Tem dias que leio um treco que me inspira muito e que me dá gana de comentar, apreciar, desenvolver em texto. Ontem foi um desses dias. Estava esticadona, lendo meu jornal (já contei que fico deprê quando o jornal não vem? Pois é) quando me deparei com uma pequena matéria escrita por Gabriella Håkansson, jornalista e escritora, no caderno de cultura do DN.
O problema é que às vezes esses assuntos pelos quais me interesso são difíceis de se traduzir pro português. E não estou falando apenas da dificuldade de encontrar as palavras certas. A coisa é que alguns textos, na verdade, fazem parte de um contexto cultural, o que é complicado e trabalhoso de se explicar. Mas como hoje estou de bom humor, resolvi tentar.
Håkansson escreveu sobre uma campanha publicitária da chamada Folkuniversitet, literalmente “A universidade do povo”, uma espécie de entidade de ensino superior, ligada às maiores universidades da Suécia (Estocolmo, Gotemburgo, Lund e Umeå). A única diferença entre as Folkuniversitet e as universidades comuns é que pra estudar nas Folkuniversitet você não precisa de notas formais em matérias como sueco ou matemática. É nas Folkuniversitet, por exemplo, que muitos imigrantes aprendem sueco, assim como nativos se dedicam a artesanato ou balé.
A campanha mostrava a foto de um típico sueco-filho-de-imigrantes, em gíria local um “blatte”, traços de origem árabe, vestido como um gangsta rap e com um boné meio de lado, onde se podia ler “Kafka”. Infelizmente não consegui pescar a imagem em lugar algum. O texto do anúncio era: “Har du också en dold talang?”, mais ou menos “Você tem um talento escondido?” A jornalista escreveu, então, sobre Franz Kafka, que também era um outsider, filho de imigrantes em Praga.
Kafka, que Håkansson também chama de “blatte”, pertencia à terceira geração de imigrantes judeus de Praga, no então império Austro-húngaro. Seus pais conseguiram fazer a difícil viagem social de imigrantes pobres a classe média. Kafka pertencia à primeira geração de descendentes de imigrantes judeus a chegar à universidade, onde aprendeu grego, latim, todos os tipos de matérias filosóficas, se formou como advogado e se aprofundou no estudo do judaismo — para destacar ainda mais seu perfil de outsider.
Mas o mais interessante foi o penúltimo parágrafo da pequena matéria, em que Håkansson escreveu que Kafka escrevia no que ela chama de “Rinkebytyska”. Eu sei, essa palavra, que na verdade são duas, parece um código inquebrantável, uma verdadeira montanha-russa pras bocas não acostumadas a malabarismos idiomáticos. Mas não é não. O que acontece é que pra entender a palavra, vou ter que dar um pouco de background information.
Rinkeby é um subúrbio de Estocolmo onde a maioria dos imigrantes mora. Eu nunca fui lá, mas os jornais sempre retratam o local como um antro de violência e decadência social (eu duvido, acho preconceituoso, mas como não posso refutar, me calo. Veja, ao lado, a imagem da “decadência”, Swedish version). A discussão sobre a integração dos imigrantes à sociedade sueca sempre contou com uma polêmica especial: as gerações de crianças, nascidas e criadas em Estocolmo de pais estrangeiros, mas que ainda assim não falam sueco fluentemente ou falam com sotaque.
É esse o sueco que a imprensa chama de “Rinkebysvenska”, ou seja sueco de Rinkeby. Trata-se, pra quem ainda não pescou, de uma visão depreciativa da cultura jovem desses locais. O sueco de Rinkeby é, muitas vezes, uma escolha, uma marcação por parte dos jovens, cujos pais não conseguem empregos e [sobre]vivem frustração atrás de frustração. os jovens parecem dizer à sociedade: “Ok, vocês não me querem? Então eu também não quero vocês.” É um dialeto cheio de gírias árabes, turcas e africanas (principalmente da Somália).
Voltando, então, à matéria de Gabriella Håkansson. Ela escreve nesse penúltimo parágrafo que Kafka também escrevia numa linguagem controversa, que ela chama de “Rinkebytyska” (alemão de Rinkeby), ou um dialeto do alemão que apenas era falado pelos judeus de Praga. Ela diz que os pesquisadores ainda não chegaram a uma conclusão se a linguagem de Kafka enriqueceu ou empobreceu a língua (ha!). Mas o melhor: “talvez tenha sido a situação de ser um imigrante judeu de terceira geração em Praga que obrigou Kafka a agir na vanguarda, a criar simplesmente um novo tipo de literatura.”
Já pensou, que barato? Pena que não leio uma palavra em alemão.
A palavra em sueco do dia é skrivsugen, estar com vontade de escrever.