January 31, 2006

Grande irmão

Ai que saudades disso aqui! Os dias têm sido corridos. Precisei ajustar meu relógio e meus hábitos matutinos aos hábitos noturnos das minhas companheiras de apartamento. E, com surpresa, reparei que durmo melhor, como melhor, rio mais. Sou uma criatura que gosta (e até precisa) ficar sozinha mas tenho a impressão que ter gente ao meu redor me torna uma pessoa melhor, menos obssessiva.

Se me torno uma pessoa melhor com gente ao meu redor, o mesmo não posso dizer no que diz respeito a meus hábitos televisivos. Ontem vi pela primeira vez na vida um episódio completo do Big Brother. As meninas estavam vendo, então vi também. Foi o início da temporada, com suecos e noruegueses trancados numa casa (não há dinamarqueses nem finlandeses porque ninguém entende o que eles dizem).

A diferença dessa temporada é que as seis meninas escolherão quais dos 12 rapazes serão eliminados a cada semana. Hohoho. Dá até vontade de assistir todos os dias! Não pra ver a cara dos pobres diabos eliminados, mas principalmente pra ver as meninas em cat fights pra decidir quem eliminar e quem deixar lá. Tem homem pra todos os gostos. Tem até um anão sueco (que é meu preferido).

Fora minhas aventuras televisivas, ando às turras com meu banco que insiste em complicar minha vida; e na universidade as coisas estão ficando ainda mais interessantes. Ontem fizemos um case, um exercício, em que, em duplas, treinamos como é trabalhar como assistente social. Observadas por uma professora, recebemos uma menina de 17 anos que bebeu demais e foi presa pela polícia (na verdade, ela era uma atriz, óbvio).

Eu e minha companheira de curso Elin enfrentamos o desafio com bravura. Tudo começou com uma ligação pra menina (sorteamos, eu perdi e tive de ligar). Ontem foi o encontro com ela e o pai, também ator. Fizemos algumas coisas certas, outras (muitas) erradas, mas no geral foi uma experiência interessantíssima. A sensação agora é ótima. Parece que finalmente, depois de dois anos do bloco básico bem teórico, começamos com a parte prática e legal do curso.

A palavra em sueco do dia é storebror, (lit.) grande irmão, big brother.

Filed under: Universidade,Vidinha — Maria Fabriani @ 14:21

January 23, 2006

Quase sem-teto

Cá estou eu, em um dos computadores mais capengas da universidade, escrevendo essas mal traçadas. A cada letra que escrevo o monitor pisca enlouquecidamente. Se não quiser ter um ataque apoplético, é melhor não olhar pra tela enquanto digito.

Muita coisa aconteceu na última semana. Fiquei sabendo na segunda passada que muito provavelmente teria de entregar meu apartamento à dona, que sobreviveu ao terremoto paquistanês mas que estava deprimidíssima aqui em Umeå à espera de sua próxima missão para o Médicos sem Fronteiras.

Cansei de ficar esperando ela esperar pra saber se voltaria ou não pro raio do Paquistão ou se ficava na Suécia. Resolvi me mudar. O único problema era arranjar um outro apartamento numa cidade universitária, com falta de apartamentos alugáveis (leia-se viáveis economicamente).

Mas aí, quando já estava começando a arrancar meus pobres cabelinhos pelas raízes, Dona Fortuna me sorriu. Duas companheiras de curso, ambas bacanérrimas, e com quem já havia trabalhado em grupo, me convidaram para dividir seu apartamento. Eu aceitei, ainda mais porque fica beeeem mais barato dividir o aluguel e as contas por três.

Então, pela primeira vez na vida tenho room mates e, até agora, está tudo ótimo. Pernilla e Marina são duas fofas, simpáticas e engraçadas. Tenho meu próprio quarto, o que é delicioso já que preciso ficar só às vezes, dividimos comida, eletricidade, telefone e aluguel igualmente. A única coisa chata é que o cachorro da Pernilla, um rottweiller chamado Winston, não mora com a gente. :c(

No mais, a vida continua. Passei na prova de förvaltningsrätt (sem tradução direta; algo como leis para gestão pública, especialmente no serviço social, protegido por leis rigorosíssimas de sigilo). Essa foi a última prova do último curso do quarto semestre (tirei 24 pontos de 30 possíveis). Já começamos o quinto semestre e estou cansada, mas contente.

A palavra em sueco do dia é lägenhet, apartamento.

Filed under: Conquistas,Pra frente é que se anda — Maria Fabriani @ 16:34

January 17, 2006

Flow

Se eu apenas conseguisse parar de planejar tanto e de ficar frustrada quando meu plano não se realiza. Se eu conseguisse desligar, aceitar que às vezes (ou quase todas as vezes) não tenho muito controle sobre as coisas, que tudo acontece quando tem de acontecer, nem antes nem depois - e que isso é OK.

Se eu aceitasse as limitações da equação tempo-espaço e não insistisse em querer tudo ao mesmo tempo agora. Se pudesse simplesmente desligar e não sofrer por antecedência, por angústias vazias e sem razão. Se eu pudesse esquecer o que fiz e que estava errado. Se eu pudesse me perdoar pelas besteiras que fiz. Se eu pudesse aceitar o que vier e saber lidar com a eventual frustração de forma serena e saudável. Se eu apenas não precisasse tentar ser tão perfeita o tempo todo.

Aí, tenho a impressão de que a vida continuaria com suas dificuldades, mas eu seria mais feliz mesmo assim… Será?

A palavra em sueco do dia é dröm, sonho.

Filed under: Elucubrações — Maria Fabriani @ 08:09

January 16, 2006

Imprevisível

Hoje começou o quinto semestre na universidade. Estou feliz e cansada. No próximo mês estudaremos a problemática de jovens criminosos, o que os leva a enveredar por uma carreira criminosa, cheia de drogas e falta de auto-estima. Interessante.

No meio de fevereiro passaremos ao segundo curso do semestre, quando estudaremos os aspectos psico-sociais de crianças pequenas e todas as suas estratégias para lidar com, por exemplo, pais abusivos e mães alcóolatras. Um charme, não?

Na última parte do semestre, do meio de março até junho, juntaremos as duas experiências para escrever um trabalho e ir a um julgamento de mentirinha, tudo para simular um dia na vida de uma assistente social.

Se alguém me dissesse, há uns sete anos, que eu estaria estudando essas coisas todas aí de cima, eu daria uma gargalhada sem tamanho e acharia que a pessoa estava doida. Mas, hoje, acho totalmente interessante, apesar de serem assuntos pesados.

A vida é realmente totalmente imprevisível.

A palavra em sueco do dia é öde, destino.

Filed under: Elucubrações,Universidade — Maria Fabriani @ 23:07

January 15, 2006

Uh…

Você sabe quando está tendo uma overdose de inverno no extremo norte sueco quando leva um susto com uma luz desconhecida que aparece na parede ao seu lado, olha e constata que é o sol.

A palavra em sueco do dia é vinter, inverno.

Filed under: Europa & Escandinávia,Vidinha — Maria Fabriani @ 13:30

January 14, 2006

Religião, política e provocação

Adoro quando meu jornal está interessante aos sábados ou domingos, quando tenho realmente tempo pra ler até tarde. Hoje teve artigo do Henrik Berggren, um dos meus jornalistas favoritos daqui, sobre a última imbecilidade extremista dinamarquesa. A história é a seguinte: o jornal Jyllands-Posten resolveu publicar charges mostrando Mohammed. Eu não sabia, mas o Corão proíbe a reprodução de imagens do profeta.

Berggren escreve (bem pra caramba) que devemos defender “os idiotas do Jyllands-Posten”, não pelo que fizeram, mas simplesmente pelo valor da liberdade de imprensa. Isso porque, diz o jornalista sueco, toda a coisa da charge foi orquestrada pela política de extrema-direita Pia Kjärsgaard, que, infelizmente, praticamente domina a política dinamarquesa. (Não coloco links pra Kjärsgaard porque, como já escrevi antes, sou contra as drogas).

Aí é que está. Até onde vai liberdade de imprensa e quando começa a provocação pura e deliberada? O resultado das charges é que jornalistas do Jyllands-Posten foram ameaçados de morte e as comunidades islâmicas de várias partes do mundo condenam (mais uma vez) a Dinamarca pela sua linha dura no que diz respeito à crença da grande maioria dos imigrantes presentes em solo dinamarquês.

Eu, particularmente, concordo com Berggren. Defendo a liberdade dos jornalistas do Jyllands-Posten, mas condeno fortemente a necessidade de deliberadamente provocar pessoas de crença diferente ao realizar um ato tão flagrantemente contrário às leis religiosas islâmicas. Afinal, não estamos falando de arte, mas de jornalismo. O jornal não precisava publicar as charges para se expressar, não se tratava de notícias, de fato. Não existe contexto, não existe razão. A não ser a pura provocação raivosa dos intolerantes.

Mais jornal: o padre e pesquisador Lars Gärdfeldt, abertamente homossexual e membro da Igreja Sueca (está em caixa alta porque é assim que se chama. Em sueco: Svenska Kyrkan) escreveu sua dissertação de doutorado com o título “Hatar Gud bögar?”, ou seja “Deus odeia bichas?”. Parece engraçado, mas é seríssimo. Ou melhor, importantíssimo.

Há uma discussão antiga sobre a aceitação de padres gays na Igreja Sueca e o que Lars Gärdfeldt tenta provar, com a ajuda de textos bíblicos, é que o homossexualismo está presente na bíblia, mesmo que não explicitamente. Ele apresenta sua tese por meio da história de Santa Lucia (Santa Luzia no Brasil, já escrevi sobre ela em 2004 e 2005) e, entre outras, a história de Rut e Noomi.

Quando perguntado pelo repórter se não era forçação de barra dizer que a amizade de Rut e Noomi pode ser vista como um amor homossexual entre duas mulheres, Lars Gärdfeldt respondeu que o texto bíblico existe para ser interpretado e pode ser lido a partir das mais variadas experiências pessoais e culturais. É isso, diz ele, que o torna tão universal e interessante.

Foi exatemente uma “interpretação” do texto bíblico que quase levou pra cadeia Åke Green, pastor de uma igreja particular daqui (sem conexão com a Igreja Sueca, tipo os crentes no Brasil). Ele disse em um serviço religioso que os homossexuais são um “tumor canceroso” no corpo da sociedade sueca. No final, foi absolvido por conta da liberdade de expressão, mas a discussão continua: até onde a minha liberdade de expressar minhas idéias ultrapassa a sua liberdade de se sentir ultrajado por elas?

Lars Gärdfeldt afirma que o problema das vozes mais extremas é que elas condenam o que acham pecaminoso ou errado dizendo que “deus condena isso”. Foi o que Åke Green disse: “Não sou eu quem condena o homossexualismo, mas Deus”. Gärdfeldt diz que é através de argumentações semelhantes que essas pessoas não precisam ter responsabilidade pela sua própria agressividade e brutalidade. “Deus quis, então é”.

Eu, particularmente, sou contra qualquer tipo de extremismo, seja islâmico, cristão ou sionista. Extremismo e intolerância são duas das coisas que mais de desesperam. Meu objetivo na vida é enxergar a pessoa, antes de classificá-la como homossexual, cristã, gorda ou seja qual for o “problema”. Esse é um objetivo difícil, afinal, não estou livre de preconceitos, mas minha luta diária para melhorar nesse aspecto me dá boas chances de conseguir pelo menos avançar no meu caminho.

Ao mesmo tempo, fico feliz cada vez que noto o quão aberta a Igreja Sueca é. Aqui mulheres são aceitas como “padres”, o casamento entre pessoas do mesmo sexo pode ganhar bênção da igreja em cerimônia religiosa e há até lugar para padres abertamente homossexuais. Isso, pros meus ouvidos católicos, é um verdadeiro milagre (pun intended). Se fazer parte de uma igreja fosse o meu cup of tea, já teria me convertido ao protestantismo há anos.

A palavra em sueco do dia é ofullkomlighet, imperfeição.

Filed under: Eu ♥ a Suécia,Europa & Escandinávia,Jornal — Maria Fabriani @ 12:04

January 13, 2006

A geisha em todas nós

Se lembram que contei a epopéia que foi ir ver King Kong aqui em Umeå? Pois é. Naquela mesma noite, ainda cansado e suado, meu urso exerceu seu direito de consumidor ultrajado e escreveu um email reclamando da sauna que fomos obrigados a fazer na sala de exibição. Qual não foi nossa surpresa quando chegou lá em casa um envelopinho com dois vale-bilhetes como cortesia da cadeia de cinemas. É isso aí: quem tem boca vai a Roma, certo?

Mas não pudemos ir ao cinema durante o feriado de natal por conta do carro quebrado. Então, ontem, depois de passar o dia estudando (ou tentando estudar), fui ao cinema com Elin, companheira de curso da universidade. Fomos assistir a “Memoirs of a Geisha”. Queríamos ver, na verdade, “The Constant Gardener”, do Fernando Meirelles, mas o filme passa apenas às 13:30 da tarde de sábados e domingos, o que era uma impossibilidade tanto pra mim quanto para Elin.

Não posso dizer que não gostei. O filme é plasticamente bonito, as atrizes são liiiiiindas e os atores também (well, um deles é), mas de bom, é só isso. A história é um clichê atrás do outro. Sei que a vida das mulheres japonesas nos anos 30-40 não dava muita margem para rebeldia ou consciência de igualdade entre os sexos, mas putz, que coisa pavorosa. Não conto nada que é pra não estragar a experiência de quem ainda não viu. A melhor atriz (e mais linda) é a vilã. Amarga como remédio, mas ótima.

Só digo uma coisa, fiquei feliz de não ter nascido no Japão no início dos anos 30, ok? Ao mesmo tempo, sinto uma sensação esquisita de que essa coisa de ser geisha ainda está na moda e, de certo modo, é cobrada de quem é mulher - mesmo das chamadas “mulheres modernas”, que de resto devem ser profissionais e sensuais ao mesmo tempo, o tempo todo. Mas isso é outra discussão. Bom, voltando. A geisha não estava lá (apenas) pra relações sexuais que, aliás, não eram regra. O principal objetivo da geisha era entreter o homem, dançar, conversar etc.

De fato, não sirvo pra ser geisha. Adoro ser entretida! Hohoho.

A palavra em sueco do dia é jämställdhet, igualdade.

Filed under: Cinema e televisão — Maria Fabriani @ 14:03

January 12, 2006

Oi

Lalalá… não podia estar aqui… preciso estudar… mas estou cansada… sorte é que minha consciência é mais pesada do que meu sono… lá vou eu.

A palavra em sueco do dia é att skolka, matar aula.

Filed under: Vidinha — Maria Fabriani @ 12:53

January 11, 2006

Sonho, amizades e os problemas evitados

Acordei às quatro da matina e não consegui mais dormir. Sonhei que meu manager tentava vender um show meu para o dono de um club que, no final das contas, era o meu pai. Vestido em terno marrom e gravata borboleta multicolorida, ele parecia muito interessado. O tal do manager disse que eu cantava muito bem, que ia arrebentar a boca do balão. E eu só pensava que precisava falar com meu pai a sós e avisar que eu não era assim tão boa não, que não sabia se daria conta do recado.

Como diz Angelique, “Sonho tão óbvio que dá até preguiça. Eu gosto quando a gente precisa interpretar.”

Quando será que vou crescer?

No meu jornal saiu uma série de reportagens sobre a dificuldade de estrangeiros e de suecos que viveram muitos anos no exterior em estabelecer contato ou laços de amizade com nativos. A resposta dos leitores foi imensa. Centenas de pessoas, a grande maioria suecos “puros”, escreveram sobre como é difícil fazer amizades nessa terra. A maioria das pessoas, escrevem eles, depois de uma certa idade não tem mais saco de conhecer mais ninguém a fundo que não sejam seus amigos de décadas.

Minha experiência, för en gångs skull, é positiva. Nunca tive problemas para conhecer nativos e não apenas por causa da ajuda do meu urso. Na universidade tenho muitos conhecidos e alguns amigos, com quem saio, visito em casa, conheço pai, mãe etc. O jornal conta a história de uma família alemã que se mudou pra Suécia há anos e depois de muitos jantares oferecidos e nunca retornados, acham meio que impossível estabelecer amizades profundas com nativos.

Um professor de sueco para imigrantes escreveu assim:

“Nós amamos viajar, descobrir países estranhos, mas esquecemos que esses países e culturas têm representantes aqui. Onde está nossa curiosidade com essas pessoas que vivem na nossa cidade, como nossos vizinhos?”

“A clever person solves a problem. A wise person avoids it.” — Einstein

Podes crer.

A palavra em sueco do dia é prestationsångest, ansiedade frente a uma realização.

Filed under: Elucubrações,Jornal,Saudade — Maria Fabriani @ 08:24

January 10, 2006

A concha dentro de mim

Um rapaz visitou o Montanha há algum tempo e se disse muito satisfeito. Ele comentou que era legal ler outras coisas mais interessantes do que textos sobre minhas unhas encravadas, como acontecia com a maioria dos blogs de mulheres que ele visitava. Pois hoje, se não escrevo sobre minhas unhas - que, aliás, nunca encravaram - o faço sobre outro assunto correlato.

Portanto, se você é sensível a posts médicos de natureza feminina - ou é simplesmente puritano - pare de ler agora.

Hoje fui à clínica de saúde feminina do hospital universitário aqui de Umeå. O médico que me atendeu, um polonês cujo nome não fui capaz de compreender, era simpaticíssimo. Primeira pergunta dele: há quanto tempo eu morava aqui. Ele trabalha aqui há dois anos e fala muito bem sueco. Lá pelo meio do exame fiquei sabendo que ele precisaria chamar o médico-chefe na especilidade. Um pouco preocupada, dei meu consentimento.

O médico, bem mais velho, tinha uma mão pesadíssima e conseguiu quase me fazer chorar de dor. Mas, no final, me disse que tudo estava normal e é isso que importa. Aí, o médico polonês me mostrou uma foto dos meus ovários. Achei aquilo tão bonito, tão lindo, que quase pedi a foto de presente. Eu não fazia idéia, mas essa parte do órgão reprodutor feminino tem uma beleza febonaccica, uma coisa linda, ondulada, parece uma concha olhada de dentro.

E, por falar em coisas lindas, um artista faz mágica com areia na abertura de uma convenção na Coréia do Sul. Vale a pena. Adoro especialmente quando ele faz o cabelo ondulado do leão.

A palavra em sueco do dia é snäckskal, concha.

Filed under: Vidinha — Maria Fabriani @ 19:45
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