April 23, 2013

Ainda vivos

Três refugiados afegãos em greve de fome tiveram um colapso ontem à tarde/noite e foram levados para o hospital. Três já foram liberados, mas um homem de 60 anos ainda está no hospital. Os refugiados precisaram de ajuda médica por conta de desidratação. Não sei se os três liberados voltaram para a rua ou se resolveram interromper a greve de fome. (Norrbottens Kuriren)

Essa não é a primeira greve de fome iniciada em abril. Refugiados na cidade de Holmsund (perto de Umeå) também entraram em greve de fome no dia 15 de abril. A notícia do jornal local tem seis linhas — o que quer dizer que o repórter escreveu talvez três linhas no computador. O conteúdo é esse: “Greve de fome em Holmsund, publicado em 16 de abril 2013 às 15.30. — Seis pessoas na casa de refugiados Mäster Erik em Holmsund iniciaram ontem uma greve de fome. O motivo é sua insatisfação com a decisão da Migrationsverket (órgão de imigração sueco) de que serão extraditados para seus países de origem. Cinco das pessoas em greve de fome vêm do Afeganistão e o sexto vem do Irã. — Eles não nos escutam, diz Reza Rahim ao jornal VK.”

O pior não é a notícia curta, sem desenvolvimento. O pior não é o fato do repórter não ter perguntado a Reza Rahim o porquê dele achar que o órgão de imigração sueco não presta atenção ao que eles dizem. O pior não são os comentários ao artigo, um deles, de uma pessoa anônima (lógico), que quer que a comida que os refugiados se negam a comer seja doada para não estragar. O pior mesmo é a falta de interesse geral nesse tipo de acontecimento. O pior é que quase ninguém presta atenção se um refugiado morre aqui ou ali.

A palavra em sueco do dia é besvikelse, desapontamento.

April 22, 2013

Greve de fome


Foto Håkan Zerpe, Norrbottens Kuriren.

Há quatro dias refugiados do Afeganistão fazem greve de fome na frente do órgão de imigração sueco, Migrationsverket, aqui na minha cidade. Eles estão na Suécia há cerca de dois anos, alguns mais do que isso, e não querem voltar ao Afeganistão. Eles dizem que a situação em seu país de origem é violenta, que muitos civis morrem por conta de bombas detonadas pelos talibãs. Greve de fome. Ontem os refugiados começaram a passar mal. Uma ambulância veio e quis levar um deles pro hospital. Ele não foi. Os refugiados dormem na rua, ao léu, debaixo de cobertores. A temperatura na primavera do norte sueco pode chegar aos dez graus abaixo de zero no meio da noite. Greve de fome. Ninguém quer voltar pro seu país de origem, onde cresceram, onde têm familiares e amigos, onde conhecem a língua, os costumes. Onde podem ler com facilidade os códigos sociais, onde é mais fácil de ser feliz. Não querem voltar. Não querem voltar porque não querem ser mortos por uma bomba talibã. Preferem morrer aqui, de fome.

A palavra em sueco do dia é hungerstrejk, greve de fome.

October 12, 2011

Já?

O ar está frio, o vento mais cortante do que o normal. Parece que daqui a pouco teremos neve.

Filed under: Europa & Escandinávia,Variedades,Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 20:02

May 9, 2011

10 anos

Acredite se quiser, mas moro na Suécia há 10 anos. Hoje faz dez anos que subi naquele avião da Lufthansa e me mandei pro desconhecido. Nem sei o que dizer, escrever. Foi, ainda é e sempre será uma viagem. Cabe a mim aproveitar ao máximo.

October 4, 2007

Dois lados da moeda

A Suécia, se é que você ainda não sabe, não é um país perfeito. Está perto, mas não é perfeito. Senão, vejamos:

Cara: Paguei pelo meu parto, uma cesariana, 240 coroas suecas, o equivalente a 63 reais. Por essa quantia, paguei a preparação da cirurgia, o chamado pré-operatório, a anestesia, a sala de operação, todo o tipo de material necessário, as horas de trabalho dos três médicos e da parteira que me acompanharam e ainda as três noites e quatro dias da suíte em que ficamos hospedados, com atendimento medicinal 24 horas por dia, incluindo café-da-manhã, almoço e jantar (pra mim; meu urso teve direito apenas a café-da-manhã). Meu urso pagou 450 coroas (118 reais) por ter dormido na cama extra no meu quarto. Durante esse tempo, Max foi examinado por dois médicos, como é rotina com os recém-nascidos, e mandado pra casa saudável. Além disso, todo o pré-natal é gratuito, assim como o controle do desenvolvimento do meu filho, feito quase que semanalmente.

Coroa: Se lembram daquele trabalho de verão que tentei conseguir, o que precisava de gente para atender telefone num centro empresarial local? Pois é. Eu não consegui. E, dia desses, fiquei sabendo o por quê. Encontrei com a agente de empregos que me ajuda aqui e ela me disse que havia entrado em contato com a tal da mulher com quem falei no telefone. A agente perguntou a razão de eu não ter conseguido o trabalho e a mulher disse, candidamente: “Ah, porque ela fala com sotaque. Tenho muitos clientes de Malmö (sul da Suécia, onde se fala um sueco complicado, chamado skånska [skônska]) e tive receio de ela não entender o que eles dizem.” Primeiro: não tenho cinco anos de idade. Se não entendo, pergunto e peço pra repetir. Segundo: a maioria dos suecos aqui do norte tem dificuldades de entender skånska. Terceiro: essa sirigaita só não ganhou uma ação na justiça por discriminação no meio das fuças porque eu simplesmente não tenho energia pra isso nesse momento.

E mais: descobrimos hoje de manhã que deu ladrão no nosso carro. Os imbecis quebraram a janela traseira lateral direita, tentaram tirar o rádio (não conseguiram), levaram algumas cópias de CDs que tinhamos lá (deixaram, no entanto, os CDs de Max, com cantigas de ninar brasileiras), roubaram algumas moedas e uma lanterna do porta-luvas.

A palavra em sueco do dia é nyans, nuance.

April 27, 2007

A metamorfose da língua

Tem dias que leio um treco que me inspira muito e que me dá gana de comentar, apreciar, desenvolver em texto. Ontem foi um desses dias. Estava esticadona, lendo meu jornal (já contei que fico deprê quando o jornal não vem? Pois é) quando me deparei com uma pequena matéria escrita por Gabriella Håkansson, jornalista e escritora, no caderno de cultura do DN.

O problema é que às vezes esses assuntos pelos quais me interesso são difíceis de se traduzir pro português. E não estou falando apenas da dificuldade de encontrar as palavras certas. A coisa é que alguns textos, na verdade, fazem parte de um contexto cultural, o que é complicado e trabalhoso de se explicar. Mas como hoje estou de bom humor, resolvi tentar.

Håkansson escreveu sobre uma campanha publicitária da chamada Folkuniversitet, literalmente “A universidade do povo”, uma espécie de entidade de ensino superior, ligada às maiores universidades da Suécia (Estocolmo, Gotemburgo, Lund e Umeå). A única diferença entre as Folkuniversitet e as universidades comuns é que pra estudar nas Folkuniversitet você não precisa de notas formais em matérias como sueco ou matemática. É nas Folkuniversitet, por exemplo, que muitos imigrantes aprendem sueco, assim como nativos se dedicam a artesanato ou balé.

A campanha mostrava a foto de um típico sueco-filho-de-imigrantes, em gíria local um “blatte”, traços de origem árabe, vestido como um gangsta rap e com um boné meio de lado, onde se podia ler “Kafka”. Infelizmente não consegui pescar a imagem em lugar algum. O texto do anúncio era: “Har du också en dold talang?”, mais ou menos “Você tem um talento escondido?” A jornalista escreveu, então, sobre Franz Kafka, que também era um outsider, filho de imigrantes em Praga.

Kafka, que Håkansson também chama de “blatte”, pertencia à terceira geração de imigrantes judeus de Praga, no então império Austro-húngaro. Seus pais conseguiram fazer a difícil viagem social de imigrantes pobres a classe média. Kafka pertencia à primeira geração de descendentes de imigrantes judeus a chegar à universidade, onde aprendeu grego, latim, todos os tipos de matérias filosóficas, se formou como advogado e se aprofundou no estudo do judaismo — para destacar ainda mais seu perfil de outsider.

Mas o mais interessante foi o penúltimo parágrafo da pequena matéria, em que Håkansson escreveu que Kafka escrevia no que ela chama de “Rinkebytyska”. Eu sei, essa palavra, que na verdade são duas, parece um código inquebrantável, uma verdadeira montanha-russa pras bocas não acostumadas a malabarismos idiomáticos. Mas não é não. O que acontece é que pra entender a palavra, vou ter que dar um pouco de background information.

Rinkeby é um subúrbio de Estocolmo onde a maioria dos imigrantes mora. Eu nunca fui lá, mas os jornais sempre retratam o local como um antro de violência e decadência social (eu duvido, acho preconceituoso, mas como não posso refutar, me calo. Veja, ao lado, a imagem da “decadência”, Swedish version). A discussão sobre a integração dos imigrantes à sociedade sueca sempre contou com uma polêmica especial: as gerações de crianças, nascidas e criadas em Estocolmo de pais estrangeiros, mas que ainda assim não falam sueco fluentemente ou falam com sotaque.

É esse o sueco que a imprensa chama de “Rinkebysvenska”, ou seja sueco de Rinkeby. Trata-se, pra quem ainda não pescou, de uma visão depreciativa da cultura jovem desses locais. O sueco de Rinkeby é, muitas vezes, uma escolha, uma marcação por parte dos jovens, cujos pais não conseguem empregos e [sobre]vivem frustração atrás de frustração. os jovens parecem dizer à sociedade: “Ok, vocês não me querem? Então eu também não quero vocês.” É um dialeto cheio de gírias árabes, turcas e africanas (principalmente da Somália).

Voltando, então, à matéria de Gabriella Håkansson. Ela escreve nesse penúltimo parágrafo que Kafka também escrevia numa linguagem controversa, que ela chama de “Rinkebytyska” (alemão de Rinkeby), ou um dialeto do alemão que apenas era falado pelos judeus de Praga. Ela diz que os pesquisadores ainda não chegaram a uma conclusão se a linguagem de Kafka enriqueceu ou empobreceu a língua (ha!). Mas o melhor: “talvez tenha sido a situação de ser um imigrante judeu de terceira geração em Praga que obrigou Kafka a agir na vanguarda, a criar simplesmente um novo tipo de literatura.”

Já pensou, que barato? Pena que não leio uma palavra em alemão.

A palavra em sueco do dia é skrivsugen, estar com vontade de escrever.

Filed under: Europa & Escandinávia,Jornal,Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 09:27

March 28, 2007

Novos tempos

O novo horário de verão começou na noite de sábado pra domingo. Agora estou cinco horas à frente do Rio. Não tenho problemas em mudar de horário, apesar de ter dormido mal na noite de domingo pra segunda (mas também tinha outra explicação, que descobri mais tarde). Aí, pensando no novo horário, em que ganhamos mais uma hora de luz dentro da noite escandinava, cada vez mais clara, vi que não fico mais comparando o horário fictício com o oficial. Isto é, quando acordo às oito da manhã, não penso que “na verdade” são sete horas.

Acho que aceitar o horário de verão é como emigrar de forma bem-sucedida. Tudo o que era antes é parte de você; seu corpo inteiro reclama da mudança no início, quer voltar atrás, sente saudades do tempo passado, compara tudo e vive meio que num limbo entre o que era e o que é. Você acha que nunca vai se acostumar de verdade. Que tudo é confuso, mistura de curiosidade e saudade. Mas aí, depois de um tempo (anos), você esquece o horário antigo, e passa a viver no novo. A harmonia chega de repente. E é, aliás, muitíssimo bem-vinda.

Traquinagens domésticas. Botei na máquina de lavar uma pequeníssima quantidade de roupa: quatro fronhas, duas peças de roupa íntima e um par de meias. Acabei de pendurar tudo e qual não foi a minha surpresa quando descobri que um pé de meia está faltando. Esse é um mistério que sempre me deixa injuriada. Como é que são sempre as minhas meias lindas e cor-de-rosa que desaparecem? E hoje meu urso nem está aqui pra levar a culpa (ele já perdeu um par e tingiu um outro de azul). A máquina engoliu o diabo da meia, porque não a encontro de jeito nenhum.

A palavra em sueco do dia é sommartid, horário de verão.

March 22, 2007

Sorvete é coisa séria (ou a hipocrisia de uma nação)

GB Glace “Girlie” Ahhh, Suécia, Suécia. Esse paisinho tão especial e, por vezes, meio caricato e provinciano, a ponto de ser quase absurdo. O verão está chegando, e com ele, os novos lançamentos de sorvetes — uma mania nacional. Só que o que seria dos nativos sem uma polêmica? A GB Glass, que corresponde à nossa Kibon, acabou de lançar seu novo sorvete, Girlie (foto), uma estrela cor-de-rosa com gosto de hallon (frutinha vermelhinha, prima distante do morango).

Você acha isso controverso? Pois é, eu também não. Mas os suecos acham. Dezenas de blogs e jornalistas mainstream criticam o sorvete, por discriminar os meninos. Hã? Cuma? Pois é, eu também não tinha entendido nada. Aí li hoje o comentário de uma jornalista do meu jornal, Karin Rebas, que disse achar “uma pena que os meninos não sejam também alvo de criações engraçadas, coloridas e cheias de gliter — seja no que diz respeito a roupas, brinquedos ou sorvete.”

E o pior é que essa polêmica glacial não é a primeira. Na primavera-verão de 2005 foi a vez de uma criação da mesma GB Glass causar mal-estar em muitas pessoas. Tratava-se de um sorvete negro, chamado Nogger Black. Os suecos politicamente corretos pularam na cadeira e se enfureceram. Uma empresa multinacional não podia batizar um sorvete negro com um nome tão ligado à discriminação racial! Foi uma polêmica danada. E o sorvete, pasme, sumiu de circulação.

Enquanto os nativos se enfurecem por causa de um sorvete cor-de-rosa, milhares de pessoas morrem no Sudão, no Iraque e na Palestina. Enquanto os nativos se enfurecem por causa de um sorvete negro, imigrantes têm dificuldade em conseguir um emprego ou alugar um apartamento na Suécia por conta de seus sotaques e de seus nomes. Enquanto tudo isso acontece, homossexuais nativos não podem doar sangue, que não é aceito pelas autoridades de saúde daqui (alô alô seu síndico! a noção de “grupos de risco” acabou há 20 anos!)

A palavra em sueco do dia é glass, sorvete.

Filed under: Europa & Escandinávia,Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 09:38

November 21, 2006

Suécia, provinciana e (quase) justa

O Marcus comentou no post abaixo que a Suécia não parece ser muito cosmopolita como Iguaterra e EUA e pergunta se a impressão é correta. A resposta simplificada e generalizada é: não, a Suécia não é cosmopolita como Londres e Nova York. Porém, o assunto é tão interessante, que merece um post. Isso porque quando se fala sobre a Suécia no Brasil — assim como em muitos outros lugares do mundo — há sempre uma aura de sofisticação, uma camada de elegante frescor e modernidade. Gente loira e bonita, inteligentes, civilizados, educados. E, de forma geral, essa é uma imagem acurada.

Por outro lado, é aquela coisa: bem de perto, ninguém é perfeito. Até porque somos todos humanos. Os mesmos nativos que são loiros e bonitos (na sua marioria) podem ser extremamente provincianos e preconceituosos. Por mais que não sejam tão alienados como outros povos do planeta, como alguns americanos ou a classe alta brasileira, sua visão de mundo se reduz ao que conhecem e às suas tradições. Já o que desconhecem lhes dê medo, não curiosidade.

É claro, isso é uma generalização. Há muita gente boa e aberta aqui, obviamente. Até porque se o cenário fosse tão impossivelmente negativo assim eu não agüentaria morar aqui por tanto tempo. Escrevo essa ressalva porque não quero receber emails/comentários furiosos de gente que ficou chateada porque critiquei o país onde mora ou a nacionalidade do marido.

Bem, de volta à vaca fria. Podemos nos perguntar como é que essas duas imagens do povo sueco coexistem. Primeiro: há uma diferença enorme entre as grandes cidades e as pequenas cidades do interior. Ao mesmo tempo, não se deve idealizar as cidades maiores como Estocolmo e Gotemburgo. Afinal, é lá que a maioria dos imigrantes mora e onde parte deles é alvo de discriminação.

Segundo: uma outra explicação para o provincialismo sueco é que o país até bem pouco tempo atrás era uma sociedade rural, pobre e pouco desenvolvida. Não é a toa que milhões de suecos emigraram para os EUA desde o final do século XIX e início do século XX. Os emigrantes queriam ganhar dinheiro, mandar dinheiro pra casa, enfim, o sonho médio de quem busca uma vida melhor.

Depois da Segunda Guerra Mundial, lá pro final da década de 40, a Suécia, preservada pela sua “neutralidade”, começou a dar passos larguíssimos em direção ao desenvolvimento pleno, à nação de primeiríssimo mundo que é. Até aí, as condições de moradia nas grandes cidades, por exemplo, eram muito precárias. Sem muita base histórica, imagino a Estocolmo de então como uma versão nórdica dos cortiços de Aluízio Azevedo.

Nessa época é que uma série de políticos importantes — todos eles vindos de ideais social-democratas — dominaram o poder e colocaram a Suécia nos trilhos do desenvolvimento. Um dos mais importantes foi Per-Albin Hansson, que abriu caminho nas décadas de 30 e 40 para o moderno welfare state sueco e reforçou a idéia da folkhemmet, ou a “casa do povo”. Suas idéias foram levadas adiante por outros primeiro-ministros social-democratas, como Tage Erlander (década de 50-60) e Olof Palme (década de 60-70).

Foi nesse momento histórico, nessa janela que vai dos anos pós-guerra até a década de 70, que a Suécia se tranformou numa nação exemplar. Isso aconteceu, notem bem, em pouco mais de duas gerações. A cabeça de alguns dos nativos simplesmente não acompanhou o ritmo da sofisticação do estado. O boom sueco foi tamanho que muitos imigrantes, principalmente finlandeses, gregos e italianos, vieram pra cá na década de 60 para trabalhar. O mercado de trabalho os absorveu prontamente e sem qualquer trauma.

Isso não aconteceria caso esses imigrantes tivessem vindo pra cá na última década. Sou uma social-democrata, agora até mesmo de carteirinha. Mas devo dizer que a política de emprego criada pelos socialistas lá nas décadas de 40, 50 e 60, que garante a segurança do trabalhador a qualquer custo, precisa ser revista. Não sou daquelas liberais disfarçadas que defendem uma centralização do socialismo. O que eu acho é que o modelo sueco está ultrapassado — o que é uma pena — mas é a pura e dura realidade.

O clima no mercado de trabalho daqui é duríssimo e muito diferente dos vizinhos dinamarqueses, por exemplo, cujo modelo, batizado de Flexicurity, em linhas gerais facilita tanto a contratação quanto a demissão. Hoje grande parte dos jovens suecos não tem emprego fixo. Eles se sustentam com a ajuda dos pais, com dinheiro do social e com trabalhos temporários. A mesma coisa acontece com parte dos imigrantes de primeira e segunda gerações.

Converso com nativos que conheço, algumas amigas da faculdade, e a imagem que tenho é homogênea: conseguir um trabalho fixo, até mesmo para os suecos, é dificílimo, uma verdadeira façanha. A idade média de quem consegue seu primeiro emprego fixo, com direito a férias e todas as seguranças, é 30 anos. No final das contas, a segurança total criada nas décadas passadas acaba prejudicando a entrada de jovens e de alguns imigrantes no mercado de trabalho.

As empresas daqui são obrigadas a pagar salários decentes aos trabalhadores, quase todos organizados em sindicatos cuja linha de trabalho é baseada no chamado kollektivavtal, ou “acordo coletivo”, que garante o mínimo de segurança aos trabalhadores. Isso é fantástico. O problema é que esses salários altos são acompanhados por impostos igualmente altos, os quais financiam o tal do welfare state. A outra face da moeda desse círculo virtuoso de segurança que tanto causa inveja aos brasileiros em geral é que as regras do jogo dificultam muito a contratação de gente nova, seja ele/ela sueco étnico ou imigrante.

Exemplo: segundo dados do Statistiska centralbyrån, o salário de um trabalhador do setor privado, cujo status é equivalente mais ou menos a um servidor público brasileiro, é de 43.360 coroas (cerca de US$ 6.200 ou R$ 12.400), sendo que desse montante, 29.028 coroas (US$ 4.200 ou R$ 8.400) correspondem ao salário bruto, antes dos impostos de pessoa física (30%, 50% ou mais, dependendo da sua renda). O resto, 14.332 coroas (US$ 2.000 ou R$ 4.000), correspondem a impostos sindicais, seguros e taxas variadas pagas pelos empregadores.

Isto é, quando se contrata alguém deve-se estar preparado para pagar dois salários: um para o empregado e outro para o governo na forma de impostos. Junte-se a isso a dificuldade que os empregadores têm em demitir trabalhadores, e a fórmula para o desemprego está criada. É aí que o provincialismo ataca com mais forças: só se emprega quem já tem experiência e/ou contatos. Por isso, milhares de jovens sem experiência de trabalho e imigrantes sem contatos na sociedade sueca ficam às margens do mercado de trabalho e não vêm uma luz no fim do túnel (yours truly included).

A segurança no mercado de trabalho existe e é possível. Só resta saber se ela pode ser extendida a todos os cidadãos ou a apenas um happy few.

A palavra em sueco do dia é perspektiv, perspectiva.

Filed under: Europa & Escandinávia,Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 13:45

November 20, 2006

Democracia racial? Fala sério.

Post importantíssimo. Eu leio e releio, para aprender e colocar as coisas em perspectiva. O autor é o Marcus Pessoa, dono do ótimo blog Velho do Farol.

A Pesquisa Mensal de Emprego sobre Cor ou Raça, divulgada hoje pelo IBGE, é um tapa na cara dos néscios que insistem em dizer que no Brasil não existe preconceito de cor.

O discurso é bem conhecido: “o problema dos negros é que são pobres e têm pouca escolaridade, e não o preconceito”. O diretor de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, afirma peremptoriamente, no título de seu livro, que não somos racistas.

Matéria sobre o assunto levada ao ar hoje pelo Jornal Nacional (que é editado por um subordinado de Kamel, William Bonner) reverberou o discurso, dizendo que o problema dos negros é a falta de escolaridade e/ou qualificação. Um rapaz negro aparece na fila do sistema de empregos, lamentando-se de que tenta um emprego de serralheiro, mas não consegue porque não é qualificado. Em seguida, uma moça negra com nível superior é mostrada dirigindo equipes numa empresa privada, dizendo que nunca sofreu preconceito.

O problema é que isso é exatamente o contrário do que a pesquisa do IBGE mostra.

É verdade que os negros e pardos têm uma escolaridade mais baixa que os brancos. Estes têm em média 8,7 anos de estudos, enquanto entre negros e pardos a média é de 7,1 anos. A questão parece simples: aumente-se a escolaridade dos negros e resolveremos a problema, certo?

Errado. É claro que negros e pardos com escolaridade maior têm melhor renda que aqueles com poucos anos de estudo. Mas, em relação aos brancos, a diferença salarial aumenta à medida em que sobe o nível de escolaridade.

Os brancos ganham melhor que os negros em todas as faixas, mas entre os trabalhadores menos qualificados (menos de um ano de estudo) a diferença é relativamente pequena: brancos recebem em média 469 reais, negros e pardos 409 — apenas 12,7% a menos.

Já na faixa mais alta (11 anos ou mais de estudos), a média salarial dos negros é de 899 reais, e a dos brancos de 1.728 — diferença de assombrosos 47,94%.

Um negro que tenha uma escolaridade média (8 a 10 anos) ganha em torno de 556 reais, e se resolve fazer um curso superior, recebe um acréscimo de apenas 61% em sua renda. Um branco na mesma situação, partindo de um salário de 691 reais, tem um ganho de 149%.

Ou seja, os negros e pardos que chegam ao nível mais alto de qualificação têm ainda mais dificuldade de se afirmarem profissionalmente perante os brancos.

O IBGE declara que não tem como afirmar que essa diferença se deva ao racismo, mas dá pra fazer o tico e o teco conversarem e chegar a uma conclusão, não?

Lembro de ter lido há cerca de dois anos uma carta numa seção da revista Você S/A, voltada para executivos e aspirantes às carreiras corporativas, onde um empregado negro se queixava de que era muito difícil conseguir promoções e benefícios, mesmo quando demonstrava mais competência que seus colegas. O colunista, que com certeza conhece a fundo o mercado, não só não duvidou nadinha da história como disse que o racismo no mundo profissional é um problema de difícil solução. A Você S/A não passa nem perto de ser esquerdista ou coisa que o valha.

O que eu me pergunto é: até quando vamos cultivar essas histórias da carochinha, de que o problema dos negros é apenas serem pobres ou ignorantes? Até quando vamos alimentar esse mito da democracia racial?

A partir da perspectiva brasileira e com o auxílio de minha experiência européia, ouso dizer que esse é um problema mundial. Aqui na Suécia a discriminação com base na raça se transforma num problema mais amplo, numa discriminação generalizada contra os imigrantes. Segundo o Statistiska centrabyrån, o IBGE sueco, os imigrantes têm em média uma renda que é 20% inferior à uma pessoa nascida aqui de pais suecos, o chamado “sueco étnico”.

Para analisar o sucesso — ou a falta de — da integração daqui, no entanto, precisa-se olhar para duas variáveis além da cor da pele: de onde o imigrante vem e há quanto tempo ele mora na Suécia. Imigrantes advindos dos outros países nórdicos (noruegueses, dinamarqueses e finlandeses), além de outros países europeus, apresentam geralmente um nível de renda bem próximo, ainda que um pouco inferior, ao nível de renda do sueco étnico.

Já os imigrantes de países como as repúblicas da antiga-Iugoslávia, Irã, Iraque e Turquia detêm apenas 75% da renda relativa a um sueco étnico. Além disso, imigrantes que moravam na Suécia por pouco tempo durante os anos de 1996-2000 recebiam apenas o equivalente a 65% do salário do sueco étnico. Por outro lado, uma família de imigrantes que more na Suécia há mais de 20 anos apresenta renda semelhante, ainda que menor, à do sueco étnico. (Fonte: SCB, texto em sueco.)

Leia mais sobre esse assunto nos meus posts antigos: A Europa da exclusão, Que coragem!, Sem drama, Mais 20 anos pela frente, Você não é bem-vindo, Notícias do Primeiro Mundo V e finalmente Racismo na Escandinávia.

Leia a matéria da Carta Capital sobre o assunto (Obrigada, Marcus Gusmão!)

A palavra em sueco do dia é orättvisa, injustiça.

Next Page »
 

Bad Behavior has blocked 545 access attempts in the last 7 days.