September 16, 2004

Aniversário do Stefan

Soneto do amor total

cupido.gifAmo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinícius de Moraes

Älskling, du är allt för mig. Du gör mig glad, trygg, verkligen lycklig. En stor blöt puss mitt på munnen på dig! :c) *SMACK*

Filed under: Aniversários — Maria Fabriani @ 07:29

September 14, 2004

Na sala de aula

Hoje o dia foi fantástico. A convite da professora do meu curso de verão, fui comentar o livro do Mauricio Rojas “No labirinto da solidão: imigração e identidade sueca” (“I ensamhetens labyrint: invandring och svensk identitet”) no curso recém-iniciado dela, que é voltado para quase-professores. A turma, formada por cerca de 20 mulheres, foi dividida em quatro grupos. Passei de 10 a 15 minutos com cada grupo, levantando polêmicas, perguntando opiniões, dizendo o que achava. Foi muito interessante porque cada vez que leio esse livro descubro mais pontos instigantes.

Quando suecos leêm Rojas é normal que fiquem revoltados com as “simplificações” que ele faz, descrevendo as manias do povo daqui de forma pragmática, sem firulas mas com muita base teórica. Uma moça disse que “era muito difícil mudar o modo como o povo se comporta”, para que os imigrantes pudessem se sentir mais em casa. Aí tive de intervir e comentei que o que Rojas escreve e o que todos os imigrantes defendem não é uma mudança dos suecos no seu jeito de ser, mas uma abertura para que o nosso jeito de ser sueco também seja reconhecido como válido e aceito.

Comentei ainda que entendia quem se sente inconfortável com tamanha presença de imigrantes no seu país. O lance é que se um sueco disser que há muitos imigrantes por aqui, ele é logo taxado de racista. Depois de ler Rojas, entendi uma série de coisas como a distância das leis suecas, que garantem igualdade de direitos a todos, e a realidade, que é beeeem diferente.

Ninguém perguntou ao povo sueco se eles queriam receber tantos refugiados de guerra, se queriam viver numa sociedade multicultural. As leis foram sendo feitas, o tempo passando, a modernidade chegando e o sueco típico não teve tempo de se acostumar com gente de pele escura que fala sua língua com sotaque. Acha estranho, sente-se incomodado. O que, aliás, é normal, se levarmos em consideração a formação populacional daqui - quase que totalmente homogênea por séculos a fio.

A discussão foi muito interessante. Gostei demais de estar lá, dando meu testemunho, perguntando, comentando. Acho fascinante como pessoas podem ler o mesmo livro e entender mensagens diametralmente opostas. O mais legal é que entendo mais e mais a alma sueca - os prós e os contras, o humor ou a falta dele. E isso é fundamental pra mim.

arco_iris.jpg
Umeå agora, vista da janela da cozinha.

Filed under: Conquistas — Maria Fabriani @ 16:21

September 13, 2004

A vida é bela

ceu_impressionista01.jpg

Fim-de-semana mágico. Meu urso chegou sexta à tarde. Jantamos (fiz batata gratinada no forno com creme de leite diet e queijo diet, além de mais outras coisas - tudo uma delícia, thank you very much). Assistimos ao noticiário e lá pras 19h30, 20h fomos comprar guaraná no supermercado aqui perto de casa (fica a uns 300 metros a pé, na esquina da minha rua). Quando olhamos para cima fomos brindados com esse céu impressionista, rosa, azul, laranja, amarelo… A noite estava clara, parecia que de propósito pra me fazer respirar mais leve. Sucesso! :c)

No sábado depois do almoço saímos para uma volta na floresta perto de casa. Desde que vim morar aqui descobri a delícia das frutinhas selvagens, chamadas bär [bééérr] e que crescem em qualquer mata de fundo de quintal. A minha favorita é a blåbär [blôôôbér], ou blueberry em inglês, cheia de vitamina C e ótima para o estômago. Colhemos algumas delas nesses arbustos rasteiros (ver primeira thumbnail). Foi difícil encontrar as frutinhas, talvez porque as crianças da escolinha ao lado devem conhecer bem os points mais fartos.

Colhi algumas blåbär (segunda thumbnail). O dia estava liiiiiindo, por volta de 16 graus (o que é relativamente “quente” por aqui nessa época do ano). Rodamos pela florestinha e arredores por cerca de duas horas. No final, estavamos consados mas não com fome. A razão? Veja a terceira thumbnail. :c))) Antes do jantar ainda demos uma volta de carro, olhamos casas (nosso esporte favorito já que não temos dinheiro pra comprar…) e descobrimos novos bairros de Umeå. Vimos até um balão! (veja quarta thumbnail)

No domingo choveu, então ficamos em casa. O que, diga-se de passagem, não foi nenhum sacrifício. Hohoho. Quem disse que a vida não é bela? :c)

blabar_th.jpgmaos_vazias_th.jpgbalao_th.jpg

Hoje teve trabalho de grupo aqui em casa. Fizemos um resumo de um caso judicial para entregar amanhã no seminário sobre direito civil. Escrevemos, tomamos café e jogamos conversa fora. Falamos sobre cachorros, cavalos e claro, outras coleguinhas de quem ninguém gosta. Devo dizer que a capacidade de fazer fofoca das suecas é tão ou mais sofisticada do que a nossa. Hohoho. Essa semana vai ser tumultuada, mas a vida é boa e generosa então, nada a temer. Boa semana pra você também! :c)))

Filed under: Vidinha — Maria Fabriani @ 17:24

September 10, 2004

Imaginary Homelands

sphere.jpg
Imagem: Escher

Salman Rushdie sobre si mesmo e asiáticos na Inglaterra:

“Somos hindus que cruzaram as águas negras; somos muçulmanos e comemos carne de porco. Consequentemente pertencemos atualmente em parte ao mundo do leste. Às vezes nos sentimos na fronteira de duas culturas (…). Pelo fato de termos sido transportados através de meio mundo, somos pessoas traduzidas. Normalmente imagina-se que algo sempre se perde numa tradução; eu sustento teimosamente que algo também pode ser ganho… Somos ao mesmo tempo insiders e outsiders nessa sociedade. Essa visão estereoscópica é o que podemos oferecer no lugar de uma visão completa.” (Rushdie 1992, páginas 15, 17, 19 - Trecho retirado do livro I ensamhetens labyrint: invandring och svensk identitet, de Mauricio Rojas)

Filed under: Elucubrações,Livros,Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 10:43

September 9, 2004

…não. Hoje não.

Filed under: Elucubrações — Maria Fabriani @ 20:43

September 8, 2004

A Terra é um planeta inusitado, que funciona por meios tortuosos. Povoado por bípedes tão diferentes visualmente, mas que, no entanto, dividem uma coisa em comum: vivem e sobrevivem porque crêem. Seja Deus, Alá, Buda ou qualquer outro. Nascem, crescem e morrem acreditando em alguma coisa. Na mãe, no pai, no filho, no espírito santo, no parceiro, no amigo. Nem os desconfiados se salvam porque têm crenças básicas embutidas. Até o ateu está incluído: ele crê na independência. Eu acredito na esperança, que pra mim equivale à fé religiosa. Que coisa insólita essa de se viver de crença.

Filed under: Elucubrações — Maria Fabriani @ 10:27

September 7, 2004

Você não é bem-vindo

svenskar.jpg
Da esquerda pra direita: Fredrik Dahlström, Hakim Chebchoub, Rebin Solevani e Linus Larsson

Ontem meu jornal mostrou uma matéria fantástica: contratou quatro repórteres jovens, dois suecos com nomes bem comuns, e dois com nome e aparência árabe. Os quatro procuraram 366 empregos para os quais apresentaram méritos idênticos. O método é simples: em pares (um sueco e outro com nome estrangeiro) os rapazes ligavam para saber de empregos anunciados nos jornais e no site do banco de empregos. Quando o “imigrante” ligava, todas as vagas estavam preenchidas. O sueco ligava então 20 minutos depois e conseguia uma entrevista na hora. Trata-se de uma série de reportagens do DN para analisar as pessoas impedidas de entrar (na sociedade, no mercado de trabalho etc). Em sueco faz mais sentido, são “De Utestängda”.

Exemplo das conversas por telefone, quando os rapazes ligavam para as empresas perguntando sobre a possibilidade de mandar o currículo:

Rebin Solevani, que fala sueco com um leve sotaque:
Repórter — Oi, meu nome é Rebin Solevani e estou interessado no trabalho de cabeleireiro. Gostaria de saber se ele ainda está disponível?
Homem — Já tenho muitas pessoas que querem o trabalho, de forma que vou esperar. Terei de encontrar com muitos interessados…
Repórter — Ok, então pelo menos eu já sei.
Homem — Obrigada, até logo.

Linus Larsson, sueco, ligando para o mesmo salão de cabeleireiro e falando com a mesma pessoa:
Repórter — Olá, meu nome é Linus Larsson. Estou ligando a respeito do trabalho que vi anunciado. Vocês estão procurando um cabeleireiro?
Homem — Sim, estamos.
Repórter — O trabalho ainda está disponível?
(Linus tem oportunidade de falar sobre sua experiência anterior - praticamente a mesma de Rebin)
Homem — Como é mesmo o seu sobrenome?
Repórter — Larsson.
Homem — Larsson, claro! Nós poderíamos nos encontrar pra uma entrevista, claro.

Quando o jornal ligou para o responsável pelo salão e o confrontou com o diálogo acima, ele disse que “não tinha nada a ver com o fato de Rebin ser imigrante”. Essa é apenas uma das desculpas utilizadas pelos empresários citados na reportagem. A maioria disse estar muito estressada e por isso sem tempo para julgar de forma melhor os currículos dos aplicantes. A mesma coisa aconteceu com Hakim Chebchoub, mesmo ele sendo sueco de nascimento e falando a língua sem qualquer sotaque. Basta que ele diga seu nome para que qualquer tipo de interesse do empresário acabe.


Amany Abdelsaid tem 25 anos, é casada e tem dois filhos

É por isso que a reportagem de hoje tem como título: “Eles mudaram de nome para conseguir um emprego”. Na matéria conta-se a história de Amany, que passou a se chamar Anna para conseguir trabalhar. Ela é telefonista especializada em um tipo de sistema eletrônico sueco e não foi contratada quando a empresa em que estava fazendo estágio anunciou três vagas de telefonista. Uma colega de curso dela entrou numa vaga e outras duas moças, sem preparo especializado e com formação apenas ginasial, foram contratadas para as duas outras vagas. Ah, detalhe: as três moças são suecas. Amany acha que sua não-contratação apesar de sua óbvia competência se deve ao fato dela usar xale/véu.

O pior não é isso. Avni Dervishi, imigrante do Kosovo, tem um masters em Política Européia e Ciência Política, conseguido em uma universidade sueca, além de experiência de trabalho nas Nações Unidas - mas nenhum emprego. Quando resolve tentar um trabalho menos ambicioso, a desculpa é que ele é mais qualificado do que o exigido. Ele pensa em mudar de nome, mas acha difícil. Diz que seria como perder ainda mais uma identidade já difusa. Mas o pior mesmo é o que disse a sobrinha dele: “Por quê preciso estudar agora para entrar pra universidade? Você tem uma formação ótima e não consegue emprego.” A sobrinha de Avni Dervishi tem 10 anos.

Você, que já me lê há algum tempo, deve estar achando que ando me repetindo demais, que estou obcecada com essa história de discriminação. É, pode ser. Mas, se você estivesse no meu lugar, aposto que estaria preocupada(o) também. Acho importante mostrar isso aqui porque essa série de reportagens é uma vitória. Uma vitória contra todos aqueles - suecos ou não - que dizem que não há discriminação na Suécia, apenas choramingação de imigrante mimado.

O fato de um dos mais respeitados órgãos de imprensa sueca - realmente mainstream - estar provando por A mais B que discriminação realmente acontece diariamente na democrática Suécia está espantando muitos cidadãos. A série de matérias foi acompanhada por pesquisadores, que dela tiraram conclusões de base científica. Hoje a ministra da integração aplaudiu a iniciativa, até porque os resultados das matérias mostram que não é apenas o governo que deve fazer alguma coisa pra melhorar a situação dos imigrantes, mas a sociedade como um todo.

Filed under: Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 09:47

September 6, 2004

No ônibus

stop.jpgOntem teve jantar na casa de um casal amigo, Mia e Jens. Ela é minha amiga de curso. O namorado, Jens, é alemão e está na Suécia há tanto tempo quanto eu. A Jenny também estava lá. No ônibus sentei na parte da frente, como sempre faço quando não tenho certeza se peguei a linha certa. Ao meu lado, dois rapazes de aparência indiana (mas poderiam ser paquistaneses ou do Sri-Lanka, sei lá).

Num ponto de ônibus do centro da cidade subiram cinco mulheres da Somália, com suas roupas típicas, chales e tudo. Sentaram nas cadeiras à minha frente e uma delas ao meu lado. Ela era a mais velha de todas, uma senhora, e cheirava a sândalo. Quase comecei uma conversa, mas fiquei com receio de não me fazer entender. É muito comum que as imigrantes mais velhas, principalmente mulheres, não saibam mais do que o básico em sueco ou inglês. E eu, obviamente, sou um zero a esquerda em árabe.

Na minha frente, uma mãe e duas filhas. Uma das meninas era pequenininha e a mãe ia lendo pra ela o nome das paradas do ônibus com uma pronúncia muito boa, seguida de animados comentários em sua própria língua (somali?). Fiquei feliz por ela estar contribuindo para a educação da filha. Quando me levantei para sair do ônibus, no entanto, reparei uma coisa engraçada e triste. Todos os suecos presentes estavam sentados no fundo do ônibus, enquanto nós, imigrantes, sentamo-nos na frente (inclusive o motorista que parecia ser do Iraque).

O jantar foi ótimo! Sopa de salmão russo (a mãe da Mia é russa) com pêra no forno de sobremesa. Tomei um martini de aperitivo (gosto mais ou menos, prefiro as azeitonas hohoho) e o vinho branco que eu levei. Muito bom, viu? Se tiver oportunidade, compre. Tem um gosto muito suave, com um toque de frutas. Delicioso. No final, café e Baileys. Uhmmm.

Filed under: Vida de imigrante,Vidinha — Maria Fabriani @ 13:38

September 5, 2004

Domingo

futebol_pequena.jpg

Tava estudando mas tive de parar pra apreciar. Crianças estão jogando futebol aqui no gramado em frente de casa. Um barato. Tô quase indo lá participar. Será que se eu disser que sou brasileira eles me deixam jogar? Hohoho. Quando fazem gol é uma gritaria ótima: “MÅÅÅÅÅLLLLLLLL!!!!!!” [môôôôôllll], berram. Música pros meus ouvidos solitários.

Filed under: Vidinha — Maria Fabriani @ 14:50

September 4, 2004

zum zum zum…

Eu e a abelha estamos bem, mas cansadas. Sim, ela ainda está aqui em casa, zunindo como nunca. E eu tentando evitá-la a qualquer custo. Fui pra cidade. Comprei um vinho branco chileno que parece ser ótimo, chamado Terra Andina (o site é show!). Encontrei com colegas de turma, vi gente na praça da cidade, vi o preço de um casaco de inverno e quase caí pra trás. É exatamente o preço do sofá que eu quero comprar. Fui ao supermercado, comprei biscoitos recheados dinamarqueses Bisca e voltei pra casa. Li. Vi TV. Escrevi SMS, falei ao telefone. Escrevi.

Terminei de ler o livro do Günther Wallraff, um alemão que nos anos 80 se transformou em turco (com ajuda de lentes de contato negras, peruca e bigode postiço) e foi procurar emprego. O livro é interessante inicialmente, quando ele descreve diversos empregos que conseguiu, como fritador/faxineiro no McDonalds, provador de medicamentos para indústria farmacêutica etc.

O preconceito e a noção de que os turcos (ou outros não-alemães) não são gente fica evidente o tempo todo, o que causa muito desconforto. O livro é, no entanto, muito interessante porque mostra, além disso, como uma série de indústrias funcionam, como a das empreiteiras que contratam pessoal para obras civis. Impressionante.

No final o livro vai ficando chato, chaato, chaaaato. Fui pulando uma série de coisas porque é como se apenas um alemão ou uma pessoa que more na Alemanha pudesse entender. Nesse ponto, fiquei meio frustrada. Mas o livro é bacana mesmo. Agradeço à Marcia de Souza pela dica.

Filed under: Livros,Vidinha — Maria Fabriani @ 17:06
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