Ontem tava flanando pelo Multiply quando caí num texto que me chamou muito a atenção. O título: “Falsa gorda: mito ou irrealidade? (Considerações sobre um dilema feminino)”, escrito pelo roteirista Juca Filho e publicado no site Elas por Elas em junho de 2003.
Qualquer coisa com as palavras “gorda” e “mulher” na mesma frase já me interessa, mas esse texto em especial, criado por um homem sensível e de bom gosto, me fez pensar no que geralmente faço questão de esquecer: a luta diária que eu e muitas mulheres travam com o meu próprio corpo, que insiste em ser maior e mais mole do que gostaríamos.
Juca escreve:
“Antigamente uma figura mítica e extremamente sensual povoava e excitava o imaginário masculino: a falsa magra.
A falsa magra era a verdadeira mulher-mistério. Esguia como uma sílfide, à luz do dia, quando caíam os panos, “na penumbra das alcovas”, a falsa magra revelava todo o seu esplendor curvilíneo, macio e consistente, com todas as “delícias carnais” na medida.
Talvez fossem realmente tempos mais felizes. Para nós e para elas. Menos sofridos, mais reais, mais humanos. As medidas “ideais” não eram tão “giselianas” nem se esperava de uma mulher o mesmo tônus muscular de um zagueiro do Vasco.”
Sempre achei que tinha nascido na época errada. Apesar de amar computadores, televisão, rádio e cinema, sei que pertenço a uma era menos obcecada com o corpo, menos sujeita à ditaduras ferozes de dietas intermináveis. E o pior é que essa maluquice toda é aceita como a busca da “saúde”. E ai de você se não quiser fazer uma lipo! É logo rotulada de desleixada.
“Atualmente tudo mudou. Vivemos, talvez, a era da “falsa gorda”. Antes, a surpresa se dava na intimidade, ao descobrir que haviam mais tesouros escondidos entre o céu e a pele que supunha nossa vã análise à primeira vista. Agora isto se dá às claras, quando vemos mulheres belas e estimulantes aos nossos olhos masculinos se julgando imperfeitas, em débito com um padrão, sempre a 2 ou 3 ou mais quilos da felicidade.
O fato é que a “falsa gorda” é uma realidade, inclusive entre as mais bacanas, inteligentes, deliciosas e queridas mulheres que enriquecem e tornam nossa vida masculina muito mais surpreendente, instigante e interessante. Assim como é um fato bastante comum ouvir dos meus amigos e de mim mesmo, encantados por estas mesmas mulheres, a mesma intrigada pergunta : “pra que?”.
É ou não é o máximo!? Juca, onde você estava que nunca te encontrei enquanto ainda era solteira no Brasil? A vida de uma mulher no Rio (não sei se o fenômeno se repete em outras capitais) é se manter linda e perfeita até sangrar pelo nariz. Eu, que prefiro deitar pra ler um livro a ir suar numa sala fechada junto com outros 50 malucos, agradeço pela existência de gente como o Juca, capaz de gostar da mulher que tem uma bunda assim assado e não se apaixonar pela bunda perfeita, que happens to be connected to a woman.
“Numa sociedade que cada vez mais desaprende a pensar individuadamente, o mito da “falsa gorda” e sua idéia de felicidade possível apenas dentro de um único padrão estético pré-determinado é uma das mais poderosas armadilhas contra a realização pessoal, social e afetiva da mulher. Por ele se sofre, se mata e até se morre. (O que me faz, muitas vezes, pensar : por que, afinal, mesmo com a imensa evolução de idéias, comportamento e atitude individual e social que conseguiu e que nos deixa, homens contemporaneos, tão admirados e despreparados, a mulher ainda é presa tão fácil deste “dogma”?)”
(c) Juca Filho
Não sei se depois dos 30 essa questão mudou pra mim, ou se a vida se encarregou de me mostrar uma coisa ou duas a respeito de perfeição e como isso pode ser um conceito relativo. O que sei é que aqui na Suécia as coisas são diferentes. De que forma, você pergunta? Sim, aqui, quando a Hennes & Mauritz, uma das maiores lojas de departamento de roupas do mundo, coloca um outdoor enooorme nas grandes cidades suecas, no qual a nova coleção de verão da loja, inspirada nas praias do Rio, é ilustrada pela bunda de uma modelo brasileira, há uma revolta geral por parte das mulheres, que acham um absurdo esse tipo de banalização da sexualidade.
A discussão foi tão grande que até mesmo a ministra da igualdade (sim, isso existe aqui), se disse ultrajada com o outdoor, e pediu para que a H&M o retirasse das ruas. Jornais fizeram matérias sobre o outdoor, meninas foram ouvidas e se disseram cansadas de serem confrontadas todos os dias com um ideal para elas impossível de alcançar. Li inclusive uma carta emocionante, publicada no meu jornal, de uma menina de 17 anos que ficou ofendida com o outdoor porque vinha sofrendo desde pequena com anorexia.
Coisas que nunca, nunquinha da silva sauro, a gente ouve no Brasil. Discussão sobre nudez pública só mesmo quando envolvida com religião e olhe lá! Viver frustrada com o seu próprio corpo é um esporte nacional entre as mulheres latinas (as argentinas são campeãs em anorexia no continente) e ninguém questiona isso. Quando as mulheres de todas as idades começaram a chiar por causa do outdoor, a sociedade sueca como um todo deu um passo a frente, no caminho de tolerância e normalidade.
Ninguém precisa ver aquele outdoor. Eu não preciso. Não quero ver a bunda perfeita ou imperfeita de nenhuma mulher (mesmo aquelas que desfilam nuas nos banheiros das academias da vida). Não, eu quero é paz pra ser quem eu sou, apesar ou com a minha bunda. Sei lá, desde que vim morar aqui, comecei a me ver de forma diferente. Não sou mais uma bunda caída ou uma barriga grande. Eu sou gente, antes de tudo. Minha bunda e minha barriga, por mais que não estejam do jeito que eu gostaria, são partes de mim. Precisam ser respeitadas e assumidas. Quando entendi isso, passei a sorrir no espelho pra mim mesma - apesar de tudo.
Tem mais texto do Juca Filho aqui.