Dia de cão
Acordei às quatro da manhã e não consegui mais dormir. Apesar disso (ou até por causa disso), saí atrasada pro “trabalho”. Já no carro, reparei que estava com pouca gasolina, mas depois de um rápido olhar pro relógio decidi que não seria recomendável parar naquele momento para abastecer. Passei a manhã inteira transcrevendo uma entrevista que fiz ontem à tarde, com meu terceiro entrevistado pro meu trabalho de final de semestre. Quem já teve de fazer esse tipo de trabalho sabe a chatice que é. Como uso um computador meio que público, salvei o arquivo pro meu webmail, apaguei o arquivo da memória do micro e fui almocar.
Na parte da tarde terminei de fazer a transcricão e imprimi o trabalho todo, só por seguranca. Essa medida provou ser a mais inteligente do dia de hoje (ou talvez da semana, ou do mês) porque logo em seguida apaguei o arquivo do computador (e da lixeira e do folder de temporários, como boa neurótica que sou) ANTES de enviá-lo para meu webmail. Resolvi que depois dessa precisava ir pra casa. Quando sentei no carro, notei uma luzinha amarela no canto esquerdo do painel. A (falta de) gasolina! Parei num posto no caminho de casa e quase quebrei a mão ao tentar abrir o tanque do meu carro.
Sem brincadeira, será que existe alguma projetista do sexo feminino na equipe que desenvolve os carros mais vendidos da atualidade? Não que meu carro seja atual (well, ele foi atual há exatos 20 anos), mas ainda assim. Carro é um dos objetos mais sexistas que existem na face da terra. Ir a um posto de gasolina ou a uma oficina mecânica são meus pesadelos mais recorrentes, tanto aqui quanto no Brasil. No final, depois de muito torcer e de dizer uma série dos impropérios mais cabeludos que conheco em português e em sueco, consegui abastecer. Mas a bomba era duríssima. Exausta, coloquei apenas o bastante pra chegar em casa.
Já em casa, liguei o computador e, claro, ele não funcionou. A rede que temos aqui em casa não deu sinal de vida e meu urso, óbvio, está viajando. Tentei algumas coisas, mas no final de 20 minutos desesperadores, peguei o telefone e liguei pra Stefan. Briguei, briguei, briguei. Fui tomar um banho, voltei, liguei pra ele, pedi desculpas e resolvi o problema. A solucão era reiniciar o roteador. Demorou três minutos e nem precisei baixar a cabeca. Já escrevi a parte que faltava do trabalho de hoje e arrangei tempo até pra responder a alguns emails (mas não a todos, já já o farei, ok?)
E qual a explicacão pra essa alteracão toda, pergunta você, leitor interessado e até certo ponto bisbilhoteiro. O lance, minha gente, é que estou no meio de ma chérrie la TPM. Não me lembro muito bem dos meus sintomas no Brasil (acho que soltava os cachorros em tudo e todos e dirigia muito rápido também) mas aqui a coisa aperta.
Todos os tipos de pensamentos malucos baixam na minha cabeca: que eu vou é voltar pro Brasil, que esses suecos são uns chatos mongolóides arrogantes cheios de si pentelhos imbecis e que eu não aguento mais falar essa lingua, que eu quero mais é gargalhar beeeem alto no meio do supermercado e não ser chamada de doida, que quero andar na rua e me sentir em casa… Essas coisas que vocês já sabem.
Tô meio acabada. Mas amanhã é um novo dia… e tem mais. Ó céus.




Bom, estou voltando aos poucos. Essas férias na verdade não foram férias do sentido convencional da palavra. É que desde terça-feira passada (segunda foi feriado) estou “trabalhando” no escritório que recebe refugiados e imigrantes da cidade de Luleå (distante 30 minutos de carro de Boden). A palavra “trabalhando” aparece entre aspas porque o que faço na verdade não é um trabalho per se, mas uma espécie de estágio acadêmico, também chamado de “trabalho de campo” (fältarbete), que faz parte do currículo da universidade.
É, eu sei que é sacanagem não contar nada e escrever isso aí em cima, mas entendam, aqui o lance é sério mesmo. Mas que dá vontade de escrever um livro sobre as vidas de várias pessoas que encontrei lá, ah isso dá. Nessa semana conheci desde médicos e professoras a analfabetos, passando por enfermeiras e até um padre. Gente vinda de Burundi, Colômbia, Eritréia, Iraque, Burma, Irã, Camarões, Afeganistão e do Sri-Lanka. A cidade de Luleå recebe todos os anos uma quota de refugiados indicados pelo órgão 