A pedidos, o artigo:
“Segundo uma pesquisa publicada alguns meses atrás “um em cada três suecos quer criar um limite de 15 anos de idade para assistir a jogos de futebol”. Dessa forma poderia-se, de acordo com quem participou da pesquisa, diminuir o risco de que essas crianças fossem recrutadas para as violentas gangues de times rivais. Esse é um exemplo do pânico nacional que se espalhou quando tentamos lidar com uma situação insegura ou a sedução que certos “rebeldes” sentem em fazer o que é proibido.
No início de junho foi publicada uma segunda pesquisa que, de pontos de vista distintos, é outro exemplo do mesmo fenômeno. De acordo com essa pesquisa, a maioria dos jovens que se forma na universidade escolhe o desemprego à possibilidade de se tornar pequenos-empresários, uma realidade repleta de riscos. Esses são, na minha opinião, apenas dois exemplos de um fenômeno que está tomando conta da Suécia por todos os lados: a síndrome nacional do pânico.
No meu trabalho como médico-chefe em psiquiatria em Estocolmo encontro diariamente pessoas completamente paralisadas por síndrome de pânico. Esse quadro psiquiátrico se caracteriza pela existência de um pânico irracional diante de situações normais. Uma conseqüência desse pânico é agorafobia, que por sua vez faz com que as pessoas não ousem fazer qualquer coisa fora da segurança de sua casa.
Essa é uma condição patológica, de acordo com os parâmetros psiquiátricos, mas infelizmente parece que ao invés de ser classificado como doença, o fenômeno tornou-se a base para quase todas as decisões de âmbito nacional. Nada pode ser perigoso ou inseguro. Durante as últimas décadas fomos inundados por decretos e proibições para tornar nossas vidas seguras e inofensivas.
Somos obrigados a usar cinto de segurança mesmo se ninguém além de nós mesmos se machuque caso deixarmos de usá-lo. Nossos filhos têm de usar capacete mesmo quando andam de bicicleta no jardim. Importamos leis contra qualquer fumacinha nos restaurantes e leis de proteção ao empregado que tornam quase que impossível demitir quem comete erros sérios no trabalho. Não há nada de errado em tentar cuidar de seus cidadãos. O problema é a proporção dos efeitos que acontecem quando perdemos a noção do que é razoável.
Exatamente como o paciente com pânico vê perigo em tudo o que realmente pode ser perigoso mas poucas vezes o é, a Suécia tem uma necessidade exacerbada de segurança e controle, quando o que realmente precisamos é de trabalho, um teto sobre nossas cabeças e amor.
Pedimos dispensa do trabalho e ficamos em casa por meses ou anos por causa de uma condição que apenas melhoraria caso tivéssemos uma ocupação interessante e pudéssemos voltar rápido ao trabalho (como por exemplo na maioria dos casos do esgotamento psicológico). Empregados de escritório são dispensados de forma regular por braços quebrados ou por outras lesões locais que não os impediriam de realizar muitas outras funções. De acordo com uma pesquisa publicada no início do ano, os trabalhadores ficam em casa 100% mais de tempo pelo mesmo diagnóstico do que há dez anos atrás. Dessa forma aprendemos que tudo pode ser evitado e nada precisa ser perigoso ou representar dor.
Um dos dogmas mais importantes na sociedade da segurança é que é perigoso competir, talvez o mais feio que podemos fazer. O fato de um aluno ser melhor do que um outro é tratado quase como uma mentira, mesmo quando nós todos sabemos que a realidade é exatamente essa.
E mesmo que todos nós saibamos disso, não podemos de jeito algum estimular o melhor aluno a competir. Pelo menos não nas matérias de colégio. A sociedade não quer mais que todos tenham as mesmas chances, mas que todos sejam igualmente bons, igualmente ruins, iguais. Se o pior não pode ser tão bom quanto o melhor então o melhor tem que ser tão ruim quanto o pior. Temos hoje em dia uma escola que, de acordo com vários relatórios científicos internacionais, não funciona. Os professores perderam todas as possibilidades de punir ou de premiar. Dessa forma, retiramos das crianças o direito básico de encontrar seus limites na vida e esquecemos que as elas amam competir. O ser humano não nasce na segurança. Segurança alimenta medo da mesma forma que a síndrome do pânico fortalece a necessidade de evitar perigos. Crianças conseguem viver com e devem enfrentar resistência, porque sem ela segue-se a lei do menor esforço e a vida perde seu sentido e objetivo.
A conseqüência disso é o que vemos quando as pessoas não agüentam ou querem trabalhar ou quando não ousam começar seus próprios negócios. Por que eles o fariam? O estado toma conta da gente da mesma forma.
Quando tudo desaparece por conta de uma tsunami ou de qualquer outra catástrofe, mostramos nossa incapacidade e paralisia nacional. Depois da Segunda Guerra Mundial a Suécia recebeu um grande número de refugiados dos campos de concentração. Eram pessoas que passaram pelo pior possível. Essas pessoas, apesar disso, se integraram muito rapidamente à sociedade e funcionaram no mercado de trabalho. Eles não eram enganados a acreditar em segurança. Eles tinham trabalho, comida, salário e um teto sobre suas cabeças. Eles nunca receberam um diagnóstico como PTSD (Post Traumatic Stress Disorder) e não foram recebidos por uma sociedade inexigente.
No meu trabalho encontro diariamente refugiados vindos de outros países. Em nenhum outro cenário a síndrome de pânico nacional fica tão evidente como quando essas pessoas são recebidas aqui. Eles vêm de ambientes inseguros e muitas vezes cheios de violência. Eles fogem da violência, mas encontram aqui, em contrapartida, uma segurança hiperexigente. Porque para aqueles que vêm pra cá é claro que o principal é ter trabalho, um sentido na vida.
Muitos dos que fugiram são pessoas engajadas politicamente e que têm uma força vital enorme. Algo que a inexigente sociedade sueca quebra rapidamente com sua bem-intensionada consideração.
Formalmente a conslusão é que a Suécia toma conta de seus cidadãos. Não somos maus, não exigimos nada demais, somos os mais bonzinhos de todos. Paradoxalmente, é essa sociedade sueca de pânico e igualdade que dirige a competição internacional para saber quem é o país mais bonzinho do mundo. Uma competição que leva à maior segurança possível para todos os participantes.
Muito se debateu sobre pais e mães submissos, que não dão limites aos filhos e fazem todas as suas vontades. Mas a sociedade submissa é um problema muito maior. A necessidade de se competir em segurança espalha a submissão como um vírus.
É claro que devemos proteger os nossos, mas viver é perigoso. Se não passarmos esse conhecimento aos nossos filhos eles crescerão dentro de uma bolha. Quando essa bolha estourar, tudo passará a ser duplamente perigoso. Se alguém nunca caiu e se machucou, a dor, quando ela vem, é insuportável. E a dor vem exatemente porque a segurança absoluta é irreal. Discute-se o aumento nos crimes de violência, dos casos de jovens que bebem e dirigem carros, além do consumo de drogas. Nos últimos anos enfrentamos uma série de crimes violentos que nos fizeram questionar como a psiquiatria funciona no país. Claro que podemos colocar a culpa pela violência dos últimos anos na falta de recursos para a psiquiatria, ou na Comunidade Européia ou ainda no fato de termos mais acesso a bebidas do que antigamente. Mas a questão é mais complexa do que isso.
A proibição à concorrência dá espaço à indiferença. Porque deixar de beber ou de usar drogas se nada do que se faz tem conseqüência? E caso haja conseqüências, temos sempre uma segunda chance porque a Suécia cuida de seus cidadãos.
Quem vai parar fora da sociedade sente o peso da exclusão. Vem daí a necessidade de procurar uma sociedade alternativa: a criminal. Lá a moral é “por que não vamos brigar se é brigando que conseguimos respeito?” Um respeito que é construído pelo medo. O único respeito que se pode conseguir na Suécia, já que a competição saudável de quem combina melhor com a sociedade é proibida. A única competição que existe hoje em dia é aquela em que quer descobrir quem pode dar as costas à sociedade.
Para nós outros não resta qualquer tensão. Somos todos seguros e nada pode nos trazer dor. Na sociedade sueca livre de dores começamos todos, exatamente como um paciente com pânico desenvolve agorafobia, a evitar tudo que é normal.
O país e seus habitantes precisam criar riscos grandes o suficiente, uma dose saudável de concorrência, porque a segurança é a falta de sentido. Nos transformamos todos em perdedores. Como um usuário de heroina aprende a amar sua droga, nos transformamos em viciados em segurança. Está na hora de combatermos nosso vício.”
DAVID EBERHARD
Médico-chefe em psiquiatria em Estocolmo.