June 21, 2007

Estatística, midsommar e bebês

Lá vou eu com minhas estatísticas suecas novamente. Esse fim de semana é um dos mais esperados do ano por aqui. Os nativos fazem festa em família e com amigos, comem e bebem todas. Isso tudo pra comemorar o tal do Midsommar, literalmente “meio do verão”, ou o solstício de verão. Hoje é o dia mais longo do ano, mas a festa mesmo só começa amanhã, sexta.

Mas e as estatísticas? Pois é. Hoje lendo jornal me deparei com uma noticiazinha interessante. Diz lá que a maioria das crianças suecas nasce em março, exatamente nove meses depois da festa do Midsommar. O feriado de 2006 resultou no nascimento recorde de 9.714 bebês em março desse ano, disparado o mês mais movimentado nas maternidades nativas.

Eu, depois que me decidi por ter um filho (não, ser mãe nunca foi uma coisa natural pra mim), achei que a melhor época era o verão sueco, por não ter aquele monte de gelo pelas ruas e pelas temperaturas agradáveis - tanto aqui quanto no Rio. Mas minhas amigas suecas pensam difererente. Muitas delas tiveram filhos nos últimos meses de inverno, tipo fevereiro, ou nos meses de primavera, março ou abril.

Aí você pensa: ah, elas fabricaram os babys na relva verde dos gentis verões suecos… Mas a explicação é bem menos romântica do que essa. A verdade é que aqui tem-se a possibilidade de se tirar uma longa licença maternidade. A mãe ou o pai podem tirar licença para cuidar da criança por um ano inteiro ou mais, dependendo de como eles dividem seus dias de licença maternidade (sistema complicadíssimo; sem saco pra explicar).

O interessante, fiquei sabendo por intermédio de minha amiga J., é ter o bebê no início do ano, até março, mais ou menos. Porque aí tem-se a possibilidade de curtir um longo período de primavera/verão com seu pimpolho já com alguns meses completos, o que faz com que ele/ela já possa aproveitar o “calor”. Primavera/verão, aqui, é quando todo mundo sai às ruas, os cafés ficam repletos de mães (e alguns pais) com seus filhos, curtindo a expectativa de todos pro verão.

A repórter do jornal contou que o pesquisador Jan Garnert estudou em sua tese de doutorado a distribuição dos nascimentos suecos durante o ano. Durante os séculos XVIII e XIX os filhos “ilegítimos”, produzidos em uniões fortuitas, nasciam sempre nos meses da primavera, porque seus pais se encontravam durante o verão, quando o controle social era mais fraco. Já os filhos “legítimos” eram produzidos durante o inverno. Além do quê, constatou o pesquisador, muitas crianças nasciam exatamente nove meses depois de blecautes. :)

A imagem acima é de um midsommarstång, cuja forma fálica ressalta justamente, uhmmm, as qualidades férteis desse feriado pagão.

Materinha ótima sobre o midsommar num site de notícias em inglês sobre a Suécia. Morri de rir.

A palavra em sueco do dia é fruktbarhet, fertilidade.

Filed under: Europa & Escandinávia,Gravidez,Jornal,Vidinha — Maria Fabriani @ 09:51

June 19, 2007

Ketchup e mostarda

Fim de semana movimentado. Minha amiga M. estava na cidade com a família, morando no camping daqui. Andamos muito (estou tentando evitar a dor na bacia e andar é bom) e eu tive de exercitar aquele botão “não-tô-nem-aí” que desenvolvi graças à gravidez quando eles vieram passar dois dias aqui. Duas crianças pequenas (três e um ano e meio) brincando no meio de caixas de papelão, já imaginou? E dá-lhe botão.

Aí, inventei de fazer jantar pra todo mundo. Não sei qual foi o caboclo que baixou em mim; acho que essa coisa de gravidez está virando minha vida de cabeça pra baixo de verdade, me transformando em maneiras nunca imaginadas. Coisas impensáveis são agora naturais e eu ainda não me situei na pele dessa nova Maria. Ainda não sei se isso é uma coisa positiva ou negativa. Ask me again in ten years.

De qualquer forma, não pirei de vez (ainda) e planejei fazer uma coisa simples, até porque com crianças pequenas tudo precisa ser simples (estou começando a aprender, viu? Nunca é tarde). Linguini com molho de carne moída. No supermercado, paguei pelas coisas e percebi que havia esquecido de comprar o ingrediente mais importante: o molho de tomate. Avisei M. que precisava ir comprar o molho e ela disse:

— Ah, não precisa não! Você tem ketchup em casa, não tem?

Aí parei e disse que sim, que tinha ketchup em casa, mas que eu me recusava a usá-lo em pratos de macarrão. Talvez vocês, queridos leitores, estranhem a idéia da minha amiga. O pior é que a idéia dela não é estranha. Isso porque os nativos têm a sinistra mania de ingerir macarrão, em todas as suas formas, sempre overcooked, sem tempero, só com uma montanha de ketchup em cima. Só de pensar, meu estômago se revolta frente à acidez do prato e ao gosto! Terrível.

Comprei um molho de tomate comum, mas não pude usar azeite nem temperar meu linguini com alho, porque crianças suecas, assim como seus pais, ainda não foram expostas a esse tempero. Sabe deus o que poderia acontecer caso viessem a ingerir tal estranheza. Talvez entrassem em colapso, a pele se tornaria verde e se cobriria de bolhas purulentas. Ou pior, poderiam descobrir que comida realmente tem gosto!

Anyway, o prato foi apreciado. Até o pequenininho (um ano e meio) devorou sua diminuta porção, sendo que a metade foi distribuída entre sua boca, a mesa, a roupa dele e da mãe e o chão. (Ainda não aprendi a achar graça nisso, por isso agradeço às construções básicas suecas que equiparam minha cozinha com um horrendo porém prático tapete plástico. O único problema é que o tapete é branco. Isso mesmo: b-r-a-n-c-o. Na cozinha. Oh.)

Mas também, não deveria ironizar. Isso porque sou carioca e como qualquer carioca que se preze eu como pizza com mostarda. :)

Tá vendo, ninguém é perfeito.

A palavra em sueco do dia é krydda, tempero.

Filed under: De bem com a vida,Gravidez,Vidinha — Maria Fabriani @ 09:10

June 17, 2007

A impossibilidade de se dizer “não”

Depois de dias intensos de mudança (não carreguei, mas arrumei e limpei o apartamento todo, váááárias vezes), a tal da dor na bacia voltou with a revenge. Passei a última semana deitada, com dores horrorosas, inclusive quando respirava. A vida não foi fácil nesses últimos dias e tenho a impressão que meu corpo disse: “Pega leve!” Agora estou melhor, mas a casa está um caos.

Pergunta: como se diz “não” quando membros da sua família querem porque querem que você aceite móveis e artigos de decoração antigos (pra não dizer velhos) e que não têm nada a ver com o seu gosto, pro quarto do seu filho? É uma questão altamente diplomática, essa. Não quero ferir ninguém, mas acho estranho a total incompreensão do fato de eu querer adquirir coisas novas pro meu filho.

A última que escutei foi: “Ah, eu ia dar isso aqui pro bazar da Cruz Vermelha, mas eu prefiro que você fique com ele.” Sim, mas e o que eu prefiro, cara pálida? Posso até ser corajosa prum monte de coisas, mas fico cheia de dedos quando a questão é contradizer a família, ainda mais a sueca. O fato é que não consegui dizer “não”. Fiquei, na verdade, calada. Muda. Chocada.

Senti, no ar, a impossibilidade de dizer “não”, que poderia ser interpretado como “Eu não quero nada de vocês”, ou “Tudo o que vocês têm é porcaria velha”, ou “Por favor me deixe em paz”, ou coisa que o valha. A pessoa em questão estava decidida, compreende? Ela de-ci-diu que iria me dar o treco e nem por um momento passou pela cabeça dela a possibilidade de eu dizer “não”.

Imagino se, no futuro, caso tudo dê certo, Max cresça e resolva se casar um dia, se eu serei assim, mandona. Já pensou que terror? Por isso é que acho até melhor ter mais filhos, diluir a possessão, pra evitar a criação de crianças totalmente neuróticas. Sim, porque eu sei que posso ser, uhmmm, intensa, às vezes. Então é melhor prevenir, apesar das dores horrendas na bacia.

A palavra em sueco do dia é familj, família.

Filed under: Elucubrações,Gravidez,Vidinha — Maria Fabriani @ 08:21

June 8, 2007

A dois centímetros do chão

Essa coisa de gravidez é estranha. Quer dizer, estranha na melhor acepção da palavra. No meio dessa loucura de mudança, tive provas concretas de que a mulher de fato vive num pequeno mundo privado durante esses nove meses. Uma pequena bolha independente, flutuando no meio do mundo e do dia-a-dia. No meu caso esse pequeno mundinho se manifesta pela minha atenção cada vez mais parecida com a de um peixe dourado. (Repare, inclusive, na quantidade de vezes em que repeti as palavras “pequeno” e “mundo” nas poucas linhas acima.)

Empacotei roupas mas esqueci dos cabides; comprei pão mas passei direto pela geladeira dos queijos; abri a porta da garagem e perdi a chave (e nem fiquei preocupada); peguei o carro pra ir a um determinado local e dei voltas e mais voltas até conseguir encontrar o caminho (se bem que isso eu sempre fiz); acordo todos os dias e preciso consultar minha agenda pra saber o que foi que esqueci de fazer no dia anterior para poder tentar consertar o estrago. (Meu urso diz que a lista é muito maior, tipo pedir troco inexistente à caixa do supermercado, não escutar o que ele diz, ficar olhando pro nada com um sorriso besta nos lábios etc.)

E o pior (e melhor) é que não estou nem aí. Incrível.

Estou em processo de procurar emprego de verão. Processo esse que começou láááá em março, quando os planejadíssimos nativos começam a pensar em suas férias de verão. Já tentei ligar pro chef de um camping aqui em Boden, mas o cara estava estressadíssimo e não podia falar comigo. Vou tentar novamente hoje, se me lembrar de fazê-lo mais tarde. Liguei ontem então para uma empresa que precisava de trabalhadores de verão para atender telefone num centro empresarial local (se bem que “centro empresarial”, em Boden, é um pouco far fetched).

A mulher que me atendeu me perguntou há quanto tempo eu morava na Suécia, elogiou meu sueco, perguntou se eu podia falar inglês e me perguntou se eu sabia “lidar com papéis”. “Como assim?”, perguntei, “Você quer dizer escrever em sueco?”, indaguei, surpresa. Isso porque tinha acabado de informá-la que havia me formado na semana passada na universidade de Umeå. Mas essa informação não foi registrada da forma por mim esperada.

Minhas esperanças de conseguir trabalho? Slim, very slim.

Não que não me falte trabalho aqui em casa. Lembrem-se que apesar de não poder carregar, posso arrumar. Se bem que, em meu atual estado mental, “arrumar” é uma palavra que ganhou novos significados. Vou levar os panos de prato pra cozinha, vejo as ameixas frescas espanholas que comprei, como uma, bebo água e esqueço dos panos de prato, que ficam descansando em cima da mesa até que outra coisa que precise ser armazenada na cozinha me leve a descobrí-los novamente. No final do dia, há uma dezena de pequenos trabalhos de arrumação inacabados pelo apartamento e eu, literalmente, não estou nem aí.

A palavra do dia em sueco é gröt hjärna, literalmente cérebro de mingau.

Filed under: Gravidez,Vidinha — Maria Fabriani @ 11:38

June 5, 2007

Mais casa nova e blog

Ainda estou me acostumando com os barulhos da casa nova; examino como a luz aparece de manhã (ou de madrugada, em se tratando do verão escandinavo) e como evolui ao longo do dia; e ainda não sei se a cafeteira e o kettle vão ficar onde estão ou se teremos de achar outra solução. Decisões, decisões. Meu jornal só começará a ser entregue aqui na semana que vem e hoje preciso resolver uma série de detalhes burocráticos inevitáveis da minha nova vida de ex-estudante. Por tanto, mudança que é “bom”, nada. Ou só um pouco. Já temos internet mas com senha temporária porque a operadora precisa de 15 dias (oh!) para fazer todas as mudanças, inclusive a transferência do nosso telefone (que funciona pela banda larga).

Olha só, estou enfrentando alguns problemas com o Montanha, quer dizer, com os comentários do Montanha. Alguns de vocês têm tido dificuldades para comentar aqui. Infelizmente, o que está causando isso é algo insondável, um verdadeiro pavão misterioso pássaro formoso. Em outras palavras: não faço a menor idéia. Não bani ninguém e o tal do WordPress manda dizer, em mensagens mal-educadas, que certas pessoas não podem comentar por representar “risco ao servidor”. O interessante é que as duas pessoas que me contataram com esse problema moram no Brasil… A única coisa que posso fazer então é pedir desculpas pelo transtorno e esperar que esses dois amigos relevem o pequeno glitch.

A palavra em sueco do dia é pavão, påfågel.

Filed under: Pra frente é que se anda,Vidinha — Maria Fabriani @ 07:38

June 3, 2007

No meio da mudança

Descobri vários motivos pro meu horror de mudança:

— a já mencionada montanha-russa emocional;
— o caos geral das coisas espalhadas pelo apartamento antigo e novo;
— as mãos sujas depois de empacotar cada pedaço de porcelana em jornal;
— as folhas de jornal que aqui são gram-pe-a-das (!) portanto difíceis de serem usadas como papel de embrulho;
— o dia lindo e quente que está fazendo lá fora;
— o fato de não poder carregar coisa alguma e conseqüentemente depender dos músculos alheios para resolver as questões de espaço;
— a irritação que me dá cada vez que vejo quanto treco acumula-se ao longo dos anos;
— a dificuldade do meu parceiro de mudança em se desfazer de itens desimportantes, tipo copos de cerveja variados e nunca usados.

Além disso, penso que precisamos fazer faxina no apartamento antigo antes de nos mudarmos de vez. Por outro lado… o mais importante mesmo é que o quarto novo de Max é verde-água. :)

A segunda palavra em sueco do dia é att flytta, se mudar.

Filed under: Vidinha — Maria Fabriani @ 15:59

Finito

Pois é. Me formei. Parece até brincadeira. Mas depois de três anos e meio de muitos livros, inúmeras horas em ônibus pra cima e pra baixo, algumas chateações, cinco amizades de primeira e diversas descobertas acadêmicas agradáveis (entre elas: o fato de ter aprendido a escrever de verdade em sueco!), me formei. Agora, além de balzaca, quase mãe, jornalista, carioca e social-democrata, sou também assistente social. Alguém aí tem um emprego pra mim?

Bom, cheguei à Umeå na terça passada, para defender minha monografia. Quatro horas no ônibus e depois mais três horas sentada numa sala de aula botaram pressão na minha judiada bacia. Mas correu tudo bem. Aprovada. Dia seguinte fui andar na cidade com Maria, Jenny e Elin. Compritas. Body Butter na Body Shop e Moleskine na Åkerbloms. À noite teve festa num restaurante. Comemos peixe e, de sobremesa, cheese cake com maravilhosos morangos suecos. Eu e Max dançamos muito. Felicidade total.

Quinta fui almoçar com Eva no centro (sanduíche de salmão com cream cheese) e depois fui jantar com Elin num outro restaurante (salmão novamente, I can’t get enough!). Acordei cedo na sexta, dia da formatura. Isso porque a cerimônia de entrega dos diplomas aconteceria ao meio-dia e eu ainda precisava me embonecar. Dia lindo, brisa fresca, 22 graus. Minha família sueca veio em peso para me prestigiar. Fiquei feliz. Meu urso fez filme para mandar pros meus pais, no Rio. Usei um colar da minha avó e fiquei emocionada.

E agora a vida continua. A novidade do momento é que estamos nos mudando. E eu confirmei uma suspeita: de fato, odeio me mudar. Não apenas pelo fato de não gostar de fisicamente empacotar e desempacotar coisas, mas porque do ponto de vista emocional, me dá uma angústia desgraçada desmontar uma vida, mesmo sabendo que vou montá-la tão legal (ou melhor) em outro lugar. O lado bom: está sol e o quarto de Max é verde-água. :)

A palavra em sueco do dia é utveckling, desenvolvimento.

Filed under: Conquistas,Universidade — Maria Fabriani @ 06:33
 

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