April 29, 2007

Inocência


No meio da locura dos finalmentes da minha monografia, precisei de um break. Tinha passado meses pensando, argumentando e escrevendo sobre preconceito e dificuldades. Fui, então, à melhor locadora da cidade, instalada na loja de conveniência de um posto de gasolina Shell, procurar algo pra dar um recreio a tico e teco. Lá, vi vários filmes “novos” em DVD, aos quais seguramente ainda não tinha assistido, já que a última vez que fui ao cinema foi no Rio, em julho do ano passado.

O que eu mais queria assistir era “Little Miss Sunshine”, e foi esse que aluguei. Olha, há muito tempo não assisto a um filme tão… bacana. Adorei Alan Arkin como pai amargo-avô amoroso. Adorei a interação entre o irmão-suicida Steve Carell e o adolescente Paul Dano. Adorei o Greg Kinnear, como sempre, maravilhosamente decadente. Adorei até minha preferida Toni Collette, que estava apagada porque o filme, convenhamos, é de Abigail Breslin, a menina que encarnou Olive.

Queria ter muito talento pra poder escrever sobre a sensação que tive depois de assistir ao filme. Queria poder colocar em palavras a delicadeza que senti em cada sorriso de Olive, nas lágrimas, na comovente alegria que ela mostrou em dançar “Super Freak” na frente daquela gentalha infeliz, mães e filhas com cabelos e sorrisos duros de laquê. Queria poder expressar a identificação que senti com a menina de cabelos longos, óculos grandes e sorriso adorável.

Mas sempre que tento descrever isso, as palavras fogem de mim. Acho que a inocência de Olive me tocou ainda mais agora que estou grávida, que espero um bebê totalmente inocente. Queria protegê-lo assim como a família do filme, no meio de sua loucura, protegia Olive. Queria impedir que meu filho sofra com o julgamento cruel e as mesquinharias dos idiotas e burros. Queria que meu filho acreditasse no que quisesse acreditar mas que principalmente acreditasse sempre nele próprio. Queria, mais do que tudo, ajudar a fazer de Max um menino feliz. Apesar do mundo.

A palavra em sueco do dia é bedårande, adorável.

Filed under: Cinema e televisão,Gravidez — Maria Fabriani @ 11:16

April 27, 2007

A metamorfose da língua

Tem dias que leio um treco que me inspira muito e que me dá gana de comentar, apreciar, desenvolver em texto. Ontem foi um desses dias. Estava esticadona, lendo meu jornal (já contei que fico deprê quando o jornal não vem? Pois é) quando me deparei com uma pequena matéria escrita por Gabriella Håkansson, jornalista e escritora, no caderno de cultura do DN.

O problema é que às vezes esses assuntos pelos quais me interesso são difíceis de se traduzir pro português. E não estou falando apenas da dificuldade de encontrar as palavras certas. A coisa é que alguns textos, na verdade, fazem parte de um contexto cultural, o que é complicado e trabalhoso de se explicar. Mas como hoje estou de bom humor, resolvi tentar.

Håkansson escreveu sobre uma campanha publicitária da chamada Folkuniversitet, literalmente “A universidade do povo”, uma espécie de entidade de ensino superior, ligada às maiores universidades da Suécia (Estocolmo, Gotemburgo, Lund e Umeå). A única diferença entre as Folkuniversitet e as universidades comuns é que pra estudar nas Folkuniversitet você não precisa de notas formais em matérias como sueco ou matemática. É nas Folkuniversitet, por exemplo, que muitos imigrantes aprendem sueco, assim como nativos se dedicam a artesanato ou balé.

A campanha mostrava a foto de um típico sueco-filho-de-imigrantes, em gíria local um “blatte”, traços de origem árabe, vestido como um gangsta rap e com um boné meio de lado, onde se podia ler “Kafka”. Infelizmente não consegui pescar a imagem em lugar algum. O texto do anúncio era: “Har du också en dold talang?”, mais ou menos “Você tem um talento escondido?” A jornalista escreveu, então, sobre Franz Kafka, que também era um outsider, filho de imigrantes em Praga.

Kafka, que Håkansson também chama de “blatte”, pertencia à terceira geração de imigrantes judeus de Praga, no então império Austro-húngaro. Seus pais conseguiram fazer a difícil viagem social de imigrantes pobres a classe média. Kafka pertencia à primeira geração de descendentes de imigrantes judeus a chegar à universidade, onde aprendeu grego, latim, todos os tipos de matérias filosóficas, se formou como advogado e se aprofundou no estudo do judaismo — para destacar ainda mais seu perfil de outsider.

Mas o mais interessante foi o penúltimo parágrafo da pequena matéria, em que Håkansson escreveu que Kafka escrevia no que ela chama de “Rinkebytyska”. Eu sei, essa palavra, que na verdade são duas, parece um código inquebrantável, uma verdadeira montanha-russa pras bocas não acostumadas a malabarismos idiomáticos. Mas não é não. O que acontece é que pra entender a palavra, vou ter que dar um pouco de background information.

Rinkeby é um subúrbio de Estocolmo onde a maioria dos imigrantes mora. Eu nunca fui lá, mas os jornais sempre retratam o local como um antro de violência e decadência social (eu duvido, acho preconceituoso, mas como não posso refutar, me calo. Veja, ao lado, a imagem da “decadência”, Swedish version). A discussão sobre a integração dos imigrantes à sociedade sueca sempre contou com uma polêmica especial: as gerações de crianças, nascidas e criadas em Estocolmo de pais estrangeiros, mas que ainda assim não falam sueco fluentemente ou falam com sotaque.

É esse o sueco que a imprensa chama de “Rinkebysvenska”, ou seja sueco de Rinkeby. Trata-se, pra quem ainda não pescou, de uma visão depreciativa da cultura jovem desses locais. O sueco de Rinkeby é, muitas vezes, uma escolha, uma marcação por parte dos jovens, cujos pais não conseguem empregos e [sobre]vivem frustração atrás de frustração. os jovens parecem dizer à sociedade: “Ok, vocês não me querem? Então eu também não quero vocês.” É um dialeto cheio de gírias árabes, turcas e africanas (principalmente da Somália).

Voltando, então, à matéria de Gabriella Håkansson. Ela escreve nesse penúltimo parágrafo que Kafka também escrevia numa linguagem controversa, que ela chama de “Rinkebytyska” (alemão de Rinkeby), ou um dialeto do alemão que apenas era falado pelos judeus de Praga. Ela diz que os pesquisadores ainda não chegaram a uma conclusão se a linguagem de Kafka enriqueceu ou empobreceu a língua (ha!). Mas o melhor: “talvez tenha sido a situação de ser um imigrante judeu de terceira geração em Praga que obrigou Kafka a agir na vanguarda, a criar simplesmente um novo tipo de literatura.”

Já pensou, que barato? Pena que não leio uma palavra em alemão.

A palavra em sueco do dia é skrivsugen, estar com vontade de escrever.

Filed under: Europa & Escandinávia,Jornal,Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 09:27

April 23, 2007

A razão do meu silêncio

A quem interessar possa.

A palavra em sueco do dia é c-uppsats, monografia de final de curso universitário.

Filed under: Livros,Universidade — Maria Fabriani @ 08:16

April 4, 2007

Alô, alô blog-nerds!

Será que algum maravilhoso blog-nerd pode me dar uma ajuda? Como posso (se é que posso) modificar o encoding do Montanha (UTF-8) para que todos os posts desses cinco anos não percam os acentos? Isso porque me dei conta de que, com a mudança pra nova versão do WordPress, os textos de todos os posts antigos — todos — perderam os acentos. Ler aquilo lá é pedir para que tico e teco, além de exauridos, fiquem disléticos. Obrigadinho adiantado.

O que eu tenho feito? Ah, lido muito pra monografia, marcado entrevistas pra monografia, falado com companheiras de curso sobre a monografia e sobre nossas últimas provas que chegaram (passamos todas, viva!). Aí, quando o tempo sobra, tenho lido muito sobre crianças, marcado hora com a parteira, falado com minhas amigas sobre crianças, enfin, uma vida cheíssima de emoções, sofisticação e glamour.

Dica de cinema legal pra quem gosta de filmes escandinavos: fique de olho caso um filme sueco chamado “Förortsungar”, cuja tradução é mais ou menos “Crianças dos subúrbios”, chegue à sua locadora. O filme é lindinho. É um musical e conta a história de Amina, uma menina refugiada que se esconde da polícia sueca com o avô no apartamento de um generoso rapaz para não serem expulsos do país.

O rapaz mora num dos prédios gigantes nos subúrbios das grandes cidades daqui, Estocolmo, Gotemburgo ou Malmö, que abrigam hoje em dia um grande número de imigrantes e alguns pouquíssimos nativos — geralmente aqueles sem muito dinheiro ou com problemas de dependência de drogas ou álcool. O filme ganhou um monte de prêmios locais e fez o maior sucesso. Lindinho.

A palavra em sueco do dia é förort, subúrbio.

Filed under: Cinema e televisão,Eu ♥ a Suécia,Vidinha — Maria Fabriani @ 14:52

April 2, 2007

Soluço no Montanha

Como alguns de vocês puderam ver, o Montanha-Russa andou tendo problemas desde ontem à tarde. Soluços, esquecimentos, memória em branco. A quizumba foi tanta que o banco de dados dos posts de 2006, que não havia sido salvo no meu último backup, aparentemente se perdeu no vácuo do ciberespaço, o que provocou em mim um pouco de tristeza, mas não muita (pra ser sincera).

Mas aí, meu urso entrou em campo e fez contato com os maravilhosos rapazes do nosso servidor lá na Inglaterra que recuperaram o blog até o dia 4 de março passado. Como nessa época eu praticamente não estava escrevendo, o último post que podia ser visto aqui era o do aniversário do blog, dia 28 de fevereiro. Agora já está tudo normalizado, graças ao cache do Google.

O problema aconteceu porque o blog excedeu a largura de banda que eu tinha direito de acordo com o meu plano. Isso já aconteceu uma vez, lááá no primeiro dia de 2006, quando mudei de Movable Type para Word Press. Agora mudei para uma versão mais avançada do Word Press além de ter feito um ligeiro upgrade do meu plano, o que significa mais largura de banda.

O problema com a (falta de) largura de banda não se deu devido ao interesse cada vez maior de gente badalada e evoluída em ler o Montanha. Não. O que aconteceu é que os robôs spâmicos redescobriram a gostosura que é “pingar” meus posts antigos, ainda no dinossáurico Movable Type. Só ontem apaguei 33 spams, aí minha cota de acesso acabou. E por que eu não apago o blog no Movable Type? Sei lá. Medo da cuca, I suppose. :)

Além de ter perdido os comentários dos últimos sete posts, tive que consertar a acentuação dos textos das páginas, das categorias e de alguns poucos posts mais recentes, além de seus títulos. O dicionário sueco-português foi o mais chato de verificar, isso porque a acentuação corrompida acontecia em ambas as línguas, português e sueco. (Vi agora que muitos posts dos arquivos estão com o problema de acentuacão. Oh, well.)

E a frescura continua. Agora o Montanha chegou à versão 5.4. O cinco corresponde aos cinco anos de existência do blog e o quatro às versões do site (Blogger, Movable Type, Word Press primeira versão e Word Press última versão).

Mais uma coisa: estava tendo problemas com meu computador desde ontem. Acho que foi a ressaca com o desaparecimento temporário dos aquivos de 2006. Por isso, se você me mandou um email e eu não respondi, não fique irritado(a). Sou chatinha mas não sou mal educada. Manda novamente. O problema acaba de ser resolvido pelo “rapaz do suporte”, com quem, aliás, divido minha cama. Hohoho.

A palavra em sueco do dia é hickar, soluços.

Filed under: Rebinboca da Parafuseta — Maria Fabriani @ 10:19
 

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