Adoro quando meu jornal está interessante aos sábados ou domingos, quando tenho realmente tempo pra ler até tarde. Hoje teve artigo do Henrik Berggren, um dos meus jornalistas favoritos daqui, sobre a última imbecilidade extremista dinamarquesa. A história é a seguinte: o jornal Jyllands-Posten resolveu publicar charges mostrando Mohammed. Eu não sabia, mas o Corão proíbe a reprodução de imagens do profeta.
Berggren escreve (bem pra caramba) que devemos defender “os idiotas do Jyllands-Posten”, não pelo que fizeram, mas simplesmente pelo valor da liberdade de imprensa. Isso porque, diz o jornalista sueco, toda a coisa da charge foi orquestrada pela política de extrema-direita Pia Kjärsgaard, que, infelizmente, praticamente domina a política dinamarquesa. (Não coloco links pra Kjärsgaard porque, como já escrevi antes, sou contra as drogas).
Aí é que está. Até onde vai liberdade de imprensa e quando começa a provocação pura e deliberada? O resultado das charges é que jornalistas do Jyllands-Posten foram ameaçados de morte e as comunidades islâmicas de várias partes do mundo condenam (mais uma vez) a Dinamarca pela sua linha dura no que diz respeito à crença da grande maioria dos imigrantes presentes em solo dinamarquês.
Eu, particularmente, concordo com Berggren. Defendo a liberdade dos jornalistas do Jyllands-Posten, mas condeno fortemente a necessidade de deliberadamente provocar pessoas de crença diferente ao realizar um ato tão flagrantemente contrário às leis religiosas islâmicas. Afinal, não estamos falando de arte, mas de jornalismo. O jornal não precisava publicar as charges para se expressar, não se tratava de notícias, de fato. Não existe contexto, não existe razão. A não ser a pura provocação raivosa dos intolerantes.
Mais jornal: o padre e pesquisador Lars Gärdfeldt, abertamente homossexual e membro da Igreja Sueca (está em caixa alta porque é assim que se chama. Em sueco: Svenska Kyrkan) escreveu sua dissertação de doutorado com o título “Hatar Gud bögar?”, ou seja “Deus odeia bichas?”. Parece engraçado, mas é seríssimo. Ou melhor, importantíssimo.
Há uma discussão antiga sobre a aceitação de padres gays na Igreja Sueca e o que Lars Gärdfeldt tenta provar, com a ajuda de textos bíblicos, é que o homossexualismo está presente na bíblia, mesmo que não explicitamente. Ele apresenta sua tese por meio da história de Santa Lucia (Santa Luzia no Brasil, já escrevi sobre ela em 2004 e 2005) e, entre outras, a história de Rut e Noomi.
Quando perguntado pelo repórter se não era forçação de barra dizer que a amizade de Rut e Noomi pode ser vista como um amor homossexual entre duas mulheres, Lars Gärdfeldt respondeu que o texto bíblico existe para ser interpretado e pode ser lido a partir das mais variadas experiências pessoais e culturais. É isso, diz ele, que o torna tão universal e interessante.
Foi exatemente uma “interpretação” do texto bíblico que quase levou pra cadeia Åke Green, pastor de uma igreja particular daqui (sem conexão com a Igreja Sueca, tipo os crentes no Brasil). Ele disse em um serviço religioso que os homossexuais são um “tumor canceroso” no corpo da sociedade sueca. No final, foi absolvido por conta da liberdade de expressão, mas a discussão continua: até onde a minha liberdade de expressar minhas idéias ultrapassa a sua liberdade de se sentir ultrajado por elas?
Lars Gärdfeldt afirma que o problema das vozes mais extremas é que elas condenam o que acham pecaminoso ou errado dizendo que “deus condena isso”. Foi o que Åke Green disse: “Não sou eu quem condena o homossexualismo, mas Deus”. Gärdfeldt diz que é através de argumentações semelhantes que essas pessoas não precisam ter responsabilidade pela sua própria agressividade e brutalidade. “Deus quis, então é”.
Eu, particularmente, sou contra qualquer tipo de extremismo, seja islâmico, cristão ou sionista. Extremismo e intolerância são duas das coisas que mais de desesperam. Meu objetivo na vida é enxergar a pessoa, antes de classificá-la como homossexual, cristã, gorda ou seja qual for o “problema”. Esse é um objetivo difícil, afinal, não estou livre de preconceitos, mas minha luta diária para melhorar nesse aspecto me dá boas chances de conseguir pelo menos avançar no meu caminho.
Ao mesmo tempo, fico feliz cada vez que noto o quão aberta a Igreja Sueca é. Aqui mulheres são aceitas como “padres”, o casamento entre pessoas do mesmo sexo pode ganhar bênção da igreja em cerimônia religiosa e há até lugar para padres abertamente homossexuais. Isso, pros meus ouvidos católicos, é um verdadeiro milagre (pun intended). Se fazer parte de uma igreja fosse o meu cup of tea, já teria me convertido ao protestantismo há anos.
A palavra em sueco do dia é ofullkomlighet, imperfeição.