Ter escrito o texto do post anterior me doeu. Ele não é diferente dos demais posts em que apresento os podres da Suécia de forma cínica e até certo ponto divertida - como que para mostrar que não existem paraísos na Terra. Mas, sei lá, isso não está me satisfazendo mais. Acho que esse “basta” interno aconteceu porque chegou o momento de fazer uma reavaliação. Estudar está sendo fundamental pra mim. Não apenas estou crescendo como gente e criando oportunidades para meu futuro profissional como tenho possibilidade de investigar uma série de questões íntimas minhas.
Uma delas é: por que tenho essa necessidade de escrever coisas negativas que acontecem na Suécia? Será que é pessimismo? Complexo de culpa por ter oportunidade de viver num país de primeiríssimo mundo? Ou uma necessidade subconsciente de renegar a Suécia, como quem renega e tenta se afastar de um amor que parece ser forte demais? (Afinal, todos nós sabemos que é mais fácil abandonar do que ser abandonado).
Acho que é de tudo um pouco. O Montanha-Russa nasceu por pura necessidade psicológica, cresceu como um blog de curiosidades da cultura sueca e virou, nos últimos tempos, um lugar onde escrevo sobre questões importantes pra mim, como racismo e discriminação. Isso eu não mudo porque acho que espelho minha situação aqui ao longo desses três anos. Além do que, não abro-mão de criticar, até porque não há nada mais chato de que ler blog cujos textos mais parecem propaganda de brochura turística.
Não. Escrevo aqui coisas que me tocam num nível pessoal e que me despertam interesse profissional. Sinto que, a medida em que me integro à sociedade sueca - vou à universidade, participo da vida cultural local e nacional, tenho amigos suecos etc - vou me intregando mais a mais e isso, pra mim, ainda é um pouco contraditório. Sinto que minha identidade se perde no caminho.
É difícil me sentir sueca e ao mesmo tempo brasileira. Até porque são identidades completamente distintas. Confesso que muitas vezes me sinto mais sueca do que brasileira. Outras vezes é exatamente o contrário. Isso me deixa perplexa, confusa e aflita. Me sinto numa espécie de limbo: não sou exatamente sueca (nem nunca serei) mas também não sou mais exatamente brasileira (nem nunca mais serei), entendem?
Seria muito difícil voltar a morar no Rio agora e ter de lidar com a violência desmedida, a total falta de respeito por regras e a diferença cada vez maior entre pobres e ricos. Sem falar na insegurança econômica, que devora a alma de quem precisa trabalhar para sustentar sua família. Aqui vive-se num universo paralelo, numa Disney World idílica. Acho que é até por isso que eu escrevo muito sobre os podres daqui. Para tentar tornar real essa realidade tão diferente.
Na Suécia, segurança é uma palavra ampla, que engloba vários níveis da vida do cidadão. Desde bebê até a terceira idade o cidadão é acompanhado, cuidado, educado, monitorado e ajudado de todas as formas possíveis. Para alguns isso pode parecer sufocante, um controle quase Orwelliano, mas digo por experiência própria - ainda que restrita a três anos - dá muita segurança saber que o fundo do poço nunca realmente é uma opção. O salto mortal é feito sempre com rede de proteção.


Hoje é aniversário do meu irmão, Carlos! Treze anos! Nossa, que saudade. Um beijo irmão! Te amo!