Matemática e auto-estima
O título desse post sempre foi uma impossibilidade emocional pra mim. Bom, esse blog não morreu, apesar dos boatos. Nem tão pouco sua dona, que está beeeeem, vivíssima da silva porém meio sem tempo pra mobilizar forças para escrever aqui. Mas hoje eu quebro o silêncio. As semanas têm sido corridas, como já escrevi abaixo. Estudo em Umeå mas passo todos os momentos livres que posso em casa, em Boden, o que representa muitíssimas preciosas horas dentro de um ônibus entre as duas cidades. Mas tudo bem.
Uma das vantagens de se estar em casa no final de semana é poder ler o jornal deitada no sofá. Tava lá hoje a visita do professor de matemática paulista Ubiratan D’Ambrósio à Suécia. Você sabe quem ele é? Pois é, eu também não. Mas olha só: o professor D’Ambrósio é, segundo meu jornal, reconhecido mundialmente como o fundador do movimento chamado de “etno-matemática”, ou seja um tipo de matemática que se adapta a cada cultura que a utiliza. As pessoas inseridas nessa cultura desenvolvem então ferramentas próprias para contar, medir, calcular.
Por intermédio da etno-matemática, os professores são estimulados a enxergar como o aluno chegou é solução do problema por seus próprios meios e não apenas pelo único meio aceitável (imagina, eu não era tããão incompetente assim!). Esse é um dos métodos usados para ensinar aos alunos a matemática formal, clássica, porém de forma mais acessível. Professor D’Ambrósio visitou uma escola em Estocolmo onde muitos dos alunos vêm de outros países, principalmente do Iraque ou da Somália. Ele viu como professores ensinavam matemática em duas línguas e as crianças acompanhavam tudo.
No final, ele disse: “Como professor não se deve falar o tempo todo, mas sim ouvir e aprender para se aperfeiçoar. E quando culturas se encontram assim, não se pode esperar que os alunos se tornem suecos. O que está se produzindo aqui é uma nova cultura que, caso seja bem-sucedida, dá início a uma dinâmica muito interessante”. Eu só digo o seguinte: onde estava o professor D’Ambrósio quando eu estava no colégio??? E tem mais: No ano de 2005, ele ganhou a medalha Felix Klein, que a jornalista classifica como o prêmio equivalente ao Nobel. D’Ambrósio vai se encontrar com a Rainha Silvia, que foi sua aluna nos anos 50 em São Paulo.
Esse tipo de coisa me deixa meio triste. Isso porque nós, brasileiros, não ficamos sabendo dessas pessoas maravilhosas que nascem no Brasil e que influenciam o mundo todo — a não ser quando elas são estrelas do futebol ou de fórmula um. Na Suécia, os nativos são muito mais competentes para se lembrar dos sucessos de seu povo. Basta ser tataraneto de uma conhecida que morou no país e que falava sueco pra eles se sentirem orgulho. Sério! Por exemplo: me lembro que uma das vencedoras do prêmio Nobel de medicina de 2004, a americana Linda Buck é neta de suecos. O apresentador da entrevista disse que “pode-se dizer que o prêmio de medicina está indo pra uma pesquisadora sueca, já que a avó dela veio daqui”.
Naquela época, eu ri, achei ridículo. Mas hoje, compreendo. É uma estratégia muitíssimo inteligente. É construir a auto-estima de uma nação. E isso é tão importante quando futebol. Acredite se quiser.
A palavra em sueco do dia é stolthet, orgulho.


Sou canceriana, o que não deve ser mais surpresa pra ninguém (ainda mais depois do post de ontem). Ao mesmo tempo, sou uma canceriana rebelde, porque se existe alguma coisa que eu detesto é juntar coisa velha. Tudo bem que tenho fotografias da minha avó ainda criança, da minha mãe bebê, de parentes que nem conheci; guardo a louça inglesa da minha avó com carinho redobrado e só uso em momentos especiais etc. Mas, de resto sou como qualquer ariana, fora com o velho, que venha o novo. 
