A festa
Não faz muito tempo escrevi aqui sobre como é dif�cil suportar o comedimento sueco no que diz respeito à entrega nativa à paixão futebolística. Me lembro de ter escrito que aquela apatia me dava nos nervos ou algo nessa linha. Hoje, depois de mais de um mês no Rio, sou obrigada a, uhm.., revisitar minhas opiniões a esse respeito. Nao retiro o que disse: realmente acho que os suecos são, por vezes, contidos demais, mas tenho a impressão que estava exagerando quando condenei isso.
Nesse mês e meio, cresci, fiquei mais sábia e madura e estou hoje pronta a dizer que o melhor mesmo é o caminho do meio, loucura na hora certa, nem antes, nem depois (se é que essa incongruência é possível). Cheguei a essa fabulosa conclusão depois da vitória de quarta passada do Flamengo sobre o Vasco, pela Copa do Brasil. Acontece que moro perto da Carlos Góes, rua do meu querido cinema Leblon e do famoso bar Clipper, onde os fãs de futebol se reúnem para comemorar as vitórias de seus times e chorar as derrotas.
Na quarta-feira passada o Flamengo quebrou um jejum de 16 anos e se habilitou para disputar a Libertadores. Foi razão suficiente para uma comemoração que durou até às quatro da manhã, com direito à gritaria, canções de guerra, batucada e muitos — mas muitos mesmo — rojões. Apesar de ser tricolor, não tenho nada contra o Flamengo. Já até fiz uma tentativa mal-sucedida de virar a casaca, por conta de uma amiga de colégio cuja família me levou pra assistir à despedida do goleiro Raul no Maracanã. Assistimos ao jogo no meio da Raça.
Se não me tornei urubu naquele dia é porque não estava no meu caminho ser rubro-negra.
O problema, como disse antes, não é o Flamengo, mas sim alguns flamenguistas. A festa da madrugada da última quarta-feira não seria problema caso os flamenguistas pudessem se contentar em beber todas e cantar todas e explodir todas até a uma, uma e meia da matina. Depois disso, pede-se um pouco do saudável comedimento sueco. O problema não seria tão sério se eu morasse sozinha com minha mãe e o marido dela. Ocorre que dividimos o apartamento com duas cachorrinhas muito velhinhas, uma delas cujos nervos ficaram depauperados depois da explosão de alegria rubro-negra.
Juro: lá pelas três e meia da manhã, sentindo o coraçãozinho disparado de Luz, a pequenina poodle de mais de 12 anos de idade, contra o meu peito, sua respiração acelerada e o corpo trêmulo, comecei a pensar que uma bomba atômica, um scud teleguiado ou, melhor, uma bomba química de efeito controlado, até que não seria uma má idéia.
No mais, meu urso já chegou um casa lá em Boden e eu sinto a falta dele todos os minutos do dia. Jag saknar dig varje dag, varje timma, varje minut. Jag älskar dig, min polar björn!

A frase em sueco do dia é Jag älskar dig!, Eu te amo!