
Da esquerda pra direita: Fredrik Dahlström, Hakim Chebchoub, Rebin Solevani e Linus Larsson
Ontem meu jornal mostrou uma matéria fantástica: contratou quatro repórteres jovens, dois suecos com nomes bem comuns, e dois com nome e aparência árabe. Os quatro procuraram 366 empregos para os quais apresentaram méritos idênticos. O método é simples: em pares (um sueco e outro com nome estrangeiro) os rapazes ligavam para saber de empregos anunciados nos jornais e no site do banco de empregos. Quando o “imigrante” ligava, todas as vagas estavam preenchidas. O sueco ligava então 20 minutos depois e conseguia uma entrevista na hora. Trata-se de uma série de reportagens do DN para analisar as pessoas impedidas de entrar (na sociedade, no mercado de trabalho etc). Em sueco faz mais sentido, são “De Utestängda”.
Exemplo das conversas por telefone, quando os rapazes ligavam para as empresas perguntando sobre a possibilidade de mandar o currículo:
Rebin Solevani, que fala sueco com um leve sotaque:
Repórter — Oi, meu nome é Rebin Solevani e estou interessado no trabalho de cabeleireiro. Gostaria de saber se ele ainda está disponível?
Homem — Já tenho muitas pessoas que querem o trabalho, de forma que vou esperar. Terei de encontrar com muitos interessados…
Repórter — Ok, então pelo menos eu já sei.
Homem — Obrigada, até logo.
Linus Larsson, sueco, ligando para o mesmo salão de cabeleireiro e falando com a mesma pessoa:
Repórter — Olá, meu nome é Linus Larsson. Estou ligando a respeito do trabalho que vi anunciado. Vocês estão procurando um cabeleireiro?
Homem — Sim, estamos.
Repórter — O trabalho ainda está disponível?
(Linus tem oportunidade de falar sobre sua experiência anterior - praticamente a mesma de Rebin)
Homem — Como é mesmo o seu sobrenome?
Repórter — Larsson.
Homem — Larsson, claro! Nós poderíamos nos encontrar pra uma entrevista, claro.
Quando o jornal ligou para o responsável pelo salão e o confrontou com o diálogo acima, ele disse que “não tinha nada a ver com o fato de Rebin ser imigrante”. Essa é apenas uma das desculpas utilizadas pelos empresários citados na reportagem. A maioria disse estar muito estressada e por isso sem tempo para julgar de forma melhor os currículos dos aplicantes. A mesma coisa aconteceu com Hakim Chebchoub, mesmo ele sendo sueco de nascimento e falando a língua sem qualquer sotaque. Basta que ele diga seu nome para que qualquer tipo de interesse do empresário acabe.

Amany Abdelsaid tem 25 anos, é casada e tem dois filhos
É por isso que a reportagem de hoje tem como título: “Eles mudaram de nome para conseguir um emprego”. Na matéria conta-se a história de Amany, que passou a se chamar Anna para conseguir trabalhar. Ela é telefonista especializada em um tipo de sistema eletrônico sueco e não foi contratada quando a empresa em que estava fazendo estágio anunciou três vagas de telefonista. Uma colega de curso dela entrou numa vaga e outras duas moças, sem preparo especializado e com formação apenas ginasial, foram contratadas para as duas outras vagas. Ah, detalhe: as três moças são suecas. Amany acha que sua não-contratação apesar de sua óbvia competência se deve ao fato dela usar xale/véu.
O pior não é isso. Avni Dervishi, imigrante do Kosovo, tem um masters em Política Européia e Ciência Política, conseguido em uma universidade sueca, além de experiência de trabalho nas Nações Unidas - mas nenhum emprego. Quando resolve tentar um trabalho menos ambicioso, a desculpa é que ele é mais qualificado do que o exigido. Ele pensa em mudar de nome, mas acha difícil. Diz que seria como perder ainda mais uma identidade já difusa. Mas o pior mesmo é o que disse a sobrinha dele: “Por quê preciso estudar agora para entrar pra universidade? Você tem uma formação ótima e não consegue emprego.” A sobrinha de Avni Dervishi tem 10 anos.


Você, que já me lê há algum tempo, deve estar achando que ando me repetindo demais, que estou obcecada com essa história de discriminação. É, pode ser. Mas, se você estivesse no meu lugar, aposto que estaria preocupada(o) também. Acho importante mostrar isso aqui porque essa série de reportagens é uma vitória. Uma vitória contra todos aqueles - suecos ou não - que dizem que não há discriminação na Suécia, apenas choramingação de imigrante mimado.
O fato de um dos mais respeitados órgãos de imprensa sueca - realmente mainstream - estar provando por A mais B que discriminação realmente acontece diariamente na democrática Suécia está espantando muitos cidadãos. A série de matérias foi acompanhada por pesquisadores, que dela tiraram conclusões de base científica. Hoje a ministra da integração aplaudiu a iniciativa, até porque os resultados das matérias mostram que não é apenas o governo que deve fazer alguma coisa pra melhorar a situação dos imigrantes, mas a sociedade como um todo.