April 26, 2005

Dia de cão

Acordei às quatro da manhã e não consegui mais dormir. Apesar disso (ou até por causa disso), saí atrasada pro “trabalho”. Já no carro, reparei que estava com pouca gasolina, mas depois de um rápido olhar pro relógio decidi que não seria recomendável parar naquele momento para abastecer. Passei a manhã inteira transcrevendo uma entrevista que fiz ontem à tarde, com meu terceiro entrevistado pro meu trabalho de final de semestre. Quem já teve de fazer esse tipo de trabalho sabe a chatice que é. Como uso um computador meio que público, salvei o arquivo pro meu webmail, apaguei o arquivo da memória do micro e fui almocar.

Na parte da tarde terminei de fazer a transcricão e imprimi o trabalho todo, só por seguranca. Essa medida provou ser a mais inteligente do dia de hoje (ou talvez da semana, ou do mês) porque logo em seguida apaguei o arquivo do computador (e da lixeira e do folder de temporários, como boa neurótica que sou) ANTES de enviá-lo para meu webmail. Resolvi que depois dessa precisava ir pra casa. Quando sentei no carro, notei uma luzinha amarela no canto esquerdo do painel. A (falta de) gasolina! Parei num posto no caminho de casa e quase quebrei a mão ao tentar abrir o tanque do meu carro.

Sem brincadeira, será que existe alguma projetista do sexo feminino na equipe que desenvolve os carros mais vendidos da atualidade? Não que meu carro seja atual (well, ele foi atual há exatos 20 anos), mas ainda assim. Carro é um dos objetos mais sexistas que existem na face da terra. Ir a um posto de gasolina ou a uma oficina mecânica são meus pesadelos mais recorrentes, tanto aqui quanto no Brasil. No final, depois de muito torcer e de dizer uma série dos impropérios mais cabeludos que conheco em português e em sueco, consegui abastecer. Mas a bomba era duríssima. Exausta, coloquei apenas o bastante pra chegar em casa.

Já em casa, liguei o computador e, claro, ele não funcionou. A rede que temos aqui em casa não deu sinal de vida e meu urso, óbvio, está viajando. Tentei algumas coisas, mas no final de 20 minutos desesperadores, peguei o telefone e liguei pra Stefan. Briguei, briguei, briguei. Fui tomar um banho, voltei, liguei pra ele, pedi desculpas e resolvi o problema. A solucão era reiniciar o roteador. Demorou três minutos e nem precisei baixar a cabeca. Já escrevi a parte que faltava do trabalho de hoje e arrangei tempo até pra responder a alguns emails (mas não a todos, já já o farei, ok?)

E qual a explicacão pra essa alteracão toda, pergunta você, leitor interessado e até certo ponto bisbilhoteiro. O lance, minha gente, é que estou no meio de ma chérrie la TPM. Não me lembro muito bem dos meus sintomas no Brasil (acho que soltava os cachorros em tudo e todos e dirigia muito rápido também) mas aqui a coisa aperta.

Todos os tipos de pensamentos malucos baixam na minha cabeca: que eu vou é voltar pro Brasil, que esses suecos são uns chatos mongolóides arrogantes cheios de si pentelhos imbecis e que eu não aguento mais falar essa lingua, que eu quero mais é gargalhar beeeem alto no meio do supermercado e não ser chamada de doida, que quero andar na rua e me sentir em casa… Essas coisas que vocês já sabem.

Tô meio acabada. Mas amanhã é um novo dia… e tem mais. Ó céus.

Filed under: Vidinha — Maria Fabriani @ 21:43

April 23, 2005

A correria continua

thinger.gifthinger.gifthinger.gifthinger.gifthinger.gif
thinger.gifthinger.gifthinger.gifthinger.gifthinger.gif

Minha vida continua uma correria, o que não é um mau sinal. Não vou ficar aqui pedindo desculpas por não escrever porque acho que todo mundo já entendeu que a coisa está pegando por aqui. Mas não posso deixar de dizer que morro de saudades de ter tempo pra pensar em assuntos, em textos, em imagens, em frases e títulos bacanas. Sou um desses bonequinhos malucos aí de cima - só que numa versão mais bem-nutrida (infelizmente).

Já que não posso escrever nada sobre meu trabalho, me reduzo à conversa de circunstância. O tempo aqui no topo do mundo está ótimo (xô olho grande), muito sol, mas meio frio também. Ainda mais com vento. Como eu já escrevi aqui no Montanha uma vez, deveria ser proibido ventar no norte da Suécia. Meu urso ganhou do chefe uma câmera da Logitek, que é um espanto de pequena (pouco maior do que um maço de tubos mortais de nicotina) e está fazendo minha vida um inferno. Já me filmou dormindo, comendo, vendo TV e escrevendo aqui. Ó céus.

Agora me vou. Mas eu volto. Beijocas.

Filed under: Vidinha — Maria Fabriani @ 11:44

April 17, 2005

O oráculo do século XXI

van_gogh.gif

Queria escrever já faz tempo sober as perguntas idiotas que o coitado do Google tem que responder, mas nunca fui metódica o suficiente para reunir as frases de quem chega ao Montanha perguntando por aumento de pênis e maluquices variadas. Sem brincadeira, muita gente chega aqui depois de perguntar ao Google coisas hilárias do tipo: “Como fazer um cachorro sentar quando eu quero”, ou “faça resumo do livro budapeste do chico buarque”.

Bem, hoje estava flanando pelo NoMínimo e vi o link que o Pedro Dória deu prum post sensacional escrito pelo Rafael Galvão, chamado “As alegrias que o Google me dá”. Ainda não sei o que é mais engraçado, se as perguntas alopradas da galera ou as respostas do Rafael. Algumas das pérolas:

brincar com o penis é pecado?
Uma vez só, não. Mas 200 vezes ritmadas, ah, aí é, sim.

aumentar o penis gratis
Não tem. Pinto pequeno é o castigo para um pão duro como você.

quero sexo
Não dou, não dou e não dou.

Aliás, falando em Google: uma dica pros eternos perguntadores. Querem uma definição de alguma palavra ou conceito? Abram a página do Google e escrevam “define:XXXX” (não precisa escrever as aspas). O único problema é que a ferramenta funciona apenas em inglês. :c(

Filed under: Variedades — Maria Fabriani @ 18:03

April 16, 2005

A minha, a sua, a nossa mudez

Hoje passei o dia inteiro sem pronunciar uma única palavra. Urso viajou a trabalho, eu não preciso sair de casa e posso me dar ao luxo de ler e assistir TV sem peso na consciência. Fui ler depois do almoço. Tirei o telefone do gancho e ainda não o coloquei de volta. Tô com vontade de falar não. “Brick Lane” é um absurdo de bom. Não consigo parar de ler, apesar de ficar cansada, querer dormir ou fazer outra coisa. Tenho, inclusive, de ler o outro livro, pro “trabalho”, mas tenho tempo. Hoje é sábado, dia de descanso.

Há três meses vinha sentindo falta da Marina, dona do engraçadíssimo Caipirinha Sueca. Marina andava sumida, mas como não queria dar uma de xereta, esperei ela retornar. Até que ontem não agüentei mais e mandei um email perguntando se estava tudo bem. Hoje veio a resposta. Marina está bem (assim como sua casa e o namorado-viking Daniel). Problemas familiares no Brasil causaram uma depressão braba, da qual ela se recupera pouco a pouco. No email de resposta, ela me deu autorização para escrever aqui no Montanha sobre isso e tranquilizar as pessoas que andam preocupadas.

Fique bem, Marina, querida. Um beijo.

Filed under: Vidinha — Maria Fabriani @ 18:08

April 15, 2005

Ouvindo cores e comendo música

Em julho do ano passado escrevi sobre uma característica minha que achava ser única, mas que descobri depois ser uma condição até certo ponto comum. É que quando penso em números, penso em cores também. Quer dizer, o número cinco pra mim é vermelho, assim como o quatro é marrom e o seis é azul. Os dias da semana acompanham essa lógica. Terça-feira é amarela (assim como o número 3), quarta é marrom, quinta é vermelha e sexta é azul. Segunda é meio branca, sábado é esverdeado e domingo é indefinido, meio cinza.

Não sei de onde vem isso, mas sempre tive esse tipo de experiência e achava, quando era criança, que todo mundo via cores em números, então nem sabia que eu era exceção. Teve uma vez em que toquei uma escultura de papier-marché da minha mãe e senti o gosto de chocolate. (É claro que vocês podem achar que essa experiência não é lá muito científica, uma vez que não preciso de muito estímulo pra querer comer chocolate, mas, mesmo assim, aconteceu. Fantástico seria poder tocar uma escultura e querer me deliciar com brócoli. Hohoho) Associo música a cores também. Rita Lee, por exemplo, sempre soa verde pra mim.

Aí, outro dia, li no jornal uma notinha que me deixou contente. A materinha conta a história de Elizabeth Sulston, que é capaz de sentir o sabor de diferentes notas musicais. Sulston (assim como eu) é sinestética (synaesthetic, em inglês), o que quer dizer que ela tem a capacidade de juntar experiências sensoriais em vários níveis (visual, auditiva etc). Para Sulston, Mi tem gosto salgado, enquanto La é como creme de leite. Cientistas suiços comprovaram a habilidade da música e escreveram um artigo na renomada revista científica Nature sobre suas experiências.

Cientistas especulam se sinestesia seria mais comum em artistas em geral, cujo trabalho é criativo. Sabe-se, por exemplo, que Miles Davis e Kandinsky eram sinestéticos (é assim que se escreve em português?). Leia mais sobre Sinestesia, aqui e aqui (ambos textos da BBC, em inglês). E bom sábado! :c)

Filed under: Variedades — Maria Fabriani @ 10:20

April 11, 2005

Na correria

Imprestável, eu ando imprestável, eu sei. Emails não respondidos, contatos não estabelecidos, me perdoem. A vida anda corrida aqui no topo do mundo. Não vi enterro do papa, nem casamento de Charles e Camilla, nem mais nada. Lá no “trabalho” as coisas andam bem. Na sexta foi emocionante: fomos buscar refugiados novos que estavam chegando diretamente a Luleå depois de viajar meio-mundo (literalmente). Cansados mas felizes, eles agradeceram muito pela possibilidade de vir morar na Suécia, o que representa muitas vezes uma possibilidade de sobrevivência, uma vida nova. E-mo-ci-o-nan-te.

No final de semana nem chance de descanso. Sábado meu urso recebeu uma medalha no seu trabalho (trabalhar no exército tem dessas, ao invés de aumento no salário, nego afaga o ego do funcionário dando uma medalhinha aqui, outra ali) às dez da matina. Antes disso, já tínhamos limpado e arrumado o apartamento todo porque às duas da tarde iriamos receber a irmã de Stefan com o marido prum café/almoço. Saí da cerimônia da medalha lá pelas 11 da manhã e fui entrevistar uma pessoa pro meu “trabalho”. Tudo correu bem e, quando cheguei em casa às três da tarde, bufando por estar atrasada, eles ainda não haviam chegado.

Bom, o café/almoço virou jantar porque eles só chegaram às sete da noite. Nem sei que horas eram quando eles foram embora, mas só me lembro de ter colocado a camisola e ter apagado na cama. Ah! Passei no último curso da universidade, “Qualidade de Avaliação”! Amém! Terminei de ler o livro “How To Lose Friends And Alienate People” do jornalista inglês Toby Young. Muito engraçado, recomendo. Agora comecei dois livros: “Hälsans Mysterium” (ou “O Mistério da Saúde”), de Aaron Antonovsky (pro “trabalho”) e “Brick Lane” de Monica Ali (porque preciso descansar Tico e Teco de vez em quando). Na TV hoje tem estréia: “CSI New York” com o pãozaçoaçoaço Gary Sinise.

E vamo que vamo. :c)

Filed under: Conquistas,Vidinha — Maria Fabriani @ 16:48

April 3, 2005

papa.bmp

Filed under: Pra frente é que se anda — Maria Fabriani @ 20:25

April 2, 2005

“Férias” e “trabalho”

lindinho.jpgBom, estou voltando aos poucos. Essas férias na verdade não foram férias do sentido convencional da palavra. É que desde terça-feira passada (segunda foi feriado) estou “trabalhando” no escritório que recebe refugiados e imigrantes da cidade de Luleå (distante 30 minutos de carro de Boden). A palavra “trabalhando” aparece entre aspas porque o que faço na verdade não é um trabalho per se, mas uma espécie de estágio acadêmico, também chamado de “trabalho de campo” (fältarbete), que faz parte do currículo da universidade.

Acompanho os profissionais, observo, aprendo e, no final, escreverei um trabalho de aproximadamente 20 páginas sobre alguma coisa que achei interessante. Ainda não me decidi sobre o quê escreverei, no entanto. No momento funciono meio que no automático, anoto quase tudo que ouço e chego em casa quase morta de cansaço. O problema é que não posso discutir minhas impressões com ninguém, nem com meu urso. A razão é que tudo o que acontece lá é confidencial. Mas o que posso dizer é que está sendo uma das experiências mais emocionantes da minha vida.

lindinha.jpgÉ, eu sei que é sacanagem não contar nada e escrever isso aí em cima, mas entendam, aqui o lance é sério mesmo. Mas que dá vontade de escrever um livro sobre as vidas de várias pessoas que encontrei lá, ah isso dá. Nessa semana conheci desde médicos e professoras a analfabetos, passando por enfermeiras e até um padre. Gente vinda de Burundi, Colômbia, Eritréia, Iraque, Burma, Irã, Camarões, Afeganistão e do Sri-Lanka. A cidade de Luleå recebe todos os anos uma quota de refugiados indicados pelo órgão United Nations High Commissioner for Refugees (UNHCR) e é com eles que lidamos.

Não posso contar mais do que isso, mas afirmo o seguinte: acordo todos os dias às seis da matina feliz da vida. :c)

Filed under: Conquistas,Europa & Escandinávia — Maria Fabriani @ 08:33
 

Bad Behavior has blocked 498 access attempts in the last 7 days.