Segundo o Aurélio, expectativa é uma “esperança fundada em supostos direitos, probabilidades ou promessas.” Até por isso, ter expectativas sobre alguém ou algo é abrir a guarda para decepções. Foi isso o que fiz quando me informei sobre o pré-natal do sistema de saúde público sueco e sobre um curso de pais e filhos, algo que me fez fazer planos e, como sempre, listas de perguntas.
(Sou maníaca por listas de perguntas; acho que mais do que um costume advindo do meu antigo trabalho, quando precisava estruturar uma entrevista, as listas advém de minha necessidade de compreender o que está se passando comigo, com o mundo e de, principalmente, não perder nada. Claro, as listas, por vezes, são a mostra da minha esperança infantil de que alguém other then myself poderá me explicar o que está se passando comigo ou com o mundo… Mas isso é uma outra história altogether.)
Fui informada, então, por amigas nativas, que era legal ir ao pré-natal e ao tal curso de pais e filhos - ambos totalmente voluntários. No pré-natal faz-se todo o tipo de teste, a mãe e o pai se sentem mais seguros, sabem se o bebê está bem etc. No caso do curso de pais e filhos, seria uma boa ir porque conheceríamos gente nova, casais grávidos e com datas de nascimento mais ou menos parecidas com a nossa. Além disso, travaríamos contato com a parteira que nos acompanharia durante os nove meses.
Aí fomos nos inscrever no pré-natal e foi quando travei contato com uma das parteiras daqui de Boden, a qual batizei carinhosamente de Besta-Fera. Para fazer uma longa história curta: Besta-Fera é uma parteira competente para cuidar de mulheres “comuns” (ia escrever “normais”, mas não gosto de me depreciar); aquelas que não sonham com a morte do filho ainda não nascido, com o coração parando de bater, que não perdem o sono por ansiedade de que algo pode dar errado (porque, convenhamos, essa é uma possibilidade muito real).
Mas Besta-Fera infelizmente mostrou-se incapaz de compreender e lidar com pessoas como eu, angustiadas e parecendo uma versão morena, gorda e balzaca da Dorothy no meio de um tornado no Kansas (e sem o benefício da companhia do cachorrinho, porque meu urso é alérgico). Não. Ela olhou pra mim e já foi dizendo que eu tinha que aprender a andar de ski, a comer mingau de aveia e outras sandices totalmente incompreensíveis. Ainda mais pra mim, que mal conseguia compreender o fato de ter conseguido ficar grávida.
Isso porque ela queria que eu fosse uma grávida saudável. O impressionante é que ela não levou em consideração a possibilidade de eu já ser saudável, mesmo do meu jeitinho gauche de ser. A pressão de Besta-Fera foi tão grande que eu não aguentei e “deprimi” (quer dizer, fiquei mais melancólica e preocupada do que o normal), isso lá no início da gravidez. Tive sorte de poder me concentrar na minha monografia. Minha sorte também me presenteou com uma amiga descolada e que me deu a dica de que pode-se trocar de parteira. E foi o que eu fiz.
Aí deixei Besta-Fera de lado e encontrei a outra parteira, que chamarei aqui de Amoreco. Amoreco me diz exatamente as mesmas coisas que Besta-Fera dizia porém de forma civilizada e adaptada aos meus nervos já meio em frangalhos. Problema resolvido. Até que Amoreco resolve ficar doente e, mais tarde, tirar férias. Besta-Fera faz uma reentrée na minha vida e bagunça meu coreto e minha cuidadosamente construída auto-estima como futura-mãe-de-uma-criança.
E aí chega a ocasião do curso de pais e filhos. E, claro, Besta-Fera é a responsável pelo curso. Naturalmente, marco errado a hora do curso na minha agenda (num ato falho tão evidente que causaria bocejos em Dr. Freud, logo depois de ele ter cheirado uma linha de cocaína) e eu e meu urso perdemos a primeira “lição”. Minha amiga descolada me diz que não tem problema, que nós que lemos tudo e mais um pouco em casa não encontramos nada de novo nas aulinhas preventivas.
E ontem foi a segunda e última “aula”. Fomos, eu e meu urso, já preparados para uma pequena decepção mas, esperançosos até o último minuto, esperávamos encontrar algo de novo, alguma informação genuinamente importante e que não se poderia obter de qualquer outra forma. A decepção foi total. Tudo o que eu perguntava, Besta-Fera respondia da mesma forma: “Tenho uma brochura que explica isso. Me lembra que depois eu te dou.”
Assistimos a um vídeo norueguês sobre amamentação, que reafirmou o óbvio: a importância da amamentação para filhos e mães, além de ressaltar o fato de que não é sempre que a amamentação dá certo, e que a mulher não deve se sentir fracassada como mãe quando isso acontece. (Ufa.) Sou uma criatura implicante, vocês sabem, então o fato do vídeo ser norueguês não me escapou. Depois da “aula”, comentei com meu urso que achava aquilo meio mal-feito; um curso na Suécia com vídeos em norueguês.
Ele disse que os noruegueses são muito competentes na realização de vídeos educativos (principalmente aqueles feitos nos anos 80, quando as mulheres tinham cabelos, óculos e ombreiras gigantescos) e que ele mesmo usava no trabalho muitos vídeos realizados pelos vizinhos escandinavos. Fiquei imaginando que delícia seria assistir a uma parteira argentina ensinando como se amamentar meu filho… Mas aí me lembrei que discriminação é crime e deixei o pensamento morrer.
Mas, para concluir, eu estaria sendo injusta caso afirmasse que absolutamente tudo o que ouvi na “aula” foi passé. Não. Respondendo à minha pergunta do que levar pra maternidade, Besta-Fera disse que havia uma lista na home page do hospital mas que era uma boa ter em casa um pacote de fécula de batata (Obrigada, Inezoca!) para colocar na bundinha do meu filho caso ele apresentasse assaduras. E caso a pele dele ficasse seca demais (o clima aqui é sequíssimo), que eu colocasse azeite na água do banho.
Minha surpresa foi tanta que não consegui responder ou sequer questionar. Saí de lá com a impressão de que daqui a algumas semanas darei a luz não a um menininho mas a um bolinho de bacalhau.
A palavra em sueco do dia é förväntningar, expectativas.