October 26, 2005

A marvada chegou

Fall...winter Me, out of focus

Fall... winter Fall... winter

O verbo em sueco do dia é att vurpa, cair, tomar em estabaco.

Filed under: Europa & Escandinávia — Maria Fabriani @ 16:18

O pulso ainda pulsa

Fui fazer uma prova de economia e ciências políticas, matérias combinadas. Sentei numa sala enorme junto com umas 100 pessoas e começamos a fazer a prova. Quando li as perguntas, não acreditei nos meus olhos. Não entendia nada do que estava sendo perguntado ali. E minha dificuldade não tinha nada a ver com o idioma.

Comecei imediatamente a chorar. As perguntas eram completamente sem pé nem cabeça, numa espécie de código acessível apenas aos iniciados nas artes matemáticas. Estava perdida. Uma das perguntas mais absurdas não tinha sequer texto, trazia apenas cifras que tinham algo em comum. Só faltava descobrir o quê.

Foi quando senti pela primeira vez um aperto na região do meu estômago, uma angústia difusa, que foi subindo, subindo, até chegar ao meio do meu peito e, depois, à garganta, onde se instalou. Chorei muito, me revoltei, fiquei irritada, chorei mais um pouco, pedi ajuda ao fiscal de prova. Nada parecia adiantar.

Pensei no terror de ter de fazer uma segunda prova caso não passasse. Essa é uma possibilidade que existe em todos os cursos. O problema é que essa prova é feita no meio do curso seguinte e, caso você não consiga passar, perde o direito a receber a ajuda financeira do governo. Bye bye aluguel, bye bye universidade.

Terminada a prova, entreguei o papel e me dirigi a um café que fica perto da universidade. Uma de minhas colegas, que eu sempre achei ser um amor de pessoa, estava sentada numa mesa às gargalhadas. Sentei-me com ela e comecei a dizer como a prova tinha sido difícil, o que me fez chorar ainda mais. Ela disse que a prova tinha sido facílima e me olhou com desdém.

Confusa, fui pegar meu carro no estacionamento. No parabrisa, notei três papéis amarelos, dobrados. Eram três multas por ter estacionado em local proibido. O pânico de antes voltou a se instalar, um medo absurdo de ser presa veio subindo até a garganta (apesar de racionalmente saber que apenas as multas não eram suficientes para tanto). Me sentei dentro do carro e chorei.

Foi aí que acordei, a bola da angústia ainda na minha garganta, às 7h18min da manhã de hoje, com as marteladas dos obreiros que fazem alterações no meu prédio. Se encontrar um deles nas escadas sou capaz de tascar-lhe um beijo. Na boca.

A palavra em sueco do dia é ångest [ôônguest], angústia.

Filed under: Saudade — Maria Fabriani @ 10:55

October 19, 2005

Visitas

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Obrigada!

A palavra em sueco do dia é besöksräknare, contador de visitas.

Filed under: Conquistas,De bem com a vida — Maria Fabriani @ 16:02

October 17, 2005

Digressões

Hoje foi o primeiro dia em que realmente fez frio. Claro, já havia ventado horrores e tal, mas frio mesmo, só hoje. Saí de manhã cedinho pra universidade e o ar cheirava a gelo. Me lembro que a primeira vez que senti esse cheiro (que eu associo a gelo, mas que pode cheirar diferente pra outras pessoas, claro) foi quando viajei pela Europa durante o inverno de 1993.

Havia chegado a Roma de trem pela manhã, faminta e sedenta. Comi uma pizza divina e tomei um suco de laranja que nunca mais esqueci num boteco honesto. Fui procurar o tal do albergue, um pouco fora da cidade. Que ônibus tomar? Depois de algumas tentativas infrutíferas, consegui encontrar o que parecia ser o único romano que sabia falar inglês. Mal e porcamente, é verdade, mas ele me ajudou.

No dia seguinte, me dei conta de que não havia comprado água mineral e, bocó, não sabia se podia beber água da pia (sabe-se lá se a higiene italiana é semelhante ao padrão europeu de qualidade). Saí de manhãzinha e me lembro de respirar fundo, ainda sedenta, esse ar com cheiro de gelo. Congelei imediatamente. Me lembro que nunca havia sentido tanto frio na minha vida (hahaha, mal sabia eu as voltas que a vida daria).

Sobre a água: entrei no primeiro restaurante/café que encontrei aberto, fui até o balcão e pedi um copo d’água em inglês (apesar do meu sobrenome não sei falar quase nada, apesar de entender). A mulher me olhou com cara estranha e deve ter pensado “Porque ela está falando inglês?” Sim, todos os italianos conversavam animadamente comigo e tinham certeza de que eu era uma deles. Ainda me olhando de soslaio, a mulher encheu um copo de água na pia e me deu. Bebi e orei na capela sistina pra não morrer de disenteria (Deu certo).

Essa coisa de ter cara universal é engraçada. Na Espanha passei por espanhola ou italiana (antes de abrir a boca); na Itália, idem. Na França acharam que era italiana por causa do meu sotaque (ohhh, que desespero - já contei essa história aqui). Na Holanda ninguém achou que eu era nada, a não ser possivelmente alguma mistura latina. No México, os simpáticos nativos me disseram que parecia americana (oh christ!), “mas com pais mexicanos”, completaram pra me consolar, quando viram minha cara de desespero. Nos EUA sou, claro, “latina”, sem maiores explicações. Aqui sou suequíssima - até abrir a boca. E até no Brasil um trombadinha já veio me assaltar achando que era estrangeira.

Na verdade, deveria deixar essa chorumela de trabalho social pra lá e me tornar uma espiã. Hohoho.

A palavra em sueco do dia é ansikte, rosto, face, cara.

Filed under: Vidinha — Maria Fabriani @ 16:51

October 10, 2005

A falta de culpa e terremoto

Pois é, soa estranho aos nossos ouvidos essa “indiferença” dos filhos com relação aos pais daqui. Mas, na verdade, posso até compreender. Desde que a Suécia virou nação de primeiro mundo (depois da segunda guerra mundial) o tal do welfare foi construído de forma a tirar a carga de responsabilidade dos filhos para com os cuidados de seus pais. O estado disse: “Vão trabalhar! Nós cuidamos do resto!” Isso numa época em que a Suécia estava crescendo aceleradamente e faltava mão-de-obra pra tudo quando era lado. Foi quando chegou, nos anos 60, 70, a primeira leva de imigrantes em busca de trabalho. Na sua maioria finlandeses, mas também gregos, italianos, turcos etc.

Nessa época, o estado socialista sueco fez uma espécie de trato com a população: vocês pagam impostos exorbitantes mas, em compensação, não precisam se preocupar com nada além do seu trabalho. É claro que essa é uma visão um tanto quanto exagerada. Mas, em linhas gerais, foi isso mesmo que aconteceu. Centenas de creches e casas de repouso surgiram. Os jovens adultos podiam deixar seus filhos e seus pais aos cuidados do Estado e ir fazer a Suécia florescer. Essa idéia permanece até hoje. A culpa de não acompanhar sua mãe ao médico é um sentimento meio desconhecido por aqui. Por mais que isso seja difícil de entender.

Além do mais, as condições que a senhorinha de 75 anos tinha para ir fazer sua operação eram muito boas. O ônibus era muito confortável, com pessoal a bordo pra ajudar; no hospital há uma série de profissionais muito competentes a postos etc. Acho isso fenomenal, claro. Uma tranqüilidade saber que uma pessoa que você ama estará segura no ônibus, no hospital, em qualquer lugar (o que, por si só, é um luxo total no Brasil). Mas ainda assim sinto falta do toque pessoal, da possibilidade de ter uma pessoa da família com quem possa me sentir totalmente a vontade e com quem possa dividir minha angústia.

A dona do apartamento que alugo aqui em Umeå é uma barnmorska, o que equivale a um obstetra no Brasil (só que aqui não precisa ser médico para fazer nascer bebês, basta a formação geral em enfermagem - que é muito puxada - e mais a especialização em obstetrícia). Quando aluguei seu apartamento, ela havia decidido se mandar para o Afeganistão com a organização Médicos Sem Fronteiras. Passou seis meses. Depois, se mandou para o Sudão, onde passou mais nove meses. Veio pra Umeå, onde trabalhou o verão passado como substituta em seu antigo trabalho e se mandou novamente, dessa vez para a região de Kashmir, entre India e Paquistão.

Pois é, ela estava dormindo numa cidade mínima, nas vizinhanças de Islamabad (que está no epicentro do terremoto), quando o terremoto aconteceu. Foi jogada para fora da cama e uma parede caiu sobre ela. Suas pernas ficaram presas e seu rosto estava pressionado pela parede. Mas ela tinha ar. Durante duas horas e meia gritou, pediu ajuda pras pessoas que tentavam localizar os sobreviventes. Foi salva. Hoje ela contou no rádio (obviamente apenas em sueco) como foi e disse que estava bem. A cidade onde ela estava, Lamnian, foi totalmente destruída. Ela, no entanto, não quebrou nada, teve apenas arranhões e o susto. Talk about guardian angel!

a palavra em sueco do dia é änglavakt, anjo da guarda.

Filed under: Europa & Escandinávia — Maria Fabriani @ 10:05

October 7, 2005

:c)


Isso é um vegetal, chama-se Romanesque Broccoli.

Me sinto muito feliz e humildemente agradecida pelos comentários e emails de quem sente falta de ler o Montanha. Vocês não sabem como é importante saber. O intervalo não foi pra dar uma de gostosa, mas aconteceu por pura necessidade emocional. Vou voltando aos poucos, devagarzinho, pra não forçar a barra. Não sou uma pessoa zen, nunca fui. Tenho uma pequena marquinha vertical no meio das duas sobrancelhas que não me deixa mentir. Mas a vida continua, claro, claro.

Amanhã (sábado) tem jogo da Suécia contra a Croácia, pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2006. O melhor jogador do time sueco, Zlatan Ibrahimovic, está machucado depois de um jogo pelo seu clube, o italiano Juventus. Suecos em pânico. A-d-o-r-o o Zlatan. Ele fala um sueco incompreensível (sotaque de Malmö), é metido, se acha o máximo e é mesmo o rei da cocada preta. Ele tem quase dois metros de altura, é atacante, e sempre decide na hora da necessidade. Nem sempre de cabeça; às vezes todo torto, de costas pro gol. Ele é oportunista e talentosíssimo.

Bacana o comitê norueguês do Nobel ter dado o prêmio da paz para a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), das Nações Unidas e para o seu chefe, o egípcio Mohamed El Baradei. Bacana porque foi ele quem desafiou Bush e seus comparsas e pediu mais tempo para achar provas concretas da existência de armas de destruição no Iraque. No mais, se o cara irrita aos EUA, eu já tô gostando. Já o prêmio de literatura desse ano, que deveria ter sido anunciado na quinta passada, não o foi. Por que será?

Novo curso na universidade. Ciências políticas (statsvetenskap). Um quinquilhão de livros e textos pra ler, muitos capítulos de livros pra destrinchar (aprendo quando escrevo, não basta apenas ler, tenho que fazer resumos), milhares de palavrinhasquilométricastodasjuntas pra aprender (os suecos se amarram em juntar duas ou mais palavras pra identificar uma terceira coisa). Exemplo: katt = gato, mat = comida, burk = tigela.
Para nós: “a tigela de comida do gato”. Pros suecos: “kattmatsburk”. Ainda fico maluca um dia desses.

Fui pra casa (= Boden) no final de semana passado. No ônibus, na volta, sentou ao meu lado uma senhorinha de 75 anos. Conversamos as quatro horas da viagem. Ela achou meu cabelo lindo (todos os nativos acham), me perguntou se eu tinha vindo pra Suécia adotada (quando contei que vim pra cá em 2001 ela não acreditou) e contou que estava indo pra Umeå para fazer uma operação no coração. Ela tinha acabado de perder o marido depois de 45 anos de casamento e nenhum dos quatro filhos estava com ela. Fiquei com o coração apertaaaado. Ela disse que era assim mesmo, “afinal”, disse-me ela, “eles têm que trabalhar” (ainda assim, fiquei penalizada. Que diabo é isso? Sua mãe vai fazer uma operação no coração, aos 75 anos de idade, e você não pode tirar um dia de folga? Quequéisso!) No final, antes de saltar no meu ponto, nos abraçamos, ela me desejou sorte com meus planos (contei tuuuudo pra ela) e lhe desejei boa sorte com a operação. Passei o dia todo pensando nessa senhora, cujo nome eu não perguntei.

A palavra em sueco do dia é tacksam, agradecida.

Filed under: Universidade,Vidinha — Maria Fabriani @ 23:29
 

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