Acho que às vezes eu piro um pouco na batatinha e meio que escrevo aqui pra mim mesma, sem lembrar que esse site é aberto e que algumas pessoas realmente vêm ao Montanha-Russa para me ler. Seria engraçado se eu não tivesse inadvertidamente magoado uma pessoa com uma coisa que escrevi. Não quero ofender ninguém com o que escrevo aqui. Mas foi isso o que aconteceu. Se lembram daquele post em que disse que herdei um monte de coisas dos meus pais? Pois é, meu pai ficou magoado com o que eu escrevi lá. Bom, primeiro de tudo, quero pedir desculpas ao meu pai se ele se sentiu mal pelo que escrevi. Minha intenção não foi a de atacá-lo. Escrevi o que sinto e, talvez tenha escrito um pouco demais. Já retirei o post do ar.
Segundo, tenho certeza de que herdei muitas coisas boas suas, pai. Sob o perigo de parecer convencida, vou citar algumas: minha paixão pela palavra exata, meu gosto pela leitura de bons livros, minha mania de ler jornal todos os dias, minha necessidade de leitura noturna, minha capacidade de concentração, minha língua afiada, às vezes irônica, minha capacidade de argumentação, meu lado mais moderno, mais pé-no-chão, minha capacidade de ver a vida de forma relativa (essa característica não é hereditária, mas aprendida). Pai, sou muito mais parecida com você do que você (e eu) possamos imaginar. Tenho um profundo respeito por você, pelo seu trabalho e um orgulho imenso de ser sua filha. Fica triste comigo não! :c)
Aliás, estava esperando que o livro do meu pai chegasse aqui para que eu pudesse comemorar seus 40 anos de poesia no blog. Mas como o correio está atrasado (apesar de ser DHL), vai aqui minha homenagem ao meu pai, Armando Freitas Filho, um dos poetas mais importantes do Brasil, ganhador de prêmios e traduzido em vários países. Pai, você é o máximo! Leia abaixo a crônica que o Tutty Vasques escreveu na Vejinha Rio, na edição de 22 de outubro, sobre o meu pai. :c)
Vale a pena ser poeta

Se fosse um filme, Armando Freitas Filho seria flor do orquidário de Woody Allen. O poeta tem sinopse para tanto, repara só: autor célebre completa 40 anos de carreira em 2003 tentando driblar a desagradável sensação de estar fechando a tampa de sua biografia ao reunir em antologia os 13 livros que escreveu. Aflige-lhe, desde jovem, a idéia de que “não há saída viva para a vida”. Filho único de família castradora, católico praticante até os 33 anos, membro abstêmio de uma geração que pegou de tudo, hipocondríaco de pedra, gago e insone, ele ouviu música popular pela primeira vez depois de casado, o que lhe abriu as portas para o sexo livre, seu único vício na vida. Trata-se de um tipo que a gente julga só existir no cinema.
Este roteiro foi escrito após duas horas e meia de conversa no escritório doméstico do poeta, na Urca. Armando estava ainda assustado com o volume — 608 páginas — da primeira prova em papel de Máquina de Escrever — Poesia Reunida e Revista, livro que lança quintafeira agora, na Timbre do Shopping da Gávea. Doía-lhe as costas e mais ainda o diagnóstico médico a respeito: ele não tinha nada. “Deve ser a TPL — Tensão Pré-Livro”, resmungou. A noite pontuou com gargalhadas o relato denso, trágico e à flor da pele que Armando Freitas Filho constrói para sua vida. Personagem de Woody Allen, segundo ele, é o escambau: “O cineasta não é hipocondríaco a sério pelo simples fato de ganhar dinheiro com isso.”
Fala sério: “Ser hipocondríaco é horrível”. Armando pensa na morte todos os dias. Enobrece qualquer sintoma vagabundo a ponto de transformar um incômodo em doença terminal. “É incrível a atenção massacrante que você dá a seu próprio corpo”, ouviu dia desses de seu clínico geral. O paciente narra suas mazelas com interpretação desconcertante. Ora indignado, ora resignado, o poeta é cândido e explosivo no exercício da palavra oral.
Fala muito. Lá pelos anos 80, o Baixo Leblon tinha imensa curiosidade de saber qual era a droga daquele cara que não consumia nada no banheiro e soltava o verbo feito louco entre as mesas do Diagonal, onde ingeria, no máximo, meio copo de Coca-Cola por noite. Armando nunca deu um tapa, um tiro, uma cafungada no lenço, coisa nenhuma que seus amigos experimentavam de monte. Arrepende-se amargamente das duas vezes em que encheu a cara na juventude. “Sempre tive medo de perder-me.” O poeta precisa estar inteiramente sóbrio para ser doido do jeito que é.
Doido a ponto de levar seu macarrão na água e sal para um jantar festivo na casa de amigos. Tem horror a viagens, pânico noturno e chama de Doutor Acaso o protagonista de suas superstições. Quanto tempo ainda lhe resta de convívio com a família? Não à toa, cuidar do corpo é uma de suas obsessões: “Faço ginástica como quem reza.” Que Deus o perdoe!
A família queria que ele fosse padre — médico e advogado também servia — e o garoto criado para a leitura e a música clássicas, decidiu parar os estudos antes da faculdade. Não faz concessões. Sua obra não admite facilidades, lida com o efêmero, quando não trata da morte explícita. “Escrevo com algemas, minha poesia é gaga e empedrada.” O poeta, consta de sua sinopse, é gago e essa é mais uma de suas fraturas expostas. “Não consigo ler meus poemas em público sem gaguejar severamente.” Em conversas informais, lança mão de um truque: “Todo gago tem que ter um coringa verbal na manga para na hora do aperto colocá-lo no meio da frase.”
Acabam por aí suas fraquezas no embate com o outro. “Sempre acho que sei mais, que sou mais inteligente, e geralmente sou mesmo.” A supremacia intelectual tem uma variante inesperada. Armando considera-se craque com a bola nos pés. Ainda que não seja verdade (não há notícia de testemunha do campeonato de 1956 na praia da Urca), sua narração para o gol do título arrepia amigos como eu e — ninguém é perfeito! — José Miguel Wisnik. Acompanhe: “Parei a bola no peito entre dois zagueiros adversários, girei 180 graus para a direita e, sem deixar a bola quicar, acertei na mosca o canto onde a coruja dorme.” Dá vontade de gritar goooool, mas este é outro filme, nada a ver com Woody Allen. —por Tutty Vasques - Veja Rio, 22 de outubro 2003.