Notícias do Primeiro Mundo VI

Mulher poderá ser morta a pedradas depois de ser deportada
O marido de uma nigeriana a procurou por todos os cantos do mundo. No final, ele mandou um email para a Migrationsverket, o órgão de imigração sueco. A pessoa responsável pelo caso da mulher nigeriana, que de fato havia pedido asilo aqui, respondeu candidamente ao email do marido e confirmou que a mulher se encontrava na Suécia. A Migrationsverket na cidade de Hedemora compreendeu então seu erro e escondeu a mulher para evitar que ela fosse perseguida e morta em solo sueco. Ao mesmo tempo, a pessoa responsável por avaliar a possibilidade de visto da nigeriana resolveu deportá-la de volta à Nigéria.
A pessoa da Migrationsverket responsável pelo caso é obrigado por lei a manter sigilo sobre as informações da nigeriana. Além disso, ela tinha documentos que proibiam expressamente que qualquer tipo de informação fosse dada a outras pessoas. A Migrationsverket sabia disso através do advogado da nigeriana, que recebeu nos últimos dias uma decisão definitiva do órgão de imigração sueco dizendo que o pedido de asilo foi negado porque não se conseguiu saber com certeza sua identidade. A nigeriana não tem passaporte. Foi decidido então que ela deve deixar o país o mais rápido possível.
Tudo começou no norte da Nigéria, de onde a mulher veio. Ela era casada com um homem mais velho e poderoso. Eles viveram juntos durante cinco anos e a mulher não ficou grávida. Aí, ela se apaixonou por outro homem e ficou grávida logo em seguida. Enlouquecido, o marido foi à côrte nigeriana que aplica a lei radical Sharia. Segundo a lei da Sharia uma mulher adúltera deve ser morta por enforcamento ou a pedradas. Antes de chegar à côrte, a mulher fugiu junto com o namorado, que se esconde em outro país. O filho dos dois nasceu há 1 ano e meio em solo sueco.
O email que o responsável pelo caso da nigeriana no órgão de imigração sueco recebeu era claro: em grandes letras negras estava escrito: “Um caso de bigamia”. Na carta, o marido exige que a mulher seja enviada de volta à Nigéria para que seja punida. Em um segundo email o marido escreve que ele mandará seus homens receber a mulher no aeroporto. Ele diz que deixará a côrte Sharia tomar conta dela ou fará justiça com as próprias mãos. Durante seu casamento, o homem bateu na mulher, o que foi registrado na polícia. A mulher não tem mais possibilidades de apelar para modificar a decisão de deportação. Mesmo assim seu advogado entrou com novo pedido para ganhar tempo.
“Se ela fosse uma mulher sueca, ela já estaria morando numa casa segura com endereço desconhecido”, diz Urban Jägerskog, que trabalha no comitê de asilo da Cruz Vermelha na cidade de Söderhamn. (versão do artigo original de Annika Hamrud, publicado no jornal Dagens Nyheter, em 29 de abril 2006)
Fico tão revoltada com isso que nem sei o que dizer, sinceramente. Mas acho que vale a pena esclarecer algumas coisas para quem não sabe como as coisas funcionam aqui:
“A pessoa responsável pelo caso da mulher nigeriana, que de fato havia pedido asilo aqui, respondeu candidamente ao email do marido e confirmou que a mulher se encontrava na Suécia” —> Primeiro erro: quem trabalha na Migrationsverket é obrigado a assinar um contrato de sigilo completo. As informações sobre as pessoas que querem asilo são estritamente confidenciais e não podem ser divulgadas de forma alguma. Pra vocês terem uma idéia, quando fiz meu trabalho de campo no terceiro semestre, minha professora tentou me conseguir um estágio na Migrationsverket. O único problema é que eles disseram que eu não poderia trabalhar lá já que na época ainda não era cidadã sueca. A explicação é que as informações que passam por lá são sensíveis demais para ser abertas a quem não é sueco.
“o pedido de asilo foi negado porque não se conseguiu saber com certeza sua identidade. A nigeriana não tem passaporte.” —> Uma das coisas mais comuns em se tratando de pessoas que pedem asilo na Suécia (e, acho, em outros países europeus) é que eles já chegam aqui sem passaporte. Muitos são os que queimam as pontas do dedos para evitar que sua identidade seja controlada aqui. Isso porque a lei de asilo prevê que a pessoa deve pedir asilo ao primeiro país da comunidade européia que consegue entrar. Se, por exemplo, uma pessoa advinda da Turquia passa pela Alemanha antes de chegar à Suécia, ela deve ser mandada de volta à Alemanha e não tem sequer direito a pedir asilo aqui. Não é incomum, no entanto, que as pessoas fujam com a roupa do corpo para evitar prisão, tortura ou morte. O passaporte é então deixado pra trás.
Aí é problema do órgão de imigração sueco tentar estabelecer a identidade da pessoa que pede asilo aqui. Esse processo é demoradíssimo, complicado e controverso. Isso porque, para conseguir informações sobre uma pessoa, a migrationsverket geralmente entra em contato com as autoridades do país de origem - as mesmas autoridades que, muitas vezes, estavam perseguindo a pessoa. Essas autoridades, claro, cooperam dando informações completas e dizendo que não há nenhum problema com a pessoa em questão. O pedido de asilo é então negado pela Suécia, que envia a pessoa para perseguição, tortura, pobreza absoluta e até morte. É um jogo de mentiras: os suecos pedem informações; as autoridades do outro país as fornecem; os suecos fingem acreditar que está tudo explicado; exigem do país de origem uma promessa de que a pessoa não será perseguida, torturada ou morta; recebem a promessa; fingem acreditar e pronto, mandam a pessoa de volta.
“O filho dos dois nasceu há 1 ano e meio em solo sueco.” —> Ter um filho em solo sueco não é garantia de visto quando os pais são refugiados. Muito pelo contrário. Foi apenas no ano passado que o parlamento sueco aprovou uma lei provisória que faz obrigatória a análise meticulosa do pedido de asilo de famílias com crianças. Nas razões para se dar asilo a uma criança estão entre outras, há quanto tempo a criança vive aqui, se ela tem muitos amigos aqui, se a família está bem envolvida com a comunidade etc. Nada sobre o nascimento em solo sueco, que é totalmente irrelevante.
Leia as outras Notícias do primeiro mundo que publiquei em:
21 de maio de 2004;
7 de maio de 2004;
10 de setembro de 2003;
5 de julho de 2003;
15 de junho de 2003.
Hoje o rei sueco Carlos XVI Gustavo completa 60 anos.
A palavra em sueco do dia é absurd, absurdo.

