
“Devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira”.
Assim começa “Budapeste”, do Chico Buarque, que terminei de ler ontem. Acho que gostei do livro. Eu apenas acho que gostei porque o achei muito frio, um livro assim distante, com um personagem egocêntrico e obcecado por seu anonimato/celebridade. É, como o Caetano escreveu na resenha que ilustra a orelha do livro, “Budapeste é um labirinto de espelhos que afinal se resolve, não na trama, mas nas palavras, como os poemas”.
É exatamente isso que eu senti quando li o livro. Não quero bancar a crítica literária não, essa é minha opinião pessoal, ok? “Budapeste” é um exercício estilístico bem-sucedido, mas, na minha opinião, falta alguma coisa. O estilo é claro, sem complicações - o que é um alívio - mas mesmo assim é difícil se aproximar de José Costa (ou Zsoze Kósta), o protagonista-narrador. Mas, pensando bem, de repente era exatamente esse o objetivo do Chico. Li o livro aflita, esperando pra ver o que é que o tal de José Costa iria aprontar.
Gostei, no entanto, da presença de Budapeste (a cidade) e húngaro (o idioma) no livro. Nunca fui lá, mas tenho muita vontade. Sei que húngaro é um dos idiomas mais difíceis do mundo. Sei disso porque tive um professor de história na quinta série chamado Carlos Alberto que sabia falar russo e disse numa aula (sei lá porque) que havia tentado aprender húngaro, mas que tinha desistido por ser difícil demais.
Não sei porque, nunca esqueci isso. Abaixo, um trecho de “Budapeste”:
“Para algum imigrante, o sotaque pode ser uma desforra, um modo de maltratar a língua que o constrange. Da língua que não estima, ele mastigará as palavras bastantes ao seu ofício e ao dia-a-dia, sempre as mesmas palavras, nem uma a mais. E mesmo essas, haverá de esquecer no fim da vida, para voltar ao vocabulário da infância. Assim como se esquece o nome de pessoas próximas, quando a memória começa a perder água, como uma piscina se esvazia aos poucos, como esquece o dia de ontem e se retêm as lembranças mais profundas. Mas para quem adotou uma nova língua, como a uma mãe que se selecionasse, para quem procurou e amou todas as suas palavras, a persistência de um sotaque era um castigo injusto.” (página 128)