November 30, 2006

Today is a good day

Ontem, depois do estágio, fui à biblioteca pública de Boden, onde pego emprestado a grande maioria dos livros que leio (já em Umeå meu cartão da biblioteca da universidade nunca descansa). Tinha reservado dois livros. Um tinha chegado, “Snö” (“Snow”) do Nobel prize winner Orhan Pamuk. Mas resolvi postergar a leitura desse para ler primeiro “Istambul”. Acabei levando outros dois livros (nunca me contento com apenas um; isso vale pra tudo, de livros a biscoitos. A sorte é que marido só é um mesmo, hohoho). Anyhoo, peguei emprestado “Montecore”, de Jonas Hassen Khemiri, e “Förklädd till man” (em inglês, “Self-Made Man”), de Norah Vincent.

O primeiro é mais um romance do escritor sueco que debutou com “Ett öga rött”, que li em maio de 2004 e adorei. Queria comprar “Montecore”, mas como ele ainda não saiu em pocket, vai emprestado mesmo porque meus bolsos não são infinitos. O segundo é um livro-reportagem. Norah Vincent se vestiu de homem durante 18 meses e investigou como é viver no universo masculino. Ela dá uma de Günter Wallraff, o repórter alemão que se disfarçou de turco para investigar a verdade do mercado de trabalho alemão dos anos 80. Comecei por esse e já estou gostando. Vamos ver no que vai dar.

Adoro ir às bibliotecas suecas. Tudo é tão organizado, tão bonito, tão bacana! Com exceção da parte de livros didáticos da biblioteca da universidade, onde alguns alunos escondem livros para que eles não possam ser emprestados, aqui pegar livro emprestado funciona muitíssimo bem. E essa opinião não é só minha. Durante o ano de 2004 foram emprestados 7,0 livros/habitante, o que ao todo representa 63,3 milhões de empréstimos. É muito pros meus parâmetros brasileiros, mas ainda assim a cifra é inferior à de 1980 quando os nativos pegaram emprestados nada menos do que 76,2 milhões de livros.

Obras infantis são as que mais têm saída: 44% dos empréstimos são de publicações pra crianças. Em 1980 as bibliotecas emprestavam uma média de 20,3 livros infantis por criança em idade de 0 a 14 anos. Em 2004 esse número caiu para 18,3 livros/criança. Durante o ano de 2004 foram feitas 73 milhões de visitas às bibliotecas do país, o que representa 8,1 visitas por habitante. Essas estatísticas vieram do Conselho de Cultura sueco (ou Kulturrådet). As bibliotecas, além de livros, têm computadores — alguns com acesso a Internet — salas silenciosas para leitura, partes abertas para leitura de jornais etc. Eu me amarro — apesar de ainda preferir possuir os livros que leio, principalmente os que gosto.

A palavra em sueco do dia é lån, empréstimo.

Filed under: Eu ♥ a Suécia,Livros — Maria Fabriani @ 14:39

November 29, 2006

Linda


Foto: Vanda

A palavra em sueco do dia é nejlika, cravo.

Filed under: Elucubrações,Pra frente é que se anda — Maria Fabriani @ 19:03

Not a good day

Por mais esclarecida que eu seja, por mais consciente de minhas necessidades e dos meus limites, por mais que eu observe cuidadosamente os sinais que minha alma dá, ainda assim acho difícil notar todas as mudanças que ocorrem ao longo do meu caminho mental e emocional. Acho difícil estar sempre em sintonia comigo mesma e, em conseqüência, é complicado saber qual é a minha vontade mais profunda.

Pra onde estou indo?

Mas quando respondo a essa pergunta (ou pelo menos a partes dela), quando enxergo apesar da miopia constante da minha psique, parece que um raio cai na minha cabeça, parece que a vontade, até então dormente ou esquecida, dá um pulo acrobático no ar e cai com estrondo em cima de um nervo exposto. Freneticamente começo a buscar meu objetivo, como se não houvesse amanhã.

O pior é que tenho plena consciência do tempo “perdido”, durante o qual eu nem sabia o que queria e que o queria tanto. Tudo tem de ser realizado já. A paciência, que eu nem sabia que precisava, acaba. É um furacão, um vórtice fortíssimo que absorve quase todas as minhas energias, que invade meus sonhos e me faz reavaliar minhas prioridades.

Quando fico assim, atordoada por causa de mim mesma, de minha própria desorganização emocional, me dou conta de como sou naïv de achar que posso controlar alguma coisa. Não tenho o menor controle sobre o que se passa dentro de mim. Estou clueless de frente a uma tsunami de emoçães que eu nunca senti, sequer sabia que existiam. E a onda é grande.

E tudo o que resta é a vontade. Um cavalo puro-sangue correndo na minha direção.

Today it’s not a good day.

A palavra em sueco do dia é ivrig, ávida(o).

Filed under: Elucubrações — Maria Fabriani @ 14:24

November 26, 2006

Obrigada, África!

Levei um susto quando olhei pro termômetro que temos ao lado da janela da sala: nada menos do que cinco graus positivos. Isso é incrivelmente quente para essa época do ano. E chove desde ontem, o que ajuda a neve a desaparecer das ruas. Mas pra quem já estava se preparando para escrever um comentário sobre as terríveis conseqüências da poluição humana no meio ambiente, um aviso: o “calorão” sueco não é resultado da poluição.

Não. A causa das temperaturas extremas, que no sul podem passar dos dez graus positivos, é uma massa de ar quente advinda do deserto do Sahara. Aí você se pergunta como é que se sabe que os ventos vêm de tão longe. A coisa é que as estações metereológicas nativas analisaram a chuva que caiu nas últimas semanas por aqui e encontraram partículas de areia vindas lááá da África. A explicação é que a corrente de ar africana é fortíssima e empurra o ar quente do Sahara para muito alto na atmosfera. Isso faz com que as partículas de areia, que geralmente se dispersariam sobre o Oceano Atlântico, cheguem até aqui.

A palavra em sueco do dia é öken, deserto.

Filed under: De bem com a vida,Vidinha — Maria Fabriani @ 13:43

November 25, 2006

A Suécia em technicolor

Depois das últimas eleições suecas, realizadas em setembro passado, a paisagem política nativa mudou muito. Os social-democratas, após de 12 anos no poder, deram o lugar a uma aliança de políticos de centro-direita, liderada pelos moderados, o segundo maior partido do país. Mas outras forças - ainda mais soturnas - se fizeram notar depois que os votos foram contados. Em nada menos do que 144 distritos (ao todo são 290) os eleitores deram 281 mandatos aos representantes do partido de extrema direita Sverigedemokrater, que conquistou 2,9% de votos em todo o país.

No sul sueco os Sverigedemokrater conquistaram vitórias esmagadoras. Na cidade de Landskrona, por exemplo, os neo-naz* alcançaram nada menos do que 22% dos votos válidos. Isso fez com que os outros partidos precisassem esquecer as diferenças ideológicas e começassem a coordenar suas ações, para evitar uma influência ainda maior dos extremistas na política local. E foi isso mesmo que eles fizeram. Social-democratas, moderados, democratas-cristãos, comunistas, feministas, todos se uniram para tentar dirigir suas cidades da melhor forma possível, sem o “auxílio” racista.

Acho isso tão legal que me aquece o coração. Não é a toa que a Suécia é o país mais democrático do mundo.

É por isso que afirmo que a Suécia não é e nem nunca será uma França com seu apoio quase maciço à Front Nacional de Le Pen (a cifra que li hoje no jornal é espantosa, nada menos do que 17% dos eleitores franceses devem votar pelo louco nas próximas eleições). A Suécia não é nem nunca será como a Dinamarca, com seu governo dominado pelo racista Dansk folkeparti de Pia Kjärsgaard, ou como a Alemanha que, apesar de sua história, tem o NPD, um partido de extrema direita que mostra saudáveis cifras eleitorais. A Suécia não é nem nunca será como a Bélgica e seu Vlaams Belang, ou como o BNP inglês, ou a Lega Nord italiana ou ainda o FPÖ austríaco.

E caso eu comece a ficar pessimista novamente, posso simplesmente ligar a TV e ver que ainda existe esperança.

Foto 1 — Katarina Sandström, jornalista e apresentadora de um dos telejornais mais premiados da TV sueca, o Rapport;
Foto 2 —Lucette Rådström, apresentadora mais apreciada da TV4;
Foto 3 — Mogge Sseruwagi e Sanna Bröding, apresentadores do Idol sueco.
Foto 4 — Anúncio da Ikea.
Foto 5 — Apresentadora das notícias locais do norte sueco.
Foto 6 — Nyamko Sabuni, ministra da integração da Suécia.

A segunda palavra em sueco do dia é mångkulturell, multicultural.

Filed under: Eu ♥ a Suécia,Europa & Escandinávia,Jornal — Maria Fabriani @ 15:02

Você sabe que nasceu nos anos 70 quando…

… se contorce de tanto rir com os fantoches dançantes do Muppets.

A palavra em sueco do dia é 70-talist, fala-se [chuti-talist] e quer dizer nascido na década de 70.

Filed under: De bem com a vida,Vidinha — Maria Fabriani @ 12:15

November 24, 2006

Filmes e enxaqueca

Três dias. Três dias com enxaqueca. Desde quarta-feira de manhã a maldita desceu como um véu sobre mim e ando de um lado pro outro, pescoço duro, ombros dormentes, o estômago revirado. Trabalho apenas por meio dia. Mas hoje deve ser o último dia da peste. Geralmente é. Três dias e acabou. Ou talvez esteja eu precisando do relaxamento do fim de semana. É, com certeza.

Queria ir assistir a Little Miss Sunshine principalmente porque sou fã de Toni Collette (desde Muriel’s Wedding, mas também por About a Boy e por The Sixth Sense) e Greg Kinnear (por As Good as It Gets) , mas também porque aprecio road movies. Adoro por exemplo Telma & Louise. Já naquela época (1991, eu tinha 20 anos) já me seduzia a idéia da divina sensação de liberdade de pegar suas coisas e simplesmente mudar tudo.

Naquela época, há 15 anos, eu não entendi a opção trágica das duas no final, até porque, por conta da minha falta de experiência, a imagem ganhou uma tradução bastante literal e, por isso, assustadora. Mas agora sei que nos lançamos do precipício muitas vezes durante a vida — ou pelo menos deveríamos fazê-lo — pelo bem geral de nossa alma e para evitar amarguras e arrependimentos por não termos reconhecido um desejo potente de mudança. Afinal, nada é pior do que covardia.

A palavra em sueco do dia é migrän, enxaqueca.

Filed under: Cinema e televisão,Vidinha — Maria Fabriani @ 11:14

November 23, 2006

Visitas

Obrigada!!! Tack!!!

O visitante de número quatrocentos mil veio de São Paulo e ficou pouquíssimo tempo no Montanha. Deve ser um dos muitos que chegam aqui por intermédio do Google, buscando pequenos pedaços de informação, ou uma foto, ou sei lá o quê. Muito obrigada a você, anônimo paulista, pela visita silenciosa, assim como fico agradecida a todos vocês — thanks to all of you, gracias a todos ustedes, grazie a tutti, merci à tous, tack till alla, paljon kiitoksia — que vêm aqui todos os dias e participam da minha vida e, quando tenho sorte, deixam um alô qualquer, para que eu possa também participar da de vocês.

Muito, muito, MUITO obrigada.

A palavra em sueco do dia é ära, honra.

Filed under: Conquistas,De bem com a vida,Rebinboca da Parafuseta — Maria Fabriani @ 17:29

November 21, 2006

Suécia, provinciana e (quase) justa

O Marcus comentou no post abaixo que a Suécia não parece ser muito cosmopolita como Iguaterra e EUA e pergunta se a impressão é correta. A resposta simplificada e generalizada é: não, a Suécia não é cosmopolita como Londres e Nova York. Porém, o assunto é tão interessante, que merece um post. Isso porque quando se fala sobre a Suécia no Brasil — assim como em muitos outros lugares do mundo — há sempre uma aura de sofisticação, uma camada de elegante frescor e modernidade. Gente loira e bonita, inteligentes, civilizados, educados. E, de forma geral, essa é uma imagem acurada.

Por outro lado, é aquela coisa: bem de perto, ninguém é perfeito. Até porque somos todos humanos. Os mesmos nativos que são loiros e bonitos (na sua marioria) podem ser extremamente provincianos e preconceituosos. Por mais que não sejam tão alienados como outros povos do planeta, como alguns americanos ou a classe alta brasileira, sua visão de mundo se reduz ao que conhecem e às suas tradições. Já o que desconhecem lhes dê medo, não curiosidade.

É claro, isso é uma generalização. Há muita gente boa e aberta aqui, obviamente. Até porque se o cenário fosse tão impossivelmente negativo assim eu não agüentaria morar aqui por tanto tempo. Escrevo essa ressalva porque não quero receber emails/comentários furiosos de gente que ficou chateada porque critiquei o país onde mora ou a nacionalidade do marido.

Bem, de volta à vaca fria. Podemos nos perguntar como é que essas duas imagens do povo sueco coexistem. Primeiro: há uma diferença enorme entre as grandes cidades e as pequenas cidades do interior. Ao mesmo tempo, não se deve idealizar as cidades maiores como Estocolmo e Gotemburgo. Afinal, é lá que a maioria dos imigrantes mora e onde parte deles é alvo de discriminação.

Segundo: uma outra explicação para o provincialismo sueco é que o país até bem pouco tempo atrás era uma sociedade rural, pobre e pouco desenvolvida. Não é a toa que milhões de suecos emigraram para os EUA desde o final do século XIX e início do século XX. Os emigrantes queriam ganhar dinheiro, mandar dinheiro pra casa, enfim, o sonho médio de quem busca uma vida melhor.

Depois da Segunda Guerra Mundial, lá pro final da década de 40, a Suécia, preservada pela sua “neutralidade”, começou a dar passos larguíssimos em direção ao desenvolvimento pleno, à nação de primeiríssimo mundo que é. Até aí, as condições de moradia nas grandes cidades, por exemplo, eram muito precárias. Sem muita base histórica, imagino a Estocolmo de então como uma versão nórdica dos cortiços de Aluízio Azevedo.

Nessa época é que uma série de políticos importantes — todos eles vindos de ideais social-democratas — dominaram o poder e colocaram a Suécia nos trilhos do desenvolvimento. Um dos mais importantes foi Per-Albin Hansson, que abriu caminho nas décadas de 30 e 40 para o moderno welfare state sueco e reforçou a idéia da folkhemmet, ou a “casa do povo”. Suas idéias foram levadas adiante por outros primeiro-ministros social-democratas, como Tage Erlander (década de 50-60) e Olof Palme (década de 60-70).

Foi nesse momento histórico, nessa janela que vai dos anos pós-guerra até a década de 70, que a Suécia se tranformou numa nação exemplar. Isso aconteceu, notem bem, em pouco mais de duas gerações. A cabeça de alguns dos nativos simplesmente não acompanhou o ritmo da sofisticação do estado. O boom sueco foi tamanho que muitos imigrantes, principalmente finlandeses, gregos e italianos, vieram pra cá na década de 60 para trabalhar. O mercado de trabalho os absorveu prontamente e sem qualquer trauma.

Isso não aconteceria caso esses imigrantes tivessem vindo pra cá na última década. Sou uma social-democrata, agora até mesmo de carteirinha. Mas devo dizer que a política de emprego criada pelos socialistas lá nas décadas de 40, 50 e 60, que garante a segurança do trabalhador a qualquer custo, precisa ser revista. Não sou daquelas liberais disfarçadas que defendem uma centralização do socialismo. O que eu acho é que o modelo sueco está ultrapassado — o que é uma pena — mas é a pura e dura realidade.

O clima no mercado de trabalho daqui é duríssimo e muito diferente dos vizinhos dinamarqueses, por exemplo, cujo modelo, batizado de Flexicurity, em linhas gerais facilita tanto a contratação quanto a demissão. Hoje grande parte dos jovens suecos não tem emprego fixo. Eles se sustentam com a ajuda dos pais, com dinheiro do social e com trabalhos temporários. A mesma coisa acontece com parte dos imigrantes de primeira e segunda gerações.

Converso com nativos que conheço, algumas amigas da faculdade, e a imagem que tenho é homogênea: conseguir um trabalho fixo, até mesmo para os suecos, é dificílimo, uma verdadeira façanha. A idade média de quem consegue seu primeiro emprego fixo, com direito a férias e todas as seguranças, é 30 anos. No final das contas, a segurança total criada nas décadas passadas acaba prejudicando a entrada de jovens e de alguns imigrantes no mercado de trabalho.

As empresas daqui são obrigadas a pagar salários decentes aos trabalhadores, quase todos organizados em sindicatos cuja linha de trabalho é baseada no chamado kollektivavtal, ou “acordo coletivo”, que garante o mínimo de segurança aos trabalhadores. Isso é fantástico. O problema é que esses salários altos são acompanhados por impostos igualmente altos, os quais financiam o tal do welfare state. A outra face da moeda desse círculo virtuoso de segurança que tanto causa inveja aos brasileiros em geral é que as regras do jogo dificultam muito a contratação de gente nova, seja ele/ela sueco étnico ou imigrante.

Exemplo: segundo dados do Statistiska centralbyrån, o salário de um trabalhador do setor privado, cujo status é equivalente mais ou menos a um servidor público brasileiro, é de 43.360 coroas (cerca de US$ 6.200 ou R$ 12.400), sendo que desse montante, 29.028 coroas (US$ 4.200 ou R$ 8.400) correspondem ao salário bruto, antes dos impostos de pessoa física (30%, 50% ou mais, dependendo da sua renda). O resto, 14.332 coroas (US$ 2.000 ou R$ 4.000), correspondem a impostos sindicais, seguros e taxas variadas pagas pelos empregadores.

Isto é, quando se contrata alguém deve-se estar preparado para pagar dois salários: um para o empregado e outro para o governo na forma de impostos. Junte-se a isso a dificuldade que os empregadores têm em demitir trabalhadores, e a fórmula para o desemprego está criada. É aí que o provincialismo ataca com mais forças: só se emprega quem já tem experiência e/ou contatos. Por isso, milhares de jovens sem experiência de trabalho e imigrantes sem contatos na sociedade sueca ficam às margens do mercado de trabalho e não vêm uma luz no fim do túnel (yours truly included).

A segurança no mercado de trabalho existe e é possível. Só resta saber se ela pode ser extendida a todos os cidadãos ou a apenas um happy few.

A palavra em sueco do dia é perspektiv, perspectiva.

Filed under: Europa & Escandinávia,Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 13:45

November 20, 2006

Democracia racial? Fala sério.

Post importantíssimo. Eu leio e releio, para aprender e colocar as coisas em perspectiva. O autor é o Marcus Pessoa, dono do ótimo blog Velho do Farol.

A Pesquisa Mensal de Emprego sobre Cor ou Raça, divulgada hoje pelo IBGE, é um tapa na cara dos néscios que insistem em dizer que no Brasil não existe preconceito de cor.

O discurso é bem conhecido: “o problema dos negros é que são pobres e têm pouca escolaridade, e não o preconceito”. O diretor de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, afirma peremptoriamente, no título de seu livro, que não somos racistas.

Matéria sobre o assunto levada ao ar hoje pelo Jornal Nacional (que é editado por um subordinado de Kamel, William Bonner) reverberou o discurso, dizendo que o problema dos negros é a falta de escolaridade e/ou qualificação. Um rapaz negro aparece na fila do sistema de empregos, lamentando-se de que tenta um emprego de serralheiro, mas não consegue porque não é qualificado. Em seguida, uma moça negra com nível superior é mostrada dirigindo equipes numa empresa privada, dizendo que nunca sofreu preconceito.

O problema é que isso é exatamente o contrário do que a pesquisa do IBGE mostra.

É verdade que os negros e pardos têm uma escolaridade mais baixa que os brancos. Estes têm em média 8,7 anos de estudos, enquanto entre negros e pardos a média é de 7,1 anos. A questão parece simples: aumente-se a escolaridade dos negros e resolveremos a problema, certo?

Errado. É claro que negros e pardos com escolaridade maior têm melhor renda que aqueles com poucos anos de estudo. Mas, em relação aos brancos, a diferença salarial aumenta à medida em que sobe o nível de escolaridade.

Os brancos ganham melhor que os negros em todas as faixas, mas entre os trabalhadores menos qualificados (menos de um ano de estudo) a diferença é relativamente pequena: brancos recebem em média 469 reais, negros e pardos 409 — apenas 12,7% a menos.

Já na faixa mais alta (11 anos ou mais de estudos), a média salarial dos negros é de 899 reais, e a dos brancos de 1.728 — diferença de assombrosos 47,94%.

Um negro que tenha uma escolaridade média (8 a 10 anos) ganha em torno de 556 reais, e se resolve fazer um curso superior, recebe um acréscimo de apenas 61% em sua renda. Um branco na mesma situação, partindo de um salário de 691 reais, tem um ganho de 149%.

Ou seja, os negros e pardos que chegam ao nível mais alto de qualificação têm ainda mais dificuldade de se afirmarem profissionalmente perante os brancos.

O IBGE declara que não tem como afirmar que essa diferença se deva ao racismo, mas dá pra fazer o tico e o teco conversarem e chegar a uma conclusão, não?

Lembro de ter lido há cerca de dois anos uma carta numa seção da revista Você S/A, voltada para executivos e aspirantes às carreiras corporativas, onde um empregado negro se queixava de que era muito difícil conseguir promoções e benefícios, mesmo quando demonstrava mais competência que seus colegas. O colunista, que com certeza conhece a fundo o mercado, não só não duvidou nadinha da história como disse que o racismo no mundo profissional é um problema de difícil solução. A Você S/A não passa nem perto de ser esquerdista ou coisa que o valha.

O que eu me pergunto é: até quando vamos cultivar essas histórias da carochinha, de que o problema dos negros é apenas serem pobres ou ignorantes? Até quando vamos alimentar esse mito da democracia racial?

A partir da perspectiva brasileira e com o auxílio de minha experiência européia, ouso dizer que esse é um problema mundial. Aqui na Suécia a discriminação com base na raça se transforma num problema mais amplo, numa discriminação generalizada contra os imigrantes. Segundo o Statistiska centrabyrån, o IBGE sueco, os imigrantes têm em média uma renda que é 20% inferior à uma pessoa nascida aqui de pais suecos, o chamado “sueco étnico”.

Para analisar o sucesso — ou a falta de — da integração daqui, no entanto, precisa-se olhar para duas variáveis além da cor da pele: de onde o imigrante vem e há quanto tempo ele mora na Suécia. Imigrantes advindos dos outros países nórdicos (noruegueses, dinamarqueses e finlandeses), além de outros países europeus, apresentam geralmente um nível de renda bem próximo, ainda que um pouco inferior, ao nível de renda do sueco étnico.

Já os imigrantes de países como as repúblicas da antiga-Iugoslávia, Irã, Iraque e Turquia detêm apenas 75% da renda relativa a um sueco étnico. Além disso, imigrantes que moravam na Suécia por pouco tempo durante os anos de 1996-2000 recebiam apenas o equivalente a 65% do salário do sueco étnico. Por outro lado, uma família de imigrantes que more na Suécia há mais de 20 anos apresenta renda semelhante, ainda que menor, à do sueco étnico. (Fonte: SCB, texto em sueco.)

Leia mais sobre esse assunto nos meus posts antigos: A Europa da exclusão, Que coragem!, Sem drama, Mais 20 anos pela frente, Você não é bem-vindo, Notícias do Primeiro Mundo V e finalmente Racismo na Escandinávia.

Leia a matéria da Carta Capital sobre o assunto (Obrigada, Marcus Gusmão!)

A palavra em sueco do dia é orättvisa, injustiça.

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