January 27, 2007

Matemática e auto-estima

O título desse post sempre foi uma impossibilidade emocional pra mim. Bom, esse blog não morreu, apesar dos boatos. Nem tão pouco sua dona, que está beeeeem, vivíssima da silva porém meio sem tempo pra mobilizar forças para escrever aqui. Mas hoje eu quebro o silêncio. As semanas têm sido corridas, como já escrevi abaixo. Estudo em Umeå mas passo todos os momentos livres que posso em casa, em Boden, o que representa muitíssimas preciosas horas dentro de um ônibus entre as duas cidades. Mas tudo bem.

Uma das vantagens de se estar em casa no final de semana é poder ler o jornal deitada no sofá. Tava lá hoje a visita do professor de matemática paulista Ubiratan D’Ambrósio à Suécia. Você sabe quem ele é? Pois é, eu também não. Mas olha só: o professor D’Ambrósio é, segundo meu jornal, reconhecido mundialmente como o fundador do movimento chamado de “etno-matemática”, ou seja um tipo de matemática que se adapta a cada cultura que a utiliza. As pessoas inseridas nessa cultura desenvolvem então ferramentas próprias para contar, medir, calcular.

Por intermédio da etno-matemática, os professores são estimulados a enxergar como o aluno chegou é solução do problema por seus próprios meios e não apenas pelo único meio aceitável (imagina, eu não era tããão incompetente assim!). Esse é um dos métodos usados para ensinar aos alunos a matemática formal, clássica, porém de forma mais acessível. Professor D’Ambrósio visitou uma escola em Estocolmo onde muitos dos alunos vêm de outros países, principalmente do Iraque ou da Somália. Ele viu como professores ensinavam matemática em duas línguas e as crianças acompanhavam tudo.

No final, ele disse: “Como professor não se deve falar o tempo todo, mas sim ouvir e aprender para se aperfeiçoar. E quando culturas se encontram assim, não se pode esperar que os alunos se tornem suecos. O que está se produzindo aqui é uma nova cultura que, caso seja bem-sucedida, dá início a uma dinâmica muito interessante”. Eu só digo o seguinte: onde estava o professor D’Ambrósio quando eu estava no colégio??? E tem mais: No ano de 2005, ele ganhou a medalha Felix Klein, que a jornalista classifica como o prêmio equivalente ao Nobel. D’Ambrósio vai se encontrar com a Rainha Silvia, que foi sua aluna nos anos 50 em São Paulo.

Esse tipo de coisa me deixa meio triste. Isso porque nós, brasileiros, não ficamos sabendo dessas pessoas maravilhosas que nascem no Brasil e que influenciam o mundo todo — a não ser quando elas são estrelas do futebol ou de fórmula um. Na Suécia, os nativos são muito mais competentes para se lembrar dos sucessos de seu povo. Basta ser tataraneto de uma conhecida que morou no país e que falava sueco pra eles se sentirem orgulho. Sério! Por exemplo: me lembro que uma das vencedoras do prêmio Nobel de medicina de 2004, a americana Linda Buck é neta de suecos. O apresentador da entrevista disse que “pode-se dizer que o prêmio de medicina está indo pra uma pesquisadora sueca, já que a avó dela veio daqui”.

Naquela época, eu ri, achei ridículo. Mas hoje, compreendo. É uma estratégia muitíssimo inteligente. É construir a auto-estima de uma nação. E isso é tão importante quando futebol. Acredite se quiser.

A palavra em sueco do dia é stolthet, orgulho.

Filed under: De bem com a vida,Jornal — Maria Fabriani @ 17:19

January 17, 2007

Primeira semana

Essa primeira semana está sendo corridíssima. Muitas palestras, trabalhos de grupo e hoje tivemos inclusive uma palestra extra com Bengt Jarl, psicólogo especialista em tratamento de criminosos sexuais (pedófilos e que tais). Ele falou durante três horas para um auditório repleto de estudantes de psicologia e de, como eu, assistência social. Foi interessantíssimo.

Fiquei fascinada com as histórias que ele contou depois de 20 anos de experiência de trabalho apenas com esse tipo de criminosos. Fascinada e horrorizada. Mas esse trabalho é, infelizmente, um campo cada vez mais visível para profissionais como psicólogos e assistentes sociais. No final, tive de fazer uma pergunta.

“Como é que você aguenta?”, perguntei. Disse que sabia que ele era profissional e que era evidente que ele sabia separar as visões distorcidas de seus pacientes (quase apenas homens) da imagem que ele próprio tinha da sua masculinidade. Mesmo assim, continuei, acho incrível que um profissional possa se engajar no caso de pacientes sem ficar completamente enojado com o crime cometido.

A resposta foi simples: em todos os trabalhos que teve, ele sempre teve acompanhamento psicológico (muito comum pra quem é psicólogo) ou o chamado handledning, que é sueco para supervisão, ou o contato com uma pessoa mais experiente e que possa agir como um parceiro de conversa franca (mais comum para assistentes sociais).

Ele destacou ainda que o importante para que o tratamento dê certo (e para que o profissional não pire), é que o psicólogo ou assistente social saiba separar a pessoa sentada na sua frente do crime cometido por ele/ela. Acho isso uma das coisas mais complicadas de se conseguir atingir. É muito difícil não ter questões morais no tratamento de criminosos sexuais.

É muito difícil, acho eu, não recorrer ao primitivismo e dizer que esse tipo de criminoso devia ser castrado e pronto. Bengt Jarl disse que a chamada castração química não funciona em todos os casos. Sinceramente, ainda acho que preciso de muito anos de experiência, de muito conhecimento, de muitos argumentos para poder sair do primitivismo e me elevar ao nível profissional dele. Se é que algum dia conseguirei.

A palavra em sueco do dia é förövare, criminoso.

Filed under: De bem com a vida,Universidade — Maria Fabriani @ 17:12

January 15, 2007

Mais um semestre

Primeiro dia de aula depois de seis meses de estágio. Ainda estou tendo dificuldade de me sentir bem aqui em Umeå (uma cidade que, apesar de tudo, eu amo de paixåo). É bom rever minhas amigas e de saber que trabalharemos no mesmo grupo. Nesse semestre nossa turma se dividiu um vários cursos. O bom é que todas as chatas escolheram outros cursos! Escolhi um curso para assistentes sociais que pretendem trabalhar com pessoas de outras etnias e multiculturalismo. São tantas palestras interessantes, tantos livros legais! Estou feliz.

Ah, uma coisa: depois que meu urso instalou meu computador aqui no meu quartinho alugado, notamos que alguns emails tinham sumido da minha caixa postal. Desculpa aí se eu não respondi a alguma mensagem enviada nos últimos dias. Se você me mandou um email, eu n�o respondi e você faz questão de uma resposta, mande novamente. No mais, a vida continua. Estou sem poder ler meu jornal, o que me deixa menos contente. Sei que a Internet está aí, ainda mais com banda larga, mas sou das antigas. Gosto do papel.

Desisti de ler o tal livro da Kiran Desai e o doei para a biblioteca pública de Boden. Agora estou com uma pilha de livros do curso, muito interessantes, para ler. O primeiro, que precisa ser lido pra amanhã, eu não apenas já li como comentei aqui. Me lembro que quando li esse livro pela primeira vez ainda estava naquela fase de reação: tudo era muito negativo aqui. Hoje tenho uma visão um pouco mais equilibrada das coisas, apesar de ainda sentir uma grande insegurança no futuro. Nada que possa ser resolvido com estudos. Apenas com paciência, insistência e um pouco de sorte.

A palavra em sueco do dia é mångkulturell, multicultural.

Filed under: De bem com a vida,Universidade — Maria Fabriani @ 17:17

Meg (não) se foi

No início do Montanha-Russa, em fevereiro de 2002, eram poucos os interessados em ler meu blog. Apenas amigos dos meus tempos de jornalismo, algumas pessoas que conheci por intermédio de outros amigos etc. A blogosfera era então, bem limitada. Lia alguns blogs e descobria outros, numa viagem diária pela vida de pessoas diferentes. Ainda me lembro de como era cândida nos meus posts, de como me expunha sem medo, como me colocava inteira ali. Não tinha medo de ataques e de gente ruim, até porque a maioria deixava comentários engraçados e bacanas. Uma dessas pessoas que surgiu do nada foi a Meg, que chegou distribuindo carinho.

Hoje, cansada de minhas próprias agruras (e doçuras), sentei no computador para escrever um post novo. Quando terminei, fui na Cora, como sempre faço, com saudades do meu Rio. Mas ao invés de fotos encontrei um post sobre a morte de Meg. Uma parte de mim pensa: que bom, ela descansou. Outra parte, mais egoísta, pensa: que pena, o mundo precisa de gente delicada como a Meg.

Boa viagem, amiga!

Filed under: Saudade — Maria Fabriani @ 17:15

January 11, 2007

Ainda sobre a alegria

Escrevi no primeiro post sobre alegria (em 29/12) que uma empresa de consultoria britânica teria chegado à conclusão de que a Dinamarca tem o povo mais feliz do mundo. Pois é. Ontem, lendo o jornal sueco Svenska Dagbladet pela internet, me deparei com uma matéria exatamente sobre isso. Lá está, preto no branco, num artigo publicado na revista científica BMJ, que os dinamarqueses são os mais contentes por terem poucas expectativas, ou expectativas bem limitadas com relação ao ano novo que chega. O texto do jornal sueco diz assim:

“A Suécia tem mais loiras lindas per capita, Itália e França possuem uma culinária muito melhor e, em termos gerais, o mundo inteiro apresenta um clima melhor do que o dinamarquês. Ainda assim, a Dinamarca está no topo da lista no que diz respeito à satisfação com a vida.”

A pesquisadora dinamarquesa Kaare Christensen, uma das escritoras do artigo, diz que a Suécia pode ter um maior número de loiras lindas, mas afirma que a quantidade é tão grande que o desfrute nativo acaba se diluindo. Sobre o tempo, Christensen pondera que é algo positivo que o clima dinamarquês seja um pouco mais frio e mais chuvoso do que, por exemplo, o clima britânico. Isso faria com que, quando o sol finalmente aparecesse, os dinamarqueses pudessem apreciá-lo ainda mais intensamente.

Daí temos, talvez, uma outra boa explicação para a alegria brasileira. Isso porque convenhamos, poucos são os povos na face da terra que têm expectativas tão limitadas quanto o brasileiro médio. Por exemplo: sair pro trabalho e poder voltar pra casa, no final do dia, em um pedaço só. Mas a questão da alegria brasileira não é tão fácil assim de ser explicada. Segundo a pesquisa da cientista dinamarquesa, o Brasil está entre os países que apresentam alegria mediana (veja aqui o mapa mundi da alegria — Link para a BBC, arquivo em .pdf).

A palavra em sueco do dia é förväntan, expectativa.

Filed under: De bem com a vida,Europa & Escandinávia — Maria Fabriani @ 08:21

January 10, 2007

A pé

Neste exato momento daria tudo para estar andando numa praia de areia clara e quente. Lá pelos lados de Búzios ou mesmo Paraty. Não que sinta falta do calor — não sinto mesmo — mas gosto muito da sensação de liberdade de poder andar descalça na areia. Na grama. Na rua. Sentir o cheiro de maresia. Colocar um short e uma camiseta e sair pra rua.

Hoje sonhei com minha avó materna. Eu estava em casa (no Rio) conversando com alguém na sala. Ela olhava pra mim e sorria, da porta da cozinha. Um sorriso de profundo afeto. Acordei emocionadíssima.

Hoje não tem palavra em sueco.

Filed under: Saudade,Vidinha — Maria Fabriani @ 11:30

January 8, 2007

Post de segunda-feira

Finalmente, a vida recomeça depois de um longo período de festas e fim de ano. E eu dou graças aos céus. Não que férias me desagradem, vejam bem, sou meio neurótica mas não sou louca. Gosto mesmo é de começar coisas — e de terminá-las. O meio do caminho é que é meio difícil pra mim, já que, como alguns de vocês já puderam notar, tenho uma tendência à elucubração. O que nem sempre é saudável.

Não sou dessas pessoas que fazem resoluções de fim de ano. Nada de errado com elas — com as pessoas ou com as resoluções — mas particularmente acho que se há um desejo interno de mudança não é preciso esperar por um dia especial para se começar. Por isso, meu 2007 teve um início em aberto, com muitas expectativas, uma vontade enorme de ser feliz e de me manter saudável. O resto é lucro.

E eu estou lu-tan-do com “The Inheritance of Loss”, de Kiran Desai. Não con-si-go gostar do livro, que de tão chato me faz querer escrever separando as palavras em sílabas para dar mais ên-fa-se. Aí você me pergunta porque eu não estou gostando do livro. A coisa é que não consigo me identificar com nada: os personagens são “ingostáveis”, a linguagem é saltitante de desagradável, a história parece andar em círculos etc.

Eu, obviamente, não compreendo o state of mind britânico ou ainda o indu-britânico. Não entendo os códigos, os diálogos, a meneira de pensar. Gosto, no entanto, do humor. O que o livro, ao que parece, não tem. Gosto, por exemplo, do humor escrachado do maravilhoso “Little Britain”, que passa aqui na TV estatal sueca. Humor escatológico nunca me agradou, mas Matt Lucas e David Walliams (é com “a” mesmo) são geniais. Além disso, sou fã incondicional das loucas do Absolutely Fabulous.

A palavra do dia em sueco é måndag, segunda-feira.

Filed under: De bem com a vida,Livros,Vidinha — Maria Fabriani @ 09:45

January 5, 2007

Sol invernal

January sky

December sky

A palavra em sueco do dia é sol, sol.

Filed under: Eu ♥ a Suécia,Vidinha — Maria Fabriani @ 10:58

January 4, 2007

Teoria sobre a alegria

Sou canceriana, o que não deve ser mais surpresa pra ninguém (ainda mais depois do post de ontem). Ao mesmo tempo, sou uma canceriana rebelde, porque se existe alguma coisa que eu detesto é juntar coisa velha. Tudo bem que tenho fotografias da minha avó ainda criança, da minha mãe bebê, de parentes que nem conheci; guardo a louça inglesa da minha avó com carinho redobrado e só uso em momentos especiais etc. Mas, de resto sou como qualquer ariana, fora com o velho, que venha o novo.

Porém, admito uma recaída: sou daquelas que guarda jornais velhos, onde leio artigos interessantes. Por vezes, os jornais se acumulam na estante. Alguns chegam até a ficar meio amarelados e com uma consistência mais porosa. Mas esses são casos raros. Até porque me dá nervoso ver a pilha aumentando e juntando poeira. Volta e meia até esqueço o por quê do meu interesse, quando finalmente vou ver qual o artigo que me chamou a atenção.

Foi por isso que resolvi dar uma olhada nas cinco edições do caderno de cultura do meu jornal que acumulei durante essa folga natalina-revéillonina. Uma das edições trazia três artigos sobre um livrinho chamado “Das Unbehagen in der Kultur”, escrito por Sigmund Freud em 1930. O título em sueco, “Vi vantrivs i kulturen”, pode ser traduzido mais ou menos como “Somos infelizes na cultura” e me fez pensar naquele post sobre a suposta alegria do brasileiro e a suposta falta de alegria dos povos de primeiro mundo.

Cultura, aqui, não quer dizer entretenimento. O conceito de cultura está mais ligado ao conceito de civilidade. Isso é, para Freud, a cultura é formada por privações, por atos que gostaríamos de realizar mas não o fazemos — porque somos civilizados. Por exemplo: nosso Id teria um impulso de sair dirigindo seu carro a toda, sem precisar respeitar sinais ou convenções, sem ter respeito pelos traficantes pedestres. Mas, em uma sociedade civilizada, isso não acontece, porque o superego do cidadão corta o impulso primário e o faz respeitar o limite de velocidade.

A atuação do superego, explica Freud, torna a sociedade, ou seja, a vida em comunidade, um projeto possível. Porém garante também a insatisfação dos cidadãos, cujos Ids raramente podem ser atendidos (a não ser em locais, horas e de formas sancionadas pela moral e leis vigentes). Daí, acho, é de onde vem a alegria brasileira, onde os Ids das pessoas, quer dizer, seus impulsos mais primários e sem limites, são seguidos mais livremente, o que faz da sociedade brasileira, segundo os padrões de Freud, pouco civilizada, porém feliz.

Na Suécia, onde a civilidade é respeitadíssima, há uma tristeza inerente, uma frustração constante dos impulsos mais primitivos por um superego poderosíssimo. Isso facilita a construção de uma sociedade equilibrada, onde cada pessoa tem seus direitos respeitados e onde as convenções formais, tais como limites de velocidade, são respeitadas na maioria das vezes sem muito problema. Porém, é nesse tipo de sociedade controlada que a alegria capaz de aliviar a tensão cotidiana é mais difícil de ser encontrada.

A partir daí, pode-se até entender o por quê da paixão nativa pelos finais de semana regados a muita bebida alcoólica. É durante sextas, sábados e domingos que o Id encontra uma válvula de escape, a possibilidade de se manifestar livremente. Uma das coisas que mais se diz aqui, como desculpa, é: “Eu estava bêbado, não sabia o que estava fazendo”. E esse tipo de explicação é amplamente sancionada socialmente. Ninguém pára pra questionar o simples fato da pessoa em questão ter exagerado na bebida. Isso é nor-mal e esperado.

Particularmente, acho que prefiro uma cultura/sociedade civilizada e um pouco macambúzia a uma cultura desregulada porém feliz. No entanto, volta e meia, baixa um caboclo que faz com que eu sinta uma falta extrema da loucura carioca. Tenho consciência de que essa saudade é motivada pela distância, que sempre contribui para uma visão romanceada do que deixamos pra trás. Mas, ainda assim.

A palavra em sueco do dia é samhälle, sociedade.

Filed under: Elucubrações,Eu ♥ a Suécia,Jornal — Maria Fabriani @ 10:32

January 3, 2007

Gregária ou não, eis a questão

Ser apresentada pela primeira vez a uma pessoa desconhecida é como começar a ler um livro novo. Nos vemos, um diante do outro, com alguma expectativa mútua de que, no mínimo, possamos nos entender. Olho pra pessoa/livro, avalio seu exterior/capa, não sem antes ter ouvido o que outras pessoas me disseram sobre ela/ter lido uma resenha. Mas nosso encontro é um total mistério, já que tento não julgar a pessoa pela cara/o livro pela capa. Começamos a conversar/ler e eu espero com todo fervor que a pessoa diga uma coisa interessante logo de cara, que me deixe surpresa e curiosa, que me toque de alguma forma.

Às vezes, porém, acho a interação um pouco desgastante; a pessoa/livro me diz coisas desagradáveis, me provoca, me diz pra eu parar de dizer/pensar coisas (que talvez incomodem a ela). Nessas horas tenho fantasias eremitas, de desconexão total com o mundo as we know it. Desisto de ler (o que é raro), saio em procura de outro livro/pessoa. Uma das minhas fantasias mais atraentes é me tornar uma cat lady, daquelas que andam com roupas gozadas, cheiram a patchuli, tem os cabelos meio desgrenhados e parecem gostar da solitude de sua casa, de observar seus gatos e nem por isso depende deles, já que, como sabemos, gatos são seres especiais.

Um ser ainda mais especial do que os gatos me disse que é importante abrir-se, deixar as pessoas chegarem mais perto, sem medo. “Você precisa disso”, disse-me ele. Eu não acho isso tão fácil. Nunca achei. O interessante é que sempre tive facilidade em encontrar livros/pessoas interessantes, cuja amizade retenho por muitos anos. Mas existe em mim um ponto e vírgula, uma necessidade de parar sem parar. É meio confuso e muita gente boa já saiu de perto achando que dá muito trabalho essa complicação toda. São esses os livros que são deixados de lado e depois redescobertos. As pessoas, infelizmente, não me permitem acesso à mesma prerrogativa.

E, muitas vezes, eu própria saio da hesitação e resolvo que não quero mais contato. Dôo o livro, esqueço. Isso porque descobri que, ao contrário do que me disseram durante toda a minha vida, minha pele fica mais sensível a cada ano que passa, não mais dura e resistente. Parece que a calosidade da alma está se dissolvendo lentamente, com o passar dos anos. Tenho medo de imaginar como vai ser quando estiver ainda mais velha, a ardência de ter de lidar com seres humanos pouco cuidadosos ou, simplesmente, humanos. E essa sensibilidade out of the charts me irrita, me deixa frustrada. Mas ela existe, trespassa minha vida inteira como uma flecha envenenada.

E eu fico ali, no meio do vendaval.

O ano novo foi ótimo, obrigada. Entre família e amigos (hence the text above). Esse ano pro-me-te.

A palavra em sueco do dia é allegori, alegoria.

Filed under: Elucubrações,Livros,Vidinha — Maria Fabriani @ 08:39
 

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