March 29, 2003

Para minha mãe

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“Trabalhar com fidelidade, dia após dia, para conseguir um vislumbre vale a pena não só pela alegria e força que isso traz, mas também porque proporciona uma imagem pela qual ele pode se moldar e corrigir a si mesmo”.*
“Se alguma vez ele tiver uma percepção de sua alma divina, deve se lembrar que isso aconteceu porque ela esteve sempre lá, dentro dele, sem nunca tê-lo abandonado. Se ele perseverar na Busca, a experiência irá se repetir no momento certo.”*

*Paul Brunton, Práticas para a Busca Espiritual - Relax e Solitude, 1986.

Filed under: Saudade — Maria Fabriani @ 12:03

March 28, 2003

Resistência moçambicana

Recebi a carta abaixo em um email do Sérgio Murilo Castro [smurilo@yahoo.com], que lê o Montanha-Russa. O um texto do escritor moçambicano Mia Couto, no qual ele protesta contra a guerra e dá razões históricas importantes para sua manifestação. Sei que é um texto longo, mas vale a pena ser lido. É muitíssimo bem escrito e contundente. Num mundo perfeito, o Bush, mesmo ignorante, pediria para alguns de seus acessores que achassem uma pessoa que pudesse traduzir essa carta para ele. Claro que ele nunca o fará. Além de um texto muito longo e em outra língua, diz verdades para as quais ele prefere fechar os olhos. Boa leitura. (Obrigada, Sérgio!)

CARTA AO PRESIDENTE BUSH
Mia Couto
Senhor Presidente:

Sou um escritor de uma nação pobre, um país que já esteve na vossa lista negra. Milhões de moçambicanos desconheciam que mal vos tínhamos feito. Éramos pequenos e pobres: que ameaça poderíamos constituir? A nossa arma de destruição massiva estava, afinal, virada contra nós: era a fome e a miséria. Alguns de nós estranharam o critério que levava a que o nosso nome fosse manchado enquanto outras nações beneficiavam da vossa simpatia. Por exemplo, o nosso vizinho - a África do Sul do “apartheid” - violava de forma flagrante os direitos humanos. Durante décadas fomos vítimas da agressão desse regime. Mas o regime do “apartheid” mereceu da vossa parte uma atitude mais branda: o chamado “envolvimento positivo”. O ANC esteve também na lista negra como uma “organização terrorista!”. Estranho critério que levaria a que, anos mais tarde, os taliban e o próprio Bin Laden fossem chamadas de “freedom fighters” por estrategas norte-americanos.

Pois eu, pobre escritor de um pobre país, tive um sonho. Como Martin Luther King certa vez sonhou que a América era uma nação de todos os americanos. Pois sonhei que eu era não um homem mas um país. Sim, um país que não conseguia dormir. Porque vivia sobressaltado por terríveis factos. E esse temor fez com que proclamasse uma exigência. Uma exigência que tinha a ver consigo, Caro Presidente. E eu exigia que os Estados Unidos da América procedessem à eliminação do seu armamento de destruição massiva. Por razão desses terríveis perigos eu exigia mais: que inspectores das Nações Unidas fossem enviados para o vosso país. Que terríveis perigos me alertavam? Que receios o vosso país me inspiravam? Não eram produtos de sonho, infelizmente. Eram factos que alimentavam a minha desconfiança. A lista é tão grande que escolherei apenas alguns:

— Os Estados Unidos foram a única nação do mundo que lançou bombas atômicas sobre outras nações;

— O seu país foi a ínica nação a ser condenada por “uso ilegal da força” pelo Tribunal Internacional de Justiça;

— Forças americanas treinaram e armaram fundamentalistas islâmicos mais extremistas (incluindo o terrorista Bin Laden) a pretexto de derrubarem os invasores russos no Afeganistão;

— O regime de Saddam Hussein foi apoiado pelos EUA enquanto praticava as piores atrocidades contra os iraquianos (incluindo o gaseamento dos curdos em 1998);

— Como tantos outros dirigentes legítimos, o africano Patrice Lumumba foi assassinado com ajuda da CIA. Depois de preso e torturado e baleado na cabeça o seu corpo foi dissolvido em ácido clorídico;

— Como tantos outros fantoches, Mobutu Seseseko foi por vossos agentes conduzido ao poder e concedeu facilidades especiais à espionagem americana: o quartel-general da CIA no Zaire tornou-se o maior em África. A ditadura brutal deste zairense não mereceu nenhum reparo dos EUA até que ele deixou de ser conveniente, em 1992;- A invasão de Timor Leste pelos militares indonésios mereceu o apoio dos EUA. Quando as atrocidades foram conhecidas, a resposta da Administração Clinton foi “o assunto é da responsabilidade do governo indonésio e não queremos retirar-lhe essa responsabilidade”;

— O vosso país albergou criminosos como Emmanuel Constant um dos líderes mais sanguinários do Taiti cujas forças para-militares massacraram milhares de inocentes. Constant foi julgado à revelia e as novas autoridades solicitaram a sua extradição. O governo americano recusou o pedido.

— Em Agosto de 1998, a força aérea dos EUA bombardeou no Sudão uma fábrica de medicamentos, designada Al-Shifa. Um engano? Não, tratava-se de uma retaliação dos atentados bombistas de Nairobi e Dar-es-Saalam.

— Em Dezembro de 1987, os Estados Unidos foi o único país (junto com Israel) a votar contra uma moção de condenação ao terrorismo internacional. Mesmo assim, a moção foi aprovada pelo voto de cento e cinquenta e três países.

— Em 1953, a CIA ajudou a preparar o golpe de Estado contra o Irã na sequência do qual milhares de comunistas do Tudeh foram massacrados. A lista de golpes preparados pela CIA é bem longa.

— Desde a Segunda Guerra Mundial, os EUA bombardearam: a China (1945-46), a Coreia e a China (1950-53), a Guatemala (1954), a Indonésia (1958), Cuba (1959-1961), a Guatemala (1960), o Congo (1964), o Peru (1965), o Laos (1961-1973), o Vietname (1961-1973), o Camboja (1969-1970), a Guatemala (1967-1973), Granada (1983), Líbano (1983-1984), a Líbia (1986), El Salvador (1980), a Nicarágua (1980), o Irã (1987), o Panamá (1989), o Iraque (1990-2001), o Kuwait (1991), a Somália (1993), a Bósnia (1994-95), o Sudão (1998), o Afeganistão (1998), a Jugoslávia (1999)

— Acções de terrorismo biológico e químico foram postas em prática pelos EUA: o agente laranja e os desfolhantes no Vietname, o vírus da peste contra Cuba que durante anos devastou a produção suína naquele país.

— O Wall Street Journal publicou um relatório que anunciava que 500 000 crianças vietnamitas nasceram deformadas em consequência da guerra química das forças norte-americanas.

Acordei do pesadelo do sono para o pesadelo da realidade. A guerra que o Senhor Presidente teimou em iniciar poderá libertar-nos de um ditador. Mas ficaremos todos mais pobres. Enfrentaremos maiores dificuldades nas nossas já precárias economias e teremos menos esperança num futuro governado pela razão e pela moral. Teremos menos fé na força reguladora das Nações Unidas e das convenções do direito internacional. Estaremos, enfim, mais sós e mais desamparados.

Senhor Presidente:

O Iraque não é Saddam. São 22 milhões de mães e filhos, e de homens que trabalham e sonham como fazem os comuns norte-americanos. Preocupamo-nos com os males do regime de Saddam Hussein que são reais. Mas esquece-se os horrores da primeira guerra do Golfo em que perderam a vida mais de 150 000 homens. O que está destruindo massivamente os iraquianos não são as armas de Saddam. São as sanções que conduziram a uma situação humanitária tão grave que dois coordenadores para ajuda das Nações Unidas (Dennis Halliday e Hans Von Sponeck) pediram a demissão em protesto contra essas mesmas sanções.

Explicando a razão da sua renúncia, Halliday escreveu: “Estamos destruindo toda uma sociedade. É tão simples e terrível como isso. E isso é ilegal e imoral”. Esse sistema de sanções já levou à morte meio milhão de crianças iraquianas. Mas a guerra contra o Iraque não está para começar. Já começou há muito tempo. Nas zonas de restrição aérea a Norte e Sul do Iraque acontecem continuamente bombardeamentos desde há 12 anos. Acredita-se que 500 iraquianos foram mortos desde 1999. O bombardeamento incluiu o uso massivo de urânio empobrecido (300 toneladas, ou seja 30 vezes mais do que o usado no Kosovo).

Livrar-nos-emos de Saddam. Mas continuaremos prisioneiros da lágica da guerra e da arrogância. Não quero que os meus filhos (nem os seus) vivam dominados pelo fantasma do medo. E que pensem que, para viverem tranquilos, precisam de construir uma fortaleza. E que só estarão seguros quando se tiver que gastar fortunas em armas. Como o seu país que despende 270 000 000 000 000 dólares (duzentos e setenta bilhões de dólares) por ano para manter o arsenal de guerra. O senhor bem sabe o que essa soma poderia ajudar a mudar o destino miserável de milhões de seres.

O bispo americano Monsenhor Robert Bowan escreveu-lhe no final do ano passado uma carta intitulada “Porque é que o mundo odeia os EUA?” O bispo da Igreja Católica da Florida é um ex—combatente na guerra do Vietname. Ele sabe o que é a guerra e escreveu: “O senhor reclama que os EUA são alvo do terrorismo porque defendemos a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Que absurdo, Sr. Presidente! Somos alvos dos terroristas porque, na maior parte do mundo, o nosso governo defendeu a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos dos terroristas porque somos odiados. E somos odiados porque o nosso governo fez coisas odiosas. Em quantos países agentes do nosso governo depuseram líderes popularmente eleitos substituindo-os por ditadores militares, fantoches desejosos de vender o seu próprio povo às corporações norte-americanas multinacionais? E o bispo conclui: O povo do Canadá desfruta de democracia, de liberdade e de direitos humanos, assim como o povo da Noruega e da Suécia. Alguma vez o senhor ouviu falar de ataques a embaixadas canadianas, norueguesas ou suecas? Nós somos odiados não porque praticamos a democracia, a liberdade ou os direitos humanos. Somos odiados porque o nosso governo nega essas coisas aos povos dos países do Terceiro Mundo, cujos recursos são cobiçados pelas nossas multinacionais.”

Senhor Presidente:

Sua Excelência parece não necessitar que uma instituição internacional legitime o seu direito de intervenção militar. Ao menos que possamos nos encontrar moral e verdade na sua argumentação. Eu e mais milhões de cidadãos não ficamos convencidos quando o vimos justificar a guerra. Nós preferíamos vê-lo assinar a Convenção de Kyoto para conter o efeito de estufa. Preferíamos tê-lo visto em Durban na Conferência Internacional contra o Racismo.

Não se preocupe, senhor Presidente. A nós, nações pequenas deste mundo, não nos passa pela cabeça exigir a vossa demissão por causa desse apoio que as vossas sucessivas administrações concederam apoio a não menos sucessivos ditadores. A maior ameaça que pesa sobre a América não são armamentos de outros. É o universo de mentira que se criou em redor dos vossos cidadãos. O perigo não é o regime de Saddam, nem nenhum outro regime. Mas o sentimento de superioridade que parece animar o seu governo. O seu inimigo principal não está fora. Está dentro dos EUA. Essa guerra só pode ser vencida pelos próprios americanos.

Eu gostaria de poder festejar o derrube de Saddam Hussein. E festejar com todos os americanos. Mas sem hipocrisia, sem argumentação e consumo de diminuídos mentais. Porque nós, caro Presidente Bush, nós, os povos dos países pequenos, temos uma arma de construção massiva: a capacidade de pensar.

Filed under: Pra frente é que se anda — Maria Fabriani @ 14:14

Guerra de verdade

Pentagon: 12 Marines missing, 14 wounded in fighting around Nasiriya. - (Breaking News - CNN).

A U.S. Marine wounded in the Iraqi war said Thursday he was surprised by the amount of Iraqi resistance, and an Army sergeant said he thought he was going to die in the fighting. - (CNN Online)

Iraq has executed some prisoners of war in what the Pentagon’s No. 2 general described Wednesday as one of many “disgusting” war crimes committed by forces loyal to Saddam Hussein. - (CNN Online)

Iraqi information minister warns Iraq will be the “graveyard” of coalition forces. - (CNN Online)

Bush, quer moleza? Senta no pudim.

Filed under: Irritação e ironia — Maria Fabriani @ 09:22

March 27, 2003

Coisas da Escandinávia

Notícia do jornal que assinamos aqui em casa:

Os vendedores de haxixe que atuam em Christiania - um bairro livre de Copenhagen, na Dinamarca - entraram em greve. Durante três dias os traficantes não venderão seus produtos em protesto contra a chamada “Política do Haxixe” dinamarquesa.

Alguns dos negociantes disseram a um programa de TV que a greve servirá para chamar a atenção aos problemas que as críticas à venda de haxixe podem trazer à sociedade. O problema, segundo os vendedores, é o controle contínuo do governo, que faz com que os clientes procurem outros pontos de venda menos disputados.

Agora, veja se eu posso com isso?

Filed under: Europa & Escandinávia — Maria Fabriani @ 16:56

March 26, 2003

Soak Up The Sun

Sheryl Crow/Jeff Trott

(…)

I’m gonna soak up the sun
Gonna tell everyone
To lighten up (I’m gonna tell ‘em that)
I’ve got no one to blame

For every time I feel lame
I’m looking up o I’m gonna soak up the sun
I’m gonna soak up the sun
(…)

I’m gonna soak up the sun
While it’s still free
I’m gonna soak up the sun
Before it goes out on me
Don’t have no master suite
I’m still the king of me
You have a fancy ride, but baby
I’m the one who has the key

(…)

Maybe I am crazy too
(…)

Chega de nhe-nhe-nhén! Porque a vida, apesar de tudo, é boa. A imagem é repetida porque eu a adoro.

Filed under: Elucubrações — Maria Fabriani @ 23:01

March 25, 2003

Reflexões

Estava lendo aos comentários que vocês fizeram no meu post lá de baixo, o sobre energias positivas e negativas. Comecei a responder ao Mauro, que tem argumentos interessantes e que casam com minha opinião a respeito de amizades. A saber:

Minha amiga é o tipo de pessoa que faz de se sentir deprimida um modo de vida;

Para a gente ajudar alguém, essa pessoa tem que estar disposta a receber a ajuda e fazer a parte dela também para melhorar a situação;

Precisa existir um envolvimento e uma contribuição de ambas as partes. Mais ou menos como uma simbiose, entende? Senão vira parasitismo.

Aí comecei a escrever e ficou enooooorme. Transformei então a resposta que daria ao Mauro e a todos vocês em um post. Comento os pontos de vista supracitados segundo o que sinto e não o que sei sobre relações humanas. Ponderei sobre as questões e tentei dar uma opinião genuína, um gut feeling.

Concordo com você, Mauro, em gênero, número e grau. No entanto, me pergunto se não estou “escolhendo demais” as amizades que tenho e descartando pessoas apenas por razões fúteis. Penso assim porque fiz isso minha vida inteira, fui desleixada e indiferente com pessoas apenas porque elas eram “difíceis”. Agora, aqui sozinha nesse país gelado, me pergunto se não está na hora de investir de verdade em amizades duradouras, naquelas que nos ajudam em tempos difíceis.

Por outro lado, sinto que a melancolia dela realmente me aflige e isso é bem real. Não sei ainda o que vou fazer, afinal nem sou tão grudada assim com ela - não gosto de grudar com amigo(a) nenhum. Se grudar, só mesmo com o Stefan e olhe lá. Nos encontramos duas vezes na semana, eu e ela, quando temos aulas de sueco juntas, e só. Para falar a verdade, ela é o tipo de pessoa que realmente precisa de “um ombro amigo” apenas para chorar as misérias e raramente para rir. Claro que é totalmente inconsciente da parte dela, mas é a verdade.

Ao mesmo tempo, sinto que minha amizade com ela é construída por dificuldades em comum: vir morar num país estrangeiro, com uma língua difícil e ter de lidar com uma cultura totalmente estranha, fechada, com tradições por vezes incompreensíveis e ridículas até. Não posso negar, falamos sobre assuntos pesados: dificuldades no casamento, dia-a-dia, as manias (chatas) dos homens suecos. Conversamos também sobre nossa sensação de solidão aqui. E isso, claro, não é um assunto lá muito leve. De forma que não posso colocar toda a culpa dessa enrascada nela, coitada. Acho que precisamos, ambas, fazer um esforço para tornar essa amizade mais leve.

Mas aí, eu me pergunto: como tornar essa amizade mais leve se as questões que me afligem - e às quais ela responde com experiência, uma vez que vive aqui há 14 anos - são centrais na minha vida? Como eu disse num outro post, minha vida social aqui é limitada a visitas esporádicas ao cinema e à casa de casais amigos. Mas não muito mais do que isso. Estudo sueco sem parar; procuro emprego diariamente; e lembro do que eu tinha no Rio quase todos os dias - o que me deixa chateadíssima. Isso torna difícil meu cotidiano.

Acho que na verdade, refletindo sobre o que acabei de escrever, há uma necessidade aguda de uma mudança na minha vida. O problema com a minha amiga é importante pelo fato de eu gostar dela, de achá-la uma criatura boa e doce. Mas claro que se ficar pesado demais, eu terminarei com essa amizade da forma mais suave possível. O farei por mim porque não quero entrar numa relação de codependência. Mas o mais importante disso tudo é mesmo mudar o nhe-nhe-nhén do meu dia-a-dia.

Filed under: Elucubrações — Maria Fabriani @ 23:09

“Apanhador no Campo de Centeio”

Sou maluca pelo “Apanhador no Campo de Centeio”, do J.D. Salinger. O estou relendo porque vou fazer uma prova oral de inglês amanhã e preciso ter lido um livro para poder comentar a história (mostrar que entendi e que sei fazer um resumo dos acontecimentos). Lógico, fui ver o que se escreveu sobre esse livro maravilhoso na Internet e achei um site ótimo, com análises interessantíssimas e ainda links fundamentais. Um deles é o artigo abaixo, escrito por Louis Menand para a The New Yorker quando a publicação do livro completou 50 anos. Sei que é longo, mas resolvi reproduzi-lo abaixo porque “explica” maravilhosamente bem o “Apanhador..” e toda a mística construída em torno de seu personagem principal, Holden Caufield, e do autor do livro, J.D. Salinger, que vive em reclusão desde o fim dos anos 40.
Ao contrário do que Menand diz no seu artigo, não foram meus pais que me indicaram o “Apanhador..” pra ler, mas o comprei porque havia lido “Feliz Ano Velho”, do Marcelo Rubens Paiva e lá ele cita o livro do Salinger. A primeira vez que li, aos 14 anos mais ou menos, achei bacana mas não entendi muito. Numa segunda leitura, quando já era mais adolescente, me identifiquei com a rebeldia do Holden. Hoje, o que me toca é a profunda tristeza dele com relação à morte do irmão, Allie, um acontecimento recorrente na história e que faz de Holden o que ele é. Seja como for, Holden é um dos melhores personagens da literatura universal jamais criados - parece clichê, e até é, mas é verdade. Parece até um contrasenso, mas mesmo sendo um jovem sem ambigüidades, Holden tem uma personalidade tão complexa que é apaixonante.

HOLDEN AT FIFTY
by LOUIS MENAND
“The Catcher in the Rye” and what it spawned.
Issue of 2001-10-01
Posted 2001-09-27 at The New Yorker Magazine

“The Catcher in the Rye” was turned down by The New Yorker. The magazine had published six of J. D. Salinger’s short stories, including two of the most popular, “A Perfect Day for Bananafish,” in 1948, and “For Esmé—with Love and Squalor,” in 1950. But when the editors were shown the novel they declined to run an excerpt. They told Salinger that the precocity of the four Caulfield children was not believable, and that the writing was showoffy—that it seemed designed to display the author’s cleverness rather than to present the story. “The Catcher in the Rye” had already been turned down by the publishing house that solicited it, Harcourt Brace, when an executive there named Eugene Reynal achieved immortality the bad way by complaining that he couldn’t figure out whether or not Holden Caulfield was supposed to be crazy. Salinger’s agent took the book to Little, Brown, where the editor, John Woodburn, was evidently prudent enough not to ask such questions. It was published in July, 1951, and has so far sold more than sixty million copies.

The world is sad, Oscar Wilde said, because a puppet was once melancholy. He was referring to Hamlet, a character he thought had taught the world a new kind of unhappiness—the unhappiness of eternal disappointment in life as it is, Weltschmerz. Whether Shakespeare invented it or not, it has proved to be one of the most addictive of literary emotions. Readers consume volumes of it, and then ask to meet the author. It has also proved to be one of the most enduring of literary emotions, since life manages to come up short pretty reliably. Each generation feels disappointed in its own way, though, and seems to require its own literature of disaffection. For many Americans who grew up in the nineteen-fifties, “The Catcher in the Rye” is the purest extract of that mood. Holden Caulfield is their sorrow king. Americans who grew up in later decades still read Salinger’s novel, but they have their own versions of his story, with different flavors of Weltschmerz—”Catcher in the Rye” rewrites, a literary genre all its own.

In art, as in life, the rich get richer. People generally read “The Catcher in the Rye” when they are around fourteen years old, usually because the book was given or assigned to them by people—parents or teachers—who read it when they were fourteen years old, because somebody gave or assigned it to them. The book keeps acquiring readers, in other words, not because kids keep discovering it but because grownups who read it when they were kids keep getting kids to read it. This seems crucial to making sense of its popularity. “The Catcher in the Rye” is a sympathetic portrait of a boy who refuses to be socialized which has become (among certain readers, anyway, for it is still occasionally banned in conservative school districts) a standard instrument of socialization. I was introduced to the book by my parents, people who, if they had ever imagined that I might, after finishing the thing, run away from school, smoke like a chimney, lie about my age in bars, solicit a prostitute, or use the word “goddam” in every third sentence, would (in the words of the story) have had about two hemorrhages apiece. Somehow, they knew this wouldn’t be the effect.

Supposedly, kids respond to “The Catcher in the Rye” because they recognize themselves in the character of Holden Caulfield. Salinger is imagined to have given voice to what every adolescent, or, at least, every sensitive, intelligent, middle-class adolescent, thinks but is too inhibited to say, which is that success is a sham, and that successful people are mostly phonies. Reading Holden’s story is supposed to be the literary equivalent of looking in a mirror for the first time. This seems to underestimate the originality of the book. Fourteen-year-olds, even sensitive, intelligent, middle-class fourteen-year-olds, generally do not think that success is a sham, and if they sometimes feel unhappy, or angry, or out of it, it’s not because they think most other people are phonies. The whole emotional burden of adolescence is that you don’t know why you feel unhappy, or angry, or out of it. The appeal of “The Catcher in the Rye,” what makes it addictive, is that it provides you with a reason. It gives a content to chemistry.

Holden talks like a teen-ager, and this makes it natural to assume that he thinks like a teen-ager as well. But like all the wise boys and girls in Salinger’s fiction—like Esmé and Teddy and the many brilliant Glasses—Holden thinks like an adult. No teen-ager (and very few grownups, for that matter) sees through other human beings as quickly, as clearly, or as unforgivingly as he does. Holden is a demon of verbal incision. He sums people up like a novelist:

“You had to feel sort of sorry for her, in a way.” The secret to Holden’s authority as a narrator is that he never lets anything stand by itself. He always tells you what to think. He has everyone pegged. That’s why he’s so funny. But The New Yorker’s editors were right: Holden isn’t an ordinary teen-ager—he’s a prodigy. He seems (and this is why his character can be so addictive) to have something that few people ever consistently attain: an attitude toward life.

The moral of the book can seem to be that Holden will outgrow his attitude, and this is probably the lesson that most of the ninth-grade teachers who assign “The Catcher in the Rye” hope to impart to their students—that alienation is just a phase. But people don’t outgrow Holden’s attitude, or not completely, and they don’t want to outgrow it, either, because it’s a fairly useful attitude to have. One goal of education is to teach people to want the rewards life has to offer, but another goal is to teach them a modest degree of contempt for those rewards, too. In American life, where—especially if you are a sensitive and intelligent member of the middle class—the rewards are constantly being advertised as yours for the taking, the feeling of disappointment is a lot more common than the feeling of success, and if we didn’t learn how not to care our failures would destroy us. Giving “The Catcher in the Rye” to your children is like giving them a layer of psychic insulation.

That it might end up on the syllabus for ninth-grade English was probably close to the last thing Salinger had in mind when he wrote the book. He wasn’t trying to expose the spiritual poverty of a conformist culture; he was writing a story about a boy whose little brother has died. Holden, after all, isn’t unhappy because he sees that people are phonies; he sees that people are phonies because he is unhappy. What makes his view of other people so cutting and his disappointment so unappeasable is the same thing that makes Hamlet’s feelings so cutting and unappeasable: his grief. Holden is meant, it’s true, to be a kind of intuitive moral genius. (So, presumably, is Hamlet.) But his sense that everything is worthless is just the normal feeling people have when someone they love dies. Life starts to seem a pathetically transparent attempt to trick them into forgetting about death; they lose their taste for it.

What drew Salinger to this plot? Holden Caulfield first shows up in Salinger’s work in 1941, in a story entitled “Slight Rebellion off Madison,” which features a character called Holden (he is not the narrator) and his girlfriend, Sally Hayes. (The story was bought by The New Yorker but not published until 1946.) And there are characters named Holden Caulfield in other stories that Salinger produced in the mid-forties. But most of “The Catcher in the Rye” was written after the war, and although it seems odd to call Salinger a war writer, both his biographers, Ian Hamilton and Paul Alexander, think that the war was what made Salinger Salinger, the experience that darkened his satire and put the sadness into his humor.

Salinger spent most of the war with the 4th Infantry Division, where he was in a counter-intelligence unit. He landed at Utah Beach in the fifth hour of the D Day invasion, and ended up in the middle of some of the bloodiest fighting of the liberation—in Hürtgen Forest and then in the Battle of the Bulge, in the winter of 1944. The 4th Division suffered terrible casualties in those engagements, and Salinger, by his own account, in letters he wrote at the time, was traumatized. He fought for eleven months during the advance on Berlin, and by the summer of 1945, after the German surrender, he seems to have had a nervous breakdown. He checked himself into an Army hospital in Nuremberg. Shortly after he was released, and while he was still in Europe, he wrote the first story narrated by Holden Caulfield himself, the real beginning of “The Catcher in the Rye.” It was called “I’m Crazy.” (It was published in Collier’s in December, 1945.)

“A Perfect Day for Bananafish,” published a little more than two years later, is, of course, the story that both introduced Seymour Glass, the oldest and most improbably gifted of the improbably gifted Glass children, and finished him off, since Salinger has Seymour kill himself on the last page. If we know Seymour only from the later stories in the Glass saga, in which he appears as a kind of saint—”Franny” and “Raise High the Roof Beam, Carpenters” (both published in The New Yorker in 1955), “Zooey” (1957), “Seymour: An Introduction” (1959), and “Hapworth 16, 1924” (1965), Salinger’s last published work—we are likely to assume that he killed himself because the world’s stupidity had made him crazy. But in “A Perfect Day for Bananafish” it is clear that Seymour kills himself because the war has made him crazy. He has just been discharged from an Army hospital, and his behavior in the story isn’t saintly or visionary or engagingly eccentric; it’s nutty and, in the end, psychotic. Seymour is a war casualty. So, much more obviously, is the unnamed protagonist of “For Esmé—with Love and Squalor,” an American soldier who is befriended by a thirteen-year-old English girl just before he goes off to take part in the D Day invasion. “The Catcher in the Rye” was a best-seller when it came out, in 1951, but its reception as some sort of important cultural statement didn’t happen until the mid-fifties, when people started talking about “alienation” and “conformity” and “the youth culture”—the time of “Howl” and “Rebel Without a Cause” and Elvis Presley’s first records. It is as a hero of that culture that Holden Caulfield has survived. But “The Catcher in the Rye” is not a novel of the nineteen-fifties; it’s a novel of the nineteen-forties. And it is not a celebration of youth. It is a book about loss and a world gone wrong.

By the mid-nineteen-fifties, Salinger had disappeared down his New Hampshire rabbit hole. The New Yorker’s rejection of “The Catcher in the Rye” plainly had no effect on him as a writer. Criticized for creating a family with four precocious children and for writing in a style that drew attention to itself, he proceeded to create a family with seven precocious children, and to produce, in “Zooey” and “Seymour,” works of supreme literary exhibitionism.

“Zooey” and “Seymour” are exhibitionistic because the emotional current driving the characters has become unmoored from anything that has actually happened to them. They are not thrown into a state of higher intensity by trauma or by grief. They are just in a state of higher intensity. In “Franny,” Franny Glass’s spiritual crisis is a kind of screen shielding the rather mundane circumstance that she has been made pregnant by a man who she realizes will remain, all his life, a pompous English major. But in “Zooey,” published two years later, Franny’s spiritual crisis is genuine, because, apparently, having spiritual crises is the price one pays for being a Glass in this lousy world. There is no suggestion of pregnancy. We get Seymour’s Fat Lady instead. After 1955, Salinger stopped writing stories, in the conventional sense. He seemed to lose interest in fiction as an art form—perhaps he thought there was something manipulative or inauthentic about literary device and authorial control. His presence began to dissolve into the world of his creation. He let the puppets take over the theatre.

The New Yorker had no trouble publishing “Zooey” (which remains the longest piece of fiction it has ever run) and “Seymour.” The magazine seems to have got over its anxiety about credibility and transparency. Salinger changed The New Yorker’s aesthetic, at a time when The New Yorker’s aesthetic was the gold standard for short fiction, and that is one testament to the impact he has had on American writing. There are many more. Philip Roth’s early stories, collected in “Goodbye, Columbus,” have something of Salinger’s voice and comic timing, and it is hard to read Roth’s later funny, kvetchy, mournful monologuists without imagining Holden Caulfield and Zooey Glass as ancestral presences.

Still, Roth was not trying to rewrite “The Catcher in the Rye”; Salinger’s complete lack of irony could hardly have appealed to him. But other writers have tried, at least one in every decade since it appeared. Sylvia Plath made a version of it for girls, in “The Bell Jar” (1963); Hunter Thompson produced one for people who couldn’t believe that Nixon was President and Jim Morrison was dead, in “Fear and Loathing in Las Vegas” (1971). Jay McInerney’s “Bright Lights, Big City” (1984) was the downtown edition; Dave Eggers’ “A Heartbreaking Work of Staggering Genius” (2000) is the MTV one. Many books featuring interestingly unhappy young people have been published since “The Catcher in the Rye,” of course, and some of them were written by people who no doubt regarded Salinger as a model and an influence. But that doesn’t make those books “Catcher in the Rye” rewrites. The bar is set a good deal higher than that, and the reason has to do with the Salinger mystique.

Why Salinger chose to drop out of sight and then out of print is his own business, and it probably ought to have nothing to do with the way people read the work that he did publish. But it does. Readers can’t help it. Salinger’s withdrawal is one of the things behind, for example, Holden Caulfield’s transformation from a fictional character into a culture hero: it helped to confirm the belief that Holden’s unhappiness was less personal than it appears—that it was really some sort of protest against modern life. It also helped to confirm the sense, encouraged by Salinger’s own later manner, that there was no distinction between Salinger and his characters—that if you ran into Salinger at the Cornish, New Hampshire, post office (which is where his stalkers generally seem to have run into him) it would be exactly like running into Holden Caulfield or Seymour Glass. By dropping out, Salinger glamorized his misfits, for to be a misfit who can also write like J. D. Salinger—a Holden Caulfield who publishes in The New Yorker—must be very glamorous indeed.

This is why the narrator in a “Catcher in the Rye” rewrite is always a magazine writer. So, of course, is the author of the “Catcher in the Rye” rewrite, and the author and the narrator are separated by barely a hair. The model for the narrator is no longer Holden Caulfield. And it is not J. D. Salinger imagined as Holden Caulfield. It is the author imagined as J. D. Salinger imagined as Holden Caulfield. You can’t, in other words, rewrite “The Catcher in the Rye” simply by telling the story of an unhappy teen-ager and updating the cultural references, or transposing the events to a different city, or changing the sex of the protagonist. You have to reproduce the Salinger mystique, because the mystique has become part of what “The Catcher in the Rye” is. The end product of the ideal Salinger rewrite isn’t a Salinger story. It’s Salinger. To rewrite the story of Holden Caulfield you have to become a melancholy genius, too. You have to be your own sorrow king.

The book that seems, in some ways, closest to Salinger’s is Plath’s. Plath belonged to the first generation of “Catcher in the Rye” readers. She read it sometime before 1953, when she spent part of a summer in New York City as a twenty-year-old intern at Mademoiselle. (When she arrived at the magazine, she asked to be assigned to interview Salinger, whose “Nine Stories” had just been published. She got Elizabeth Bowen instead.) That internship and her subsequent breakdown and hospitalization became the basis, ten years later, for “The Bell Jar.”

Reviewers noticed the similarity to “The Catcher in the Rye” immediately, and there are echoes of Holden’s voice and story in the voice and story of Plath’s heroine, Esther Greenwood. But Plath was not merely borrowing. She must have felt that an aspiring magazine writer in New York City in 1953, when Salinger was in his prime, would naturally see life in a Salingeresque way. When Esther says, for example, “I’m stupid about executions” (1953 is the year the Rosenbergs were executed), she is adopting a Caulfield attitude. Esther’s vague loathing of sex is a loathing learned partly from “The Catcher in the Rye”; her obsession with madness and suicide is partly the obsession of an admirer of “Teddy” and “A Perfect Day for Bananafish.” In other ways, though, “The Bell Jar” and “The Catcher in the Rye” are very different books, and the difference can be summed up by saying that no reader has ever wanted to be Esther Greenwood. Holden (despite the confusion of the Harcourt Brace executive) is not crazy; he tells his story from a sanatorium (where he has gone because of a fear that he has t.b.), not a mental hospital. The brutality of the world makes him sick. It makes Esther insane.

“The Bell Jar,” too, has become a staple of ninth-grade English, an officially approved text for adolescents, a book about the culture of youth. The later “Catcher in the Rye” rewrites—Thompson’s and McInerney’s and Eggers’—are not yet canonical in this way. People don’t read them because their parents recommended them. They read them for the same reason they listen to alternative rock or go to see “Pulp Fiction” six times—because these are things that teach them an attitude. They are sensibility manuals; they show what sort of unhappiness is in style this decade.

“Catcher in the Rye” rewrites are all constructed on roughly the same pattern: a trauma triggered by a death (in Thompson’s book, it’s the death of the sixties), followed by an episode of emotional regression and a kind of shadow war, mostly in the head, with the rest of the world. They share with “The Catcher in the Rye” and “The Bell Jar” a fuzzy Christian thematics about salvation, redemption, and rebirth, and they draw heavily on the Salinger and Plath catalogue: mummies, fetuses, comas, sensational headlines, perversions, botched sex, suicide attempts, suicides, death fantasies, deaths. The narrators have a mordant contempt for everyone and everything, including themselves. The books are funny, but they are about loss and frustration and defeat. And each one seemed to hit a generational nerve, as though no one had ever told that story, or sounded those notes, before. What makes their melancholy so irresistible?

We think of nostalgia as an emotion that grows with age, but, like most emotions, it is keenest when we are young. Is there any nostalgia more powerful than the feelings of a third grader revisiting his or her kindergarten classroom? Those tiny chairs, the old paste jars, the cubbies where we stuffed our extra sweaters—we want to climb back into that world, but we’re third graders now, much too large. We’ve fallen off the carrousel. Although “youth” is supposed to mean an enthusiasm for change, young people don’t want change any more than anyone else does, and possibly less. What they secretly want is what Holden wants: they want the world to be like the Museum of Natural History, with everything frozen exactly the way it was the first day they encountered it.

A great deal of “youth culture”—that is, the stuff that younger people actually consume, as opposed to the stuff that older people consume (like “Lord of the Flies”) in order to learn about “youth”—plays to this feeling of loss. You go to a dance where a new pop song is playing, and for the rest of your life hearing that song triggers the same emotion. It comes on the radio, and you think, That’s when things were truly fine. You want to hear it again and again. You have become addicted.Youth culture acquires its poignancy through time, and so thoroughly that you can barely see what it is in itself. It’s just, permanently, “your song,” your story. When people who grew up in the nineteen-fifties give “The Catcher in the Rye” to their kids, it’s like showing them an old photo album: That’s me.

It isn’t, of course. Maybe, in fact, the nostalgia of youth culture is completely spurious. Maybe it invites you to indulge in bittersweet memories of a childhood you never had, an idyll of Beach Boys songs and cheeseburgers and convertibles and teen-age crushes which has been constructed by pop songs and television shows and movies, and bears very little relation to any experience of your own. But, whether or not the emotion is spurious, people have it. It is the romantic certainty, which all these books seduce you with, that somehow, somewhere, something was taken away from you, and you cannot get it back. Once, you did ride a carrousel. It seemed as though it would last forever.

Filed under: Livros — Maria Fabriani @ 13:06

Visto permanente

Fomos hoje ao departamento de imigração sueco, chamado Migrationsverket, para pedir meu visto permanente aqui. Depois de renovar o visto anualmente por dois anos, pode-se pedir essa permissão prolongada, que vale por cinco anos, durante os quais não preciso mais me preocupar em ir lá e pagar 500 coroas por ano.
Fomos agora em março, apesar do meu visto ser válido até maio, porque nos foi informado que haveria uma demora grande para que conseguíssemos uma entrevista com um dos representantes do Migrationsverket. Essa pessoa me entrevistaria sobre minha vida aqui, o que eu faço e como é que vão as coisas comigo e Stefan.
Não sei o que aconteceu, acho que a moça que nos atendeu gostou de mim, porque consegui o visto na hora. :c) Conversamos um pouco, eu, ela e Stefan, ali mesmo no guichê. Ela me perguntou se eu estava estudando, elogiou muito o meu sueco e perguntou meio que sussurrando: “Como estão as coisas com vocês dois?”, se referindo a mim e ao meu urso polar.
É engraçado como essas coisas são relativas. Acho também que esse pessoal tá acostumado a lidar com um monte de fugitivos de guerra, que vêm pra Suécia pra ter uma vida melhor e que não necessariamente se esforça para aprender o idioma. Acho que ela foi com a minha cara, sei lá. :c)

Filed under: Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 11:16

March 24, 2003

Energias

Tem uma pessoa que conheço e que considero como sendo uma amiga minha aqui na Suécia. Ela é latina, mas não é brasileira. Gosto muito dela porque ela é doce, aberta e amorosa, além de já morar aqui há 14 anos, ter filhos, marido, casa, cachorro, trabalho etc.
O único porém, é que às vezes quando estamos juntas estudando ou conversando, sinto que a melancolia que ela sente - relacionada à sua vida, às escolhas que ela fez, às demandas que uma mãe sofre etc - meio que passa pra mim. Eu começo às vezes a sentir uma tristesa enooooorme depois de tê-la encontrado.
Tenho certeza absoluta que ela não faz isso de propósito. Sei que isso acontece porque há uma confiança da parte dela com relação a mim; ela não se censura, diz como é, como sente. E isso é um privilégio sem tamanho: ter uma amiga que confia em você. Mas, mesmo assim, às vezes o peso é muito grande.
Nunca disse nada a ela, claro, até porque nossa amizade é muito nova. E nem acho que vou dizer porque acredito que uma pessoa possa “se defender” da energia negativa alheia por seus próprios meios. Há ainda todo o componente externo: minhas próprias dúvidas, insatisfações, frustrações e angústias que nascem em mim, não vêm de ninguém.
Seria inclusive injusto e sintomático do ponto de vista psicológico culpar alguém por uma dor existencial sua. Estou convencida que troca de energia - positiva e negativa - acontece em vários níveis. É possível sentir-se bem quando se recebe um email lindo, por exemplo, mas essa influência irrestrita não existe.
Para contrabalançar a dispersão de energia que por vezes acontece, realizo uma série de atividades. Desde ler algum livro interessante, escrever aqui, cozinhar (descobri recentemente as propriedades curativas dessa atividade) e rezar.
Ave Maria, cheia de graça…

Filed under: Vidinha — Maria Fabriani @ 17:05

Em claro

Estou quebrada. Passei a noite em claro assistindo à cerimônia do Oscar. Valeu a pena, apesar de eu não ter visto a maioria dos filmes que concorreram. Gosto de ver o Oscar, gosto de ver aquelas pessoas todas e acho que volta e meia faz-se justiça a artistas verdadeiramente sensacionais.
Aqui o show começou a ser transmitido às 2h30m da manhã e foi até às seis da matina. Fui dormir às 6h05m, assim que o Steve Martin - ótimo - deu boa noite. Gostei muito do Adrian Brody ter ganho; adorei o discurso dele, inclusive quando ele mandou a musiquinha parar pra que pudesse dizer o que quisésse.
Gostei do Michael Moore, que é feio, gordo, incomoda e faz bem. Um homem assim é necessário à humanidade, ainda mais quando se trata de americanos. Susan Sarandon estava linda, como sempre (adoro ela). Muito chic, fez um sinal de paz e amor e disse tudo.
E o Caetano Veloso? Gostei do número dele, mas achei a cantoria com a artista mexicana meio confusa. Estava torcendo por ele, mas achava que o U2 ia levar o troféu. Até eu fiquei surpresa com o sucesso do Eminem. Quem diria. Acordei às 11h45m e me preparei para ir pra escola - aula de sueco. Só voltei agora.
Estou com muita saudade da minha mãe. Acho que é o cansaço.
Sinto muita falta de um aspecto da minha vida no Brasil: o acesso à uma vida cultural mais movimentada. Não apenas pelo fato de ter meu próprio dinheiro, mas ainda por morar simplesmente numa cidade grande. A essa altura do campeonato já teria visto quase todos os filmes premiados.
Esse deserto cultural é difícil de preencher. Há outras coisas me chateando também, não é só isso. Mas são mais complicadas. Me pergunto se eu morasse em outra cidade, por exemplo, Estocolmo, se eu estaria indo mais ao cinema. Acho que sim, mas tudo depende do dinheiro. Uma pena.
Já perceberam que não está dando pra comentar, né? O YACCS sumiu e o Falou & Disse tá com problema. Aparece aqui em baixo mas não abre. Bom, vamos ver como fica. Não quero mudar mais uma vez, até porque tenho um monte de comentários lá no F&D, mas se precisar eu mudo pra outro. O que eu queria mesmo era migrar pro Movable Type e não precisar me preocupar mais com isso. Mas confesso que não tenho sanidade mental suficiente no momento para fazer isso sozinha.

Filed under: Saudade,Vidinha — Maria Fabriani @ 16:46
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