May 26, 2007

Ui

E, ainda por cima, fiquei resfriada.

Se bem que esse é meu primeiro resfriado desde 2005. Então tá bom.

A palavra em sueco do dia é förkylning, resfriado.

Filed under: Vidinha — Maria Fabriani @ 11:01

May 25, 2007

Da escrita e da leitura

Cá estou eu, afundada com a tal da oposição à monografia de uma outra aluna. O sistema sueco é assim: além da entrega da monografia e em conjunto com a defesa, precisa-se apresentar e criticar construtivamente uma outra monografia, de um colega-estudante. Acho interessante porém muito trabalhoso. Isso porque, pra dizer a verdade, não é todo mundo que sabe escrever de forma clara e - mais raro ainda - interessante. A monografia a qual farei oposição seria legal caso não tivesse tantas deficiências.

Sem contar detalhes, posso dizer que o trabalho inclui idéias sobre feminismo e a imagem do feminino nos tempos atuais. Entre os livros de base está “O segundo sexo”, da Simone de Beauvoir. Dizendo assim, tinha que ser legal, né? Pois é. Mas não é. Além de não ter ido muito fundo, a autora me distrai do conteúdo com sua capacidade de me chocar com a falta de estilo ao escrever. Várias frases duram um parágrafo inteiro, sendo que pontos finais e vírgulas são completamente ignorados.

Passando da escrita pra leitura porque quero comentar o livro de Åsa Linderborg, “Mig äger ingen” (algo como “A mim ninguém possui”), o qual ainda não terminei mas que já é um dos meus favoritos all times. A obra é uma autobiografia. Linderborg escreveu o livro depois da morte do pai, Leif, e conta a história dos dois e de como ele tomou conta dela depois que a mãe se separou do pai quando Åsa tinha quatro anos. Só que Leif, que nunca se recuperou da separação, era alcoolista.

Agora você pode pensar que o livro é simples e direto. Tipo “história-triste-de-menina-com-pai-alcoolista”. A diferença é que Åsa Linderborg conta a história dos dois com um enorme afeto pelo pai. A generosidade não diminuiu mesmo depois de ele ter começado a beber tão intensamente que parou de pagar o aluguel e quando ela, na sua adolescência, resolveu ir morar com a mãe (com quem sempre manteve contato) porque doia demais ver a decadência dele.

Åsa Linderborg é jornalista de cultura de um dos jornais mais vendidos da Suécia. Além de contar sua história familiar, Linderborg descreve a história das classes suecas. Os trabalhadores, os intelectuais, os políticos. Tudo isso visto por intermédio de um pai trabalhador e de uma menina que cada vez mais se parece e pensa como a mãe, uma intelectual comunista. Mas o mais impressionante: não há ódio no livro. Há, sim, claro, raiva adolescente de um pai tão amado mas que é incapaz de resolver sua vida de forma diferente, sem o álcool. Há raiva, não ressentimento. Não há egoismo, do tipo “olha o que você fez comigo”.

O livro é um banho de generosidade e de capacidade de enxergar os limites alheios, mesmo as limitações daqueles que crescemos considerando os seres mais perfeitos do planeta. Como é difícil crescer sem pensar no que um pai ou uma mãe quer que você seja, ou quer que você se comporte! Como é difícil aceitar que aquela pessoa que te criou vive de acordo com suas próprias limitações e que eventualmente ele/ela vai cobrar algo impossível de você, ou então algo importante, mas que você não sabe como atingir. E o pior! Não cabe a você cobrar nada. O jogo é assim: há que haver diálogo e, na melhor das hipóteses, entendimento mútuo e aceitação. Mas o fato é que é muito difícil ser generosa quando a relação é uma grande confusão afetiva!

A palavra em sueco do dia é pappa, pai.

Filed under: Elucubrações,Livros,Universidade — Maria Fabriani @ 08:41

May 22, 2007

Filha pródiga

Finalmente dou as caras por aqui. Não que não quisesse fazê-lo antes, mas diversas coisas me impediram. A primeira: a monografia, que precisava dos retoques finais. Semana passada estava tão obcecada com a bichinha que não conseguia parar de ler - e de encontrar pequeníssimos erros - que necessariamente tinham que ser consertados antes da última impressão. Acho que li e reli essa monografia tantas vezes que, caso ela se perdesse, poderia reconstituí-la de cabeça (se bem que tenho tantos backups que isso não seria necessário). Minha amiga Elin acabou de entregá-la à professora lá em Umeå e eu respiro aliviada.

A segunda: o tempo lindo que tem feito nos últimos dias. Isso porque choveu canivetes durante quase três semanas, o que fez com que cada dia de sol ganhasse uma dimensão especial. Acho que de fato estou virando sueca porque basta eu ver um solzinho se esgueirando pelas persianas que meu coração já pula, faço mil planos pro dia e não sossego enquanto não sair de casa. O fato da temperatura ainda estar por volta dos 13 graus (na sombra) e de estar ventando, não é lá muito importante. Isso porque uma mulher grávida não sente frio. Mesmo sendo ela uma carioca da gema morando no meio da tundra sueca.

A terceira: não posso sentar durante longos períodos de tempo na frente do computador. Isso porque há mais ou menos um mês comecei a sentir uma dor na bacia chamada pelos nativos de foglossning e que vem infernizando minha vidinha. A dor é normal em mulheres grávidas e diz respeito ao amolecimento das juntas (cartilagens) que unem os quatro ossos da bacia. Isso acontece porque a mulher grávida produz um hormônio chamado relaxina, que faz o que o nome indica, relaxa as cartilagens para que o bebê possa passar pela bacia na hora do nascimento. Em inglês, essa dor chama-se Pelvic Joint Pain ou Symphysis Pubis Dysfunction.

O fenômeno do amolecimento das juntas é normal e acontece com todas as grávidas. A diferença é que algumas mulheres sentem mais, enquanto outras sentem menos. Essa dor se manifesta de maneira diferente em cada pessoa. Em mim ela vai e volta; fica apenas alguns dias e causa dor nas pernas e nas costas, um desconforto generalizado na região pélvica e uma certa dificuldade de locomoção. Aí, assim como veio, ela desaparece e eu volto ao normal novamente. Mas como na semana que vem terei de ir pra Umeå defender minha monografia (e fazer oposição a outra), além de precisar necessariamente ir à diversas festas durante a semana toda (hãhã), não quero dar mole e provocar a danada.

Tenho uma amiga sueca, J., que me contou sua via-crúcis com a tal da dor pélvica. Ela começou a senti-la no segundo mês de gravidez e só parou cinco meses após o nascimento da filha. Fiquei assustadíssima, mas o que sinto não chega aos pés do desconforto dela. Todo mundo sabe dessa dor aqui. O mais interessante é que essa dor, tão comum aqui, parece não existir no Brasil. Perguntei a amigas e a mães de amigas (elas próprias minhas amigas) e ninguém diz ter sentido nada assim. Talvez no Brasil essa dor não seja diagnosticada, mas sim considerada como uma decorrência normal da gravidez (mais uma diferença entre o primeiro e o terceiro mundos, I guess…).

Fora isso tenho me deliciado com os movimentos intensíssimos de Max na minha barriga (esse menino sabe chutar, viu?) e com livros bacanérrimos. Terminei há séculos o “On Trying To Keep Still”, da Jenny Diski e, gostei tanto, que o estou relendo, paralelamente com outro livro: “Mig äger ingen”, de Åsa Linderborg. O livro da Jenny Diski, que ganha a vida como jornalista de turismo e escritora, conta a história dela durante três viagens e da sua busca pela solitude, pela imobilidade. Parece deprê, mas não é não. Aliás, morri de rir com muitos trechos do livro, que mistura passagens da vida da autora com viagens dela à Nova Zelândia, a um cottage no meio do campo inglês e à Lapônia sueca. Sabe aquela pessoa que escreve lindamente sobre o nada? Pois é.

A palavra em sueco do dia é glad, feliz.

Filed under: Cinema e televisão,Conquistas,De bem com a vida,Gravidez,Universidade — Maria Fabriani @ 11:46

May 10, 2007

Música na Finlândia

Depois de muitos meses de leituras sérias, idéias coerentes e rigorosas considerações acadêmicas, chegou a hora de soltar a franga. Isso porque hoje começa o maior festival de cafonice européia, panquêique e muitas plumas e paetês. Pois é, quem acompanha o Montanha há mais tempo já sabe que o mês de maio, além de ser lindo por comportar o aniversário do meu irmão, é também o mês da final do festival europeu de música o chamado Eurovision Song Contest. Pra quem não tem idéia do que estou falando, leia os posts de maio de 2004, março e maio de 2005 além de maio de 2006.

A Suécia inteira pára para assistir ao festival. Os jornais cobrem freneticamente o evento. A televisão estatal nativa vai transmitir hoje a semifinal e espera-se público recorde de pelo menos dois milhões de espectadores. Isso, num país de nove milhões de almas, é gente pra caramba. Mas não é hoje que a música sueca se apresentará. Isso porque os nativos se classificaram direto pra final, que acontece no sábado em Helsinki, na Finlândia (ganhadora do ano passado). Mesmo assim a espectativa é grande, já que a estatística mostra que os vencedores dos últimos anos vieram das semininais.

Mais uma vez os suecos estão eufóricos e acham que a música nativa vai ganhar com toda a certeza. Eu gosto da contribuição nacional, descrita como um boogie chamado “The Worrying Kind” com o grupo The Ark (foto acima). Esse é um grupo já conhecidíssimo nacionalmente e com certo cartaz internacional. O grupo, liderado por Ola Salo, um ser híbrido e interessantíssimo (no meio da foto, de cabelos longos, escuros), canta o chamado “glam-rock”, uma coisa também híbrida, com forte influências David Bowieanas — o que é sempre uma boa. Eu gosto das letras e do beat deles.

A confiança na vitória é tão grande que o site de apostas Ladbrokes.com está dando como certa a vitória do The Ark no Eurovison no sábado. O grupo de Ola Salo, até outro dia, daria até cinco vezes o dinheiro do apostador. Em segundo lugar vem o maluco DJ Bobo da Suíça com uma música horrorosa sobre vampiros (??!!) e a terceira é a sérbia Marija Serifovic, com uma power-balada típica das Bálcãs. Em último lugar, segundo o site de apostas, virá o cantor que defende as cores da Albânia, Fredrik Ndico. Caso ele ganhe, a vitória pagará 200 vezes o dinheiro apostado.

A palavra em sueco do dia é Melodifestivalen, literalmente, festival da melodia, mas é o nome sueco para o Eurovision.

Filed under: Cinema e televisão,De bem com a vida,Eu ♥ a Suécia,Música — Maria Fabriani @ 09:29

May 9, 2007

Blogs, ódio e mais um aniversário

Foto de Erika Stenlund

Às vezes fico pasma de como a Suécia, com todo o avanço tecnológico pelo qual é mundialmente conhecida, pode ser, por vezes, tão atrasadinha em algumas coisas. O fenômeno dos blogs por exemplo, que estourou no Brasil lá pelo ano 2000, atingiu seu auge aqui somente em 2005. Os jornais nativos, depois de desacreditar blogs de jornalistas como páginas desimportantes cheias de detalhes esdrúxulos da vida alheia, descobriram que blogs são um senhor portão de entrada de leitores — o que é ótimo pros negócios. Que cronistas e alguns jornalistas com voz própria são blogueiros por excelência. Só depois disso que os primeiros blogs de jornais surgiram.

Aí vieram os pioneiros. Uma dessas pessoas foi a cronista nativa Linda Skugge (foto acima), que escreve no tablóide Expressen. O blog dela surgiu em 2005 e era uma fonte de impropérios, uma metralhadora de impressões meio marrons sobre tudo e todos. Em resumo: um verdadeiro sucesso. O blog dela era um dos mais lidos de todo o país. Ela soltava suas invectivas sobre qualquer um; seus alvos variavam de estrelinhas dos programas de TV até líderes mundiais. Os textos não tinham nada demais, estilisticamente falando, mas ela sabia ser polêmica o suficiente para manter o interesse de leitores. Mas aí, no sábado passado, ela anunciou que iria parar de escrever seu blog.

A razão, explicou Linda Skugge, é o ódio de certos leitores, que usam o relativo anonimato da internet pra mandar impropérios diários por email ou por meio dos comentários do blog. “Me choquei diariamente durante esses meus dois anos na blogosfera. Como vocês podem ter tanto ódio acumulado dentro de vocês?”, pergunta ela em seu último post. No rádio, na segunda, ouvi um apresentador fazer graça do desgosto de Linda Skugge e comentar em tom muito irônico que quem está na chuva só pode esperar ficar bem molhado.

Nem preciso dizer que discordo do apresentador, né? Pois é. Discordo sim. E compreendo o desgosto de Linda Skugge, uma pessoa pela qual aliás não sinto qualquer simpatia particular. Mas, eu, como blogueira das antigas, sei que o ódio anônimo — e às vezes nem tão anônimo assim — existe. É barra pesada ler impropérios no seu email ou nos comentários de gente que não te conhece ou não entendeu o que você escreveu ou quer simplesmente te desancar publicamente, te humilhar, se mostrar mais inteligente do que você (como se isso fosse alguma vantagem, cá pra nós).

Aí pode-se argumentar que a tal da Linda Skugge estava de fato procurando sarna pra se coçar com seus posts críticos e, por vezes, um pouco exagerados. Mas, mesmo assim, eu particularmente acho que o fato de ela ser, uhmm, ácida em suas crônicas não justifica o ódio desmedido, as ofensas particulares, a presença constante de gente que patrulha o blog a procura de erros gramaticais ou factuais para criticar a autora e ainda provar por A mais B que ela, afinal, não é assim tão erudita quanto quer se mostrar. Ainda defendo, talvez ingenuamente, a tese de que a internet é enoooorme e que se não se gosta de um texto em particular, basta fechar o browser. Há milhares de outras páginas tão ou mais interessantes esperando para serem lidas.

Isso já é assunto velho pra brasileiros, cujos blogueiros mais respeitados, tipo Cora Rónai, já foram obrigados há anos a deixar claras as regras do jogo de suas caixas de comentários. Até eu, que não sou pessoa pública nem blogueira da pesada, já fui criticada por limitar o acesso à caixa de comentários do Montanha a quem não soube se comportar. Eu, aliás, não deixei por menos e bani indivíduos que escreveram comentários ou me mandaram emails desagradáveis de uma vez por todas de sequer enxergar meu blog. Tudo isso sob uma chuva de críticas de que eu estava censurando o Montanha.

Eu, sinceramente, nunca, nunquinha da silva sauro, tive qualquer dúvida de que os mal educados deveriam ser sumariamente destituídos do direito de ler meu blog. Desde que minha via crucis para conseguir um emprego começou há seis anos (e que ainda continua), passei a dar mais importância a cada moedinha que passa furtivamente pela minha mão, o que me dá pouca ou nenhuma paciência com quem usa meu espaço para me mandar impropérios. Tudo aqui é fruto de suor e, acreditem, algumas lágrimas derramadas pelo caminho.

Hoje li a coluna de Karin Rebas, no meu jornal, sobre exatamente o lance da Linda Skugge. Achei interessante o fato de ela não ter entrado na armadilha de criticar Skugge pelo fato de ela estar se queixando dos mal tratos de seus críticos e sim de ter exatamente comentado a violência anônima e descabida da internet. Karin Rebas se pergunta: “O que é que a internet tem que faz com que as pessoas percam todo e qualquer bom senso e educação?” Eu já me fiz essa pergunta muitas vezes. Muitas vezes.

Ela responde à pergunta ao citar o psicólogo americano e pesquisador da internet John Suler, que batizou o fenômeno de “online disinhibition effect”. Suler diz que a internet faz com que as pessoas percam suas inibições, o que pode ter efeitos positivos e negativos, exatamente como o consumo de álcool. A interação humana acontece graças a uma série de mecanismos complicados. A forma como falamos é em grande parte um reflexo das reações que recebemos das pessoas à nossa volta — como o tom de voz delas, o tipo de vocabulário escolhido, além de sua mímica corporal. A internet, no entanto, acaba com a possibilidade de nos guiarmos por meio desses mecanismos.

Suler identificou seis mecanismos que interagem e que se reforçam mutuamente:

Anonimato — a sensação de anonimato faz com que as pessoas pensem que não precisarão responder pelos seus atos.

Invisibilidade — quem critica não vê como o receptor reage à crítica.

Prolongado tempo de reação — a reação vem algum tempo depois do impropério ter sido lançado.

“O mundo não existe” — alguns usuários da internet acham que o que acontece online não existe na realidade, o que dificulta a ligação de suas invectivas a pessoas de carne e osso.

“É só uma brincadeira” — a vida online é apenas um simulacro.

Falta de autoridade — na internet todo mundo é amigo do rei.

Para algumas pessoas, analisa Suler, a influência da combinação de dois ou mais desses fatores pode ser grande demais. Mas isso necessariamente não quer dizer em 100% dos casos uma reação negativa. Algumas pessoas conseguem, por intermédio da internet, conquistar um nível de sociabilidade que era impossível fora da vida online. Gente que fala sobre sua vida pessoal (porém, esperemos, não da vida privada), e que são geralmente abertas e generosas. Já o outro tipo de gente adota esses padrões de comportamento e aproveitam a internet para soltar os bichos de suas frustrações, sem qualquer autocensura.

Eu continuo achando que não é porque eu tenho um blog, por definição uma página pública, que terei de aguentar os impropérios dos doidos que rodam pela internet. Trabalhei duro nesses cinco anos de Montanha pra fazer do blog um canto só meu, sem pretenções literárias ou sequer jornalísticas. Aqui eu escrevo sobre o que me interessa e dou minha opinião porque pago pelo espaço e pelo direito de fazê-lo de forma livre. Por isso, tento não atacar ninguém, não perder as estribeiras (o que nem sempre é fácil) e espero, talvez ingenuamente, que meus visitantes observem as mesmas simples regras de civilidade. Mas tenho a impressão de que a internet é, de fato, um senhor espelho da sociedade, capaz de acomodar todos os disparates e as doçuras humanas.

E hoje completo seis anos de Suécia.

A palavra em sueco do dia é yttrandefrihet, liberdade de expressão.

 

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