O Marcus comentou no post abaixo que a Suécia não parece ser muito cosmopolita como Iguaterra e EUA e pergunta se a impressão é correta. A resposta simplificada e generalizada é: não, a Suécia não é cosmopolita como Londres e Nova York. Porém, o assunto é tão interessante, que merece um post. Isso porque quando se fala sobre a Suécia no Brasil — assim como em muitos outros lugares do mundo — há sempre uma aura de sofisticação, uma camada de elegante frescor e modernidade. Gente loira e bonita, inteligentes, civilizados, educados. E, de forma geral, essa é uma imagem acurada.
Por outro lado, é aquela coisa: bem de perto, ninguém é perfeito. Até porque somos todos humanos. Os mesmos nativos que são loiros e bonitos (na sua marioria) podem ser extremamente provincianos e preconceituosos. Por mais que não sejam tão alienados como outros povos do planeta, como alguns americanos ou a classe alta brasileira, sua visão de mundo se reduz ao que conhecem e às suas tradições. Já o que desconhecem lhes dê medo, não curiosidade.
É claro, isso é uma generalização. Há muita gente boa e aberta aqui, obviamente. Até porque se o cenário fosse tão impossivelmente negativo assim eu não agüentaria morar aqui por tanto tempo. Escrevo essa ressalva porque não quero receber emails/comentários furiosos de gente que ficou chateada porque critiquei o país onde mora ou a nacionalidade do marido.
Bem, de volta à vaca fria. Podemos nos perguntar como é que essas duas imagens do povo sueco coexistem. Primeiro: há uma diferença enorme entre as grandes cidades e as pequenas cidades do interior. Ao mesmo tempo, não se deve idealizar as cidades maiores como Estocolmo e Gotemburgo. Afinal, é lá que a maioria dos imigrantes mora e onde parte deles é alvo de discriminação.
Segundo: uma outra explicação para o provincialismo sueco é que o país até bem pouco tempo atrás era uma sociedade rural, pobre e pouco desenvolvida. Não é a toa que milhões de suecos emigraram para os EUA desde o final do século XIX e início do século XX. Os emigrantes queriam ganhar dinheiro, mandar dinheiro pra casa, enfim, o sonho médio de quem busca uma vida melhor.
Depois da Segunda Guerra Mundial, lá pro final da década de 40, a Suécia, preservada pela sua “neutralidade”, começou a dar passos larguíssimos em direção ao desenvolvimento pleno, à nação de primeiríssimo mundo que é. Até aí, as condições de moradia nas grandes cidades, por exemplo, eram muito precárias. Sem muita base histórica, imagino a Estocolmo de então como uma versão nórdica dos cortiços de Aluízio Azevedo.
Nessa época é que uma série de políticos importantes — todos eles vindos de ideais social-democratas — dominaram o poder e colocaram a Suécia nos trilhos do desenvolvimento. Um dos mais importantes foi Per-Albin Hansson, que abriu caminho nas décadas de 30 e 40 para o moderno welfare state sueco e reforçou a idéia da folkhemmet, ou a “casa do povo”. Suas idéias foram levadas adiante por outros primeiro-ministros social-democratas, como Tage Erlander (década de 50-60) e Olof Palme (década de 60-70).
Foi nesse momento histórico, nessa janela que vai dos anos pós-guerra até a década de 70, que a Suécia se tranformou numa nação exemplar. Isso aconteceu, notem bem, em pouco mais de duas gerações. A cabeça de alguns dos nativos simplesmente não acompanhou o ritmo da sofisticação do estado. O boom sueco foi tamanho que muitos imigrantes, principalmente finlandeses, gregos e italianos, vieram pra cá na década de 60 para trabalhar. O mercado de trabalho os absorveu prontamente e sem qualquer trauma.
Isso não aconteceria caso esses imigrantes tivessem vindo pra cá na última década. Sou uma social-democrata, agora até mesmo de carteirinha. Mas devo dizer que a política de emprego criada pelos socialistas lá nas décadas de 40, 50 e 60, que garante a segurança do trabalhador a qualquer custo, precisa ser revista. Não sou daquelas liberais disfarçadas que defendem uma centralização do socialismo. O que eu acho é que o modelo sueco está ultrapassado — o que é uma pena — mas é a pura e dura realidade.
O clima no mercado de trabalho daqui é duríssimo e muito diferente dos vizinhos dinamarqueses, por exemplo, cujo modelo, batizado de Flexicurity, em linhas gerais facilita tanto a contratação quanto a demissão. Hoje grande parte dos jovens suecos não tem emprego fixo. Eles se sustentam com a ajuda dos pais, com dinheiro do social e com trabalhos temporários. A mesma coisa acontece com parte dos imigrantes de primeira e segunda gerações.
Converso com nativos que conheço, algumas amigas da faculdade, e a imagem que tenho é homogênea: conseguir um trabalho fixo, até mesmo para os suecos, é dificílimo, uma verdadeira façanha. A idade média de quem consegue seu primeiro emprego fixo, com direito a férias e todas as seguranças, é 30 anos. No final das contas, a segurança total criada nas décadas passadas acaba prejudicando a entrada de jovens e de alguns imigrantes no mercado de trabalho.
As empresas daqui são obrigadas a pagar salários decentes aos trabalhadores, quase todos organizados em sindicatos cuja linha de trabalho é baseada no chamado kollektivavtal, ou “acordo coletivo”, que garante o mínimo de segurança aos trabalhadores. Isso é fantástico. O problema é que esses salários altos são acompanhados por impostos igualmente altos, os quais financiam o tal do welfare state. A outra face da moeda desse círculo virtuoso de segurança que tanto causa inveja aos brasileiros em geral é que as regras do jogo dificultam muito a contratação de gente nova, seja ele/ela sueco étnico ou imigrante.
Exemplo: segundo dados do Statistiska centralbyrån, o salário de um trabalhador do setor privado, cujo status é equivalente mais ou menos a um servidor público brasileiro, é de 43.360 coroas (cerca de US$ 6.200 ou R$ 12.400), sendo que desse montante, 29.028 coroas (US$ 4.200 ou R$ 8.400) correspondem ao salário bruto, antes dos impostos de pessoa física (30%, 50% ou mais, dependendo da sua renda). O resto, 14.332 coroas (US$ 2.000 ou R$ 4.000), correspondem a impostos sindicais, seguros e taxas variadas pagas pelos empregadores.
Isto é, quando se contrata alguém deve-se estar preparado para pagar dois salários: um para o empregado e outro para o governo na forma de impostos. Junte-se a isso a dificuldade que os empregadores têm em demitir trabalhadores, e a fórmula para o desemprego está criada. É aí que o provincialismo ataca com mais forças: só se emprega quem já tem experiência e/ou contatos. Por isso, milhares de jovens sem experiência de trabalho e imigrantes sem contatos na sociedade sueca ficam às margens do mercado de trabalho e não vêm uma luz no fim do túnel (yours truly included).
A segurança no mercado de trabalho existe e é possível. Só resta saber se ela pode ser extendida a todos os cidadãos ou a apenas um happy few.
A palavra em sueco do dia é perspektiv, perspectiva.