October 31, 2003

Impostos, sexo, amor e ódio

Vocês sabem que a trindade sagrada sueca é composta por sexo, igualdade e impostos - esse último valendo quase como uma religião. A obsessão em como aplica-se o dinheiro que o governo se apodera na fonte dos salários de cada sueco todos os meses é tão grande que provoca discussões fervorosas em todo o país.
Agora mesmo uma dessas polêmicas chega aos jornais daqui. É que o Aftonbladet - sempre ele - escreveu um artigo para a sua edição local de Estocolmo afirmando que o dinheiro dos impostos de quem mora na capital pagou pela construção de um hospital de luxo que temos aqui perto de onde eu moro.
O problema todo aí é composto por vários fatores:

Essa discussão é importante porque o atendimento médico gratuito é a base do wellfaire sueco - uma questão de honra;
Vários hospitais da área da capital estão tendo que cortar custos;
Aqui no norte moram apenas 250 mil pessoas, contra cerca de 2 milhões na região de Estocolmo;
Há uma raiva mesquinha da parte de quem mora e paga imposto na capital com relação às pessoas do norte porque eles têm a idéia de que aqui há hospitais demais para gente de menos;
Por fim, existe uma lei que prevê uma divisão igualitária dos impostos recolhidos em todo o país por todas as regiões.
E é aí que a porca torce o rabo. O problema é que quanto mais gente, mais imposto recolhido, certo? Estocolmo recolhe um montão de dinheiro em taxas e parte desse dinheiro acaba mesmo aqui em cima. Mas o que não foi citado no artigo do Aftonbladet é que Norrland, a região norte, onde moro, é responsável pelo abastecimento de matéria-prima para toda a indústria de base sueca. Ferro, carvão e madeira, além de energia, saem daqui de cima diretamente para o sul maravilha.
O mais engraçado é que os moradores daqui do norte também alimentam uma raiva mesquinha pelos stochkolmares, lhes conferindo um sotaque ridículo e dizendo que não são confiáveis (entre outras características deselegantes). Acho engraçado porque eu me sinto aqui quase como uma stockholmare da gema, por assim dizer, até porque vim do Rio de Janeiro, cidade que a maioria dos brasileiros ama odiar.

Filed under: Europa & Escandinávia — Maria Fabriani @ 09:26

October 30, 2003


Filed under: De bem com a vida — Maria Fabriani @ 07:58

October 29, 2003

Errata e homenagem

Acho que às vezes eu piro um pouco na batatinha e meio que escrevo aqui pra mim mesma, sem lembrar que esse site é aberto e que algumas pessoas realmente vêm ao Montanha-Russa para me ler. Seria engraçado se eu não tivesse inadvertidamente magoado uma pessoa com uma coisa que escrevi. Não quero ofender ninguém com o que escrevo aqui. Mas foi isso o que aconteceu. Se lembram daquele post em que disse que herdei um monte de coisas dos meus pais? Pois é, meu pai ficou magoado com o que eu escrevi lá. Bom, primeiro de tudo, quero pedir desculpas ao meu pai se ele se sentiu mal pelo que escrevi. Minha intenção não foi a de atacá-lo. Escrevi o que sinto e, talvez tenha escrito um pouco demais. Já retirei o post do ar.
Segundo, tenho certeza de que herdei muitas coisas boas suas, pai. Sob o perigo de parecer convencida, vou citar algumas: minha paixão pela palavra exata, meu gosto pela leitura de bons livros, minha mania de ler jornal todos os dias, minha necessidade de leitura noturna, minha capacidade de concentração, minha língua afiada, às vezes irônica, minha capacidade de argumentação, meu lado mais moderno, mais pé-no-chão, minha capacidade de ver a vida de forma relativa (essa característica não é hereditária, mas aprendida). Pai, sou muito mais parecida com você do que você (e eu) possamos imaginar. Tenho um profundo respeito por você, pelo seu trabalho e um orgulho imenso de ser sua filha. Fica triste comigo não! :c)
Aliás, estava esperando que o livro do meu pai chegasse aqui para que eu pudesse comemorar seus 40 anos de poesia no blog. Mas como o correio está atrasado (apesar de ser DHL), vai aqui minha homenagem ao meu pai, Armando Freitas Filho, um dos poetas mais importantes do Brasil, ganhador de prêmios e traduzido em vários países. Pai, você é o máximo! Leia abaixo a crônica que o Tutty Vasques escreveu na Vejinha Rio, na edição de 22 de outubro, sobre o meu pai. :c)

Vale a pena ser poeta

Se fosse um filme, Armando Freitas Filho seria flor do orquidário de Woody Allen. O poeta tem sinopse para tanto, repara só: autor célebre completa 40 anos de carreira em 2003 tentando driblar a desagradável sensação de estar fechando a tampa de sua biografia ao reunir em antologia os 13 livros que escreveu. Aflige-lhe, desde jovem, a idéia de que “não há saída viva para a vida”. Filho único de família castradora, católico praticante até os 33 anos, membro abstêmio de uma geração que pegou de tudo, hipocondríaco de pedra, gago e insone, ele ouviu música popular pela primeira vez depois de casado, o que lhe abriu as portas para o sexo livre, seu único vício na vida. Trata-se de um tipo que a gente julga só existir no cinema.

Este roteiro foi escrito após duas horas e meia de conversa no escritório doméstico do poeta, na Urca. Armando estava ainda assustado com o volume — 608 páginas — da primeira prova em papel de Máquina de Escrever — Poesia Reunida e Revista, livro que lança quintafeira agora, na Timbre do Shopping da Gávea. Doía-lhe as costas e mais ainda o diagnóstico médico a respeito: ele não tinha nada. “Deve ser a TPL — Tensão Pré-Livro”, resmungou. A noite pontuou com gargalhadas o relato denso, trágico e à flor da pele que Armando Freitas Filho constrói para sua vida. Personagem de Woody Allen, segundo ele, é o escambau: “O cineasta não é hipocondríaco a sério pelo simples fato de ganhar dinheiro com isso.”

Fala sério: “Ser hipocondríaco é horrível”. Armando pensa na morte todos os dias. Enobrece qualquer sintoma vagabundo a ponto de transformar um incômodo em doença terminal. “É incrível a atenção massacrante que você dá a seu próprio corpo”, ouviu dia desses de seu clínico geral. O paciente narra suas mazelas com interpretação desconcertante. Ora indignado, ora resignado, o poeta é cândido e explosivo no exercício da palavra oral.

Fala muito. Lá pelos anos 80, o Baixo Leblon tinha imensa curiosidade de saber qual era a droga daquele cara que não consumia nada no banheiro e soltava o verbo feito louco entre as mesas do Diagonal, onde ingeria, no máximo, meio copo de Coca-Cola por noite. Armando nunca deu um tapa, um tiro, uma cafungada no lenço, coisa nenhuma que seus amigos experimentavam de monte. Arrepende-se amargamente das duas vezes em que encheu a cara na juventude. “Sempre tive medo de perder-me.” O poeta precisa estar inteiramente sóbrio para ser doido do jeito que é.

Doido a ponto de levar seu macarrão na água e sal para um jantar festivo na casa de amigos. Tem horror a viagens, pânico noturno e chama de Doutor Acaso o protagonista de suas superstições. Quanto tempo ainda lhe resta de convívio com a família? Não à toa, cuidar do corpo é uma de suas obsessões: “Faço ginástica como quem reza.” Que Deus o perdoe!

A família queria que ele fosse padre — médico e advogado também servia — e o garoto criado para a leitura e a música clássicas, decidiu parar os estudos antes da faculdade. Não faz concessões. Sua obra não admite facilidades, lida com o efêmero, quando não trata da morte explícita. “Escrevo com algemas, minha poesia é gaga e empedrada.” O poeta, consta de sua sinopse, é gago e essa é mais uma de suas fraturas expostas. “Não consigo ler meus poemas em público sem gaguejar severamente.” Em conversas informais, lança mão de um truque: “Todo gago tem que ter um coringa verbal na manga para na hora do aperto colocá-lo no meio da frase.”

Acabam por aí suas fraquezas no embate com o outro. “Sempre acho que sei mais, que sou mais inteligente, e geralmente sou mesmo.” A supremacia intelectual tem uma variante inesperada. Armando considera-se craque com a bola nos pés. Ainda que não seja verdade (não há notícia de testemunha do campeonato de 1956 na praia da Urca), sua narração para o gol do título arrepia amigos como eu e — ninguém é perfeito! — José Miguel Wisnik. Acompanhe: “Parei a bola no peito entre dois zagueiros adversários, girei 180 graus para a direita e, sem deixar a bola quicar, acertei na mosca o canto onde a coruja dorme.” Dá vontade de gritar goooool, mas este é outro filme, nada a ver com Woody Allen. —por Tutty Vasques - Veja Rio, 22 de outubro 2003.

Filed under: Pra frente é que se anda — Maria Fabriani @ 10:35

October 28, 2003

Palavrão

Outro dia estava ouvindo Stefan contar uma história e, no final eu disse: “Fy fan!”, que é a versão sueca para o nosso “Que merda!”. Depois de mais histórias e mais “Fy fans”, meu urso polar franziu o senho e disse: “Você está falando um monte de palavrões!” Fiquei surpresa porque apesar de saber que a expressão é mesmo um palavrão (mesmo sem ser cabeludo), eu a estava usando quase como uma interjeição de surpresa.
Com o alerta de que estou por assim dizer com a “boca suja em sueco”, fiquei mais atenta e notei uma coisa engraçada: quando digo “Fy fan!”, saboreio as palavras, acho-as engraçadas, mesmo sabendo que são xingamentos. E isso acontece com quase todas as outras palavras que uso em sueco. Apesar de saber o que elas significam, meu pouco tempo de uso faz com que elas não tenham seu peso normal.
Acho que se invertessemos as posições e Stefan estivesse no Brasil aprendendo português e ficasse repetindo “Que merda!” o tempo todo eu também acharia estranho e impróprio. Mas, convenhamos, “Fy Fan” é muito mais bonitinho! Fy pode significar uma série de coisas, dependendo do contexto, como “cruz credo”, “deus me livre”, “que vergonha” ou ainda para expressar surpresa. Já fan é simples: quer dizer “diabo”, “demo” ou “coisa ruim”.
Esses suecos são ingênuos até quando xingam. Hohoho.

Filed under: Cinema e televisão — Maria Fabriani @ 11:52

October 24, 2003

Pegadas

Filed under: Vidinha — Maria Fabriani @ 14:28

October 23, 2003

Cartas, Chico e neve

Sou uma romântica envergonhada. Não gosto da imagem clássica do romantismo - a idéia de “morrer de amor” me desagrada muitíssimo - mas aprecio histórias de amor. Como já escrevi antes aqui, a TV estatal sueca é fenomenal e tem programas interessantérrimos. O mais novo é o “Din Släktsaga”, ou “Sua História de Família”, numa tradução livre. Parece chato, mas é incrivelmente romântico.
O mais fascinante é que as histórias são recontadas com a ajuda de cartas antigas. Todo o ambiente do começo do século é recriado, mostram-se fotos em preto e branco de tataravós e vidas já há muito esquecidas começam a aparecer na nossa frente, como num filme. O episódio dessa semana, por exemplo, contou a história de um casal de alemães separado pela Primeira Guerra Mundial.
Gisela, a neta sueca de Hilda e Hans, herdou as cartas de amor trocadas durante os anos em que Hans estava no front e Hilda em casa, cuidando de suas duas filhas. Enquanto as cartas de Hilda descreviam pequenos acidentes domésticos, as de Hans contavam histórias amenas da guerra, sem muitos detalhes para não chocar a esposa. Antes de ser morto num ataque russo, Hans pediu à mulher que lhe mandasse cigarros, cebola e batatas.
Semana passada contaram a história de uma senhora que morou aqui perto de onde eu vivo e que comprou num mercado de pulgas um diário escrito a partir 1896 por um homem chamado Kurt. Ela começou a ler o diário e ficou impressionadíssima com aquele homem, como ele escrevia e todas as impressões que o mundo do final do século XIX tinham na vida dele. Logo depois, ela colocou até um anúncio no jornal perguntando se outras pessoas teriam mais cadernos e adquiriu mais quatro exemplares.
Acho fascinante isso de reviver a história de vida de uma pessoa através de suas cartas e anotações. Sempre que penso nisso lembro da música “Futuros Amantes” do Chico Buarque.
“Não se afobe, não
que nada é pra já
o amor não tem pressa
ele pode esperar em silêncio
num fundo de armário
na posta restante
milênios, milênios
no ar.

E quem sabe, então
o Rio será
alguma cidade submersa
os escafandristas virão
explorar sua casa
seu quarto, suas coisas
sua alma, desvãos”

Há algo mais romântico do que isso? Só mesmo o Chico Buarque pra colocar uma palavra como “escafandristas” numa música de amor e não destoar, né não? Perfeito.

Está nevando pela primeira vez. :c)

Filed under: Música,Variedades — Maria Fabriani @ 16:04

October 21, 2003

CDF

Tô “muerta”. Trabalhando muito. Escrevendo um trabalho de sete páginas para ciências sociais. Cansada e com dor no ombro, no pescoço, no cérebro. Saudade de escrever aqui, mas não tá dando. Só pra vocês saberem that I care.

Filed under: Universidade — Maria Fabriani @ 17:16

October 18, 2003

Noite de sábado

Acabei de voltar do cinema. Fomos assistir a “O Pianista”, do Roman Polanski. O que dizer? O filme é ma-ra-vi-lho-so. Que história a desse Wladislaw Szpilman! O filme é incrível porque mostra com uma fidelidade emocionante como ele sobreviveu durante os anos de ocupação alemã. O filme é espetacular. Saindo do cinema, apostei com meu urso polar que estaria pelo menos cinco graus negativos, mas ele acertou: apenas zero grau.
Está uma noite linda, sem núvens. Fomos estacionar o carro e aproveitamos pra comprar tomates, patê de fígado de ganso e pêras no supermercado que fica pertinho da minha casa (no caminho da garagem). Olhamos pro céu e a aurora boreal estava a todo vapor. Uma cortina verde fluorescente serpenteava pelo céu, como se movida pelo vento. Fantástico.
Vi, inclusive, uma estrela cadente. :c)
A foto que ilustra esse post eu achei aqui.

Filed under: De bem com a vida,Europa & Escandinávia — Maria Fabriani @ 21:52

October 16, 2003

Habemos papam

Hoje João Paulo II faz 25 anos de pontifício. Gosto muito dele, apesar de discordar radicalmente com alguns pontos de vista tradicionais que ele defende, como a proibição ao uso de contraceptivos, principalmente camisinha. Gosto do Papa porque ele não se limitou a ser líder de uma igreja, mas atuou politicamente e ajudou muito na formação da nova ordem mundial, sem a guerra fria.
Li na BBC e gostei muito desse artigo relembrando do dia em que Karol Wojtila, um obscuro cardeal polonês, foi eleito líder espiritual de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo. Muito legal.

Filed under: Cinema e televisão — Maria Fabriani @ 11:33

October 15, 2003

Frost = geada

Saí de casa hoje mais tarde, às dez e meia da manhã. Temperatura: dois graus negativos.

Filed under: Europa & Escandinávia — Maria Fabriani @ 15:52
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