October 2, 2006

Europa e África

Vi semana passada em um dos canais estatais suecos um dos documentários mais terríveis já feitos. O nome é “Darwins Nightmare” (“O Pesadelo de Darwin”) e conta a história do colapso social, político e econômico sofrido pela população que habita as redondezas do Lago Victoria, na fronteira com Tanzânia, Uganda e Quenia, área que os suecos chamam de África Oriental. Para atender à demanda européia, uma espécie de peixe estranha à ecologia do local foi introduzida no lago. O resultado foi que o peixe, em sueco Nilabborren (em inglês Nile perch), extinguiu toda a fauna nativa do lago.

Melhor metáfora para as boas intenções européias para com a economia dos países africanos não existe. Os Nilabborren foram introduzidos no lago para, diz-se, criar oportunidades de emprego para os locais, instigar a economia da área e melhorar a condição de vida de quem trabalhava lá. A razão é que o Nilabborre é muito apreciado na Europa. A demanda é enorme: 500 toneladas de filé são enviadas diariamente direto do porto de Mwanza (Tanzânia) para os restaurantes mais requintados da Europa.

Mas o Nilabborre, um predador, acabou com todos os outros peixes naturais da região. Além da catástrofe ecológica, o resultado econômico, de acordo com o cineasta austríaco Hubert Sauper, foi diametralmente oposto ao desejado. Cerca de dois milhões de pessoas, moradores da região do lago Victoria, passam fome todos os dias. Enquanto os filés são mandados para cá, os locais se contentam em comer os restos do peixe, a cabeça etc. HVI e prostituição são normalíssimos. E mais: nos aviões russos que fazem o transporte dos filés entre África e Europa, outro tipo de carga também acontece: armas contrabandeadas.

A crítica, ao meu entender, não é apenas voltada à total falta de cuidado ecológico, mas sim à utilização descarada do lago como uma piscina reprodutória de uma delicatesse européia sem qualquer tipo de preocupação socio-econômica. Ou a falta de vontade dos empreendedores de acabar com o tráfico de armas responsável pela perpetuação dos conflitos tribais em vários países africanos. Não precisa ser gênio pra saber que os empregos e o fortalecimento da economia só vêm quando há distribuição de renda, quando a corrupção não é total, quando os conflitos são resolvidos, quando os salários são humanos e os trabalhadores organizados e bem informados e, pincipalmente, bem nutridos.

É por essas e por outras que o mar de imigrantes africanos não para de chegar à costa espanhola por intermédio das Ilhas Canárias (foto acima, Reuters). Enquanto os turistas europeus derretem no sol da costa africana — um sol que eles não têm em sua terra natal — milhares de africanos, na sua maioria homens, chegam em pequenas embarcações. Subnutridos, desidratados, esperançosos. Não abrem a boca para não denunciar de onde vêm. Assim, fica impossível pra polícia espanhola identificar seu país de origem e mandá-los de volta.

Toda a vez que vou a um supermercado da cidade onde moro e compro um tomate ou uma outra fruta colhidos na Espanha sei que o mesmo tomate e a mesma fruta provavelmente passaram por mãos negras africanas antes de chegar à minha mesa. E eu me pergunto se fico feliz por isso (afinal, a pessoa em questão conseguiu ficar por aqui) ou se fico triste (e penso até em boicote), por conta do desastre humano que essas pessoas são obrigadas a viver em nome do meu conforto, da possibilidade de achar frutas tropicais na esquina da minha casa, no meio da tundra.

A palavra em sueco do dia é ojämlikhet, desigualdade.

Filed under: Europa & Escandinávia,Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 12:41

August 29, 2006

De volta à realidade européia

Um dos maiores orgulhos da sociedade sueca é sua abertura. Não se trata apenas de democracia total e irrestrita ou da visão de que todos os cidadãos são iguais perante a lei (o que pode ser discutido, mas no papel é assim). A abertura nativa se estende atá ao que para nós brasileiros parece um sonho inalcançável: a transparência burocrática.

Essa transparência, que aqui recebe o imponente nome de offentlighetsprincipen, ou Princípio da Publicidade (no sentido de ser público) determina que os cidadãos e os veículos de mídia - jornais e revistas, rádios ou TV - têm direito a ter acesso à gestão pública por meio de documentos advindos tanto do governo federal, estadual como municipal.

O Princípio de Publicidade de documentos se aplica a várias situações, como:

. Qualquer um pode ler os documentos públicos do governo;
. Os servidores públicos e outros que trabalham na coisa pública têm o direito de contar a outros sobre o que acontece no seu trabalho;
. Os servidores têm ainda possibilidade de dar informações à veículos de mídia;
. Entre outros, emails e até sentenças são documentos públicos.

Acho isso fantástico. O controle do olho público realmente ajuda a quem tem poder a não se deixar seduzir demais pelas facilidades que o dinheiro e a influência podem trazer. Isso não impede que a corrupção aconteça, mind you, mas são acontecimentos relativamente isolados e quando acontecem conseguem surpreender a maioria dos nativos. Em outras palavras, não é como os escândalos das sanguessugas e que tais que se seguem um atrás do outro no Brasil.

Mas, como tudo na vida, nada é completamente perfeito. Entre esses direitos previstos na transparência burocrática sueca está o direito de qualquer cidadão pedir uma lista com nomes de servidores empregados nos diversos órgãos públicos daqui. E foi exatamente isso que um homem associado ao movimento neo-naz***a nativo fez. Pediu uma lista com os nomes de todos os empregados do orgão no qual meu urso trabalha. A questão é quentíssima, saiu no jornal daqui de hoje e o serviço secreto já está antenado.

O problema não é apenas que ele pediu essa lista. O lance é que o órgão não tem como negar. Ninguém pode sequer perguntar ao cara a razão dele querer essas informações. O direito dele de obter essas informações independe de suas ligações políticas ou convicções, digamos, raciais. E tem mais: o cara é suspeito de pertencer a uma célula terrorista de extrema direita sueca. Ele teria participado da obtenção de nomes e horário de trabalho de policiais na região central da Suécia.

Meu urso, muito insatisfeito com a situação, mandou email pro seu chefe e pediu que suas informaçães não sejam liberadas. Conseguiu o apoio não apenas do chefe, mas dos colegas também.

E eu estou apavorada.

A palavra em sueco do dia é högerextremist, extremista de direita.

Filed under: Europa & Escandinávia,Jornal,Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 17:01

June 4, 2006

Eu e o rádio

microfonepedestal.gifNa próxima terça-feira, dia 6 de junho, é dia nacional da Suécia, como sabem aqueles que me acompanham já faz tempo (leia mais em 2002, 2003, 2004 e 2005). Estão planejadas várias comemorações no país inteiro. Quem estiver na Suécia poderá assistir às festividades ao vivo ou pela TV. Em Estocolmo a família real e diversos artistas estarão no meio do agito.

Outra possibilidade é ficar em casa e ouvir rádio. No canal P1, que é apenas de noticiário, vários programas girarão em torno da suequice. Um desses é “Språket”, ou “O Idioma”, que será transmitido na terça das oito às nove da manhã. O interessante é que fui convidada para participar e falar sobre idioma e identidade.

A coisa toda começou com aquele texto que escrevi e gravei pra outro programa transmitido pela P1, o chamado “Ring P1”, no qual qualquer cidadão pode ligar e dizer o que pensa, ou então deixar seu recado na secretária eletrônica. Se o texto for bom e curto, eles transmitem. Sabina, a repórter que me ligou na semana passada perguntando se eu queria participar do programa, disse que uma colega sua que trabalha no “Ring P1” tinha indicado o meu nome.

Não me lembrava mais do que havia escrito naquela época. Sabina me perguntou se eu poderia contar a ela o que havia dito e eu li o texto em voz alta. O achei tão amargo! Acho que mudei muito de uns tempos pra cá… o que é ótimo. Ao mesmo tempo concordo com a essência do texto e acho realmente que disse coisas pertinentes lá. Por outro lado, acredito que hoje sou capaz de ver mais facetas do problema que antes me eram invisíveis.

Quem se interessar por ouvir o programa, nem que seja pra escutar a língua esquisita, pode esperar que assim que for possível colocarei o arquivo de som aqui, numa versão reduzida. Quem quiser ouvir ao programa ao vivo, pode fazê-lo por meio do Web Rádio. Basta ir até a home page da Sveriges Radio (www.sr.se) e clicar, no canto superior esquerdo, na palavra “webbradio”. Já dentro da janelinha da web rádio, escolha o canal P1.

A palavra em sueco do dia é utveckling, desenvolvimento.

Filed under: Conquistas,Europa & Escandinávia,Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 21:21

April 30, 2006

Notícias do Primeiro Mundo VI

Mulher poderá ser morta a pedradas depois de ser deportada

O marido de uma nigeriana a procurou por todos os cantos do mundo. No final, ele mandou um email para a Migrationsverket, o órgão de imigração sueco. A pessoa responsável pelo caso da mulher nigeriana, que de fato havia pedido asilo aqui, respondeu candidamente ao email do marido e confirmou que a mulher se encontrava na Suécia. A Migrationsverket na cidade de Hedemora compreendeu então seu erro e escondeu a mulher para evitar que ela fosse perseguida e morta em solo sueco. Ao mesmo tempo, a pessoa responsável por avaliar a possibilidade de visto da nigeriana resolveu deportá-la de volta à Nigéria.

A pessoa da Migrationsverket responsável pelo caso é obrigado por lei a manter sigilo sobre as informações da nigeriana. Além disso, ela tinha documentos que proibiam expressamente que qualquer tipo de informação fosse dada a outras pessoas. A Migrationsverket sabia disso através do advogado da nigeriana, que recebeu nos últimos dias uma decisão definitiva do órgão de imigração sueco dizendo que o pedido de asilo foi negado porque não se conseguiu saber com certeza sua identidade. A nigeriana não tem passaporte. Foi decidido então que ela deve deixar o país o mais rápido possível.

Tudo começou no norte da Nigéria, de onde a mulher veio. Ela era casada com um homem mais velho e poderoso. Eles viveram juntos durante cinco anos e a mulher não ficou grávida. Aí, ela se apaixonou por outro homem e ficou grávida logo em seguida. Enlouquecido, o marido foi à côrte nigeriana que aplica a lei radical Sharia. Segundo a lei da Sharia uma mulher adúltera deve ser morta por enforcamento ou a pedradas. Antes de chegar à côrte, a mulher fugiu junto com o namorado, que se esconde em outro país. O filho dos dois nasceu há 1 ano e meio em solo sueco.

O email que o responsável pelo caso da nigeriana no órgão de imigração sueco recebeu era claro: em grandes letras negras estava escrito: “Um caso de bigamia”. Na carta, o marido exige que a mulher seja enviada de volta à Nigéria para que seja punida. Em um segundo email o marido escreve que ele mandará seus homens receber a mulher no aeroporto. Ele diz que deixará a côrte Sharia tomar conta dela ou fará justiça com as próprias mãos. Durante seu casamento, o homem bateu na mulher, o que foi registrado na polícia. A mulher não tem mais possibilidades de apelar para modificar a decisão de deportação. Mesmo assim seu advogado entrou com novo pedido para ganhar tempo.

“Se ela fosse uma mulher sueca, ela já estaria morando numa casa segura com endereço desconhecido”, diz Urban Jägerskog, que trabalha no comitê de asilo da Cruz Vermelha na cidade de Söderhamn. (versão do artigo original de Annika Hamrud, publicado no jornal Dagens Nyheter, em 29 de abril 2006)

Fico tão revoltada com isso que nem sei o que dizer, sinceramente. Mas acho que vale a pena esclarecer algumas coisas para quem não sabe como as coisas funcionam aqui:

“A pessoa responsável pelo caso da mulher nigeriana, que de fato havia pedido asilo aqui, respondeu candidamente ao email do marido e confirmou que a mulher se encontrava na Suécia” —> Primeiro erro: quem trabalha na Migrationsverket é obrigado a assinar um contrato de sigilo completo. As informações sobre as pessoas que querem asilo são estritamente confidenciais e não podem ser divulgadas de forma alguma. Pra vocês terem uma idéia, quando fiz meu trabalho de campo no terceiro semestre, minha professora tentou me conseguir um estágio na Migrationsverket. O único problema é que eles disseram que eu não poderia trabalhar lá já que na época ainda não era cidadã sueca. A explicação é que as informações que passam por lá são sensíveis demais para ser abertas a quem não é sueco.

“o pedido de asilo foi negado porque não se conseguiu saber com certeza sua identidade. A nigeriana não tem passaporte.” —> Uma das coisas mais comuns em se tratando de pessoas que pedem asilo na Suécia (e, acho, em outros países europeus) é que eles já chegam aqui sem passaporte. Muitos são os que queimam as pontas do dedos para evitar que sua identidade seja controlada aqui. Isso porque a lei de asilo prevê que a pessoa deve pedir asilo ao primeiro país da comunidade européia que consegue entrar. Se, por exemplo, uma pessoa advinda da Turquia passa pela Alemanha antes de chegar à Suécia, ela deve ser mandada de volta à Alemanha e não tem sequer direito a pedir asilo aqui. Não é incomum, no entanto, que as pessoas fujam com a roupa do corpo para evitar prisão, tortura ou morte. O passaporte é então deixado pra trás.

Aí é problema do órgão de imigração sueco tentar estabelecer a identidade da pessoa que pede asilo aqui. Esse processo é demoradíssimo, complicado e controverso. Isso porque, para conseguir informações sobre uma pessoa, a migrationsverket geralmente entra em contato com as autoridades do país de origem - as mesmas autoridades que, muitas vezes, estavam perseguindo a pessoa. Essas autoridades, claro, cooperam dando informações completas e dizendo que não há nenhum problema com a pessoa em questão. O pedido de asilo é então negado pela Suécia, que envia a pessoa para perseguição, tortura, pobreza absoluta e até morte. É um jogo de mentiras: os suecos pedem informações; as autoridades do outro país as fornecem; os suecos fingem acreditar que está tudo explicado; exigem do país de origem uma promessa de que a pessoa não será perseguida, torturada ou morta; recebem a promessa; fingem acreditar e pronto, mandam a pessoa de volta.

“O filho dos dois nasceu há 1 ano e meio em solo sueco.” —> Ter um filho em solo sueco não é garantia de visto quando os pais são refugiados. Muito pelo contrário. Foi apenas no ano passado que o parlamento sueco aprovou uma lei provisória que faz obrigatória a análise meticulosa do pedido de asilo de famílias com crianças. Nas razões para se dar asilo a uma criança estão entre outras, há quanto tempo a criança vive aqui, se ela tem muitos amigos aqui, se a família está bem envolvida com a comunidade etc. Nada sobre o nascimento em solo sueco, que é totalmente irrelevante.

Leia as outras Notícias do primeiro mundo que publiquei em:
21 de maio de 2004;
7 de maio de 2004;
10 de setembro de 2003;
5 de julho de 2003;
15 de junho de 2003.

Hoje o rei sueco Carlos XVI Gustavo completa 60 anos.

A palavra em sueco do dia é absurd, absurdo.

April 13, 2006

Pequeno F.A.Q.

Recebo mensalmente alguns emails de moças e rapazes que me perguntam sobre a Suécia, como é viver aqui etc. Os rapazes querem vir trabalhar, as moças pensam em morar mais perto de seus namorados nativos. Se pudesse, juro que responderia a todos pessoalmente, mas o tempo não dá. Então, me perdoem aqueles que me escreveram comentários tão atenciosos e elogiosos. A resposta que posso dar é bem geral, mas vai de coração. Se quiserem mais detalhes, é só deixar um comentário. Obrigada por compreender.

Então, para poder responder a vocês e aos outros curiosos que volta e meia vêm parar por essas praias, comecei a escrever uma página nova, com um F.A.Q. sobre coisas da Suécia, como é vir pra cá, as coisas ótimas, as boas, as ruins e aquelas que precisam ser sublimadas. Mas, quanto mais escrevia, mais infeliz ficava. O texto todo tinha um tom de aula, uma coisa absurda. Não me reconheci. O humor, que trabalhei tanto para descobrir nos meus textos, sumiu. Fiquei amarga e cínica. Levei um susto comigo mesma. Por isso, desisti da página, mas fiz um resumo do essencial.

Negócio é o seguinte: sua felicidade depende da sua consciência.

Tenha consciência do que está fazendo, do que está deixando pra trás.
Tenha consciência da necessidade de estar aberta(o) para experiências radicais e nem sempre agradáveis.
Tenha consciência da saudade estúpida que você poderá vir a sentir (não é certo que sentirá, as pessoas são diferentes).
Tenha consciência da importância do seu trabalho na sua vida (porque aqui é quase certo que você não poderá exercê-lo, pelo menos não imediatamente).
Tenha consciência de que as regras brasileiras de convivência, trabalho e barulho do not apply here.
Tenha consciência, enfim, do que te faz feliz.

E siga em frente. Tome a decisão e vá.

Ou fique.

A vida é difícil aqui ou em qualquer lugar do planeta. O sonho dourado do primeiro mundo é relativo e multifacetado. Lembre-se que terás de voltar a ser analfabeta(o), que dependerás do seu namorado(a), que terás pouquíssimo dinheiro. Tenha consciência de seus limites, de até onde você pode ir. Por outro lado, muitas vezes só descobrimos nossos limites (e nossa força de vontade) exatamente nessas situações extremas. Digo por experiência própria: demorou, mas está sendo uma de-lí-ci-a conquistar meu espaço novamente, fazer meus próprios amigos, batalhar minha vida, meus contatos.

Mas se você simplesmente quiser ignorar tudo isso aí de cima e cair de cabeça, tudo bem.

Foi isso o que eu fiz. :c)

No mais:
1) Suecos são, em geral, honestos, pontuais e bonitos.
2) São também incrivelmente provincianos.
3) Alguns são ignorantes, outros mesquinhos, poucos maus, como qualquer ser humano, aliás.
4) Mas a grande maioria é gente boa.
5) Brasileiros em geral são muito bem recebidos e tratados como algo exótico, divertido. Isso é bom, principalmente na época de Copa do Mundo.
6) Prepare-se no entanto para enfrentar certas dificuldades quando tentar dizer que o Brasil é bom em alguma outra área que não seja futebol e mulheres bonitas. Alguns nativos dizem em alto e bom som: “Mas aqui na Suécia, fazemos diferente”. Diferente, nesse contexto, quer dizer melhor.

Pra vocês que perguntam sempre: são poucos os dicionários sueco-português no mercado daqui. Eu tenho o dicionário “Svensk-portugisisk ordbok” de May Thunholm. A edição, de 1984, foi feita por Almqvist & Wiksell International Sverige, e tem o ISBN de número 9122007172. A única coisa é que esse dicionário funciona apenas se você já tem uma base mais ou menos sólida de sueco. Isso porque só existe a tradução de palavras em sueco para português, não o contrário. Você pode comprar esse dicionário na Bokus (site em sueco).

A palavra em sueco do dia é frågor, perguntas.

Filed under: Europa & Escandinávia,Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 10:21

February 18, 2006

Pérola

Tem gente que acha que eu critico muito, que sou amarga, mimada etc etc. Fico com pena porque essas pessoas não compreendem que o processo de imigração é diferente para cada pessoa. Uns tem mais facilidade, outros menos. Uns exigem menos de si mesmo, outros mais. Uns sentem mais saudade, outros menos. Uns tem um projeto simples de vida, outros precisam lidar com complicações variadas. O difícil é dizer pra essas pessoas que não vale a pena comparar, que cada um escolhe um caminho (emocional e físico) pra seguir.

O interessante é não criticar, mas observar a escolha de cada um com interesse e curiosidade. Mas o mais diferente de tudo é mesmo o modo como cada um reage às mudanças. O Montanha é uma amostra do meu processo de imigração, com altos e baixos, dias memoráveis e outros que é melhor esquecer. Mas gosto muito de achar pequenas pérolas do dia-a-dia aqui na Suécia, que me enchem de esperança e de confiança que, no final das contas, a escolha que fiz não foi tão absurda assim. O texto a seguir é um exemplo:

“Ur insändare i DN, 19 januari 2006:
När en bekant till mig sitter på ett fullsatt pendeltåg beordrar två unga rakade män en svarthårig medelålders man att ställa sig upp och lämna över sin sittplats åt dem, eftersom “svartskallar ska lyda.” När den svarthårige mannen vägrar höjer de två männen sina knytnävar. Då ställer sig en passagerare i vagnen upp. Sedan en till, och en till. Efter ett par sekunder står alla passagerare i vagnen upp. Utan att vara direkt inblandade i konflikten visar de övriga passagerarna på vilken sida de står. Dramat slutar med att de två männen generat skyndar sig av vid nästa station. Simon Hedlin Larsson.”

Minha versão: retirado da página de cartas do Dagens Nyheter (DN), 19 de janeiro 2006:
Um conhecido meu senta-se num bonde lotado. Dois rapazes com as cabeças raspadas mandam um homem de meia-idade e de cabelos escuros se levantar para dar o lugar a eles, porque “imigrantes devem obedecer”. Quando o homem de cabelos escuros se nega a sair do seu lugar, os dois rapazes ameaçam o homem e levantam seus punhos. Aí, um outro passageiro do trem se levanta. Seguido de mais um, e mais um. Depois de alguns segundos, todos os passageiros estão de pé. Sem estar diretamente envolvidos no conflito os demais passageiros mostram de que lado estão. O drama termina com os dois rapazes com as cabeças raspadas saindo rapidinho do trem na próxima estação.” Simon Hedlin Larsson.

A palavra em sueco do dia é pärla, pérola.

Filed under: Elucubrações,Europa & Escandinávia,Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 12:11

February 12, 2006

Perdendo o ônibus e enrolando a língua*

Outro dia estava almoçando com Elin, minha amiga da universidade. Ela me disse que tinha estudado espanhol no colégio e que tinha uma noção boa da língua, mas que a achava dificílima e trabalhosa para estudar. Eu disse que espanhol é difícil mesmo, mas tão difícil quanto sueco e suas maluquices gramaticais. Aí ela discordou e me deu um exemplo. “Em sueco”, disse-me ela, “você não precisa se importar com concordância. Aqui fala-se Han gick (Ele foi), De gick (Eles foi), Jag gick (Eu foi) etc. Em espanhol é uma loucura a quantidade de terminações de verbos, artigos, tudo mais.”

Por um momento achei que ela tinha razão. De fato, português, espanhol, francês e italiano são complicados, com seus verbos que mudam completamente de um tempo verbal pra outro (ainda estou tentando explicar pro meu urso que “é”, “ser”, “era” são manifestações do mesmo verbo). Mas depois me lembrei do sueco e de suas declinações infernais, das nove vogais, dos sons impossíveis para a minha maltratada linguinha, de palavras “en” e “ett”, da maluquice de negações ambulantes que mudam de lugar conforme a construção da frase, de preposições que são um mistério até para os nativos e de verbos diferentes para explicar a mesma coisa.

Exemplos:

Em sueco temos três verbos para o ato de perder. O verbo “att tappa” se destina à perda de peso, de uma caneta, de objetos em geral. Já o verbo “att mista” diz respeito é perda do ônibus, de uma palestra, de uma oportunidade. Mas se você perdeu um jogo, você deve usar o verbo “att förlora” senão ninguém te entende. Eu, que vivo perdendo o ônibus, digo sempre que eu “förlorade bussen” o que sempre provoca confusão mental nos nativos à minha volta. Quer ir a algum lugar? Então decida antes como você irá. Se for de carro, ônibus ou trem, use o verbo “att åka”; se for a pé, “att gå”; se for de avião a escolha deve ser “att flyga”. Fora isso, sueco tem nada mais nada menos do que quatro palavras para negação: ej, inte, icke e nej. Não me peçam pra explicar essa.

* Sou meio alérgica a gerúndios, mas não achei título melhor.

Ainda sobre o idioma sueco: Post �timo do marvellous Francis Strand, sobre os chamados “voiceless palatal-velar fricative”, “voiceless dorso-palatal velar fricative”, “voiceless postalveolar and velar fricative” e “voiceless coarticulated velar and palatoalveolar fricative”, sons encontrados apenas na língua sueca.

A palavra em sueco do dia é ordbok, dicionário.

Filed under: De bem com a vida,Europa & Escandinávia,Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 13:04

December 1, 2005

A neve luminosa

Foto de Tom Rune

ão conte pra ninguém: quando a neve cai, a escuridão dessa época do ano melhora muito. O céu das noites fica cinza claro, as luzes refletem no solo coberto de branco. Tudo fica muito mais bonito e silencioso. Mas quando os nativos me perguntam se noto a diferença da escuridão do outono para a “claridade” do inverno com neve, digo que não. Não vejo diferença nenhuma. É breu da mesma forma.

Ficam todos sem entender, fazem cara de estranheza e se calam (alguns com seu orgulho ferido). Faço isso não (apenas) por sacanagem, mas porque gosto de ver a cara de surpresa deles. “Como ela não vê algo tão evidente?”, se perguntam, em silêncio. Mas a razão principal é porque às vezes sinto necessidade de me mostrar fundamentalmente diferente. Talvez porque já pense e aja muito igual a eles.

E novembro a-ca-bou!

A palavra em sueco do dia é snö, neve.

Filed under: Elucubrações,Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 10:33

November 17, 2005

Entre dois mundos

cubo.jpgUma das coisas mais chatas de se mudar de país - principalmente sair de um país de terceiro mundo para um de primeiro com mania de se achar a consciência da humanidade - é que volta e meia você é vista uma representante ambulante do seu país de origem, pro bem ou pro mal.

Explico: em ano de copa do mundo, pessoas que pouco conheço vem falar comigo em tom simpático, comentam os jogos (ou as vitórias) do Brasil e acham que tudo é uma maravilha. No resto do tempo, volta e meia sou interpelada por pessoas que tenho pouquíssimo contato e que me indagam em tom reprovador sobre as mazelas sociais brasileiras, como seu eu pudesse explicá-las.

A última foi uma colega de turma na universidade. Estávamos conversando antes de uma aula. Ela, mãe de cinco filhos, me disse que nunca havia saído da Suécia. Me disse ainda que eu falava bem o sueco e me perguntou como eu fazia, já que volta e meia usava palavras que ela considerava “difíceis”, como koncept, kontext, diskurs etc.

Expliquei então que falava assim por dois motivos: o primeiro é porque meu vocabulário no Brasil era muito diversificado, e ter um vocabulário pobre em sueco não era uma opção. Tenho necessidade de me expressar no mesmo nível, seja em sueco ou em português. O segundo motivo, claro, é que em português, as palavras conceito, contexto e discurso não chegam a ser difícieis, até por serem de origem greco-latina e fazerem parte da estrutura do português.

Aí, no final da conversa, tirado do nada, ela me mandou essa: “Maria, é verdade que no Brasil existem meninos de rua?” Fiquei meio sem saber o que responder. “Sim”, disse-lhe, “é verdade”. Toda a primeira parte de nossa conversa me pareceu um preâmbulo para a verdadeira pergunta que ela já queria me fazer há tempos (depois ela me disse isso).

A coisa de ser representante de seu país sem ter pedido pelo título é uma faca de dois gumes. É claro que gosto de ficar orgulhosa das vitórias no futebol brasileiro, e é óbvio que fico muito triste cada vez que sou lembrada das faltas gravíssimas do meu país para quem vive na miséria e nunca teve oportunidade na vida.

Acho que meu desconforto nasce também da minha própria confusão do que diz respeito aos mundos em que vivo. O terceiro, com todas as suas faltas e, ao mesmo tempo, uma vivacidade que deixa os europeus ma-lu-cos, e o primeiro, correto e justo (até certo ponto), porém chato e previsível.

Tenho certeza de que a colega não quis me humilhar. A impressão que tive é que ela estava realmente curiosa sobre como crianças poderiam ser deixadas sozinhas no meio de cidades grandes - o que para qualquer sueco é uma incógnita absurda, levando em consideração todo o cuidado que eles têm com suas crianças. (O estranho aqui, aliás, é nós, brasileiros não acharmos o fato de existirem crianças de rua uma coisa totalmente absurda. Mas isso é uma outra discussão.)

Não parti pro ataque perguntando à colega sobre os pecadillos suecos porque não quero defender quem explora por exemplo mão-de-obra infantil nos cafezais de Minas Gerais, nem os responsáveis pela existência de crianças que preferem as ruas das grandes cidades brasileiras às escolas.

Mas um diabinho pousado aqui no meu ombro esquerdo, sussurou no meu ouvido: pergunta a ela o por quê da Suécia ter fechado as fronteiras para judeus europeus durante a Segunda Guerra Mundial! Pergunta o por quê da Suécia ter esterelizado centenas de mulheres deficientes mentais tendo como desculpa a eugenia da raça! Pergunta como milhares de imigrantes não conseguem viver de forma equivalente ao sueco médio simplesmente porque não são aceitos no mercado de trabalho!

Consegui ignorar o diabinho.

A palavra em sueco de hoje é kluven, dividido.

Filed under: Elucubrações,Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 09:20

November 7, 2005

A Europa da exclusão

A TV sueca não cansa de mostrar as cenas de guerra urbana que se espalham pelo território francês há mais de uma semana. Mostram carros queimados, pessoas desesperadas, políticos sérios mandando a polícia baixar o pau e assistentes sociais dizendo o que os revoltosos realmente querem: trabalho, respeito, aceitação, integração, cidadania.

Enquanto isso, sento e espero que a mídia sueca some dois mais dois e chegue à conclusão de que esse espetáculo de violência urbana motivada por preconceito pode acontecer aqui também. Os ingredientes são os mesmos, discriminação e a desesperança de quem mora nos subúrbios das grandes cidades daqui (Estocolmo, Malmö e Gotemburgo). Na última sexta-feira, finalmente, meu jornal escreveu em seu editorial:

“Quando as economias européias ficam pra trás, o desemprego cresce e o consumo diminui, os que estão na base da hierarquia social sofrem mais. As crianças e jovens que vêem seus pais de fora do mercado de trabalho não acreditam que eles próprios terão destino diferente ou que jamais deixarão esses mal-falados subúrbios. Para eles existe apenas as ruas, as gangues, o crime e o vício.

Para alguns deles, no entanto, abre-se uma outra saída: a crença e dedicação por uma Causa. É nesse meio que jovens são recrutados para pegar um ônibus ou um trem de metrô com uma mochila cheia de explosivos. O desespero das pessoas que moram na Europa sem se sentir parte dela ajuda a proliferar o islamismo radical.

Dessa forma unem-se subúrbios franceses, mesquitas inglesas, assassinos holandeses e estudantes de vôo sauditas com ódio dos EUA. Até as áreas habitadas por imigrantes na Suécia têm problemas semelhantes, lá também existe uma desesperança para com a sociedade. Em setembro último o prédio da polícia no bairro de Ronna, em Södertälje (região cheíssima de imigrantes ao sul de Estocolmo) foi alvo de tiros. (Já escrevi sobre isso aqui)

Na Suécia, no entanto, não se vê a miséria absurda que os imigrantes franceses vivem. Os estrangeiros/novos suecos vivem em prédios enormes, as áreas onde moram não chegam nem perto do idílio típico nativo, a criminalidade é grande, a polícia já chega baixando o cacete, mas, ainda assim, o clima aqui é diferente. Talvez porque o sistema social salve da sargeta quem não tem nada.

Mas isso não basta. Dinheiro é ótimo, mas esperança em uma vida interessante e decente é ainda melhor. Na minha opinião, o grande problema é que a Suécia ainda não acordou pros pequenos detalhes. O fato de gente com nome estrangeiro (leia-se árabe) ou pele escura não conseguir viver da mesma forma que qualquer outra pessoa nascida e criada aqui, por exemplo. É árabe ou africano, estudou aqui e quer trabalho? Muda de nome porque com nome árabe, você não chega nem à entrevista preliminar.

Se chama Mohammed e quer alugar um apartamento? Boa sorte no mercado negro, meu chapa. No mercado aberto, regulado por empresas públicas locais ou escritórios particulares, você só consegue um lugar em listas de espera que podem demorar anoooos, ou simplesmente não consegue sequer deixar seu nome. O cara da imobiliária diz logo que não há apartamentos pra alugar na área nobre da cidade. (Quando, 15 minutos depois, um sueco com nome comum liga, recebe três ou quatro opções de apartamentos na mesma área).

A matéria está aqui (apenas em sueco).

Aí vocês dizem: “Ihhh, lá vem a Maria com essa chatice de preconceito novamente”. É, pois é. É chato mesmo. Aliás, chato foi para o embaixador do Peru (esse aí da foto acima), que foi barrado num restaurante chique de Estocolmo quando tentava tomar um drinque com colegas de trabalho. Os guardinhas disseram que o local estava cheio, quando os peruanos podiam ver pelas enormes janelas frontais que isso não era verdade. Enquanto discutiam, cerca de dez pessoas passaram por eles, todos de aparência escandinava, e foram curtir seu fim de noite. O embaixador disse que vai se queixar ao departamento de relações exteriores sueco.

A palavra em sueco do dia é förbannad, danada, furiosa.

Filed under: Europa & Escandinávia,Jornal,Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 16:15
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