ignez”.

Apesar de já saber ler, me cansava fácil com os textos (e, tenho a impressão, me assustava um pouco com a solidão de ler sozinha, a qual mais tarde foi redescoberta e devidamente apreciada) por isso pedia pra mamãe ler pra mim. Ela, quando tinha tempo, me atendia. Ainda me lembro da minha alegria. Ouvir minha mãe ler pra mim no sofá da sala era o momento mais feliz da minha vida.

E quem não quer ser feliz? Mesmo que seja uma felicidade revisitada; um pequeno nugget dourado que guardo na lembrança para ser apreciado em momentos especiais como este. (Te amo, mãe!)

A palavra em sueco do dia é mor, mãe.

Filed under: De bem com a vida,Elucubrações,Gravidez,Livros — Maria Fabriani @ 08:06

August 9, 2007

Falando em ser politicamente incorreta


O nome dela é Lisa Lampanelli, também conhecida como The Queen of Mean, e eu me torço de rir cada vez que assisto a um de seus vídeos.

A segunda palavra em sueco do dia é underbar, maravilhoso, fantástico.

Filed under: De bem com a vida — Maria Fabriani @ 14:18

Piada sueca

Dizem que você atingiu fluência num idioma estrangeiro quando consegue falar no telefone na língua nativa e/ou entender o humor local. Falar no telefone eu falo, apesar de detestar fazê-lo - seja em sueco, em português ou em qualquer outra língua. Acho que isso deve ser um reflexo dos meus anos como jornalista, durante os quais era obrigada a ficar pendurada no aparelho e, por cobrir tecnologia, passar grande parte do meu tempo tentando seduzir secretárias totalmente heterossexuais a não resistir aos meus encantos e a me deixar falar com seus chefes.

Agora, entender o humor nativo, isso sim está se mostrando uma provação. Fiel a uma parte de mim não muito evoluída, cheguei até a cogitar a possibilidade de o problema ser meu; talvez eu é que não tivesse senso de humor. Mas, na verdade, eu tenho sim senso de humor. E muito. A coisa é que ele é irônico e adora as tais situações que aprendemos a chamar de politicamente incorretas (enquanto os suecos são a epítome da political correctness). Sou, na verdade, uma good girl que às vezes se irrita com sua condição. A única saída é uma certa rebeldia controlada (se é que isso é possível).

Então, tudo isso pra dizer que, avisada pelo meu urso, vi uma noticiazinha que me fez rir no jornal de hoje. Quem me lê há algum tempo sabe que Astrid Lindgren é uma das escritoras de livros infantis mais famosas da Suécia (e do mundo), muito reverenciada aqui por gerações e mais gerações de nativos. Quando ela morreu (ou até antes, não tenho certeza) um hospital infantil em Estocolmo foi batizado com seu nome. Agora que Ingmar Bergman es muerto, começaram as especulações sobre o que batizar after the master.

Uma rua? Uma praça? Não, locais por demais mundanos. O aeroporto de Estocolmo, atualmente batizado (incompreensívelmente) de Arlanda? Não, escreve a/o jornalista (a nota não era assinada), aeroportos são locais por demais desagradáveis e fascistas e não deveríam ser ligados aos nomes de artistas (imediatamente pensei no aeroporto Tom Jobim, no Rio, que ainda é Galeão pra mim, e senti meus lábios se torcendo num sorriso sarcástico). Não, concluiu a/o jornalista, o certo é seguir a tradição estabelecida pelo hospital infantil e batizar uma clínica psiquiátrica ou um local para aconselhamento matrimonial com o nome do cineasta famoso.

Hohoho. Aww, c’mon. It is funny… :)

A palavra em sueco do dia é poäng, punch line.

Filed under: De bem com a vida,Eu ♥ a Suécia,Jornal,Vidinha — Maria Fabriani @ 12:45

August 8, 2007

Calor, insetos, inspiração e estilo

E esse calor? Menina, uma coisa louca. Don’t get me wrong, eu me delicio com os 30 graus no sol que vem fazendo aqui no norte, apesar das caras feias da maioria dos nativos, que já voltaram a trabalhar depois das férias de verão (a maioria tira férias em julho; são as chamadas “férias industriais”, estabelecidas há decênios junto com o surgimento dos direitos trabalhistas). Sofro um pouco, por causa do final da gravidez, mas relevo o relativo desconforto (afinal, 30 graus, pruma carioca, é um refresco, concorda?) e tento armazenar cada minutinho de sol na alma, na pele, nos meus olhos. Isso porque daqui a alguns meses vou precisar me lembrar do que é bom no meio da escuridão do inverno.

E com o calor vem as moscas. E as moscas daqui são maiores do que as que estou acostumada a ver no Rio. Maiores e mais burras. Isso porque as moscas daqui se contentam em entrar na sua casa e ficar circulando bobamente os lustres da sala, do quarto e até da cozinha, sem nunca se dignar a descer e pousar numa comida, numa pessoa, num objeto. As únicas que o fazem são as chatíssimas drosófilas, ou as mosquinhas das frutas. Esse perrengue me força a colocar minhas bananas na geladeira, o que detesto. Quem pode ingerir banana gelada? Eu certamente não posso. É contra a natureza e, tenho certeza, deve fazer mal à saúde.

Mas quando não estou a observar as moscas bobas nativas ou a me irritar com as inquisitivas drosófilas (ou pensando em Max, ou limpando o apartamento, ou procurando emprego e me desesperando), leio mais um livro de Jenny Diski e me inspiro. Não sei o que acontece quando me encontro com a prosa dela; é como se eu tivesse vendo uma imagem da minha escrita futura (ou do que eu gostaria de poder escrever, caso tivesse tamanho talento) e me reconhecesse (muito pretenciosamente) no estilo que gostaria de ter, um dia, quem sabe, se tiver sorte e me esforçar muito.

Aliás, essa coisa de estilo é mesmo um mistério. Tenho meus autores favoritos (em livros, em revistas, em jornais e em blogs) que sigo sempre, mas que não necessariamente são pessoas com quem gostaria de manter contato regular (ou mesmo fortuito). Tem um jornalista e escritor sueco chamado Fredrik Strage que escreve quase que exclusivamente sobre música. E não é world music ou algo melodioso acessível a meus ouvidos de meia-idade. Não, o cidadão escreve sobre underground rock e hip-hop sueco. E eu, pra minha surpresa, leio tudo assinado por ele, cada palavra, mesmo sem saber, por exemplo, da importância de Nine Inch Nails no cenário da música mundial. Não me imagino amiga de Strage e provavelmente não teríamos sobre o que conversar.

Nos blogs é a mesma coisa. Tenho os meus preferidos por razões pessoais e aqueles que gosto por questões puramente estilísticas, mas cujos autores não me agradam em particular. Mas, ainda assim, há algo de interessante naquela pessoa, algo que ele/ela consegue ver no dia-a-dia que considero inusitado, franco, extravagante ou mesmo apaixonante. No final das contas, raciocino, essa pessoa não pode ser tããão ruim assim, já que mostra nitidamente um lado criativo ou observador, algum talento pra enxergar o mundo de forma pessoal - e saber expressar isso de forma intelegível (aliás, existe essa palavra?).

É a mesma coisa com Jenny Diski. Esse livro que devoro aos poucos (me forço a economizar e tenho vontade de voltar ao início pra “passar a limpo” minha leitura, pra ter certeza de que não perdi nada) é sobre uma viagem que ela fez ao redor dos EUA de trem. Até a página 50, no entanto, nem sinal de terra. É que até lá ela descreve sua viagem de navio cargueiro pelo Atlântico, os marinheiros croatas, os companheiros de viagem (um adorável casal americano e um odioso casal alemão), o mar e o nada, que ela, compulsivamente, enxerga dia após dia quando olha pela janela. Mágico.

A palavra em sueco do dia é trollbindande, enfeitiçante (Obrigada, Roger!).

Filed under: De bem com a vida,Gravidez,Jornal,Livros,Vidinha — Maria Fabriani @ 10:12

August 6, 2007

Três coisas

Max - Ainda aqui, dentro de mim. Sem novidades. (Ele se mexe muito, porém de forma mais leve do que antes. O que antes era caratê, agora é tai chi chuan. Parece que ele dá umas mudadas de posição, coça a cabeça ou o pé só pra deixar claro pra mãe dele que está tudo bem e que não há razão pra pânico. Meu urso sonha com o filho, meu pai sonha com o neto, minha mãe sonha com o neto. Só eu é que não lembro de sonho algum quando acordo.)

Harry Potter - Últimas cem páginas. Pior livro da série. (Acabei de acabar. Talvez não o pior, mas o segundo pior, já que, como Margot bem observou, o pior é mesmo “Harry Potter And The Chamber Of Secrets”. Dentre as coisas que não gostei nesse último foram os longos períodos de elucubrações de Harry, Ron e Hermione e a necessidade, lógica, de J.K. Rowling de atar todos os nós da trama. Sem entregar nada da história, posso afirmar que sentirei falta do Ron, que sempre foi meu preferido.)

Maria - Em total estado de suspensão. (My life is on hold. Tudo o que sou está prestes a mudar, quase que overnight (dependendo de como será o parto), pruma coisa/condição que não tenho a menor idéia do que será. Olho no espelho e dou adeus à barriga, que amo de paixão, mas que me cansa enormemente. Vontade (instinto?) de abraçar essa criança que se mexe dentro de mim. Impossível tomar qualquer tipo de decisão agora. Tudo precisa esperar.)

A palavra em sueco do dia é förväntan, expectativa.

Filed under: Gravidez,Livros,Vidinha — Maria Fabriani @ 09:13

August 2, 2007

Bergman e o estado sueco

A morte de Ingmar Bergman ainda ecoa pela Suécia. Tanto que a morte de Antonioni, ocorrida no mesmo dia, ganhou apenas registros rápidos, uma matéria ali, outra ali e pronto. Mas é compreensível, claro. A elite cultural nativa faz reverência ao mestre, que pelo que pude apurar, gostava mais de teatro do que de cinema. Mesmo assim, a TV estatal mudou sua grade de programação pra acomodar os filmes mais famosos de Bergman; peças serão remontadas, livros lançados e os cadernos de cultura dos jornais publicam tudo o que podem (até árvore genealógica pintou, com as mulheres, as namoradas e os nove filhos).

Então, vi, nesses dias, “O sétimo selo” e um pedaço de “Mônica e o desejo”, mas infelizmente perdi “Morangos silvestres”, cujo título em português (assim como em inglês, “Wild Strawberries”) não faz jus ao título em sueco. Isso porque o filme aqui chama-se “Smultronstället”, que pode, de fato, ser traduzido literalmente como “O lugar dos morangos selvagens/silvestres”, mas que também quer dizer um lugar especial, em que uma pessoa se refugia para encontrar paz. No final de semana, para desespero do meu urso, tem maratona “Fanny e Alexander”, com a versão prolongada do filme. Cinco horinhas na frente da TV.

Mas, na verdade, não posso afirmar que tenho uma relação com os filmes de Ingmar Bergman. Meu contato com o diretor é reduzido ao livro “Face a face”, que comprei no dia 16 de maio de 1991 (data anotada minuciosamente na contracapa), num sebo em Ipanema. Na verdade, se não me falha a memória, comprei esse livro no sebo Alfarrábio, na antiga galeria na praça Nossa Senhora da Paz (quer dizer, antes dela virar hip). Isso porque, nessa época, fazia ginástica na Corpore e tinha que passar por ali todos os dias. Nem preciso dizer que preferia passar horas no Alfarrábio do que na academia, né? Hohoho.

Li, nesses últimos dias e até pelo comentário do Marcus no post anterior, que as imagens de Bergman ajudaram a criar ou a fortalecer a idéia que o mundo tinha (e ainda tem) da Suécia. Um resumo simplificado pode ser dado por três palavras-chaves: angústia, morte e sexo. Temas universais que sempre interessaram o diretor. A difícil relação de Bergman com o pai, um pastor da igreja sueca, o amor pela mãe, esse bololô freudiano todo, contribuiram pra fazer dele o que ele era, além de ter influenciado obviamente sua obra artística.

Interessante mesmo é ler jornal sobre a vida do icone nacional porque se descobre muito da alma nativa. Isso porque, apesar de seus sucessos - e até por causa deles - Ingmar Bergman aparentemente não era tão intocável por aqui. Numa amostra de força político-burocrática, o estado sueco mostrou seus músculos ao já reverenciado diretor. Em 30 de janeiro de 1976, dois policiais interromperam o ensaio da peça “Dödsdansen” no Real Teatro Dramático de Estocolmo e levaram Bergman para ser interrogado sobre supostas irregularidades fiscais.

Como conta o jornalista Mats Wiklund, o evento marcou um corte na vida de Bergman, que descreveria em sua autobiografia “Laterna Magica” como se sentiu no momento:

“Jag står slutligen på gatan. Det snöar lätt och skymmer. Allt är mycket tydligt men svart-vitt utan färg, grovt som en duplikatkopia. Jag skallrar tänder, varje tanke eller känsla är förstummad.”

“Eu estou por fim em pé na rua. Neva levemente e está ficando escuro. Tudo é muito claro, mas preto e branco sem cores, tosco como numa cópia em duplicata. Eu bato os dentes, cada pensamento e sentimento está anestesiado.”

Quem conhece um pouco de Suécia sabe que sonegação de impostos é coisa seríssima por aqui. Bergman, que não havia cometido crime algum e foi devidamente liberado, levou anos pra se recuperar do golpe. Tanto que escolheu o exílio temporário na Alemanha, onde trabalhou por um tempo. Esse foi o mesmo ano em que um outro ídolo da cultura nacional, a escritora Astrid Lindgren, escreveu um artigo polêmico no jornal Expressen dizendo, entre outras coisas, que achava a burocracia sueca o fim da picada já que ela era obrigada a pagar 102% de impostos sobre sua renda.

Mats Wiklund, que escreve no DN (jornal que assino e que se auto-intitula “independente liberal”), anota que após os escândalos de Bergman e Lindgren, o partido social-democrata perdeu as eleições daquele ano depois de nada menos do que 44 anos no poder.

A palavra em sueco do dia é regissör, diretor.

Filed under: Europa & Escandinávia,Jornal,Livros,Vidinha — Maria Fabriani @ 10:44
 

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