Eu adoro música. Gosto de vários estilos, dos clássicos dos anos 70 e 80, R&B, samba (não-pagode) e, claro, MPB. Gosto também de ópera e de clássicos (Adagio de Albignoni é um dos meus favoritos, apesar de ser meio deprê, e entre as árias, Nessun Dorma, cantada durante o Turandot de Puccini). Sim, eu gosto de ópera. Cresci ouvindo “A Flauta Mágica” de Mozart e incontáveis árias interpretadas por Maria Callas (foto ao lado - pra mim ela é única, não tem pra ninguém).
Meus pais sempre tiveram muito bom-gosto no que diz respeito a música. Meu pai é mais pro jazz, Chet Baker, Miles Davis etc. Minha mãe sempre gostou de ópera. Me lembro inclusive que tivemos de devolver um canário que compramos porque o passarinho cantava enlouquecidamente, numa espécie de competição com as sopranos todas as vezes que mamãe escutava seus discos nas manhãs de sábado e domingo na nossa casa de vila em Botafogo.
Ainda no Santo Inácio (colégio carioca) onde passei dez anos da minha vida, comecei a cantar no coral. Me lembro que não conhecia ninguém muito bem, mas incentivada por vovó, acabei indo. Eu tinha uns 11, 12 anos. No primeiro dia assisti à aula de fora, antes de fazer um teste pra determinar se era primeira, segunda ou terceira voz (acabei sendo primeira voz, mais fininha, tipo soprano, o que apenas mostra como a professora era incompetente).
Antes, o coral ia apresentar uma música. Conhecia de vista uma menina magrinha que já fazia parte do coral e fiquei surpresa por vê-la ali. O nome dela era Elisabeth e ela tinha uma voz meio débil, muito infantil. Nunca me esqueço que quando ela abriu a boca pra cantar - como solista - eu quase chorei de emoção. Que voz, que força!
Me lembro nitidamente que fiquei envergonhada de ter ficado tão emocionada. Não consegui entender o porquê daquela emoção que apareceu no meio do meu estômago, assim que a Beth começou a cantar. Fiquei tão envergonhada que não me lembro da música que ela cantou… e olha que eu sei cantar até hoje as músicas que aprendi no coral, até mesmo uma cantiga de ninar em alemão (oh!).
Um domingo bobo desses estava zapeando pelos canais de TV e dei de cara com um programa do estilo “Idol”, só que ligado à ópera. Os candidatos tinham de cantar na frente de especialistas e o vencedor ganharia um papel numa ópera a ser encenada em Londres. Apesar de não gostar de reality shows, não consegui deixar de assistir.
Estudantes, executivas, professoras, assistentes sociais, agentes de turismo, todos se submeteram ao treinamento duro e se saíram muito bem. Mas a melhor de todas foi Jane Gilchrist, que até antes de participar do show era caixa de supermercado. Vi no site do Channel 4 que ela ganhou o concurso juntamente com uma outra concorrente.
Que voz! Minhanossasenhora. Não sou educada o suficiente in those matters pra entender de acordes, sutilezas musicais ou que tais. Sou daquelas que sabe apenas apreciar algo bom. Meu gosto é, antes de tudo, instintivo. Por isso mesmo acho ópera o maior barato, porque na verdade, o interessante não são apenas os dó de peito de sopranos, tenores e contraltos, mas antes de mais nada, como esses artistas cantam - a emoção depositada em cada sílaba. Acho que o que me atrai em ópera no final das contas é o excesso, a falta de limites.
Quando vi e ouvi essa Jane Gilchrist cantando fiquei muito emocionada. E o melhor é que ela sempre quis cantar, mas acabou se casando cedo, tendo filhos etc e o sonho foi deixado de lado. E eu adoro quando sonhos se tornam realidade. A-D-O-R-O.
Já escrevi sobre ópera aqui.