July 30, 2007

Passagens

Quem me conhece sabe que passar a ferro nunca foi um dos meus passatempos prediletos. Aliás, a verdade é que minha aversão é tanta que costumo dizer que a atividade vai contra minhas mais profundas convicções religiosas (que incluem, entre outras, tratar ao próximo como gostaria de ser tratada; não judiar de animais e crianças; viver, na medida do possível, uma vida independente; respeitar os pontos fracos dos amigos e inimigos (esse é difícil); além de nunca desperdiçar meu tempo e energia elétrica com atividades inúteis e repetitivas).

Afinal, qual o problema em se dormir com um lençol amassadinho? Não fazemos isso todas as noites, depois da “inauguração” da roupa de cama, no dia em que trocamos? E sou contra passar roupa também. Tudo bem que fica-se mais bem apresentado, como minha avó dizia (aliás, parabéns, vó, onde quer que você esteja, pelo aniversário ontem!), mas minha aversão consegue me convencer que ninguém vai se importar com minhas roupas mais do que eu mesma, então, a decisão é pretty simple: o ferro quase nunca sai do armário.

Mas nesses últimos dias ele não apenas tem saído do armário como, pior, tem permanecido do lado de fora. A coisa é que com a chegada de Max, há que haver uma certa medida de cuidados. As roupinhas, tanto as usadas como as novas, precisam ser lavadas e algumas, infelizmente, passadas. Isso porque o meu pobre cérebro pode até aceitar que eu saia por aí meio amarrotada, mas meu filho não merece ficar com assaduras por conta do lençol engruvinhado em que dormirá boa parte do dia (e, esperemos, da noite).

Então, estamos vivendo dias de glória para esse aparelho desagradável e com o qual não sinto a menor intimidade. O lado bom da história é que essa necessidade de se passar a ferro deve sumir dentro em breve, quando Max ultrapassar a fase crítica de recém-nascido e eu conquistar uma certa rotina. Isso porque se tem uma coisa que caracteriza os suecos é sua praticidade. São poucas as roupas de crianças (e de adultos) daqui que precisam ser passadas a ferro hoje em dia (tudo bem que todas são fabricadas na China, na Índia ou em Bangladesh, mas isso é uma outra discussão).

E eu agradeço encarecidamente a possibilidade iminente de voltar à minha vida pacata (ainda que amassadinha).

Mudando de assunto. Acabei de saber: Ingmar Bergman morreu em casa, aos 89 anos. :(
BBC. Le Monde. El país. Corriere della sera.

A palavra em sueco do dia é järn, ferro (tanto o de passar roupa quanto a substância química)

Filed under: De bem com a vida,Eu ♥ a Suécia,Gravidez,Vidinha — Maria Fabriani @ 11:05

July 28, 2007

Rapidinhas

Esperando meu pequeno príncipe

Tá chegando a hora. A partir de hoje Max está prontinho pra nascer, que nem um pãozinho no ponto, e caso escolha fazê-lo, não será mais considerado prematuro. Não escrevi aqui antes porque minha energia se concentrou no meu pãozinho, no parto cada vez mais próximo (gulp!) e em pequenos detalhes aparentemente sem importância mas que na cabecinha de uma quase-mãe assumem proporções estratosféricas. Quer dizer, tudo como dantes no quartel d’abrantes.

Dói muito. Amoreco, minha parteira, está feliz com minhas dores atuais, que lembram a chatice das dores pré-menstruais conhecidas pelas mulheres que, como eu, têm a má sorte de senti-las. Ela disse que essas dores são “o início do início do fim”, o que me custou alguns neurônios pra registrar e compreender. Na verdade, tudo o que eu queria após nossa última consulta, era colo. Quase pedi pra ela, mas depois de alguns segundos de consideração, desisti. Não tenho mesmo a menor idéia de como se pede colo em sueco.

Harry Potter. Nosso exemplar chegou na segunda, dia 23, e já foi devidamente devorado pelo meu urso, que adorou o que leu. Eu ainda o estou guardando para a maternidade. Eu sei, eu sei, não terei tempo pra me coçar lá, mas como ando meio abestalhada, ainda consigo me enganar a ponto de achar que a vida não vai mudar muito dentro em breve. E, como sou angustiada, fui lá e li a última linha da última página do último capítulo. A palavra “scar” está lá, mas não é a última.

Responsa. Artigo de um psiquiatra no jornal de hoje diz que um bebê de seis meses de idade se lembra de um acontecimento específico por mais de um dia depois de ter sido exposto a ele por 90 segundos. Aos nove meses, o bebê se lembra por um mês de um acontecimento a que foi exposto por 20 segundos. Um bebê de um ano pode lembrar de um acontecimento por dois meses, enquanto uma criança de 18 meses se recorda do acontecido por seis meses.

A palavra em sueco do dia é nästan, quase.

Filed under: De bem com a vida,Gravidez,Jornal,Livros — Maria Fabriani @ 00:14

July 18, 2007

Raios!

Tem gente que consegue me tirar do sério. Uma delas veio jantar aqui em casa ontem com o marido. Por ser da família do meu urso e bem mais velha do que a gente, é ela quem decide quando virá, o que iremos comer (ela trouxe o jantar de casa) e tudo mais. E, pra quem já está imaginando o pior, já digo: não, não se trata da minha sogra, que de resto é um amor de pessoa e com quem me sinto muito a vontade.

Vendo nossas estantes, diz a pessoa: “Eu só compro pocket books, jamais hard cover. São muito caros!”. Respondendo à afirmação do meu urso de que não tomamos mais refrigerantes desde o ano passado, ela diz: “Ah, mas nós lá em casa nunca tomamos”. Quando perguntei se ela queria sorvete com o bolo sequíssimo que trouxe para comermos de sobremesa, afirmou escandalizada com nossa falta de disciplina: “Ah, não, não. Tem muitas calorias!”

O pior é que nessas pequenas frases ela mostra como nos enxerga. Um casal sem moral, que gasta dinheiro em coisas caríssimas, que come e bebe demais. A única coisa que ela esquece de considerar é que: compramos sim livros, mas tentamos sempre achar opções mais baratas e, quando necessário, pegamos emprestados na biblioteca; estamos felizes por ter deixado de tomar refrigerante, bastava ela dizer “que legal!” ou coisa que o valha; nunca temos sorvete em casa, a não ser quando sabemos que vamos ter convidados.

Fiquei imaginando como deve ser viver num mundo tão disciplinado, tão judgemental, tão exigente, tão cheio de limitações. Imagino o que deve acontecer na alma dela quando ela se vê invadida pela vontade de ler um livro que ainda não foi lançado em pocket, que é bem mais barato do que hard cover mas, até por isso mesmo, demora a ser lançado. Ela, a julgar pelo que diz, passa meses e, dependendo da publicação, até anos, sofrendo, esperando para poder comprá-lo. Uma frustração ambulante.

A outra possibilidade, é que ela nunca sinta essa curiosidade de ler algo em especial, mas se veja repetidamente precisando de algo impresso para matar as horas do final do dia, qualquer coisa, sem precisar pensar muito. Um livro com o qual ela possa desacelerar pra cair num sono sem sonhos ou culpas. O fato dela trabalhar e ganhar muito dinheiro não aumenta a possibilidade de deixar essa regra pra lá e ir comprar um livro caríssimo só pra variar (ou pra relaxar). Simplesmente porque ela pode e quer.

(Aí fico imaginando o que será que ela faz com essa vontade de comprar um livro caro? Como ela trabalha essa frustração? Quais suas estratégias para redirecionar a curiosidade, o desejo de ter sua vontade saciada naquele minuto? Como será viver uma vida inteira a sublimar o que achamos que não podemos nos proporcionar por uma razão ou outra? Freud identificou esse mecanismo mas eu nunca fiquei sabendo se ele descreveu como podemos viver com a necessidade de sublimação constante.)

A resposta (desnecessária) à afirmação sobre o refrigerante, feita com orgulho pelo meu urso, evidencia a necessidade dela de se mostrar mais controlada, mais consciente e esforçada do que a média humana. Certamente melhor do que nós, simples mortais. Sua resposta não serve pra enriquecer a conversa; não podemos discutir o por quê dela nunca ter tomado refrigerante sem que isso se transforme numa tortuosa história de disciplina e prazer na auto-frustração. O resultado é que ficamos calados.

Eu fico nervosa e histriônica na presença dela porque me sinto um fracasso ambulante. Acabo exagerando meu lado indisciplinado, como numa reação nervosa à disciplina dela. Tenho certeza de que nos olhos dela, sou uma hedonista fracassada, que não consegue controlar seus impulsos, cheia de pequenos defeitos cruciais (adorar livros caros, gostar de Coca-Cola Light e ter desenvolvido uma apreciação pelo delicioso sorvete de baunilha sueco) e que está fadada à decadência moral e física.

O pior é que isso acontece comigo sempre que encontro uma dessas pessoas. Me dá nervoso essa mostra tão palpável de disciplina, de constante determinação em realizar as coisas assim e não assado. Isso porque, no meu mundo, tudo é muito relativo. Tem vezes que faço assim e tem vezes que me dá na telha de fazer assado. E quando a pessoa começa a dizer o que eu devo fazer sobre isso ou aquilo minha vontade é de dar uma mordida nela/nele e sair gritando em desespero.

E não posso dizer que trata-se de um traço cultural ou sequer geracional. Já encontrei brasileiros mais velhos e mais moços assim, tentando desesperadamente me dizer o que devo fazer pra viver melhor, o que inevitavelmente queria dizer seguir o exemplo deles. Em resumo: não há receita pra lidar com pessoas assim; há que haver muita paciência e um pouco de espírito rebelde pra saber que, por mais que eles estejam certos em alguns pontos, não é por isso que seguirei seu exemplo.

Só pra não deixar passar em branco: até quando as autoridades brasileiras deixarão de tomar atitudes preventivas para evitar acidentes horrendos como o que aconteceu em Guarulhos Congonhas? Custa dinheiro fazer ranhuras na pista curtíssima? Ok, melhor custar dinheiro do que custar vidas, imbecis!

A palavra em sueco do dia é outhärdlig, intolerável.

Filed under: Elucubrações,Irritação e ironia,Vidinha — Maria Fabriani @ 12:59

July 17, 2007

Aniversário, auto-estima e comida

Ah, essa coisa de aniversário é muito boa. Não que a passagem dos anos me deixe de perturbar, claro que me perturba, mas, por outro lado, a sensação que tenho é de infantil contentamento, uma celebração de mim mesma com quem me ama ou gosta de mim (narcisista, eu? Nããão. Mas, sinceramente: quem não é?). Além do mais, não é possível que isso seja assim tão negativo freudianamente falando. Não por um dia (ou mesmo uma semana, ou um mês). Então no dia fomos jantar fora e depois assistir ao último filme do Harry Potter. Valeu a pena. Muito bom, recomendo.

Falando em auto-estima, a minha continua ótima porque estamos nos finalmentes da arrumação do apartamento novo - o que me deixa feliz. Já não há mais caixas no escritório e tudo o que era pra ser pendurado já o foi. Quer dizer, tudo menos a cortina do quarto de Max, o que está fora do meu alcance. Tenho sim é que esperar que meu pobre urso, de férias, acabe de limpar o apartamento antigo para poder ter tempo de se dedicar a esses pequenos detalhes domésticos ainda (não) pendentes (pun intended).

Sempre que tenho tempo (ando lendo livros ótimos e saindo muito), dou uma olhada na TV de tarde. Não sei se eu já contei mas de uma hora pra outra parece que os deuses televisivos resolveram me abençoar com sua generosidade (talvez, especulo, por serviços prestados de boa consumidora ao longo de mais de 30 anos). Não sei o que fiz, qual meu carma positivo, mas o fato é que surgiu um canal novo na nossa programação básica da TV a cabo sem que precisemos pagar mais: o maravilhoso BBC Food.

A diversidade de apresentadores já é, em si, um regozijo. Tem de tudo, ingleses, irlandeses, australianos, noruegueses e até canadenses. Mas são os britânicos os mais esquisitos/interessantes. Pra não ficarem na mesmice de cozinhar carneiro com menta, eles resolvem ser exóticos. Isso quer dizer ir pra algum país africano e cozinhar no meio de um mercado movimentadíssimo, onde moscas e todos os tipos de insetos fazem questão de participar do programa. Ou então, no melhor dos programas até hoje, vi um gaiato cozinhar uma galinha inteira debaixo da terra no meio da savana da Tanzânia. A receita era uma coisa pavorosa, a galinha ficou cheia de terra, mas eu estava fascinada pelo entusiasmo dele. Uma coisa.

A minha preferida é, no entanto, a irlandesa Rachel Allen (essa da foto aí ao lado). Foi amor a primeira vista. Primeiro pelo sotaque. Um inglês rococó lindinho. Segundo pelas receitas dela, tão fáceis que até eu conseguiria realizá-las com certo sucesso, caso algum dia resolvesse levantar do sofá pra tentar. Rachel não é sexy como a minha preferida Nigella, mas ela é mais a girl next door, aquela que faz trecos bacaninhas. O legal é que ela, sempre que pode, coloca álcool nas receitas. Eu acho hilário. E ela nem tem cara de bebum, né?

O verbo em sueco do dia é att supa, beber muito álcool.

Filed under: Cinema e televisão,De bem com a vida,Vidinha — Maria Fabriani @ 17:13

July 15, 2007

De pernas e de barrigas

A última novidade é que agora acordo todos os dias com câimbra nas duas batatas-da-perna. Liguei pra mamãe, e ela me disse que também teve. Dei uma googlada e parece que dores nas panturrilhas são comuns no final da gravidez. Eu acho um porre, mas, na verdade, está tudo bem. As dores não são nada mais do que um desconforto. Minha mãe me disse que é porque o bebê está mais pesado agora, o eixo de equilíbrio do corpo muda etc e tal. Li também que pode ser por falta de sal. Não sei se é verdade, já que não posso ter certeza da probabilidade da informação. Mas não posso começar a consumir mais sal agora. Entre câimbra nas pernas e eclâmpsia, fico com a primeira, lógico. Fui à parteira hoje e ela me confirmou que essas dores são comuns e que se dão graças a um “desequilíbrio de sais no corpo”, principalmente potássio (Na mosca, Naluh!). Nada a ser feito.

E a barriga continua crescendo. E aí é muito engraçado: todo mundo que encontro, principalmente amigos do meu urso (já que meus amigos moram quase todos em Umeå), se esquecem de sua timidez nata, estendem a mão em plena rua e tocam minha barriga amorosamente. Nunca recebi tantos afagos de quase estranhos suecos antes. E o melhor é que eu acho o maior barato. É como se minha barriga não fosse uma parte muito íntima minha, mas fosse meio que um patrimônio social. Como se Max já estivesse ganhando seu espaço no mundo através de mim. É estranhíssimo, mas me dá uma sensação ótima receber afagos de quem mal conheço.


E hoje é o meu dia. Maria, versão 3.6 :)

A palavra em sueco do dia é vaden, a batata-da-perna.

Filed under: Aniversários,Gravidez,Vidinha — Maria Fabriani @ 14:48

July 11, 2007

Filhos: tê-los ou não tê-los

Li hoje um artigo da BBC Brasil publicado no Globon sobre o último livro da francesa Corinne Maier (blog, site), “No Kids - Quarenta razões para não ter filhos”. Achei o título provocativo e fui ler o que Maier tinha a dizer. Algumas citações da autora, segundo o artigo da BBC do Brasil:

Franceses, enfim a verdade: as crianças são o inferno. Quarenta razões para não ter filhos são ainda bem pouco. Em nosso país, líder em natalidade na Europa, só há uma única solução: a contracepção”.

“Quanto mais a natalidade aumenta, menos as pessoas dizem que são felizes”.

[filhos] “custam caro, poluem e sobretudo afundam a existência das pessoas”.

“Para os filhos, devemos renunciar a todo o resto, como lazeres, vida de casal, amigos, sexo e mesmo sucesso social no caso das mulheres. E isso, durante 20 anos, até que a maravilhosa criança radiante se transforma em um jovem sem futuro, um desempregado, um perdedor.

Maier, que perdeu seu emprego na companhia de energia francesa EDF depois do lançamento de seu primeiro livro “Bom dia Preguiça”, em que ensinava como pode-se trabalhar com o mínimo esforço, define o desejo de ter filhos como “uma aspiração idiota”, diz que as pessoas ficarão “certamente decepcionadas com os filhos” e conclui perguntando “por que se matar por alguém que será um excluído no futuro”? Em tempo: Maier, de 43 anos, é mãe de dois adolescentes, de 13 e 11 anos, fato que ela diz ser uma prova de que sabe do que está falando.

Sinceramente, não sei o que dizer sobre as opiniões da autora que, aliás, trabalha atualmente como psicanalista (oh!). Isso porque apesar de achá-las meio radicais, admito que ter filhos nunca foi uma de minhas aspirações mais profundas. Claro, sempre tive curiosidade, como seria, como ele/ela sairia etc. Mas minha vida sempre funcionou muito bem sem filhos. E eu era feliz. Até que meu urso entrou no circuito e… algo mudou. É clichê, eu sei, mas é a pura verdade.

Também tem o lance da idade - quanto mais balzaca me tornava, mais começava a me perguntar se a escolha de ter um filho era realmente my cup of tea. Cheguei à conclusão, depois de muita consideração e depois de identificar meu desejo puro, sem pressão de família ou amigos, que sim, que era sim. De repente me deparei com um desejo fortíssimo de ter um(a) filhinho(a). Uma coisa instintiva e poderosíssima.

Com certeza, quando Max nascer teremos (ainda) menos dinheiro, (ainda) menos possibilidade de viajar e de consumir. Além do mais, a situação mundial de fato é periclitante. Fico aflita de pensar no meu filho num mundo onde álcool, drogas e diversos métodos de autodestruição são comuns, onde radicais religiosos de vários tipos ameaçam explodir, matar ou excluir tudo e todos, caso suas visões não sejam realizadas na prática.

Mas, ainda assim…

De volta ao livro. Reparei especialmente numa das citações de Corinne Maier, a de que é inútil se preocupar com os filhos porque eles se tornarão perdedores desempregados. De fato, o mar não está pra peixe (eu que o diga). Mas sempre que penso em Max, sempre que imagino meu filho e especulo como ele viverá sua vida, o imagino como um ser criativo. Adoraria que meu filho nascesse com algum tipo de talento artístico. Isso, pra mim, já seria o sucesso completo.

E parece que uma corrente de resistência ao ato de ter filhos varre o primeiro mundo. Dei uma googlada em “Corinne Maier” e me deparei com um um blog bacanérrimo e com um post melhor ainda, escrito por uma inglesa morando na França. Falando sobre essa coisa de não ter filhos, ela diz que Michael Moore teria ficado boquiaberto com o generoso sistema de incentivo de natalidade francês (acho que há alguma referência aos sistemas de saúde de alguns países europeus no último filme dele), conta de um artigo de jornal onde estava escrito que 10% das francesas não querem ter filhos, e faz referência a vários livros, inclusive ao de Corinne Maier.

A palavra em sueco do dia é barn, criança.

Filed under: De bem com a vida,Gravidez,Livros,Vidinha — Maria Fabriani @ 13:48

July 9, 2007

Haiku sobre a minha barriga

Já nove meses
Orgulho da barriga
Me acho linda

A palavra em sueco do dia é mage, barriga, estômago.

Filed under: De bem com a vida,Gravidez,Vidinha — Maria Fabriani @ 11:27

July 7, 2007

Cabalística

Hoje é dia sete do mês sete do ano de dois mil e sete (07/07/07). Tem gente no mundo todo que marcou casamento pra esse dia, além de outros acontecimentos importantes na vida de nós, mortais. Sempre gostei de datas redondas, ainda mais de números ímpares. Se bem que prefiro, sempre, os números três e nove, isso porque eles pra mim - que sou sinestética - têm minhas cores favoritas: amarelo alaranjado e cor-de-rosa-lilás. Superstição? Talvez. Prefiro acreditar, porém, que trata-se de uma questão de simples simpatia numerológica.

Aí, li hoje num artigo de Gabriela Håkansson, rapidamente se tornando uma das contribuintes favoritas do meu jornal, que a razão de tanta atenção pra essa combinação numerológica advém de tradições cristãs (hora bolas, e eu achando que era muito secularizada). O número sete, escreve Håkansson, aparece volta e meia no antigo testamento e parece significar o “perfeito”, o ciclo fechado. Está lá na bíblia que deus criou o mundo em sete dias; os arcanjos são sete; os anos difíceis são sete, assim como são sete os selos do apocalipse e os sete pilares da sabedoria em torno de Jericó.

Mas Håkansson escreve ainda que o número seis é também importante na cultura cristã, assim como o número 13, considerado em número de azar porque foi o décimo terceiro apóstolo que teria traído Jesus (se bem que há uma teoria que defende Judas como o único fiel o suficiente para “trair” Jesus. Isso porque Jesus precisava morrer, ressuscitar e realizar seu destino etc e tal.) Não me pergunte no que acredito porque ainda não consegui entender o sentido de fé. Ainda mais depois de passar dez anos da minha vida num colégio de padres, vendo o mundanismo daqueles que “dedicaram” sua vida ao senhor. Yeah, right.

Mas números são divididos em bons e ruins em outras culturas e religiões além da cristã. Na China, livre das garras do cristianismo porém detenta em outras prisões ideológicas, o número que traz má-sorte é o quatro, porque, quando falado, foneticamente ele se parece com o símbolo usado para identificar “morte”. O número de sorte para o mundo muçulmano é o 99, porque segundo o Corão deus tem 99 nomes. E assim vai. Håkansson escreveu ainda sobre Pitágoras, que foi importantíssimo para reunir os estudos da matemática e da teologia.

E hoje, no dia sete de julho de 2007, cabalística ou não, acordei com muita azia. E como não como nada fora da minha “dieta” comum, quer dizer, nada pesado, cheio de gordura ou cítrico, parece que meu amadíssimo Max resolveu dar um abraço bem a-per-ta-do no meu esôfago. Ó céus.

A palavra em sueco do dia é halsbränna, azia.

Filed under: Gravidez,Jornal,Vidinha — Maria Fabriani @ 11:01

July 5, 2007

Expectativas, frustrações e surpresas

Segundo o Aurélio, expectativa é uma “esperança fundada em supostos direitos, probabilidades ou promessas.” Até por isso, ter expectativas sobre alguém ou algo é abrir a guarda para decepções. Foi isso o que fiz quando me informei sobre o pré-natal do sistema de saúde público sueco e sobre um curso de pais e filhos, algo que me fez fazer planos e, como sempre, listas de perguntas.

(Sou maníaca por listas de perguntas; acho que mais do que um costume advindo do meu antigo trabalho, quando precisava estruturar uma entrevista, as listas advém de minha necessidade de compreender o que está se passando comigo, com o mundo e de, principalmente, não perder nada. Claro, as listas, por vezes, são a mostra da minha esperança infantil de que alguém other then myself poderá me explicar o que está se passando comigo ou com o mundo… Mas isso é uma outra história altogether.)

Fui informada, então, por amigas nativas, que era legal ir ao pré-natal e ao tal curso de pais e filhos - ambos totalmente voluntários. No pré-natal faz-se todo o tipo de teste, a mãe e o pai se sentem mais seguros, sabem se o bebê está bem etc. No caso do curso de pais e filhos, seria uma boa ir porque conheceríamos gente nova, casais grávidos e com datas de nascimento mais ou menos parecidas com a nossa. Além disso, travaríamos contato com a parteira que nos acompanharia durante os nove meses.

Aí fomos nos inscrever no pré-natal e foi quando travei contato com uma das parteiras daqui de Boden, a qual batizei carinhosamente de Besta-Fera. Para fazer uma longa história curta: Besta-Fera é uma parteira competente para cuidar de mulheres “comuns” (ia escrever “normais”, mas não gosto de me depreciar); aquelas que não sonham com a morte do filho ainda não nascido, com o coração parando de bater, que não perdem o sono por ansiedade de que algo pode dar errado (porque, convenhamos, essa é uma possibilidade muito real).

Mas Besta-Fera infelizmente mostrou-se incapaz de compreender e lidar com pessoas como eu, angustiadas e parecendo uma versão morena, gorda e balzaca da Dorothy no meio de um tornado no Kansas (e sem o benefício da companhia do cachorrinho, porque meu urso é alérgico). Não. Ela olhou pra mim e já foi dizendo que eu tinha que aprender a andar de ski, a comer mingau de aveia e outras sandices totalmente incompreensíveis. Ainda mais pra mim, que mal conseguia compreender o fato de ter conseguido ficar grávida.

Isso porque ela queria que eu fosse uma grávida saudável. O impressionante é que ela não levou em consideração a possibilidade de eu já ser saudável, mesmo do meu jeitinho gauche de ser. A pressão de Besta-Fera foi tão grande que eu não aguentei e “deprimi” (quer dizer, fiquei mais melancólica e preocupada do que o normal), isso lá no início da gravidez. Tive sorte de poder me concentrar na minha monografia. Minha sorte também me presenteou com uma amiga descolada e que me deu a dica de que pode-se trocar de parteira. E foi o que eu fiz.

Aí deixei Besta-Fera de lado e encontrei a outra parteira, que chamarei aqui de Amoreco. Amoreco me diz exatamente as mesmas coisas que Besta-Fera dizia porém de forma civilizada e adaptada aos meus nervos já meio em frangalhos. Problema resolvido. Até que Amoreco resolve ficar doente e, mais tarde, tirar férias. Besta-Fera faz uma reentrée na minha vida e bagunça meu coreto e minha cuidadosamente construída auto-estima como futura-mãe-de-uma-criança.

E aí chega a ocasião do curso de pais e filhos. E, claro, Besta-Fera é a responsável pelo curso. Naturalmente, marco errado a hora do curso na minha agenda (num ato falho tão evidente que causaria bocejos em Dr. Freud, logo depois de ele ter cheirado uma linha de cocaína) e eu e meu urso perdemos a primeira “lição”. Minha amiga descolada me diz que não tem problema, que nós que lemos tudo e mais um pouco em casa não encontramos nada de novo nas aulinhas preventivas.

E ontem foi a segunda e última “aula”. Fomos, eu e meu urso, já preparados para uma pequena decepção mas, esperançosos até o último minuto, esperávamos encontrar algo de novo, alguma informação genuinamente importante e que não se poderia obter de qualquer outra forma. A decepção foi total. Tudo o que eu perguntava, Besta-Fera respondia da mesma forma: “Tenho uma brochura que explica isso. Me lembra que depois eu te dou.”

Assistimos a um vídeo norueguês sobre amamentação, que reafirmou o óbvio: a importância da amamentação para filhos e mães, além de ressaltar o fato de que não é sempre que a amamentação dá certo, e que a mulher não deve se sentir fracassada como mãe quando isso acontece. (Ufa.) Sou uma criatura implicante, vocês sabem, então o fato do vídeo ser norueguês não me escapou. Depois da “aula”, comentei com meu urso que achava aquilo meio mal-feito; um curso na Suécia com vídeos em norueguês.

Ele disse que os noruegueses são muito competentes na realização de vídeos educativos (principalmente aqueles feitos nos anos 80, quando as mulheres tinham cabelos, óculos e ombreiras gigantescos) e que ele mesmo usava no trabalho muitos vídeos realizados pelos vizinhos escandinavos. Fiquei imaginando que delícia seria assistir a uma parteira argentina ensinando como se amamentar meu filho… Mas aí me lembrei que discriminação é crime e deixei o pensamento morrer.

Mas, para concluir, eu estaria sendo injusta caso afirmasse que absolutamente tudo o que ouvi na “aula” foi passé. Não. Respondendo à minha pergunta do que levar pra maternidade, Besta-Fera disse que havia uma lista na home page do hospital mas que era uma boa ter em casa um pacote de fécula de batata (Obrigada, Inezoca!) para colocar na bundinha do meu filho caso ele apresentasse assaduras. E caso a pele dele ficasse seca demais (o clima aqui é sequíssimo), que eu colocasse azeite na água do banho.

Minha surpresa foi tanta que não consegui responder ou sequer questionar. Saí de lá com a impressão de que daqui a algumas semanas darei a luz não a um menininho mas a um bolinho de bacalhau.

A palavra em sueco do dia é förväntningar, expectativas.

Filed under: Eu ♥ a Suécia,Gravidez,Vidinha — Maria Fabriani @ 12:01

July 4, 2007

Quando a digressão é uma delícia

Estou enfrentando um problema. Comprei “Special Topics in Calamity Physics”, que estou lendo agora. Achei que o livro, com mais de 700 páginas, ia durar até a chegada do meu exemplar já há muito encomendado do último Harry Potter, lá pro final de julho. O único problema é que o livro de Marisha Pessl é ótimo e eu não consigo parar de ler. Resultado, estou terminando já terminei e não sei como vou entreter tico e teco depois de acabar a leitura (isso porque eu pre-ci-so de algo pra pensar nesse momento, no final da gravidez, para que não enlouqueça de vez com ansiedade, medo, felicidade e esperança).

O interessante é que o livro, best selleríssimo nos EUA, é o primeiro da autora, uma moça novinha. O fato de dizer que ela é novinha, informação otherwise totalmente desnecessária, é pertinente nesse caso. Isso porque a obra é uma amostra de erudição ambulante. Enquanto escreve por meio de sua protagonista, Blue, a autora vai citando livros e obras de referência. A narrativa é complementada pela extensa bibliografia de Blue, que foi criada pelo pai, o professor universitário Garreth, discutindo filosofia, história e crítica literária no café da manhã. Lendo assim, até parece que o livro é chato. Mas não é.

Fica engraçado, por exemplo, descrever uma personagem X com alguns adjetivos e depois fazer referência a um capítulo específico sobre uma raça canina em um livro sobre cachorros. Tudo é interessante: a relação pai-filha; a vida cigana dos dois depois da morte da mãe; a erudição extrema de ambos e o fato dessa erudição ajudar Blue a lidar com os facts of life. E, no background, um mistério. Os amigos da escola escolhida a dedo para ela garantir uma vaga em Harvard; a participação numa sociedade meio secreta com alguns alunos e uma professora meio estranha.

Soube do livro quando vi uma entrevista com Marisha Pessl no meu programa de cultura favorito da TV estatal sueca, Kobra, e o apresentador, o charmosérrimo Kristofer Lundström, pergunta à autora se é verdade mesmo que ela, formada numa super universidade americana em algo como economia ou direito, usou excel para coordenar seus personagens. “Sim, é verdade”, disse ela sorrindo. Fico imaginando o quanto essa criatura não deve ter pesquisado pra escrever um livro tão repleto de digressões interessantes, tão cheio de referências e ainda assim conseguir manter a atenção do leitor na trama intrincada.

Se bem que, de repente, ela não precisou se esforçar em nada pra escrever assim. Mas aí, Marisha Pessl é ainda mais impressionante. E o melhor, fiquei sabendo na mesma entrevista com a TV sueca, é que o livro tem um final espetacular. Oba.

A palavra em sueco do dia é fröjd, deleite.

Filed under: De bem com a vida,Livros — Maria Fabriani @ 09:53
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