April 29, 2004

Passado, presente, futuro

Sabe uma das coisas que mais detesto? Alguém que me manda um email, um amigo ou conhecido que não veja há mais de três, quatro anos, e pergunta:

— E aí, o que tens feito?

Como, eu pergunto como, posso explicar “o que tenho feito” nos últimos três anos em apenas dois parágrafos, corpo reduzido num email ligeiro? Não dá, a menos que eu queira intensionalmente ser rude e escrever: “Me mudei e mudei”.

Sim, mudei muito. E quando digo isso - quero deixar beeeeeem claro - não estou me gabando, muito pelo contrário. Acho que agora é que estou conseguindo respirar pela primeira vez, depois de três anos de luta. Ainda estou me acostumando com tudo o que aconteceu, as mudanças de expectativa, de futuro. Acho estranho voltar atrás e lembrar de quem eu era, pra poder descrever minha “evolução”.

Por isso, não levem a mal se algum de vocês me mandar um email me perguntando - por pura boa educação, eu presumo - o que tenho feito ultimamente. Simplesmente não dá pra explicar rapidinho. Posso resumir assim: “Estou bem. Feliz. Apesar da saudade. Beijo. Maria”.

Filed under: Pra frente é que se anda — Maria Fabriani @ 08:59

April 28, 2004

Ontem

Muito chocolate + muita saudade = dor de barriga e na alma.

***

Hoje — Estou vendo o amistoso Suécia X Portugal, como uma introdução do campeonato europeu que será realizado em Portugal no verão. Até agora, 1 a 1. Os suecos, lindos, são quase todos perna-de-pau. Portugal é menos ruim, mas não impressiona. O goleiro engoliu um frango fenomenal no primeiro gol sueco, que foi de bola parada. Até o Figo, que era um pão, está meio caidinho. Vejo imagens do banco português e penso: “Coitados!” Eu não sabia, mas o Luiz Felipe Scolari é o técnico deles.

Update - O jogo terminou 2 a 2, mas Portugal poderia ter ganho. O Figo - ó céus - perdeu um pênalti. Felipão na área… Já viu, né?

Filed under: Variedades — Maria Fabriani @ 23:08

April 27, 2004

Ana Cristina para jovens

anacristina.jpg
“A rigor, ela é proibida para menores. Ou assim pensava eu. Mas não é que, para minha surpresa, quando organizei uma antologia para a Nova Fronteira, destinada a estudantes de ensino médio na coleção Novas Seletas, que a editora está lançando, vi que a minha querida Ana, mais viva do que nunca, é ampla, geral e irrestrita.

Sua poesia vai fazer o maior sucesso, seguramente, junto a essa galera que está começando a ir aos shoppings, sozinha, pela primeira vez. Creio que o sucesso se dará porque a poética de Ana Cristina pode ser apreciada por camadas, como um mirabolante sorvete. Os que têm paladar mais apurado vão poder degustá-la, sabor por sabor, gelada e ardente ao mesmo tempo.

Seu “doce mistério”, como canta Marina, está justamente nessa combinação de opostos, que dá a sensação, engraçada e desconcertante, de que podemos ser dois leitores diferentes, cada um por si ou simultaneamente. O que quero dizer com isso é que dá o maior pé pegarmos a Ana pelos cabelos, assim, no susto, de passagem. Mas também tem jogo agarrar a cabeça dela, com unhas e dentes, para fazer a nossa.

Mesmo se dizendo “uma mulher do século XIX disfarçada em século XX”, Ana C. é ultra-contemporânea, multiuso até a medula. Mas atenção: não é fashion, clubber, nem funciona no automático. Ao contrário, é de improviso: está sempre de mudança, como uma nuvem. Tem muitas interfaces, sua voz atravessa, incólume, todas as estações, há muitos anos.

Nem podemos nos dar ao luxo de sentir saudade. Quando menos se espera, aparece, “oblíqua e dissimulada”, mas de olhos azuis, certeira, batendo no alvo, na mosca, na mufa, companheira para toda uma vida, inestimável, sempre essencial e surpreendente. Se você a quiser folhear, ela a princípio se presta - de repente, cobra. Não faz por menos, cobra mesmo, até o fim. Se você a quiser devorar, num fim de semana intenso, no quarto à luz de um spot ou ao ar livre, sob o sol, prepare-se: passe um bloqueador daqueles, senão você vai se queimar fundo, você vai doer, você vai sentir na pele a sua barra. A sua, sim, suando, e a dela também. Chego a ficar na dúvida: valerá a pena bloquear-se ? Não será melhor pagar para ver ? Cada um que escolha o seu destino diante de Ana Cristina César. Desfrutável e inescrutável está aí, aqui, ao alcance de todos. Definitivamente: ela é proibida para menores.”

Armando Freitas Filho

Esse texto - prestem bem atenção, que finíssimo! - é a primeira contribuição do meu pai, o poeta Armando Freitas Filho, para o Montanha-Russa. Tudo bem que o texto foi publicado primeiro na revista Megazine, do Globo de hoje, mas nada na vida é perfeito. Hohoho. O texto diz respeito à poeta Ana Cristina César, cuja obra está ganhando um volume da coleção Novas Seletas, da editora Nova Fronteira.

Essa coleção tem como objetivo despertar nos jovens o interesse por autores consagrados como a Ana Cristina. E tem festa no pedaço! O lançamento dos livros será amanhã, às 20hs na Livraria Argumento, no Leblon (Rio de Janeiro). A organização do volume dedicado à Ana Cristina ficou a cargo do meu pai, que é curador da obra dela. Apareçam por lá e dêem um beijo no meu pai por mim! :cDDD

Filed under: Livros — Maria Fabriani @ 23:33

April 26, 2004

Filed under: Saudade — Maria Fabriani @ 22:21

Mulheres… homens…

familia_biscoito.gifUm dos livros mais interessantes dessa parte do curso de sociologia foi “Det kallas kärlek”, (“Chama-se amor”) de Carin Holmberg. O livro é na verdade uma tese de mestrado, na qual Holmberg pergunta como a inferioridade feminina e a superioridade masculina se reproduzem na relação entre um par.

Notem que ela sequer questiona se a mulher é vista como inferior ao homem. Isso porque, segundo a socióloga, não são apenas homens e mulheres que ajudam a manter as coisas como sempre, mas as estruturas sociais que não permitem uma igualdade de direitos e deveres entre os dois sexos.

Holmberg escreve ainda que vivemos numa sociedade masculina, que premia e favorece os homens implacavelmente. Ok, isso a gente já sabia. A diferença é que ela diz que toda e qualquer relação a dois (no caso ela estudou apenas casais heterossexuais sem filhos) é assimétrica, em favor do homem e em detrimento da mulher. Sempre. E tem mais: se antes do nascimento do pimpolho as coisas eram iguais, depois, pode esquecer. A mulher sai sempre sair perdendo - do ponto de vista social (não entro no mérito das maravilhas da maternidade).

Mas aí eu pensei: “Poxa, mas no meu relacionamento as coisas são mais equilibradas. Não sou eu que cozinho sempre, nem lavo a louça (temos lavadoura automática, amém). Meu urso me ajuda na limpeza da casa, cuida do carro etc”. Mas de fato, depois de ler o livro, e os depoimentos das pessoas que ela entrevistou pra sua tese, comecei a perceber o desequilíbrio que até nós, mulheres liberadas e preparadas, não notamos.

Um exemplo é quando se discute a divisão de trabalho na casa. Tá lá no livro: “Ele exige que as tarefas domésticas sejam divididas. Ao mesmo tempo, ele acha que as exigências dela no que diz respeito à arrumação são muito exageradas”. E ainda: “O ideal dele, quer dizer, a exigência de que as tarefas domésticas sejam divididas, não bate com a prática - no final das contas, ela ainda tem maior responsabilidade sobre o cuidado do lar”.

Um dos exemplos é o clássico: “Ela tem uma tolerância muito baixa no que diz respeito à limpeza”, dizem os homens (meu urso incluído aí no bolo). E nós, mulheres, ficamos aqui, querendo dividir o trabalho, mas ao mesmo tempo não agüentando quando eles fazem corpo mole e não realizam todas as tarefas designadas. Será que estamos erradas? Será que é pedir demais? Ou será que o que eles estão fazendo é um jogo de poder?

Um dos capítulos mais interessantes é o que discute exatamente a divisão de poder na relação a dois. E está lá uma coisa intererssante e polêmica: “O recurso de poder mais importante para as mulheres é ser a parte que ama menos”. Se é verdade, eu não sei, mas essa é uma dessas afirmações que fazem a gente pensar.

Agora me lembrei de um episódio do “Sex and the City” em que a Carrie descreve uma relação que ela teve com um cara e que ela agiu pela primeira vez como um homem faria. Ela tava a fim do cara, levou pra cama, comeu e depois disse: “Tchau, baby! Agora tenho que voltar pro trabalho”. Bateu a porta e esqueceu o cara. UHU!

Filed under: Livros — Maria Fabriani @ 20:18

April 25, 2004

Saudades

rio-Marizilda_cruppe.bmp
Foto: Marizilda Cruppe, o Globo.

Hoje é domingo, pé de cachimbo,
o cachimbo é de ouro, bate no touro,
o touro é valente, bate na gente,
a gente é fraco, cai no buraco,
o buraco é fundo, acaba o mundo.

Respondendo à Ines, que perguntou quando irei ao Brasil. Não sei, Ines. Não sei mesmo. Mas sei que vai ser o maior barato quando eu for. Além da saudade que sinto da minha família e amigos, uma das coisas que mais sinto falta é de dar uma caminhada assim, perto da água da praia. Delícia.

(PS.: Não precisam me lembrar que corro o risco de ser assaltada ou de pegar uma micose na areia. Sei disso tudo. Mas a saudade é tanta que estou preparada para relevar esses “detalhes”. Hohoho.)

Filed under: Saudade — Maria Fabriani @ 17:18

April 24, 2004

Neve em abril

year.gifAcredite se quiser, mas está chovendo/nevando hoje. No final de abril. Quando reclamo, tanto meu urso quando minha sogra, a ursa maior, riem e dizem que é sempre assim em abril. Um pouco de neve no chão e tempo chuvoso - pra ajudar a derreter de vez a neve. Típico de primavera.

Mas, sei lá o que acontece comigo (alguns chamam de velhice), mas não consigo me lembrar do mês de abril do ano passado (nem do de novembro, outubro ou julho, for that matter). Parece que sou uma criança: sempre me surpreendendo com o tempo, suas mudanças e esquisitices. Mesmo depois de quase três anos nessa terra.

Fico aqui, girando numa redoma gelada, com uma memória mais ligeira do que a de um peixe de aquário. Não sei porque, acho que ainda estou fixada na imobilidade do tempo no Rio, onde têm-se duas estações por ano: alto verão e veranico. Tudo está sempre verde e a quentura é permanente. Tão diferente.

Filed under: Saudade — Maria Fabriani @ 19:07

April 23, 2004

Finlandeses: vodka, SMS, sauna e tango

Nossos vizinhos do leste, os finlandeses, são um povo sério. Falam baixo, com voz cansada, sem sorrir e têm uma reconhecida dificuldade de expressar sentimentos em público. A sisudez é tanta que os finlandeses precisam encontrar um jeito para liberar tanta emoção reprimida. Uma saída é beber litros de vodka. Não tenho números, mas bebe-se muito em Helsinki.

As mensagens curtas por celular também ajudam. A Finlândia, orgulhosa pátria da Nokia - que é um orgulho nacional, assim como nós nos gabamos do Maracanã ou de Copacabana - é um dos campeões mundiais no envio de SMS. Jovens dizem que é mais “prático” mandar um SMS dizendo que está feliz/contente/magoado/apaixonado do que dizer isso ao vivo.

A terceira é uma mania nacional: sauna. Acho que a sauna é a praia dos finlandeses. Lá relaxa-se (peladões, peladões), todo mundo é igual e feliz em temperaturas que fariam um carioca se torcer de calor.

E a quarta maneira dos finlandeses se verem livre de emoções reprimidas é uma surpresa: grande parte da população se entrega noites a fio ao tango. Sim, finlandeses alimentam uma paixão nacional pelo ritmo apaixonado argentino e têm vários artistas que escrevem e cantam tango, tudo em finlandês, claro.

Veja essa página aqui, en inglês. Genial. Uma história do tango finlandês. Começa assim: “Finland has taken the potato from Peru - potato in Finnish is peruna, by the way - and the tango from Argentina. Both these South American imports are cultivated in these northern latitudes perhaps even more devotedly than in their countries of origin”.
Ficou interessado? Vai estar em Helsinki em julho? Então dê uma olhada no Tango Festival.
Essa página é ótima. Conta tudo sobre a Finlândia. Vale a pena. Na página onde eles fazem uma lista dos finlandeses famosos está lá, entre escritores, artistas e músicos, nada mais nada menos do que o Papai Noel. Hohoho.
Veja aqui um guia rápido de como se aproveitar a sauna da melhor maneira possível.
Ouça aqui um poema dito em finlandês.

Filed under: Europa & Escandinávia — Maria Fabriani @ 19:50

April 22, 2004

Eu já sabia…

WASHINGTON (Reuters) — Pessoas que se dizem viciadas em chocolate e pizza podem não estar exagerando, afirmam cientistas nos EUA. Um estudo com pessoas normais que estejam com fome mostra que seus cérebros “acendem” quando elas vêem ou sentem o cheiro de suas comidas favoritas. O processo é exatamente o mesmo que acontece nos cérebros de viciados em cocaína quando eles pensam em sua próxima cheirada.

“Comida aumenta o metabolismo no cérebro inteiro em até 24%, e essas mudanças são maiores na área temporal superior, insula anterior, e orbitofrontal cortices”. São essas as áreas associadas com o vício. As pessoas que participaram do estudo descreveram suas comidas favoritas e como eles gostariam de comê-las. “As comidas favoritas mais comuns eram sanduíches de bacon, ovo e queijo, bolinho de canela, pizza, hamburguer com queijo, galinha frita, lasagna, churrasco, sorvete, brownie e bolo de chocolate.
Fonte: CNN

E o homem, hein? De necessidade a opção. Hohoho.

Filed under: Cinema e televisão — Maria Fabriani @ 19:00

April 21, 2004

Stigma

Mas não são apenas livros imcompreensíveis que tenho que ler pra universidade. Tem muitos que são interessantérrimos. Um deles é “Stigma”, do sociólogo canadense Erving Goffman. É FE-NO-ME-NAL. Discute-se como as pessoas estigmatizadas, seja por problemas físicos, um passado questionável (prisão etc) ou, simplesmente por ser imigrante, são vistas como “não indivíduos”. Aqueles que discriminam, que Goffman chama de “normais”, têm uma série de rotinas pra se relacionar com quem é diferente. Mas, segundo Goffman, até mesmo quem é diferente tem dificuldade de se livrar de seus defeitos. Veja só:

“For years the scar, harelip or misshapen nose has been looked on as a handicap, and its importance in the social and emocional adjustment is unconsciously all embracing. It is the ‘hook’ on which the patient has hung all inadequacies, all dissatisfactions, all procrastinations and all unpleasant duties of social life, and he has come to depend on it not only as a reasonable escape from competition but as a protection from social responsability.

When one removes this factor by surgical repair, the patient is cast adrift from the more or less acceptable emotional protection it has offered and soon he finds, to his surprise and discomfort, that life is not all smooth sailing even for those with unblemished, ‘ordinary’ faces. He is unprepared to cope with this situation without the support of a ‘handicap’, and he may turn to the less simple, but similar, protection of the behavior patterns of neurasthenia, hysterical conversion, hypochondriasis or the acute anxiety states”.

Esse exemplo, com alguns ajustes, pode se aplicar a qualquer um que acha que está gordo demais (!!!), que o nariz é grande demais, que o cabelo é crespo demais etc etc etc. Impressionante. Não é apenas psicologia que nos ensina a respeito de nós mesmos.

Filed under: Livros — Maria Fabriani @ 20:23
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