August 31, 2003

Sobre o Montanha-Russa, a vida e as mudanças

É tão frustrante vir aqui e não poder ler os comentários de vocês! Mais uma vez fica comprovado que um blog não é apenas o que se escreve nele, mas a interação com seus eventuais leitores. Well, o Yaccs está fora do ar por conta de um problema com o servidor e deverá ficar assim até amanhã. Tomara que volte logo porque falar sozinha é um saco.
Uma moça chamada Rebecca deixou um comentário dizendo que está realizando um sonho: virá estudar na Suécia por um ano. Mas, depois de ler alguns posts sobre racismo e discriminação aqui do Montanha-Russa, ela ficou muito apreensiva. Vou tentar explicar uma coisa, então.
Olha, tudo o que eu escrevo aqui é um reflexo das minhas experiências e percepções. Mas, como qualquer mortal levemente pessimista, tenho uma tendência a descrever tudo de forma mais dura e difícil do que na realidade.
Uma coisa importante que você, Rebecca, deve ter em mente: comecei a escrever esse blog há quase dois anos exatamente para poder entender a Suécia e tentar localizar o meu lugar nesse mundo novo. Isso porque escrever, pra mim, tem o efeito de esclarecer as coisas, torná-las mais simples. Quando você faz o que eu fiz, muda toda a sua vida de um dia pro outro, literalmente, é muito difícil se adaptar.
Pois bem. A primeira coisa que se sente é uma curiosidade natural com o país novo, a língua, as pessoas, os costumes etc. No meu caso, depois disso veio meio que um desencantamento com a falta de capacidade dos suecos de entender que eu era eu e que isso já bastava para que eles me convidassem para trabalhar como editora-chefe do Aftonbladet com salário astronômico, apartamento em Gamla Stan e carro da firma. :c)
Hoje, percebo, no entanto, que o buraco é mais embaixo. Claro que minhas reinvindicações, os casos esporádicos de preconceito enfrentados por imigrantes e tudo o mais existem, são reais. Mas são exceções. Hoje estou mais conformada com a idéia de que meu caminho aqui é longo. Estou trabalhando pra que ele seja, pelo menos, prazeiroso. Cabe a mim fazer de tudo para que minha vida dê certo, assim como caberá a você trabalhar sua energia, suas expectativas e frustrações para ser feliz aqui, no ano dos seus estudos.
Além de trabalhar duro, a única coisa que eu preciso fazer é acreditar que tudo, no fim, dará certo. Porque essa é a verdade. Um dia ou outro, tudo vai dar certo.
Então, queria dizer pra você, Rebecca, pra não ficar impressionada com as coisas que escrevi lá no início do blog. Tudo muda, evolui. A vida tem seus altos e baixos, exatamente, aliás, como uma Montanha-Russa. :cD

Filed under: Elucubrações — Maria Fabriani @ 11:47

Uma alegoria

Quando penso na Suécia, minha impressão é que estou diante de uma mulher dura, alta, com o rosto marcado pelas dificuldades da vida. Ela vê, finalmente, na segunda metade da sua vida, seu futuro não tão complicado, com a perspectiva de uma boa pensão e anos tranqüilos de velhice. Essa mulher acha difícil enfrentar mudanças, é totalmente ligada às antigas tradições que lhe foram passadas por sua mãe que as recebeu da avó, que as recebeu da bisavó e assim por diante.
Quando eu a olho nos olhos azuis, ela sorri e manifesta algum interesse. De onde eu venho, como eu aprendi a língua tão bem, o que eu fazia na minha terra e quando meus parentes virão me visitar são as primeiras perguntas. Respondo a todas, sempre me esforçando para não errar na gramática. Depois, as perguntas acabam e a mulher começa como que automaticamente a me mostrar como as coisas são feitas aqui. Como quebra-se um ovo, como responde-se ao telefone, como faz-se um prato tradicional. Eu fico cansada, mas observo com respeito.
No outro dia, quando quero fazer o mesmo com ela, retribuir com uma pequena aulinha de como fazemos tudo isso no meu país, ela não se mostra interessada. Mantém apenas um sorriso educado no rosto mas eu sei que não está prestando atenção em nada do que estou dizendo. Percebo que ela está aberta a me receber nas condições dela. E não adianta ser rebelde e tentar chocar porque tudo o que conseguirei alcançar é mais distanciamento.
Percebo que deve ser difícil pra ela ouvir minhas opiniões, minhas críticas, mas me impressiono com sua paciência em me deixar falar sem interromper. Eu sei que ela escuta cada palavra, mas as respostas são educadamente estudadas. Como uma criança pequena, choro e reclamo para chamar a atenção dela. Quero que ela concorde comigo, me dê razão e diga que tudo ficará bem. Ela me olha com seu olhar azul e sorri. Percebo, então, que eu preciso crescer.

Filed under: Elucubrações — Maria Fabriani @ 11:24

August 29, 2003

Religião e psicologia

Nossa, estou acabada. Finalmente a semana chegou ao fim e eu tenho que ler um montão de coisas pra semana que vem… E, exatamente por estar cheia de coisas pra fazer, eu estou feliz!!! :cD A única coisa chata é que os anos de trabalho na frente do computador começam a deixar marcas: a musculatura do meu ombro direito pediu arrego. Estou tomando anti-inflamatório e terei até que fazer fisioterapia (mas se me mandarem parar de escrever aqui eu mudo de médico).
Anyway, ontem foi a primeira aula de psicologia e hoje, a de religião. Ambas professoras parecem ser muito legais e os assuntos, mais ainda. Em psi veremos Freud etc, além de uma coisa que classifico como “bem sueca”: psicologia social, ou seja, como as pessoas funcionam em grupo, quais os papéis que nós assumimos (casa, trabalho, escola etc).
Em religião veremos Cristianismo, Judaísmo e Islamismo. Infelizmente não teremos tempo de estudar Budismo ou Induísmo, assuntos do curso de Religião B. Quero só ver a cara da professora quando eu contar das minhas aulas de religião no Santo Inácio, quando nós não falávamos de religião, mas apenas de catolicismo. Cresci sem saber quais os princípios das outras quatro grandes crenças do mundo.
Nunca me esquecerei um dia, quando tinha uns 15 anos, minha turma começou a questionar as aulas de religião, dizendo que nunca discutíamos assuntos polêmicos, como aborto. Pois bem, na aula seguinte fomos para um pequeno estúdio. A professora nos disse que iríamos assistir a um filme sobre o aborto, afinal “nós pedimos por isso”.
Nem sei como descrever o “filme”… Não lembro se tinha entrevistas ou narrativa em off, me recordo apenas das fotos a cores dos fetos abortados em cima de mesas de hospital. Se o objetivo era chocar todos nós, jovenzinhos pentelhos, posso dizer que o “filme” foi um sucesso. Mas aquele festival de sangue e tripas, no entanto, não me convenceu que a visão Católica Apostólica Romana é necessariamente a melhor.

Filed under: De bem com a vida,Vidinha — Maria Fabriani @ 14:06

August 28, 2003

Volta às aulas

Ontem foi o início do semestre de outono em todas as escolas suecas, até mesmo na que eu freqüento, para adultos. Esse semestre vou estudar um montão de coisas que, com o passar dos dias, eu conto aqui. Mas ontem começamos com Samhällskunskap [samrrélskunskóp], que corresponde a ciências sociais e, claro, sueco.
A professora de sueco me parece ser bacana e interessada, além de ter mudado o livro que deveremos adotar para um bem mais legal. Esse é o meu curso favorito, até porque estou fazendo duas aulas de sueco diferentes e com professoras distintas: uma com alunos suecos e outra com imigrantes. Dessa forma, estudo o idioma todos os dias da semana e ainda leio e escrevo sem parar.
O professor de ciências sociais, Ulf, é uma figura. Só pra cês terem uma idéia, apesar de ter acabado de começar o semestre, semana que vem não teremos aula com ele. Motivo: é a abertura da temporada de caça ao alce em toda a Suécia. Levando em consideração que o Ulf é bacana e o assunto que ele ensina me fascina, sua única falta é matar animais indefesos nas florestas daqui.
Não tenho mais pânico de falar com ninguém e meu sueco é muito bom, mas uma das coisas mais difíceis é iniciar uma conversa com quem quer que seja na sala de aula. O problema é que todos os suecos são sempre muito tímidos, ainda mais os mais novos (menos de 25 anos). Não que eu fique tagarelando durante as aulas, mas bem que seria legal poder conversar de vez em quando. O que salva é que eu não desisto fácil :c))) e nem tenho medo de ficar sozinha, se necessário.

Filed under: De bem com a vida,Vidinha — Maria Fabriani @ 06:43

August 27, 2003

Rapazes! Limpar a casa é sexy!

LONDRES — Pesquisadores finalmente confirmaram o que as mulheres já sabiam: homens que fazem a faxina em casa - ou que pelo menos ajudam - são mais atraentes sexualmente do que os que apenas olham a mulher trabalhar. Um estudo de pesquisadores americanos mostra que até mesmo filhos que ajudam na limpeza junto com os pais são mais bem formados e se tornam adultos mais conscientes socialmente. Além disso, o estudo confirmou que as mulheres ficam mais atraídas por homens que ajudem na limpeza doméstica. (Matéria do Aftonbladet)

E precisava um estudo pra descobrir isso????

Filed under: Irritação e ironia — Maria Fabriani @ 10:25

Vinc vinc!*


* Acenando pra Marte que estará logo ali ao lado da gente…

Filed under: Vidinha — Maria Fabriani @ 09:08

Cafonice ancestral

Está provado: a cafonice européia de andar de sandálias com meia não é um hábito moderno. Uma escavação arqueológica localizada no sul de Londres descobriu um dos pés de uma estátua de bronze que parece estar adornado não apenas com sandálias do estilo Romano, mas com meias.
Segundo Nansi Rosenberg, uma das responsáveis pelo sítio arqueológico, a “desculpa” para se usar meias e sandálias seria o frio. “Sabemos pelos escritos de Tacitus que o tempo na Inglaterra era terrível”, diz ela.
O pé, cuja idade estima-se por volta dos dois mil anos, pode haver pertencido à estátua do deus Marte Camulos, que era adorado na região. Outra possibilidade é que o pé pertença a uma estátua de um imperador. (Matéria da BBC).
Agora veja você, que alívio! Eu aqui achando que tinha escolhido um namorado sem qualquer senso estético e gosto para roupas, mas que na verdade, apenas segue a tendência fashion estabelecida pelos patrícios! :cD
Nunca me esqueço de Stefan no Rio, com temperatura de cerca de 30 graus, se preparando para sair de casa em seu primeiro dia de visita. Short, camiseta, meia… e sandália. “Tira!”, disse eu. Ele, perplexo, não sabia se eu me referia à camiseta ou ao short, mas nem pensou na combinação esdrúxula de calçado e meia. Que coisa.

Filed under: Europa & Escandinávia — Maria Fabriani @ 06:40

August 26, 2003

Paraíso

Tenho tanta coisa pra fazer hoje, sabia? E isso me faz tão feliz… :c)

Filed under: De bem com a vida — Maria Fabriani @ 09:13

August 25, 2003

PARABÉNS, MÃE!!!


Hoje é aniversário da minha mãe, Regina. Ano passado nessa mesma época eu estava no Brasil, abraçando-a e beijando-a. Mãe, quando você receber as cópias impressas do blog de agosto, esse dia já vai ter passado. Mas estou aqui, ao meio-dia dessa segunda-feira dia 25, pensando em você e torcendo para que tudo dê certo na sua vida. Te amo muito!!!. Um beijo!
PS.: Stefan manda um beijão pra “sogrinha linda”. :cD

Filed under: Aniversários,Saudade — Maria Fabriani @ 11:58

August 23, 2003

Bancos e pragmatismo

Ontem fomos buscar nossa restituição do Imposto de Renda - a primeira vez tanto para mim (na Suécia) quanto para Stefan, que não se agüentava de tanta alegria. No nosso banco é sempre fácil de ser atendido, mesmo só existindo uma caixa, que também funciona como recepcionista para quem tem dúvidas.
Depois de embolsarmos nossas coroinhas - muitíssimo bem-vindas, por sinal - meu urso polar resolveu mudar sua conta de salário definitivamente para o banco. Antes ele recebia por outro. Sentamos na mesa de uma outra atendente e o processo de mudança foi rápido e fácil.
A moça teve apenas uma dúvida que eu infelizmente não consigo explicar aqui porque não entendi - coisas de contas diferentes, saldos e números distintos - mas quando estava tudo “certo”, ela disse: “Vamos tentar esse mês, se houver algum problema, você vem aqui e nós consertamos”.
Eu fiquei alarmada. “Como assim, problema? Como assim, se der problema você vem aqui pra consertar? Ficaremos sem o pagamento se der errado? Pra onde irá o nosso dinheiro?”, perguntei eu, pensando que me encontrava na agência da Rua Uruguaiana do Bradesco.
“Se não der certo a transferência esse mês, o dinheiro será depositado na conta antiga”, disse-me ela, surpresa e aparentemente achando tudo muito engraçado. Não estava com saco nem energia de explicar o por quê de minhas perguntas. Mas o faço aqui.
Primeiro sou gato escaldado com os bancos brasileiros. Como trabalhei em seis locais nos meus sete anos de carreira, sei mais do que gostaria sobre as idiossincrasias burocráticas das casas financeiras nacionais. Salários que desaparecem no éter, contas pagas online que aparecem como não-pagas ou taxas estapafúrdias não são estranhos na minha vida. Daí minha preocupação.
Stefan, por outro lado, acostumado com a boa fé que a população tem na rede bancária sueca, não perguntou nada e foi logo dizendo obrigada, ótimo, maravilhoso etc. Sou pragmática pra certas coisas, uma delas é a capacidade dos bancos de acertar de primeira. Esperemos.

Filed under: Vidinha — Maria Fabriani @ 12:04
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