November 29, 2002

O meu nome é estresse



O mais engraçado disso tudo é que percebo o quão estressada estou/sou. Tenho contato com outras pessoas vivendo longe do Brasil e que têm experiências desgastantes às vezes, mas no mais vivem tranqüilamente a sua vida e são felizes. Por que eu não consigo ser assim?
É claro que não sofro o tempo todo, muito pelo contrário. A vida está se mostrando mais bonita do que eu jamais pensei que ela poderia ser, mas parece que só o sofrimento emerge. Estranho. Acho que isso é um padrão inconsciente de vida. Preciso mudar isso.
E o que eu ainda estou fazendo acordada? Tchau. Boa noite a todos.

Filed under: Vida de imigrante,Vidinha — Maria Fabriani @ 23:44

Maria Svensson Fabriani

Uma foto minha apareceu hoje no jornal para ilustrar um artigo de políticos de centro-direita criticando a política de integração sueca. Junto estão duas colegas de classe e a professora do curso especial para imigrantes que fiz de abril a agosto desse ano. A legenda da foto diz: “Maria Fabriani, Jevgeniya Ivanova, Elisabet Vidman e Evelina Akopof representam imigração que tornam mais rica nossa região”.
O artigo critica um ponto em particular do discurso da Ministra da Integração, Mona Sahlin: não é o racismo estrutural que impede que “bons” imigrantes como eu consigam empregos, como a ministra defende, mas as regras extra-duras do sistema de trabalho desse país. Quando se contrata um funcionário aqui na Suécia é quase impossível demiti-lo. Os sindicatos são fortíssimos e defendem os interesses de seus associados até a última instância. Os autores do artigo defendem que essa lei dura inibe empresários e até mesmo grandes empresas, que desistem de empregar imigrantes porque há um temor de contratar “uma pessoa certa para o lugar errado”.
Até entendo que esse medo deve existir sim e concordo que a política de contratação sueca é duríssima. Acho inclusive que a tal ministra Mona Sahlin não tem feito grandes avanços no que diz respeito ao sucesso da política de integração. Mas nesse ponto, sou obrigada a concordar com ela. Não é apenas a incerteza de contratar uma pessoa “diferente” que faz com que os empregadores desistam de dar empregos a imigrantes, mas sim um preconceito tão arraigado no subconsciente sueco que até mesmo os mais liberais e críticos não percebem.
Um exemplo? Nenhum tipo de formação acadêmica é boa o suficiente para a Suécia se você não estudou em algum país europeu. Não adianta espernear, dizer que estudou quatro anos para se tornar uma jornalista e eles aqui precisarem apenas passar dois anos numa faculdade para poder escrever em qualquer jornal. Você ainda precisa fazer um ano de “complementação”. Complementação de quê, cara pálida? Sueco eu já estudo que nem uma louca desde que coloquei os pés nessa terra. Sobre regras e padrões jornalísticos suecos eu aprendo em um curso de dois meses, no máximo.
Ontem vi uma matéria no jornal da TV4 sobre a dificuldade da segunda geração de imigrantes para conseguir empregos. Entrevistaram uma moça de origem iraniana, muito bonita, falando um sueco perfeitíssimo, com sotaque de Estocolmo mas que não consegue um emprego por causa do nome dela, evidentemente persa. Como ela sabe que é por causa do nome? Depois de enviar currículos, fazer visitas diretas às empresas e ligar para inúmeras companhias por mais de um ano, ela se cansou e fez uma experiência: mandou o seu currículo para um empregador e mudou de nome. Passou a se chamar Michelle Egström, um nome bem sueco.
O currículo dela não apenas foi considerado, como ela foi chamada para uma entrevista. Depois de duas horas de conversa, o empregador se disse feliz com o resultado mas só queria ligar para as referências dela. Aí, sem poder mentir mais, ela disse que seu nome era outro. O cara desistiu de empregá-la e deu como desculpa que não era bom ter mentido no currículo. mas como é que ela poderia não mentir se com seu nome verdadeiro é quase impossível sequer ser chamada para uma entrevista preliminar? Como resultado, a moça está pensando em mudar seu nome para algo bem sueco. Tenho certeza que ela terá mais chances.

Filed under: Europa & Escandinávia,Irritação e ironia,Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 13:47

November 28, 2002

Maria bloodhound

Sempre tive uma memória olfativa privilegiada. Um cheiro é capaz de me fazer lembrar pessoas, épocas, locais. Acho interessante esse tipo de memória, assim como minha memória fotográfica. É difícil eu esquecer um rosto depois de tê-lo visto uma única vez. Meu único problema é colocá-lo no contexto adequado.
Mas o que eu quero falar mesmo é de olfato. Stefan me chama de bloodhound (foto) porque sou capaz de identificar exatamente que tipo de almoço ele comeu ou se tomou café. Outro dia ele passou a mão nos meus cabelos e eu perguntei se ele tinha bebido chá no trabalho. Ele disse que sim. Perguntei então se o chá havia derramado na mão dele. Não. Eu tinha sentido apenas o cheiro que se espalhou pelos vapores do chá.
Não sei o que acontece, mas quando sinto um cheiro forte (como um shampoo anti-caspa, por exemplo) parece que “quebro” o cheiro em várias partes; parece que as moléculas do aroma entram nariz a dentro e vão se modificando, se combinando. Por isso que sou bastante sensível para perfume francês. O cheiro do perfume nunca é aquele primeiro, mas um terceiro ou quarto aroma que está por trás do cheiro inicial. E quando chego a essa terceira ou quarta camada já estou intoxicada.
Com sua sutileza inata, Stefan sugeriu que eu substituisse o “nariz eletrônico” do seriado C.S.I (Crime Scene Investigation), um dos nossos preferidos. Fico torcendo para que o Grissom, a Catherine, o Warrick, a Sara e o Nick usem Luminol para descobrir padrões no sangramento da vítima, ou que precisem utilizar toda a expertise do Greg, o cara do laboratório. Só não gosto quando eles mostram a tragetória da bala quando entra pessoa a dentro, dilacerando tudo o que encontra pela frente. Afinal, sou bloodhound, mas nem tanto assim.

Filed under: Elucubrações — Maria Fabriani @ 11:51

November 27, 2002

Já melhorei de humor

Já melhorei de humor. Está nevando às pampas, lindo lindo lindo! Parece que Deus está lixando isopor. Os flocos são enormes! Ontem Stefan me levou pra ver o novo Harry Potter e nos divertimos à beça. Quando chegamos em casa, lá pelas dez da noite, ainda fizemos jantar: galinha com molho thailandês com amendoim e arroz branco. Um delícia! Tenham um bom dia porque o meu está ótimo.

Filed under: Vidinha — Maria Fabriani @ 12:22

Navegando na merda gigante germânica

Os comentários de vocês no post abaixo me fizeram escrever mais sobre palavras, idiomas, expressões etc. A Andrea, mestra em alemão, me lembrou de outros dois vícios que, admito, até eu mesma tenho em sueco. Ela disse que os alemães colocam “um scheiß - ou um sau - na frente de qualquer coisa (o que seria “de merda”. Sauwetter é “esse tempo de merda”.) A tradução literal de Sau é porca. A coitada tem mil funções aqui…”. Hohoho.
Acho que “merda” é uma fixacão européia e germânica porque aqui também é a mesma coisa. Os suecos colocam o skit [shit] na frente de tudo. O sorvete é skitgod [shit gud], muito bom, delicioso, ou o filme foi skitdålig [shit dôlig], muito ruim, péssimo.
Além desse tem o tal do jätte [iéte], que quer dizer gigante. Coloca-se jätte na frente de qualquer adjetivo para dar ênfase à qualidade indicada, por exemplo: O sorvete é jättegod [iéte gud], muito bom, delicioso. O mais doido é que eles (e eu também, mea culpa, mea culpa!!!) empregam o tal do gigante até em situacões logicamente duvidosas, como no vocábulo jätteliten, que quer dizer muito pequeno, mínimo. Afinal, é gigantesco ou mínimo?
O fato é que eu concordo com a Patty, que já está aqui na Suécia há dez anos e sabe muito melhor do que eu como é que são as coisas por essas bandas: é difícil encontrar pessoas que falem um sueco rico o suficiente para te ensinar palavras não tão comuns. Ela escreveu: “quando eu pergunto palavras como: essencialmente, negligente, versátil etc, eles se espantam porque é tudo limitado no “en sak” (uma coisa), “den” (isso), “det” (isso), “bra” (bom), “dålig” (ruim), como a gente vai aprender se eles mesmos não falam direito????”.
Boa pergunta.

Filed under: Cinema e televisão,Europa & Escandinávia — Maria Fabriani @ 11:50

November 26, 2002

Jag är liksom förbannad så att säga

Quando se aprende uma língua estrangeira in loco - cursinhos são bons mais perde-se muitos detalhes - seu ouvido fica afiado para dialetos, palavras estranhas ou bonitas. Além disso, percebe-se com mais facilidade aqueles vocábulos repetidos ad nauseum: os chamados vícios de linguagem.
No pouco tempo em que estou aqui pude identificar dois vícios chatérrimos mas que parecem estar entrando goela a dentro do sueco médio via programas jovens de TV. Por exemplo, usa-se muito o vocábulo liksom, que é o like americano ou o tipo brasileiro. Então, fala-se: “Estou assim, tipo meio cansado”. Ou: “I’m, like, sort of tired”. Ou ainda: “Jag är liksom trött”. A diferença é que usa-se o tal do liksom como uma vírgula, intercalando todas as frases que saem da boca do indivíduo.
Então fica assim: “Eu tava, tipo, cansado. Aí tentei, tipo, sair d’ali e, tipo, ir pra casa pra, tipo, dormir um pouco”. A versão sueca é: “Jag var liksom trött. Då försökte jag liksom fara därifrån och liksom går hem och liksom sova lite, liksom”. Grrrrrrrrrrrrrrrr….
O outro vício de linguagem que identifiquei é uma expressão: så att säga [sô at seia], que quer dizer por assim dizer. Os suecos empregam essa expressão no final de frases nas quais explicam uma situação ou quando dão sua opinião sobre algo que aconteceu. Por exemplo: “Det snöar idag så att säga”, ou “Está nevando hoje, por assim dizer”. Não faz sentido né? Pois é, eu sei. Mas parecem que os suecos não sabem.

Filed under: Cinema e televisão,Europa & Escandinávia — Maria Fabriani @ 11:43

Bom dia

A má notícia é que o dia está encoberto e escuro. A boa notícia é que a temperatura está amena, “apenas” três graus negativos. Seria bom ter sol, mas se isso quer dizer mais de dez graus negativos, agradeço, tchau e bença. Quero não. Prefiro noite fechada e temperatura tolerável. Bom, é isso. Como podem ver nenhuma melhora no humor de madame.
Mas também, olha só, são pouquíssimas as pessoas que lêem esse blog e que realmente me conhecem, de forma que é bom avisar: não sou alucinada por calor. Muitíssimo pelo contrário. Adoro frio, neve, casacos macios, cobertores, chá quente. Só que à medida em que vou ficando velha minha tendência para radicalizar desaparece, se é que vocês me entendem.
Vou fechar a porta pra evitar que os ursos polares venham me fazer uma visita. Pingüins? Não, não existem pingüins aqui perto de casa. Só no Pólo Sul. E lá, perto da Argentina, não existem ursos polares, apenas pingüins. Bom para os pingüins, ruim para os ursos polares. Blá-blá-blá.

Filed under: Vidinha — Maria Fabriani @ 08:38

November 25, 2002

“Ai, que saco!”

Estava lendo sobre tempo de reação para se freiar carros e lutando contra minha falta de concentração. É como se a adolescente que um dia eu fui estivesse pulando aqui dentro do meu peito e gritando, em protesto: “Por que eu tenho que ler esta meeeerrrrddddaaaa?????? Eu já sei tudo isso!!!!!!”. E eu, aqui de cima, tentando controlar no melhor estilo super-ego, esse id inflamado. “Sim, é chato. Sim, você já sabe disso, mas tenha paciência, é necessário ceder um pouco para poder se ajustar”.
O fato é que a adolescente não está cedendo aos meus apelos e eu estou aqui, escrevendo no meu blog, ao invés de ler o livro da auto-escola. Hoje tá difícil. Foi difícil o fim de semana inteiro, mas não adianta ficar curioso porque eu não vou contar nada. Só acho que, como estou muito sensível, tudo parece ter um peso extra. Palavras ditas e as não ditas, piadinhas ridículas que estão parecendo fora de contexto hoje, mas que qualquer outro dia seriam normais, tudo tá muito complicado.
Já me segurei para não mandar emails inflamados para três pessoas, perguntando pura e simplesmente o que há de errado, se eu fiz alguma malvadeza sem perceber porque nenhum ser humano merece ser tratado com tanta indiferença e falta de boa vontade. Mas, como já tenho um pouco de experiência com esses ataques, deixei pra lá porque desconfio que no máximo em duas semanas essa sensação de rejeição generalizada vai passar e aí eu não quero ter que escrever emails pedindo desculpas a Deus e todo mundo.
Nossa, acho que a TPM é uma adolescência mensal. Cruzes!

Filed under: Conquistas,Irritação e ironia — Maria Fabriani @ 11:12

November 22, 2002

Poliana

Vantagem de morar perto do Pólo Norte: o freezer tá cheio? Coloca a mistura pra esfriar na varanda. :cD

Filed under: Vidinha — Maria Fabriani @ 16:25

“When you have an “I hate my job”-day, try this

On your way home from work, stop at your pharmacy and go to the thermometer section. You will need to purchase a rectal thermometer made by Johnson & Johnson. Be very sure you get this brand. When you get home, lock your doors, draw the drapes, and disconnect the phone so you will not be disturbed during your therapy. Change to very comfortable clothing, such as a sweat suit and lie down on your bed.
Open the package and remove the thermometer. Carefully place it on the bedside table so that it will not become chipped or broken. Take out the material that comes with the thermometer and read it. You will notice that in small print there is a statement: “Every rectal thermometer made by Johnson & Johnson is personally tested.”
Now close your eyes and repeat out loud five times: “I am so glad I do not work for quality control at the Johnson & Johnson Company.”
Have a nice day, and remember, there is always someone with a worse job than yours”.

Hohoho. Copiei daqui.

Filed under: Irritação e ironia — Maria Fabriani @ 13:22
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