October 31, 2002

Namorado: ter ou não, é uma questão

“Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e vive pesando duzentos quilos de grilos e de medo, ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves friccões de esperanca. De alma escovada e coracão estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo da sua janela.
Ponha intencões de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria. Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido.
Enlou-cresca.”
Carlos Drummond de Andrade, extraído da crônica que saiu no JB em 20/12/93.
Que coisa linda, não? Este é o meu credo. Tenho a crônica toda, quem quiser basta pedir. Postei mais Drummond aqui, no dia 26. Clique aqui. A imagem copiei do Victor.

Filed under: Livros — Maria Fabriani @ 11:25

October 30, 2002

Explicacões

A Claudia, brasileira que vive na Holanda, me visita às vezes e sempre deixa comentários interessantes. Um deles, se vocês se lembram, foi quando ela me perguntou porque passar por todo esse perrengue - mudar de país se tudo é tão difícil para recomecar etc. Ontem ela me visitou novamente e, mais uma vez deixou um comentário polêmico e interessante. Vou reproduzir aqui mais uma vez porque acho que essa é uma questão que muitas pessoas estão pensando. Claudia escreveu:

“O Lula ja e o novo presidente, como esperado. Honestamente, eu estou com pena dele. As pessoas ainda nao amadureceram o suficiente para nao esperar um salvador da patria, aqui da Holanda da pra sentir como a galera esta pensando que o Lula vai conseguir mudar o mundo e consertar o Brasil ( pausa para gargalhadas ahahahahahaha). Nem o Serra, preparadissimo como e, ia conseguir fazer milagre, ainda mais com este panorama internacional horroroso, desemprego e recessao no mundo inteiro, ameaça de guerra no iraque . .. Entao, eu prevejo uma futura frustraçao coletiva imensa, nao porque o lula necessariamente va orquestrar um desastre, mas porque ele nao vai conseguir fazer um vigesimo do que os eleitores do PT estao irrealisticamente esperando dele. O lado legal disso e realmente ver um ex-metalurgico, um fodido que passou fome na infancia e perdeu um dedo numa maquina na fabrica, conseguir “chegar la”. Isso e legal, e DEMOCRATICO, demonstra que no Brasil qualquer um pode mesmo chegar la, dependendo de um misto de esforços, sorte, destino e estar-no-lugar-certo-na-hora-certa. Fora o fato de que o Lula nao e um político ladrao, e por causa deste passado sem duvida e um cara bem intencionado e com uma certa sensibilidade social. Mas e um bronco, desculpe presidente, mas vc ainda fala “as elite” e coisas do tipo. Apesar dos ternos Armani, nem ingles o cara fala, imagina este cidadao numa reuniao na OMC ou tendo que decidir a politica de cambio ou outras complexas questoes economicas … Mas eu sou uma pessoa otimista, nao votei nele, nao torci por ele mas vou fazer pensamento positivo e torcer pelo melhor.
bora ver!
Claudia”

E a minha resposta foi:

Claudia, com todo respeito: essa cantilena de que o Lula não sabe falar inglês é coisa velha. Tradutores e intérpretes existem por essa razão. Para se defender uma nacão com paixão não é necessário falar outras línguas, mas basta entender bem a nossa língua. Além do mais, veja bem, o FHC, muitíssimo culto, como eu e você, aliás, não conseguiu nos salvar das garras do FMI.

E não pense que estou aqui fazendo discurso político radical porque não é o caso. Tenho horror a radicalismos. Não gosto sequer da faccão radical petista. O que acho é que o acordo que o FMI fechou com o governo FHC é nossa dor e delícia. Precisamos dele - por desacertos do executivo dirigido por FHC - e, ao mesmo tempo, ainda vamos morrer disso, se é que você me entende, porque as condicões para o empréstimo são quase sub humanas para com a populacão mais pobre, que vai sofrer mais uma vez. O Lula, no entanto, se comprometeu a cumprir o trato porque não é burro. Sabe a condicão do país deixado pela inteligentsia tucana.

Concordo com você que o Lula vai ter um looooongo e difícil caminho pela frente, mas vamos combinar uma coisa: o fato de ele saber ou não falar outras línguas não quer dizer nada, ok? Se fosse assim, os EUA NUNCA elegeriam qualquer presidente.

Fui ler o jornal hoje e achei genial essa idéia da Fome Zero. É por isso, Claudia, que eu gosto do Lula, porque ele se preocupa com as questões emergenciais, aquilo que fazia parte do discurso teórico do FHC, falando como o sociólogo que é e não como o presidente da república. Eu votei no Lula porque acredito de todo o coracão que ele é um brasileiro preocupado com as condicões de vida básica da populacão mais pobre, que não tem voz, não pode reclamar nem fazer greve simplesmente porque em sua maioria não têm sequer trabalho.

A preocupacão econômica, vital, sem dúvida, também está presente no governo do Lula, claro, porque como disse, ele não é otário, mas o que ele quer fazer com mais urgência é tirar da miséria absoluta uma multidão de gente que merece ter, pelo menos, o que comer no fim do dia. E isso, pra mim, é ser Presidente da República.

Filed under: Elucubrações — Maria Fabriani @ 12:42

October 29, 2002

Sem internet

Estávamos sem Internet. Problema com alguma coisa da Telia - companhia de telefonia sueca, a única por sinal - aqui em Boden. Acabou de voltar.

Stefan, de folga, quase subia pelas paredes.

Lembrei agora… e a Regina Duarte? Deve estar se borrando toda, né não? Hohoho.

Filed under: Irritação e ironia — Maria Fabriani @ 15:21

October 28, 2002

Orgulho, Estocolmo e carros

Voltei. Tô cansadona mas feliz porque eu ajudei a eleger Lula presidente do Brasil com a segunda maior votacão popular do mundo. Estou muito feliz. Desejo do fundo do meu coracão que ele tenha luz para escolher seu secretariado, seus ministros e as pessoas que tocam a parte técnica do poder executivo. Fiquei encantada com a votacão. Nunca poderia imaginar que seria assim, com 63% de aceitacão. Que vitória, que orgulho do meu país!!!
Bom, a viagem até Estocolmo pra votar foi tranqüila. Na ida fiquei com um cupê só para mim, o que é ótimo. Já sabia como ir até a embaixada porque já fiz essa viagem antes, para me inscrever e transferir o meu título para cá. Estacão central, metrô, embaixada, metrô, estacão central. Dei uma volta pelas redondezas mas como era domingo tudo estava fechado, sem graca. Acabei burlando a minha disciplina financeira e comprando dois livros: “White Teeth”, da Zadie Smith e “The Summons” do John Grisham.
A estacão central é ótima, tem de tudo. Comprei uma coca light e um muffin de chocolate (ai ai ai!) e fiquei lendo até a hora do meu trem sair. Uma delícia.
Na volta dividi o cupê com uma menina simpática que, com certeza, vinha da área de Gotemburgo. Sei disso não porque perguntei mas porque a danada falava tão rápido - do jeito que só esse pessoal de Gotemburgo faz - que precisei pedir a ela que repetisse tudo o que me perguntava pelo menos duas vezes para que eu pudesse ter alguma idéia do que ela estava falando. O maior mico. Ela deve ter me achado muito estranha… ou meio burra.
Foi hoje também a minha primeira aula de teoria para tirar carteira de motorista. Serão seis semanas de teoria, com mais aulas práticas de como trocar pneu, verificar a seguranca do veículo etc. Além, é claro, da famigerada Halkbana, cuja traducão seria alguma coisa próxima a “pista de derrapamento”. Trata-se de uma pista de gelo na qual os alunos dirigem com pneus de verão e aprendem como (tentar) controlar o carro numa curva. Vai ser engracado…
Se lembram da prova do Detran? Dá uma volta naquela pistita em frente ao autódromo de Jacarepaguá e faz baliza numa vaga gigante? Pois é… senti saudades disso. Vou dormir porque tenho um livro de quase 200 páginas para ler, em sueco, sobre tudo: leis de trânsito, funcões mecânicas do veículo etc.

Filed under: Europa & Escandinávia,Livros,Vidinha — Maria Fabriani @ 23:23

October 26, 2002



Filed under: Conquistas — Maria Fabriani @ 19:41

Quase Lula lá

Quase Lula
Fui procurar saber como foi o debate de ontem. O JB, o Globo e a GloboNews destacaram o clima de cordialidade… e só. Não disseram que o Serra arrasou nem nada. Então o Lula ganhou disparado, tô certa? :c)
Estou indo pra Estocolmo hoje à noite. Mil e cem quilômetros de trem, cerca de 11 horas. Tudo pra participar dessa eleicão.
Mico internacional — Minha querida BBC cada vez ganha mais o meu coracão verde, amarelo e vermelho. Hohoho.

Filed under: Conquistas — Maria Fabriani @ 09:31

Para sempre


Carlos Drummond de Andrade, Licão das Coisas
Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não se apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro, puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graca,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito um grão de milho.

Dicionário Drummond, O Globo, 26/10/02. Foto: Drummond com sua filha Maria Julieta em 1982.

Filed under: Livros — Maria Fabriani @ 08:53

October 25, 2002

Amor à primeira vista

Amor à primeira vista

Finalmente revelei seis dos milhares de rolos de filme que juntavam poeira aqui em casa. Tem foto do inverno passado, quando esquiei pela primeira vez na vida e até do verão passado, quando subi num touro mecânico também pela primeira vez.
Para comecar o slide show, escolhi o meu amado Leonardo, um dos gatos da minha mãe. Eu não o conhecia - minha mãe o ganhou depois de eu ter vindo morar aqui - mas nos entendemos desde o primeiro dia. Quando não estava dormindo ou comendo, ele não saia do meu lado. Ai que saudades, Leo! :c(

Filed under: De bem com a vida,Saudade — Maria Fabriani @ 12:16

October 24, 2002

There’s no such thing as a free lunch

O YACCS tirou do ar comentários com mais de três meses de vida. Quem doou alguma grana, no entanto, tem seus comentários restaurados - todos, novos e velhos, sem limite.
O Hossein diz que é por motivos estruturais, técnicos. Acredito apenas em parte que ele esteja falando a verdade, mas acho que a tática é válida - apesar de um pouco abrupta - para fazer crescer as doacões. Afinal, o cara faz um trabalho muito legal e merece mesmo ser pago por isso. O mesmo pode ser dito sobre o Marcelo, do W.Bloggar.
Sinceramente? Não sabia que a vida sem cartão de crédito poderia ser tão difícil.
Vale dizer que o YACCS não apaga os nossos comentários, mas os armazena. Eles podem ser baixados para outros sistemas de comentários ou, como explica o Hossein nessa página de FAQ, pode-se copiar cada comentário depois de cada post. Ele sabe que é complicado e trabalhoso fazer isso e está pensando numa solucão para esse problema.

Filed under: Variedades — Maria Fabriani @ 11:22

October 23, 2002

A vida como ela é

Achei muito oportuno da TV4, um canal de TV de notícias e entretenimento que adoro e que está dedicando toda sua grade de programas dessa semana a matérias sobre o racismo na Suécia. Ontem, no jornal nacional deles, foi mostrada uma autoridade dizendo que podem haver tumultos tão graves quanto aqueles que ocorreram em Los Angeles quando policiais brancos bateram em Rodney King sem motivo aparente. Até a ministra da integracão da Suécia, Mona Sahlin - não muito competente se você quiser mesmo saber minha opinião - disse que não chega a tanto, mas que perigo sem existe.
Amanhã vão mostrar em um programa ótimo chamado “Kalla Fakta” (que quer dizer mais ou menos “a verdade nua e crua dos fatos”) como é difícil para imigrantes com educacão superior conseguir um emprego aqui. É o caso por exemplo, de Kurosh Jalali, cidadão sueco nascido no Irã, que por ter background de imigrante, só conseguia empregos como faxineiro e lavador de pratos. Foi para a Inglaterra e se tornou chefe apotecário no primeiro dia em que procurou emprego. Experiência semelhante a de Naser Izadkhan, também cidadão sueco com família imigrante. Hoje ele é ortodontista radicado em Manchester, Inglaterra, mas quando estava na Suécia era obrigado a ser motorista de taxi para poder sobreviver.
A verdade é que a sociedade sueca precisa acordar para o fato de que preconceitos existem e são prejudiciais para todos. Se não for por humanidade que seja por problemas econômicos. A dificuldade de se aproveitar os talentos e a competência de suecos com background imigrante custa muito à sociedade sueca como um todo. “Se o estabelecimento de profissionais de background imigrante fosse o mesmo registrado por suecos nascidos aqui, o governo ganharia mais de 30 bilhões de coroas por ano”, constata Jan Ekberg, professor de Economia Nacional. Ele faz referência a todos os impostos que essas empresas pagariam, além dos custos do social com os desempregados, que deixariam de ser pagos.
Kalla Fakta, TV4, Torsdag, Kl. 20.00.

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