E os moderados, partido de direita sueco, venceram as eleições depois de 12 anos de gestão socialdemocrata. O povo, diz-se, cansou do primeiro-ministro socialista, Göran Persson (abaixo, à esquerda), que estava no poder há dez anos. Eu, que moro aqui há apenas cinco e já estava cansada dele (mesmo assim, no entanto, votei na esquerda). Os moderados, um partido seco que sempre teve como sua principal questão a necessidade de baixar os impostos altíssimos daqui, mudaram de tom nessa eleição. Fredrik Reinfeldt (acima, à direita), o novo primeiro-ministro, rebatizou os moderados como “O novo partido dos trabalhadores”.
Isso é, para os não iniciados, um simples jogo de palavras. Mas para quem entende nem que seja um bocadinho da história política sueca, o novo slogan moderado é surpreendente. Os nativos têm uma tradição socialdemocrata fortíssima, que vem desde o início do século. A alma sueca, assim como as leis e a cultura, é permeada por idéias de igualdade dos trabalhadores e pela preocupação pelo bem estar dos mais fracos — ideais eminentemente ligados à socialdemocracia. O que faz da Suécia um país invejável é exatamente a possibilidade de combinar os benefícios do capitalismo, como a liberdade empresarial, com a segurança social do socialismo.
Mas esse ideal estava cada vez mais difícil de ser mantido. Apesar da boa conjuntura econômica, o número de desempregados não diminui há tempos. Hoje o desemprego aqui está por volta dos 5%, o que é alto para a Europa. Os imigrantes ainda têm dificuldade de se estabelecer no mercado de trabalho. É difícil contratar porque os impostos pagos por empregadores são altíssimos. É difícil demitir porque existe uma lei fortíssima, chamada LAS (Lag om anställningsskydd, ou Lei de Proteção ao Empregado), que impede que as pessoas sejam mandadas pra rua sem motivo estabelecido, além de outras regras restritivas.
Foi aí que os moderados deram um golpe certeiro e ganharam as eleições. Prometeram mudar as regras do jogo, fazer o mercado de trabalho mais competitivo e flexível. Eles foram tão convincentes que até mesmo imigrantes votaram neles, por acreditar que a flexibilização das regras duríssimas de emprego pode facilitar a entrada de estrangeiros no mercado de trabalho. Eu particularmente não acredito que apenas isso seja o suficiente para diminuir o desemprego de suecos e novos-suecos (nome politicamente correto dos imigrantes). Mas estou preparadíssima para morder minha língua.
Essa lei de proteção ao empregado, aliás, é fantástica no que diz respeito à segurança de quem consegue um emprego aqui. A menos que você faça tudo errado, é difícil perder um emprego. Há, claro, gente que é demitida quando empresas cortam custos. E aí são sempre os empregados com menos tempo de casa que vão primeiro. Mas essa segurança toda tem um outro lado: as pessoas ficam cristalizadas em seus empregos e não têm coragem de sair por saber como é difícil achar um outro trabalho. E se conseguirem, elas têm medo de serem mandadas embora, já que foram contratadas recentemente. Tem gente que fica doente por não gostar do seu trabalho mas não pede demissão por ter medo de ficar sem emprego.
E nisso a sociedade sueca fica estagnada. Você tem um emprego, não gosta do que faz, não pede demissão porque tem medo de não conseguir outro trabalho. Aí fica doente, deprimido, fica em casa ganhando dinheiro do salário-doença. E seu lugar não pode ser dado a ninguém, porque você, mesmo doente, ainda é empregado. Por isso é que os socialdemocratas perderam as eleições. Os moderados prometem aumentar a agilidade do mercado de trabalho, principalmente por intermédio da diminuição dos impostos de contratação. Esse é o lado bom. O ruim é que eles pensam financiar essa mudança com a diminuição dos direitos sociais de todos.
Leia mais sobre a lei sueca de proteção aos empregados, LAS, em inglês. Aqui.
A palavra em sueco do dia é val, eleição.